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19 de setembro de 2022

A polícia bolsonarista é anterior ao bolsonarismo

“PRF se tornou modelo de polícia do bolsonarismo” diz o editorial do Globo de hoje. O texto começa citando uma reportagem da revista “piauí", segundo a qual a PRF passou “de uma polícia dedicada ao patrulhamento de rodovias federais” para uma corporação responsável por operações policiais e chacinas elogiadas pelo clã Bolsonaro.

O editorial lembra a ação da PRF no massacre de Varginha, Minas Gerais, ocorrido em outubro de 2021. Nele morreram 26 homens, que estariam se preparando para assaltar uma agência do Banco do Brasil. Meses depois, 41 policiais rodoviários mataram 23 supostos traficantes no Complexo do Alemão, no Rio. Foi a segunda ação mais letal na história do estado.

Em 2019, prossegue o texto, a PRF matou quatro pessoas. Em 2020, 16. Em 2021, 35. Em 2022, até junho, foram 38, incluindo um motociclista sufocado com gás lacrimogêneo no porta-malas de uma viatura em Sergipe.

O editorial termina dizendo que, com “maior letalidade, a PRF vem se tornando aos poucos o modelo de polícia do bolsonarismo”.

Muita hipocrisia do jornalão carioca. Afinal, as ações da “PRF bolsonarista” não configuram um rompimento em relação ao modo que vêm ser comportando as forças de repressão do Estado brasileiro, em todos os seus níveis. Essa é a prática corrente das polícias há muitas décadas no Brasil. Talvez, séculos. E, provavelmente, trata-se de um dos fatores responsáveis pela eleição de Bolsonaro. Uma relação de mútuo reforço entre o que o bolsonarismo criou e o que criou o bolsonarismo.

Afastado Bolsonaro da presidência, muito provavelmente seguirá forte a política genocida que tentam atribuir apenas a ele.

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18 de março de 2021

Militares no poder ou a volta dos que não foram

“A ESG voltou ao poder?” é o título de reportagem de Edelberto Behs, disponível aqui. A sigla refere-se à Escola Superior de Guerra e o texto fala sobre um trecho do livro “Segunda Guerra Mundial: todos erraram, inclusive a FEB”, de Joel Silveira. A obra é sobre a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra.

Participante da FEB, o então tenente-coronel Castello Branco teria ouvido pela primeira vez na Itália sobre a “necessidade de reformas de base para o Brasil”. Os princípios dessa reforma se tornariam os mesmos que orientariam a fundação da ESG:

a) as elites civis do Brasil faliram;
b) tem havido um completo descaso pelos problemas fundamentais do país;
c) os quadros dirigentes vêm sendo mal escolhidos e quase sempre se põe à testa de uma tarefa relevante a pessoa menos indicada para isso;
d) tem prevalecido, no trato da coisa pública, o interesse pessoal, sempre colocado acima do interesse nacional;
e) o alastramento da corrupção.

Com base nesses princípios, diz Silveira, a Escola pretendia formar:

...uma elite militar estudiosa, aplicada, em dia com os problemas do país, impaciente por participar não só da solução desses problemas, mas da direção de toda a vida nacional.

Esse projeto só se materializaria com a ditadura empresarial-militar de 1964. Finda esta, porém, ele jamais foi engavetado. Ao contrário, como observa Behs, na segunda década do século 21:

Um capitão foi escolhido pelo voto para a presidência da República e recheou o governo de militares em seis mil postos na estrutura federal.

Mas será que a ESG alguma vez realmente ficou longe do poder?

Leia também: A ditadura militar acabou. O poder militar, não

1 de março de 2021

A ditadura militar acabou. O poder militar, não

Em 04/10/2020, Olavo de Carvalho escreveu no Facebook:

Somente a direita mais imatura e boboca do mundo pode ter tido a ideia magnífica de conquistar a Presidência da República antes de haver dominado nem mesmo um pedacinho das universidades, da mídia e dos sindicatos.

Segundo Olavo, findo o regime militar, o comunismo dominou instituições, entidades classistas, universidades, escolas, mídia e indústria cultural.

Em nível mundial, o fim da própria União Soviética foi pensado para que os comunistas pudessem continuar seu trabalho de subversão da ordem sem levantar suspeitas.

Delirantes, essas afirmações representam uma total inversão do que vem acontecendo na realidade há décadas.

