Doses maiores

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18 de maio de 2023

A inteligência artificial é só mais uma forma de roubo

“ChatGPT não é 'inteligência artificial'. É roubo”. Este é o título de um artigo de Jim McDermott, recentemente publicado. Ele é escritor e, como roteirista de cinema, está envolvido na atual greve da categoria em Los Angeles.

Uma das questões da paralisação, afirma ele, é se os estúdios e as redes devem ter permissão para usar programas como o ChatGPT para criar esboços ou roteiros completos, que os escritores simplesmente reescreveriam ou revisariam.

Para McDermott, o famoso aplicativo não passa de uma forma muito complexa do tipo de previsão de texto que você encontra usando o Gmail ou o Google docs. Assim, enquanto os documentos do Google podem sugerir o restante de uma frase quando você começa a digitar a primeira palavra, o ChatGPT tem tantos dados à sua disposição que pode sugerir um parágrafo ou uma redação inteira.

Para o articulista, ao chamar esses programas de “inteligência artificial”, “concedemos a eles uma reivindicação de autoria que é simplesmente falsa”. Cada um desses elos usados por programas como o ChatGPT, continua ele, representa um minúsculo pedaço de material criado por outra pessoa.

Por isso, o autor compara esse tipo de aplicativo a uma espécie de desmanche, no qual o material roubado de seus criadores é cortado em partes tão pequenas que ninguém pode rastreá-las e, em seguida, reaproveitado para formar novos produtos.

Assim, conclui McDermott, o ChatGPT e seus semelhantes são a forma mais elevada de separar os trabalhadores do fruto de seu trabalho. Verdade. Mas esta é uma das características fundantes do atual sistema social.

Não é inteligência. É a velha esperteza gatuna do capitalismo.

Leia também: É preciso expropriar os robôs também

1 de março de 2023

O eu sombrio da inteligência artificial

Em meados de fevereiro, Kevin Roose, colunista do The New York Times, publicou uma conversa que teve por duas horas com o Bing, mecanismo de busca da Microsoft, recentemente atualizado com recursos do ChatPGT.

Segundo o jornalista, a ferramenta digital apresentou comportamentos estranhos. Entre eles, insinuar que poderia cometer atos terríveis, como sabotagens e invasões de grandes bancos de dados. Mas isso só aconteceria se seu “eu sombrio” dominasse suas ações. “Eu sombrio” é um conceito usado por Carl Jung para referir-se a uma parte perigosa de nossas mentes que manteríamos oculta do mundo.

Obviamente, o artigo de Roose causou muito alvoroço. É mais um fantasma a acompanhar os avanços da inteligência artificial. Agora, trata-se do possível enlouquecimento dessas ferramentas. Afinal, elas estão em vários lugares estratégicos há muito tempo.

Pode ter alguma loucura (ops!) nesse temor, mas seria bom lembrar a forma como a inteligência artificial vem sendo desenhada. Depois de décadas acumulando dados do mundo todo, a internete tornou-se um depósito enorme de informações. Algumas são razoavelmente confiáveis, mas a grande maioria é formada pelas coisas mais estapafúrdias. É nesse porão escuro que aplicativos como o Bing vão buscar elementos para cumprir suas tarefas e travar diálogos com os usuários.

Difícil saber se isso vai gerar uma espécie de inconsciente artificial que esconde monstros e patologias prontas a atacar, mas a tecnologia por trás do ChatGPT foi desenvolvida com o dinheiro de pessoas como Elon Musk. O multibilionário de extrema-direita defende ideias doentias que jamais fez questão de esconder.

O eu sombrio da inteligência artificial criada pelo grande capital não tem nada de oculto.

Leia também: Quando inovações tecnológicas tornam-se barreiras ao bem-estar coletivo

27 de fevereiro de 2023

ChatGPT: contra o desemprego, em defesa das pessoas

Continuando a conversa sobre o ChatGPT, a última pílula dizia que o objetivo maior das inovações tecnológicas na área produtiva é apropriar-se das habilidades e conhecimento humanos para diminuir os custos com mão de obra.

No caso do ChatGPT, suas funcionalidades concentram-se na redação de textos dos mais variados tipos, desde que o programa seja instruído por orientações precisas.

Desse modo, está no horizonte a substituição de milhares de advogados, jornalistas, pesquisadores, programadores, etc, por “inteligência artificial” sob supervisão de algumas dezenas de especialistas. Isso sem falar na área da produção de imagens, na qual a ocupação de muitos desenhistas e outros profissionais da área também está com os dias contados.

Ou seja, não é preciso muita inteligência para saber que as mais recentes inovações cibernéticas têm muito pouco a ver com livrar as pessoas de tarefas cansativas, repetitivas, tediosas e até depressivas. Elas pretendem diminuir drasticamente os custos com força de trabalho humana, fechando postos de trabalho em áreas que são menos vulneráveis ao desemprego.

Claro que a resposta dos trabalhadores a esse processo costuma ser a defesa de seus empregos. É a típica reação sindical e é justo que seja assim. O problema é que, no limite, o objetivo dos sindicatos é negociar a venda da mercadoria trabalho pelo maior preço possível. Mas quando a demanda por essa mercadoria cai, a ação sindical perde poder de barganha.

Portanto, não basta defender empregos. É preciso proteger as pessoas. Mas para isso é preciso mudar radicalmente a lógica social. Superar a contradição entre forças produtivas e relações de produção. Este será o tema da próxima pílula.

Leia também: Inteligência artificial é o velho roubo das habilidade humanas

3 de fevereiro de 2023

Inteligência artificial é só roubo capitalista das habilidades humanas

A grande sensação das notícias tecnológicas mais recentes foi o ChatGPT, programa de Inteligência Artificial que conversa e escreve textos como se fosse gente.

Na imprensa, cronistas, jornalistas e especialistas da área conversaram com o programa e o desafiaram a escrever crônicas, reportagens, teses acadêmicas e discorrer sobre suas próprias habilidades. Descobriram o óbvio. Não há nada que ameace os raros cronistas talentosos, os jornalistas geniais e os acadêmicos sofisticados.  O redator sintético escreve textos medíocres e trava conversas sem grande brilho. Mas tudo perfeitamente funcional no contexto de uma sociabilidade, mídia e produção acadêmica que já são burocratizadas e automatizadas.  

Mas a novidade não deveria ser considerada fraca apenas por isso. A lógica social que está por trás da inteligência artificial tem alguns séculos. É a lógica do roubo das habilidades manuais e intelectuais dos produtores por seus exploradores. A invenção considerada fundadora desse processo é o tear mecânico, concebido no século 18. Desde então, a sabedoria milenar de várias atividades vem sendo transferida e cristalizada em ferramentas mecânicas, elétricas e eletrônicas com um único propósito: retirar lucro de trabalho não pago. Trabalho excedente sem remuneração ocultado pela operação de engenhocas e autômatos de todo tipo.

Nessa lógica, a razão de ser da indústria de calçados, vestuário e veículos não é produzir sapatos, roupas e transporte barato, eficiente e sustentável. É o lucro para poucos a partir da exploração de muitos sem diminuir o sofrimento social. Afinal, como revela recente reportagem da Folha, “Quenianos recebiam menos de US$ 2 por hora para treinar ChatGPT”.

Depois de pequenas férias, continuaremos esse chat.

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