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7 de novembro de 2016

Democracia: com asas, mas cega

A cidade de Olympia fica no litoral de um país dos trópicos. Parte dela beira uma grande baía e sua orla recortada, pontilhada de morros, a tornam tão maravilhosa que atrai gente do mundo todo.

Tão famosa como a cidade é a estátua que a simboliza. Do alto de sua montanha mais alta, ela pode ser vista por muitos de seus moradores e visitantes.

A cidade foi sede dos mais recentes jogos olímpicos. E as negociatas que cercaram a realização do evento formam a trama de “Olympia 2016”, uma mistura de documentário e ficção dirigida por Rodrigo Mac Niven.

O roteiro concentra-se na construção de um campo de golfe que envolve a destruição ilegal de áreas de preservação ambiental, propinas milionárias e muita especulação imobiliária. Mas estes elementos estão presentes também nos outros projetos relacionados às Olimpíadas.

O resultado imediato foram dezenas de milhares de famílias despejadas de suas casas. Mas, em breve, haverá mais remoções de pobres. Mais gente deslocada pelo poder econômico, que patrocina empreendimentos de grande luxo para pequenas elites.

A famosa estátua de Olympia é uma figura alada, sem cabeça. Seu nome é Demokrácia. Na recente ditadura que governou o país em que fica Olympia, a estátua tinha cabeça, mas não asas. Ela podia até enxergar. Voar, jamais.

Recentemente, o monumento recebeu de volta suas asas, mas a cabeça foi sequestrada. Certamente, entregue pelos donos do poder aos gerentes da mídia empresarial, que a enterraram tão fundo quanto as denúncias que o filme consegue trazer à superfície. Infelizmente, para muito poucos.

Demokrácia é alada, mas voos cegos só podem acabar em desastre.

Obs: Está é a pílula no 1.500. Agora, um descanso de uns dias até a 1.501!

Leia também: Olimpíadas e classes perigosas

22 de agosto de 2016

Adivinhando o futuro do legado olímpico

Olimpíadas encerradas, um viajante veio do futuro nos revelar que “legado”, afinal, nos foi deixado:

...grandes projetos de reabilitação urbana, particularmente aqueles no centro da cidade e ao longo dos distritos à beira-mar, foram altamente especulativos e destrutivos de muitas maneiras.

A construção da Vila Olímpica e outras instalações:

...provocou a destruição da estrutura social e dos laços que existiam nas áreas antes das intervenções e do desalojamento de pequenos negócios locais, devido às pressões da competitividade econômica, e até a destruição do patrimônio arquitetônico. Além disso, a criação de condomínios fechados e privados, especialmente na Vila Olímpica, representou a privatização do espaço.

Além das dezenas de milhares de famílias despejadas de suas casas:

... níveis de desemprego dispararam, especialmente entre os jovens; esforços para arcar com contas de luz e água tornaram-se uma realidade generalizada; e os riscos reais de exclusão social se multiplicaram.

Mas o tal viajante do tempo não existe. Os trechos acima são do artigo “De Barcelona 1992 ao Rio 2016: Uma história de duas cidades olímpicas”, de Marta Ill-Raga, publicado pelo portal Rioonwatch, em 12/08.

Como o modelo adotado para organizar nossas olimpíadas foi o de Barcelona, o texto somente usa a experiência espanhola para projetar um cenário carioca muito provável.

Por outro lado, em 2015, o quadro social barcelonês, agravado pelos Jogos, levou à eleição de Ada Colau, uma prefeita de esquerda, líder da resistência popular aos despejos.

Seria essa a única previsão positiva? Dificilmente. É cedo para avaliar a administração Colau. E vitórias eleitorais, por si mesmas, raramente dão motivos para otimismo. Melhor apostar em muita luta e resistência. 

Leia também: Museu do Amanhã, Museu da Amnésia

19 de agosto de 2016

Museu do Amanhã, Museu da Amnésia

Uma das atrações mais celebradas das Olimpíadas do Rio de Janeiro é o Museu do Amanhã, no porto da Praça Mauá. Mas o nome da instituição parece trair a intenção de apagar um passado bem inconveniente.

A começar pelas “maravilhas” olímpicas, que procuram apagar da região portuária os traços deixados pelo desembarque de milhões de escravos ao longo de séculos.

Mas há outros pontos cegos dessa memória histórica de dor e resistência espalhados pela cidade carioca.