Não foi uma crescente “comunistização” da sociedade que seu seguiu ao fim da ditadura militar. Foi a militarização do cotidiano que se manteve e se aprofundou.

As torturas continuam ocorrendo nas delegacias. As PMs permanecem fortes e independentes em relação aos governantes eleitos. Representam o único braço do Estado realmente presente nos bairros pobres. Há uma legislação de exceção voltada especificamente contra os movimentos sociais.

Por fim, destaquemos recentes notícias segundo as quais desde que tomou posse, Bolsonaro dobrou o número de militares em cargos estratégicos em seu governo e triplicou a presença deles na administração pública.

Não foram os comunistas que continuaram a subverter a ordem, apesar de terem perdido sua “pátria socialista”. São os militares que se mantiveram em lugares-chave das estruturas de poder, mesmo privados de poderes ditatoriais.

A Bolsonaro coube apenas coroar esse trabalho ocupando a cadeira presidencial. Não sem antes ter seu caminho aberto pela quase totalidade das instituições desde a preparação e execução do golpe de 2016.

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Os vários golpes, os diversos golpistas

25 de maio de 2017

Os vários golpes, os diversos golpistas

O mais recente ato desastrado de Michel Temer foi a decretação das Operações de Garantia da Lei e da Ordem. Na prática, as Forças Armadas foram chamadas a reprimir manifestações que ocorriam em Brasília contra o governo golpista e suas reformas neoliberais.

Muitos temiam e alguns desejavam que a iniciativa resultasse num golpe militar. Uma expectativa equivocada, pois desconsidera o permanente estado de intervenção militar que já vivemos há muito tempo.

O próprio Ministro da Defesa, Raul Jungmann, justificou a operação, alegando que:

...este instrumento é assegurado na Lei Complementar nº 97 de 1999 e pelo artigo 142 da Constituição Federal. De lá para cá, por exemplo, já ocorreram o emprego das Forças Armadas na Rio+20, na Jornada Mundial da Juventude, na Copa do Mundo, nos Jogos Olímpicos Rio 2016, e mais recentemente nas varreduras aos prédios, durante o aquartelamento de Policiais Militares do Espírito Santo e na crise de segurança no Rio de Janeiro, no começo de 2017.

Além disso, em 24/05 Luciana Amaral e Leandro Prazeres informaram no Portal UOL, que:

Segundo o site do Ministério da Defesa, um exemplo de uso das Forças Armadas na Garantia da Lei e da Ordem foi o emprego de tropas em operações de pacificação do governo estadual em diferentes comunidades do Rio de Janeiro.

E não nos esqueçamos que a partir de 2013, essa militarização ganhou novo impulso. Foi quando a vergonha caiu sobre o governo petista, que em resposta às enormes manifestações populares daquele ano aprovou uma lei antiterrorismo cujo alvo são os movimentos sociais.

Os golpes contra a democracia são muitos. Assim como os golpistas.

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8 de dezembro de 2016

Artigo 142: intervenção militar garantida

Crise institucional! Juízes, governantes e parlamentares batendo cabeça. A corrupção reina. Renan reina. Temer agoniza.

Diante dessa confusão toda, vozes da direita pedem a aplicação do Artigo 142 da Constituição. E o que vem a ser tal coisa?

Ele, basicamente, diz que as Forças Armadas “destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

Mas sejamos justos. Esta disposição constitucional jamais ficou esquecida. Foi acionada muitas vezes “por iniciativa” dos “poderes constitucionais”.

Um mês após a aprovação da nova constituição, por exemplo, Sarney enviou tropas militares para reprimir uma greve de metalúrgicos em Volta Redonda. Três operários mortos. Artigo 142.

Em 1995, Fernando Henrique enviou tropas militares para refinarias da Petrobrás em greve. Artigo 142.

Em 2004, Lula criou a Força Nacional de Segurança Pública, composta por policiais militares “de elite”. Desde então, ela interveio em muitas lutas e manifestações. Artigo 142.

As mais corriqueiras manifestações populares jamais deixaram de contar com a presença repressiva de Polícias Militares estaduais. Artigo 142.

As UPPs cariocas ocuparam comunidades pobres. Vieram os soldados, mas não os profissionais de saúde, professores, assistentes sociais... Artigo 142.

