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25 de fevereiro de 2025

O tudo ou nada de Trump

A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção e, com elas, todo o conjunto de relações sociais. A conservação do velho modo de produção numa forma inalterada era, pelo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. O revolucionamento constante da produção, a perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, a incerteza e agitação contínuas distinguem a época burguesa de todas as anteriores.

O jornalista Luiz Carlos Azedo citou as palavras acima no artigo “Um pouco de Marx para explicar as loucuras de Trump”, publicado no Correio Braziliense. São de Marx e Engels e estão no Manifesto Comunista. Segundo Azedo, o trecho mostra-se profético em relação ao governo Trump. Afinal, diz ele, “para modernizar a sua economia e enfrentar a China, o presidente dos Estados Unidos põe em xeque tudo o que obstrui suas intenções, inclusive a democracia e a ordem mundial”.

Faz sentido, mas Trump apenas escancara o papel caótico e desagregador que a burguesia e seus vários setores desempenham sempre que a luta de classes permite.

Os explorados estão desorganizados e desorientados. O sistema imperialista sob estresse, com vários polos em disputa. O império estadunidense debate-se em seu declínio, mas tem munição, literalmente falando, para aliviar seus problemas, causando muito sofrimento, destruição e morte, principalmente para as maiorias exploradas e oprimidas da população mundial.

É a aposta no tudo ou nada da dominação do capital. A ela os trabalhadores e a humanidade em geral deveriam responder tal como Rosa Luxemburgo há mais de 100 anos: contra a barbárie, só o socialismo.

Leia também: Big thecs: o autoritarismo neoliberal escancarado

15 de fevereiro de 2025

O ovo, a galinha, a gripe e o lucro

Para que servem as fábricas de sapatos? Para calçar as pessoas? Não, para lucrar com a venda de calçados. O mesmo vale para as indústrias de alimentação e de construção. Aos milhões de desnutridos e sem-tetos não basta serem humanos. Precisam ser consumidores.

Esta é a lógica do capitalismo. Sempre foi. Nem sempre isso fica tão evidente. O fetiche consumista, a ideologia dominante e a capacidade ilusionista da indústria do entretenimento conseguem esconder essa natureza fria e cruel do capitalismo. Mas vira e mexe, surgem casos que escancaram tudo.

Um exemplo assustador é o que está acontecendo com a produção de ovos nas imensas granjas dos Estados Unidos. As informações estão em um vídeo disponível na conta do Instagram do pesquisador em microbiologia Átila Iamarino.

Ele explica que os inúmeros casos de gripe aviária naquele país vêm levando ao adoecimento, morte e abate de milhões de galinhas. O resultado tem sido uma escassez de ovos que fez disparar o preço do produto no mercado.

As poucas grandes empresas do ramo contam com seguros para eventos como estes. Acontece que a indenização é paga em valores proporcionais aos que o produto teria caso chegasse aos consumidores. Ou seja, sobe o preço do ovo, sobe o valor das indenizações.

Resultado: muitos criadores estão simplesmente deixando seus galináceos adoecerem. Desse modo, conclui Iamarino, deixaram de criar galinhas para, não só criar gripe aviária, como condições para uma nova pandemia.

Ou seja, àquela velha pergunta sobre o que vem primeiro, o ovo ou a galinha, a resposta segundo a lógica capitalista é: o lucro.

A saúde pública? Que se dane.

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Coronavírus-19: o agronegócio fazendo merda

18 de setembro de 2024

A indústria do turismo e o capitalismo cagando tudo

Voltando ao tema indústria turística, vale a pena ler a entrevista “Os baixos custos exigidos pela indústria do turismo são baseados em salários baixos”, com Josep Burgaya, professor da Universidade de Vic, em Barcelona.

O entrevistado ressalta que “os baixos custos exigidos pela indústria do turismo são baseados em salários baixos, muito trabalho informal e extensas cargas horárias”. Desse modo, o setor depende principalmente do trabalho mal pago e precarizado dos imigrantes. São “estrangeiros servindo estrangeiros”, diz Burgaya.