Em Jacarepaguá, por exemplo, apartamentos destinados aos jornalistas durante os Jogos foram construídos sobre um cemitério de escravos. No mesmo local, o Quilombo do Camorim teve parte de suas instalações comunitárias demolidas pelas obras.

O Riocentro sedia modalidades como levantamento de peso, tênis de mesa, boxe e vôlei. Foi lá que, em 1981, durante um show do 1º de Maio, militares do Exército tentaram explodir uma bomba para causar ferimentos e mortes entre os cerca de 20 mil presentes.

No Complexo Esportivo de Deodoro ficam um estádio e um centro aquático. Mas nos anos 1970, suas dependências foram usadas para torturar e matar militantes de esquerda. Entre eles, Chael Charles Schreier e Severino Viana Colou.

Também de triste memória é o Aeroporto do Galeão. Porta de entrada para as Olimpíadas, em suas instalações Stuart Angel foi torturado até a morte por membros da Aeronáutica.

Nenhum desses lugares presta qualquer homenagem a esses heroicos sacrifícios por liberdade e justiça social.

Nada mais coerente, portanto, que governos e mídia celebrem um museu que pretende olhar para o futuro, enquanto seus idealizadores tentam apagar um passado tão vergonhoso quanto violento.

Leia também: As maravilhas do porto para os atuais escravocratas

17 de agosto de 2016

As maravilhas do porto para os atuais escravocratas

Em 09/08, Adriano Belisário publicou “A outra história do Porto Maravilha” na Agência Pública.

Um resumo:

Escolhido como sede olímpica, o Rio de Janeiro escolheu sua região portuária para passar por uma grande “revitalização”.

São 5 milhões de Km2 englobando três bairros inteiros e pedaços de outros quatro. Mais de 60% de seus terrenos pertenciam à União.

Os terrenos privados representavam apenas 25% da área. Estado e município detinham aproximadamente 6% cada um. O restante era da União.

Segundo o Censo de 2010, dos 10.098 domicílios da região, apenas 611 possuem renda maior que três salários mínimos. O morro da Providência reúne a maior parte dos moradores, concentrando 1.237 domicílios.

A ideia inicial era formar um consórcio público para reabilitar a área, incluindo a construção de moradias populares.

Mas a proposta foi engavetada pelos governos municipal, estadual e federal. No lugar dela, foi adotado um plano elaborado pela OAS, Odebrecht e Carioca Christiani Nielsen.

Em 2006, a área já havia sido oferecida por Cesar Maia para Parcerias Público-Privadas. Em 2009, as empreiteiras agarraram a oportunidade.

A Caixa Econômica Federal injetou R$ 3,5 bilhões do FGTS dos R$ 5 bilhões necessários à totalidade da operação. O mercado entraria com o resto.

O mercado não entrou com o resto. Nosso FGTS desembolsou mais R$ 1,5 bilhão. Eduardo Cunha teria levado R$ 52 milhões em propina para intermediar a operação.

Mesmo assim, os “investidores” privados da área ganharão isenção de impostos como IPTU e ISS por dez anos.

Mas tudo isso é muito coerente. É a região em que aportaram tantos navios negreiros revitalizada para os escravocratas contemporâneos.

1 de agosto de 2016

O Museu do Amanhã encalhado em sangue preto

O Museu do Amanhã pretende ser uma nave espacial vinda do futuro para se ancorar nas águas sujas da região portuária da capital carioca.

Administrado pela Fundação Roberto Marinho, o museu afirma oferecer:

...uma jornada rumo a futuros possíveis, a partir de grandes perguntas que a Humanidade sempre se fez. De onde viemos? Quem somos? Onde estamos? Para onde vamos? Como queremos ir?

Mas à questão sobre o passado de que viemos a instituição responde de maneira bastante insuficiente. A construção fica na região em que chegaram quase um milhão de pessoas escravizadas vindas da África.

Foi próximo dali, no cais do Valongo, que por três séculos  aportaram os navios negreiros. Muitos dos que sobreviviam à viagem nestes matadouros flutuantes morriam logo ao desembarcar. Eram enterrados no chamado Cemitério dos Pretos Novos.

Tanto o Valongo como o Cemitério ganharam memoriais. Mas o investimento em sua construção não chega aos pés do que recebe o museu dos Marinho.

O Memorial dos Pretos Novos, por exemplo, recebe R$ 90 mil por ano. Enquanto isso, o Portal da Transparência da prefeitura do Rio informa que a Fundação Roberto Marinho já embolsou mais de R$ 56 milhões dentro do projeto "Porto Maravilha" desde 2010.