As recentes ondas de ocupação de escolas receberam visitas truculentas das forças policiais militares. Artigo 142.

A população brasileira convive com uma polícia militarizada que trata sua parcela pobre como potencial inimigo. Artigo 142.

“Lei antiterrorista”? Sem comentários.

Os próprios selfies que manifestantes vestindo verde-amarelo fazem com policiais militares acontecem graças ao Artigo 142.

Diante disso, a direita poderia dar um tempo no ódio para comemorar suas vitórias. Não são poucas, afinal.

Leia também: A caminho da democracia empresarial-militarizada (2)

16 de dezembro de 2015

A PM que mata e a PM que morre

A Agência Pública publicou “396 mortes pela PM paulista: as histórias por trás dos BOs”. A reportagem de Ciro Barros, Iuri Barcelos e José Cícero da Silva analisou 330 boletins de ocorrência relacionados a 396 mortes por intervenção policial em São Paulo, em 2014.

Os resultados mostraram o que já se sabe. A grande maioria das vítimas dos policiais eram jovens negros, entre 15 e 29 anos. Além disso, os dez bairros mais ricos de São Paulo registraram uma mortalidade policial 27 vezes menor que nas outras regiões. Portanto, os dados voltam a confirmar que as vítimas da polícia têm idade, cor e endereço bem definidos.

Mas há uma informação que merece atenção. Enquanto 396 vítimas civis foram mortas, nenhum PM morreu e apenas 17 ficaram feridos. Por outro lado, no ano passado, oito policiais militares morreram em serviço e outros 129 ficaram feridos. Mas “a maioria desses casos não ocorreu em situações envolvendo mortes de civis pela PM”, diz a matéria.

Esses números desmentiriam a ideia de que a alta letalidade policial resulta de ações contra bandidos fortemente armados e violentos. Além disso, mostrariam que há alguns setores da PM encarregados de executar criminosos ou suspeitos e outros, abandonados à sua própria sorte.

Em comum entre os que morrem e os que matam, salários baixos e origem pobre. A diferenciá-los o apoio que os últimos recebem da alta hierarquia, desde o governador aos coronéis. Para estes, só importa que os mortos, civis ou militares, continuem a ser os mais pobres e pretos.

Como alertou o jurista Eugenio Zaffaroni, à criminalização da pobreza, corresponde sua “policização”.

Leia também: A criminalização da pobreza e sua “policização”

2 de dezembro de 2015

Pedagogia da bala e do cassetete

Praça do Conhecimento, Nova Brasília, Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. É lá que fica a escola Theophilo de Souza Pinto. Dentro da escola, uma Unidade de Policiamento Pacificadora (UPP). São cerca de 70 buracos de balas nas paredes do prédio, segundo reportagem da agência Pública, publicada em 30/11.

Pavuna, Rio de Janeiro, Colégio Estadual Jornalista Rodolfo Fernandes. Inaugurado em março de 2014, conta com 796 alunos. “Desde maio deste ano, cinco deles morreram baleados, quatro por tiros disparados pela Polícia Militar”, diz reportagem do Globo, em 02/12. Entre eles, Carlos Eduardo da Silva de Souza, de 16 anos, um dos cinco jovens fuzilados pela PM com mais de 100 tiros dentro de um automóvel, em 28/11.

“A gente já está acostumado com isso”, disse um aluno de 17 anos, colega de turma de “Carlinhos”, à mesma reportagem.

Desde novembro, estudantes paulistas iniciaram uma onda de ocupações em escolas da rede estadual pública contra o fechamento de 93 delas.

Madrugada de 02/12, escolas estaduais República do Suriname, no Itaim Paulista, e Coronel Sampaio, em Osasco. Na primeira, diz o Diário do Centro do Mundo:

... o marido da diretora da escola junto com um grupo de pessoas encapuzadas invadiu a ocupação e tomou a escola. Em Osasco, a invasão foi comandada por grande número de policiais e na manhã de hoje a escola foi aberta para a imprensa completamente destruída. Até fogo foi ateado e a culpa, obviamente, atribuída aos alunos.

Segundo Michel Foucault, a escola moderna é produto da mesma lógica que criou prisões, hospitais, quartéis...

Foucault é para os fracos, diriam nossos governantes.

Leia também: Ocupar as escolas, educar para a liberdade

31 de outubro de 2015

A caminho da democracia empresarial-militarizada (2)

 Latuff
A Operação Bandeirante (Oban) foi criada durante a ditadura criada pelo golpe de 64. Promovia o sequestro, tortura e morte de militantes de esquerda e foi financiada por empresários e banqueiros. É por isso que está correto considerar o regime de 64 uma ditadura empresarial-militar.

A Oban daria origem aos esquadrões da morte, que passou a matar suspeitos que podiam ou não ser criminosos. Pobres e pretos eram quase todos.

A ditadura acabou, mas as torturas e mortes continuaram nas delegacias policiais. Além disso, comerciantes e empresários continuavam a pagar para livrar as redondezas de seus estabelecimentos de mendigos, crianças de rua, ladrões. Sempre com os mesmos métodos: a eliminação física.

Nos bairros pobres, os esquadrões da morte passaram a se chamar milícias. Nas regiões ricas, recebem o nome de operações conjuntas entre governos e setor privado. É o caso da recente iniciativa da Federação do Comércio do Estado do Rio, que patrocinará o policiamento de seguranças privados nas regiões da Lagoa Rodrigo de Freitas e Parque do Flamengo.

São R$ 44 milhões, 363 policiais e jovens que acabaram de deixar as Forças Armadas, fazendo patrulhas com bicicletas e viaturas. O governo estadual entra com armas e veículos. A população pobre e preta contribui com seus filhos sempre suspeitos, publicamente humilhados e muitas vezes julgados e executados.

Junte-se a isso o monopólio da liberdade de expressão para a grande imprensa, eleições dominadas pelo poder econômico e um judiciário a serviço dos ricos. Acrescente, finalmente, a tentativa de criar uma legislação “antiterrorista” que criminaliza os movimentos sociais. Está feita a transição da ditadura empresarial-militar à democracia empresarial-militarizada.
                 
Leia também: A caminho da democracia empresarial-militarizada

23 de outubro de 2015

A caminho da democracia empresarial-militarizada

Está em debate no Senado uma “legislação antiterrorista”. Na verdade, o alvo da proposta é o direito de manifestação. É mais uma etapa na criminalização dos movimentos sociais, intensificada desde Junho de 2013. A proposta é assinada pelo ministro petista Eduardo Cardozo e seu colega tucano, Joaquim Levy.

Mas qual seria o interesse da área econômica do governo nessa aberração jurídica? Acontece que as tais agências de risco internacionais esperam a aprovação da nova legislação como parte da "avaliação institucional" do País. Se ela não for aprovada, o Brasil pode ter problemas em sua nota de crédito.

Vem aí uma grande crise social devido à depressão econômica causada pelos ajustes neoliberais em curso. Vêm aí as Olimpíadas que estão removendo comunidades, atropelando direitos, entregando o patrimônio público. Os protestos contra tudo isso vão se deparar com um aparato de repressão ainda mais violento. E é isso que grande capital quer ver garantido.

Estas iniciativas fazem parte da militarização generalizada da vida nas grandes cidades brasileiras. Um processo que prende, tortura e mata pretos e pobres, de um lado. De outro lado, reprime cada vez mais lideranças populares, grevistas e manifestantes. Tudo para que empresários, empreiteiros, banqueiros possam tocar seus negócios, legais e ilegais.

Há quem defenda, com razão, que o golpe de 64 implantou uma ditadura empresarial-militar. Afinal, por trás dos militares, estavam grandes capitalistas.

Com muitos sacrifícios, derrotamos a ditadura e conquistamos várias liberdades democráticas. Mas o poder econômico continua firme e vem reduzindo a democracia ao processo eleitoral por ele controlado. Como resultado, caminhamos rapidamente para nos tornar uma democracia empresarial-militarizada.

Leia também: A ditadura de 1964 era militar e empresarial

18 de agosto de 2015

A PM paulista e suas estrelas sangrentas

Henrique Carneiro escreveu “Corporação de SP vê ‘glória’ na repressão”, para a coletânea “Desmilitarização da polícia e da política: uma resposta que virá das ruas”, organizada por Givanildo Manoel da Silva, o “Giva”. 

O artigo conta um pouco da história da PM paulista e começa lembrando que o “batismo de fogo” da corporação foi a repressão à grande greve dos ferroviários, em 1905.