Além disso, há 12 museus fechados na cidade por falta de verbas.

Não espanta, portanto, que o museu seja administrado por uma instituição ligada à Rede Globo, cuja especialidade é produzir a amnésia social necessária à manutenção de injustiças sociais seculares.

O Museu do Amanhã só consegue ser um tumbeiro encalhado em águas que há séculos vêm sendo manchadas com o sangue derramado pelo racismo.

Leia também: Aí vem a tocha. Aqui vão os baldes

18 de julho de 2016

Olimpíadas e classes perigosas

Em 15/07, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, declarou à imprensa que o governo federal criou um cadastro para a Olimpíada do Rio com 500 mil suspeitos de terrorismo.

Em 1888, um parlamentar da Câmara Federal de Deputados fez a seguinte afirmação:

As classes pobres e viciosas sempre foram e hão de ser sempre a mais abundante casa de toda sorte de malfeitorias: são elas que se designam mais propriamente sob o título de “classes perigosas”; pois quando mesmo o vício não é acompanhado pelo crime, só o fato de aliar-se à pobreza no mesmo indivíduo constitui um justo motivo de terror para a sociedade.

O conceito de classes perigosas apareceu em 1857, em um livro do psiquiatra austríaco Benedict-Augustin Morel chamado “Teoria da Degenerescência”. Os “degenerados” em questão seriam aqueles que não possuem:

...nem a inteligência do dever, nem o sentimento da moralidade dos atos, e cujo espírito não é suscetível de ser esclarecido ou mesmo consolado por qualquer ideia de ordem religiosa.

Por “ordem religiosa” entenda-se apenas a cristã.

O cadastro anunciado por Jungmann é secreto, mas é muito provável que tenha sido montado segundo critérios muito parecidos aos defendidos por Morel e pelo deputado do século 19.

Basta ter origem social, cor, nacionalidade e religião consideradas “perigosas” para ser forte candidato a fazer parte dos 500 mil possíveis terroristas monitorados pelo governo federal.

Nada mais compatível com o que disse uma vez Pierre de Coubertin, fundador dos jogos olímpicos modernos:

As raças são de valor diferente e a raça branca, sendo de essência superior, todas as outras lhe devem vassalagem.

Leia também: O combate ao terrorismo como pretexto

28 de junho de 2016

Aí vem a tocha. Aqui vão os baldes

Alguns dados para saber como andam as finanças públicas cariocas, enquanto esperamos as Olímpiadas. São informações divulgadas por Luiz Alfredo Salomão e Antonio Carlos Barbosa em artigo publicado no Globo, em 22/06.

Primeiramente, o artigo diz que o déficit das contas municipais previsto para 2016 deve dobrar em relação ao de 2015. Por que? Devido às diversas Parcerias-Público-Privadas “celebradas com as empreiteiras, que cartelizaram as grandes obras públicas na cidade”, dizem os autores.

Nas obras do Porto Maravilha, por exemplo, dois consórcios estão envolvidos. Ambos controlados pelas empresas Odebrecht, OAS e Carioca.

O consórcio para construção do VLT é controlado por Odebrecht, OAS/Invepar, CCR e RioPar. Sendo que a CCR é da Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e da Soares Penido. Outro detalhe: a RioPar é controlada pela Fetranspor (empresas de ônibus).

O Parque Olímpico foi construído pela Parque Rio e vai ser operado depois dos Jogos pela Rio Mais. Ambas controladas por Odebrecht, Andrade Gutierrez e Carvalho Hosken.

Os BRTs TransOeste, TransCarioca, TransOlímpica e TransBrasil vão custar mais de R$ 5 bilhões, cujas fatias serão distribuídas entre Odebrecht, OAS, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Carioca. As empresas de ônibus, organizadas em consórcios, administram as estações e operam os serviços.

Finalmente, a construção de 136 Escolas do Amanhã, pela bagatela de R$ 1,2 bilhão, foi distribuída por Odebrecht, OAS, Carioca Engenharia e Construtora Zadar.

Dadas as informações, lembremos, finalmente, que quase todas essas empresas estão tão sujas que nenhum lava-jato daria jeito.

Mas sempre podemos fazer bom uso de alguns baldes para, pelo menos, garantir que a tocha olímpica fique bem limpinha.