O autor destaca, ainda, as estrelas do brasão de armas da instituição. Elas correspondem a momentos que a corporação considera “heroicos” em sua história. Das 18, a única que simboliza uma ação contra a ordem dominante foi a participação na conservadora “Revolução Constitucionalista” contra Getúlio Vargas, em 1932.

Todas as outras “estrelas” marcam a presença da corporação na repressão violenta a revoltas e levantes populares, dentro e fora do estado. É o caso da rebelião de Canudos, da Revolta da Chibata ou da Greve Geral de 1917, em São Paulo.

Mas um dado bem atual também assusta. Apesar de estar sob administração petista, a capital paulistana tem 90% de suas subprefeituras comandadas por coronéis aposentados da PM. Não à toa, a cidade é marcada pelos maiores índices de violência policial do mundo.

Por outro lado, Carneiro lembra as condições degradantes de trabalho da grande maioria das tropas policiais, com salários baixos e alto índice de mortes e sequelas. Além disso, inexiste liberdade de expressão e de sindicalização na corporação, contribuindo, diz ele, para “uma cultura de submissão e acobertamento corporativo de toda sorte de irregularidades”.

Se o brasão da PM também contabilizasse chacinas de pobres e pretos, seria uma grande galáxia sangrenta.

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27 de julho de 2015

Glossário de uma polícia que extermina

Bilões: são os policiais mais violentos de cada batalhão da PM paulista.

Caixas-dois: nome dado aos grupos integrados por três bilões, sendo um deles responsável por orientar ou executar o “trabalho”. Costuma ser escoltado pelos outros dois e não usa farda. Geralmente, a equipe atua em sua área de atuação.

Trabalho: extermínio de criminosos ou apenas suspeitos.

Kit-vela ou kit-flagrante: entorpecente e arma fria colocadas nas mãos do cadáver para justificar o homicídio. Eventualmente, um celular também é deixado junto à vítima.

Firma: modalidade de caixa-dois diretamente relacionada a corrupção.

Fritar na resistência: inventar evidências para que a morte pareça ter resultado de um confronto com a PM. Em sua impossibilidade, utiliza-se o “caixa-dois”.

Pelotão de Apoio Operacional (PAO): punição dada pelo comando de alguns batalhões da PM paulista a policiais que se negam a participar de ilegalidades e abusos, como torturas, matanças e grupos de extermínio. O castigo consiste em fazer ronda do lado de fora do batalhão, permanenceno 12 horas em pé, incomunicável, sem poder comer, urinar ou evacuar.

A combinação dos verbetes desse macabro vocabulário resultou, por exemplo, no assassinato de 152 pessoas pela PM paulista, entre 2003 e 2010. Destas vítimas, 48% não tinham antecedentes criminais. Entre as que sobreviveram, 82% não têm passagem pela polícia.

Todas essas práticas criminosas estão detalhadas no artigo “Em cada batalhão da PM tem um grupo de extermínio”, de Tatiana Merlino. O texto faz parte do livro
“Desmilitarizaçãoda polícia e da política: uma resposta que virá das ruas”.

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Fragmentos de uma história militarizada

23 de julho de 2015

Fragmentos de uma história militarizada

Uma característica importante do militarismo é a prontidão para atacar o inimigo. Em princípio, um inimigo externo. Em casos como o brasileiro, porém, a militarização do Estado prioriza o ataque a um inimigo interno. Mais precisamente, aos pobres.

Uma das raízes deste processo foi a escravidão. Foi o medo da reação de uma grande parte da população submetida ao mais vergonhoso e cruel cativeiro. Por isso, um jornal carioca na virada do século 18 para o 19 dizia: “Precisamos de uma polícia que a nós (referindo-se aos senhores) inspire confiança e aos escravos infunda terror”.

Mas finda a escravidão, a extrema desigualdade social persiste e se aprofunda. A polícia do estado de São Paulo, por exemplo, passa a se inspirar na doutrina adotada pelo Exército Francês, em 1906.

Esta mesma polícia tem em seu brasão 18 estrelas. Cada uma representando uma vitória militar. Delas, apenas uma lembra o combate a um governo. O de Getúlio Vargas, em 1932. Todas as outras referem-se à repressão contra revoltas populares, como a Rebelião de Canudos, Revolta da Chibata e a Greve Geral de 1917, em São Paulo.