Leia também: Jesse Owens contra o racismo

25 de junho de 2016

Jesse Owens contra o racismo

O filme “Raça” conta a lendária participação de Jesse Owens nas Olimpíadas de Berlim. A produção não é nenhuma grande obra de arte, mas vale a pena ser assistido.

Era 1936 e a Alemanha estava sob domínio de Hitler. Os Jogos seriam a oportunidade para comprovar a suposta superioridade da “raça ariana” também nos esportes.

O velocista negro estadunidense se encarregaria de estragar a festa nazista com quatro medalhas de ouro.

Em uma das cenas, um atleta alemão descreve para Owens a perseguição racista sofrida pelos judeus em seu país. O atleta americano não parece ficar muito surpreso. Afinal, grande parte de seus compatriotas negros passava por situação semelhante nos Estados Unidos.

O filme mostra a recusa de Hitler em cumprimentar o campeão negro. Mas a mágoa de Owens era outra. De Hitler, ele não podia esperar nada, mas “Roosevelt nem sequer me mandou um telegrama", teria dito.

Outra cena confirma essa condição humilhante. De volta a seu país, Owens e sua esposa tiveram que entrar pelos fundos no jantar realizado em sua própria homenagem. E o atleta morreria pobre e esquecido.

Mas o filme de Hopkins também esqueceu outros 18 atletas negros americanos presentes nos mesmos jogos. Todos medalhistas. É o que revela Flávia Oliveira em sua coluna do Globo de 16/06. Segundo o texto, essa história está contada no documentário “Orgulho olímpico, preconceito americano”, ainda inédito no Brasil.

Na época das olimpíadas alemãs, o Brasil começava a ser visto como campeão da democracia racial. Oitenta anos depois, nosso único campeonato garantido é o da violência contra pobres e trabalhadores. A grande maioria, negra.

Leia também:
Olimpíadas, racismo e direitos humanos

20 de junho de 2016

Calamidade pública são os governos

O governo fluminense acaba de declarar estado de calamidade pública. Segundo a legislação, esse tipo de situação caracteriza-se pela ocorrência de desastres que causam problemas graves demais para que o poder local os resolva por conta própria.

O texto da medida fala em "total colapso na segurança pública, na saúde, na educação, na mobilidade e na gestão ambiental". Mas também autoriza as “autoridades competentes” a adotar “medidas excepcionais necessárias à racionalização de todos os serviços públicos essenciais, com vistas à realização dos Jogos”.

Ou seja, a prioridade é um megaevento que, diziam, seria financiado quase totalmente por capital privado.

Mas não só aconteceu o contrário, como o estado do Rio de Janeiro deixou de arrecadar R$ 138 bilhões entre 2008 e 2013 com isenções fiscais que beneficiaram algumas poucas grandes empresas. Valor suficiente para pagar os salários atrasados dos servidores estaduais, com sobra para mais quatro anos.

Toda essa dinheirama, no entanto, não impediu que o estado encerrasse 2015 como vice-campeão nacional em desemprego. Este, sim, uma verdadeira calamidade pública e nacional. No primeiro trimestre deste ano, o IBGE registrou 11 milhões de desempregados no País.

Pelo decreto federal sobre calamidades públicas, o termo "desastres" se refere a "eventos adversos, naturais ou provocados que causem danos humanos, materiais e ambientais”. Diante disso, muitos especialistas alegam que a medida seria ilegal no caso do Rio de Janeiro.

Mas sejamos justos. As administrações Paes e Pezão/Dornelles, com grande auxílio do governo federal, realmente vêm causando enormes desastres sociais e ambientais, às custas de muito dinheiro público. Uma catástrofe nada natural que é pura provocação.

Leia também: No Rio de Janeiro, o alcaide gentileza

1 de março de 2016

No Rio de Janeiro, o alcaide gentileza

Na fundação do Rio de Janeiro, Estácio de Sá levou a população para fora dos muros da cidade e os portões foram fechados. O fundador bateu três vezes. Os portões se abriram e a população entrou.

451 anos depois, o episódio poderia se repetir. Claro que como farsa.

Postado na Praça Mauá, à beira da Baía, e fantasiado de alcaide colonial, Eduardo Paes bateria no portão cenográfico oferecido pelas Organizações Globo. À frente de um cordão de puxa-sacos, entraria cenário a dentro.

No interior da cidade, casas populares sendo demolidas, seus moradores despejados. Pretos e pobres perseguidos encarniçadamente pela polícia. Trens, ônibus e metrô circulando lotados e quentes, a preços tórridos. Comerciantes de rua apanhando da Guarda Municipal. Manifestantes sendo surrados pela Tropa de Choque. No ar uma nuvem de mosquitos.

Assustados, alguns convidados e companheiros de desonra do senhor prefeito tentariam recuar. Mas seriam impedidos pelo medo de cair nas águas podres da Guanabara, logo ali atrás deles.

O prefeito e sua comitiva abririam caminho em meio àquela confusão toda, rumo ao palco principal. Nele estariam vários sobrenomes importantes como Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Carvalho Hosken, além dos Barata e Marinho. Não poderiam faltar os representantes de empresas como OAS, Inverpar e CCR.

Todos prontos a receber a cidade de presente para sua livre e exclusiva exploração, já na condição de verdadeiros e únicos vencedores dos Jogos Olímpicos que ainda nem começaram.

À frente desse belo espetáculo, dança e gira um idoso senhor. Com sua longa barba branca, envergando a mais alva das batas, ele gritaria em grande êxtase e delírio: “Gentileza gera gentileza”!

Leia também: E o Rio de Janeiro continua... bang, bang, bang

28 de janeiro de 2016

Olimpíadas da exclusão: menos ônibus para os pobres

Mantelli
Em 2012, um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada concluiu que, desde 2006, os gastos com transporte público subiram mais de 30% para famílias com renda até meio salário mínimo por pessoa. Mas entre as famílias com renda acima de oito salários mínimos, houve uma queda superior a 15%.

Estes números ajudam a entender o que detonou as manifestações de junho de 2013 e por que a luta contra o aumento de passagens e por tarifa zero são tão radicais. É uma espécie de luta de classes pelo direito à cidade. Mas não se trata apenas do preço do transporte. O acesso a ele também está em disputa.

No Rio de Janeiro, por exemplo, desde outubro, a prefeitura cortou 11 linhas de ônibus entre a Zona Oeste e o Centro da cidade. Oito linhas entre a Zona Norte e do Centro da cidade à Zona Sul foram eliminadas. Outras oito linhas foram encurtadas. A redução prevista da frota é de 35% até março de 2016.

O que a prefeitura chama de racionalização parece ter o objetivo de construir uma cidade com dignidade para poucos. Na verdade, as medidas procuram dificultar e encarecer o acesso da população pobre às áreas consideradas nobres, como as praias da Zona Sul, ou que vêm se tornando refúgios de luxo da cidade, caso da Barra da Tijuca.

O maior pretexto para a implementação de medidas como essas é a realização dos Jogos Olímpicos. Não à toa, chamados de Jogos da Exclusão pelos movimentos sociais.


9 de dezembro de 2015

Rio: cidade olímpica, cidade para poucos

O Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro acaba de lançar o Dossiê Megaeventos e Direitos Humanos no Rio de Janeiro. Trata-se de um levantamento detalhado das violações dos direitos humanos causadas pelos megaeventos, desde a Copa do Mundo de 2014.

O foco agora são as Olimpíadas 2016, envolvendo moradia, transportes, trabalho, esporte e segurança pública, entre outras questões.

O irônico é que uma das primeiras vítimas dos Jogos foi o próprio esporte. O estádio de atletismo Célio de Barros, pertencente ao complexo do Maracanã, por exemplo, foi fechado em 2013.

Desde então, as cerca de 800 pessoas que frequentavam suas instalações diariamente estão sem onde treinar e competir. A grande maioria formada por atletas sem dinheiro para acessar clubes e academias.

Mais de 22 mil famílias já foram removidas de maneira autoritária e injusta. Deslocadas para abrir espaço a projetos imobiliários de alto luxo ou centros comerciais e empresariais.

Segundo o documento, o orçamento da Olimpíada alcançaria RS 38,7 bilhões de reais. Mais de R$ 10 bilhões acima do orçamento da Copa do Mundo, que construiu 12 arenas superfaturadas e voltadas para a elite.

O dossiê também mostra que o poder público entra com a maior parte desses recursos. De fato, como aconteceu em outras sedes olímpicas, os Jogos são um pretexto para privatizar os espaços públicos e expulsar os mais pobres de áreas posteriormente entregues à especulação imobiliária.

Talvez inspirados no Olimpo dos deuses gregos, os três níveis de governo tentam tornar a cidade do Rio de Janeiro um lugar confortável apenas para alguns poucos poderosos.

Baixe o dossiê aqui.

Leia também: Olimpíadas e nazismo marchando juntos