O conhecido instrumento de tortura chamado “pau-de-arara” não surgiu durante a ditadura militar. Seu nome faz referência aos trabalhadores rurais que chegavam do Nordeste nos anos 1950. Qualquer conduta considerada indevida pela polícia era tratada como crime, punido com suplícios no “pau-de-arara”.

Estes exemplos mostram que a militarização da polícia não surgiu com a ditadura empresarial-militar de 64. Esta apenas a aperfeiçoou, generalizou e a deixou como herança intocada, que ainda despedaça almas e corpos de pobres e rebeldes.

Essas informações estão no livro “Desmilitarização da polícia e da política: uma resposta que virá das ruas”.

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A criminalização da pobreza e sua “policização”


22 de julho de 2015

A criminalização da pobreza e sua “policização”

Acaba de ser lançada “Desmilitarização da polícia e da política: uma resposta que virá das ruas”, coletânea organizada por Givanildo Manoel da Silva, o “Giva”. São contribuições teóricas fundamentais, mas também particularmente importantes para armar a militância social na indispensável resistência à brutalização da vida pelos aparatos estatais de repressão.

Um dos artigos é “Desmilitarização da polícia, das prisões e da política: uma pauta necessária a luta pelo fim do capital”. Nele, Camila Gibin traz o interessante conceito de “policização” dos pobres, intimamente relacionada ao fenômeno da criminalização da pobreza. Ela cita Eugenio Raul Zaffaroni, criador do conceito:

O pessoal policizado, além de ser selecionado na mesma faixa etária masculina dos criminalizados, de acordo também com um estereótipo, é introduzido em uma prática corrupta, em razão do poder incontrolado da agência da qual faz parte.

O policial de baixa patente, capturado por esta estrutura se vê qualificado pela “moralidade burguesa” como “corrupto”. Ao mesmo tempo, lhe é exigido desempenhar funções que desumanizam a si mesmo e àqueles com quem se relaciona em sua profissão.

Assim, o policizado seria, “para a classe baixa, o ‘cão de guarda’ da burguesia que a criminaliza; e para a classe média e alta, o pobre ‘cão de guarda’ que deve responder a seus comandos”. Muitos dos que exigem do policial uma ação rápida e letal também o desprezam por cometê-la.

De um lado e do outro, pretos e pobres matam e morrem em situações que pouco têm a ver com o combate à criminalidade. Tudo a ver com a manutenção de uma ordem social extremamente violenta e injusta.

Conheça o livro aqui.

20 de julho de 2015

Prisões e quartéis como escolas do crime

Os especialistas em segurança costumam dizer que os presídios do País são escolas do crime. Muitos do que são contra a redução da maioridade penal apontam essa realidade para dizer que crianças e adolescentes vão ser expostos facilmente a estes cursos intensivos de brutalidade.

Mas há um outro tipo importante de escola do crime, tão brutalizadora como aquelas, mas menos lembrada. São as polícias militares. Pelo menos é o que se deduz do livro "Como nascem os monstros", escrito por Rodrigo Nogueira.

Ex-soldado da PM, Nogueira está preso na penitenciária Bangu 6, Rio de Janeiro, desde 2009. A sentença que o condenou diz que ele manteve “uma vendedora em cárcere privado por quatro horas, onde ela foi agredida e constrangida a praticar atos libidinosos antes de ser atingida por um tiro de fuzil no rosto”.

Em entrevista à Agência Pública, publicada em 20/07, ele deixou bastante claro que aprendeu a cometer tais barbaridades dentro dos quartéis:
 
Posso garantir que, ao ingressar na corporação, ninguém acredita que um dia vai sequestrar alguém, roubar seu dinheiro, matar essa pessoa e atear fogo ao corpo.

Expostos a treinamento de guerra, estes soldados passam por treinamentos violentos para aprenderem a ser violentos. Principalmente, com pobres. Como diz o entrevistado, “preto e pobre correndo na favela é bala. Depois a gente vê o que é.”

É assim que as prisões, transformadas em unidades de especialização criminal, encontram nas casernas policiais seu espelho quase perfeito. Ambas vivem do crime e o realimentam. Dos dois lados, uma maioria formada por pobre e pretos. Uns fardados, outros não. Todos fodidos.

Leia a íntegra da entrevista,
aqui.

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