A indústria do turismo fez disparar o custo de vida nas cidades onde opera, expulsando os moradores pobres para as periferias. A população visitante ultrapassa em muito a dos moradores. Amsterdã, por exemplo, tem 820 mil habitantes, mas recebe anualmente 20 milhões de turistas. O pior é que 80% dos enormes recursos movimentados são apropriados por plataformas digitais como Airbnb, Booking e Uber. As cidades ficam principalmente com impactos negativos como custo de vida elevado, degradação ambiental, problemas sociais e descaracterização cultural.

“Turismo é ir a um lugar pré-fabricado porque nos é imposto pelos padrões de consumo do capitalismo atual (...). Consumimos destinos em forma de fotografias. Viajar era conhecer. Fazer turismo é ter mais uma foto no currículo de consumo”, afirma ele. E o “nicho de mercado das viagens autênticas sofre do mesmo mal, mas pagando mais”.

O problema, diz o entrevistado, é que viajar não é mais possível. Somos todos turistas, queiramos ou não.

Toda essa situação pode ser resumida em uma elegante frase: “O capitalismo caga em tudo o que se apropria”. E, infelizmente, isso também é verdade para quase tudo o que nos rodeia.

Leia também: A “museificação capitalista” da experiência turística

10 de setembro de 2024

Inteligência artificial: um combo de problemas

Em 08/09/2024, o Globo publicou “Gargalos estruturais são barreiras para o avanço dos sistemas”, sobre o desenvolvimento da inteligência artificial (IA).

A matéria começa destacando a imensa quantidade de energia elétrica necessária para fazer funcionar os centros de dados que alimentam essa tecnologia. Segundo um relatório do banco Goldman Sachs, por exemplo, nos Estados Unidos, o uso de eletricidade para IA deve dobrar até 2030.

Outro problema refere-se aos assistentes virtuais, que ao utilizar os novos sistemas de IA, passaram a ser treinados com um percentual crescente de informações distorcidas e inverídicas.

Outra preocupação é “a velocidade com que a mão de obra absorverá novos processos produtivos gerados pela IA. Ou seja, como qualificar trabalhadores para lidarem com as interfaces criadas pela tecnologia”.

Por fim, há a questão dos altos custos de infraestrutura. O enorme investimento necessário restringirá muito o número de negócios que terão um retorno realmente lucrativo.

Ou seja, há um “combo” de problemas surgindo com essa novíssima tecnologia. Uma combinação cujas consequências negativas prometem superar em muito as positivas:

- Aumento dos impactos ambientais para atender a elevação da demanda por energia elétrica, além de apagões mais frequentes.

- Um caos ainda maior nas redes de comunicação, reforçando a disseminação de mentiras e falsidades.

- Elevação do desemprego, precarização trabalhista e rebaixamento salarial.

- Por fim, aumento da monopolização do mercado cibernético, com lugar apenar para jogadores grandes e ainda mais poderosos.

É isso que acontece quando uma força produtiva poderosa como a IA surge amarrada às relações destrutivas do capitalismo. Funciona para alguns poucos e causa prejuízos e destruição para muitos.

Leia também: Intelecto geral x trabalhador coletivo na obra de Marx

11 de julho de 2024

Bancos Centrais no comando

Em seu livro “The People's Republic of Walmart”, Leigh Phillips e Michael Rozworski lembram que os neoliberais consideram qualquer tentativa de planejamento estatal da economia como uma forma de intervenção completamente ineficiente.

Mas, dizem os autores, o capitalismo também tem algo semelhante a um sistema de planejamento econômico centralizado. É o sistema financeiro. Phillips e Rozworski citam as palavras do economista J. W. Mason:

Os excedentes econômicos são alocados pelos bancos e outras instituições financeiras, cujas atividades são coordenadas por seus controladores, não pelos mercados… Os bancos são os equivalentes privados do planejamento central da era soviética. Suas decisões sobre empréstimos determinam quais novos projetos receberão uma parte dos recursos da sociedade.

Os bancos decidem, por exemplo, sobre empréstimos para a construção de uma nova fábrica, financiamentos imobiliários ou empréstimos estudantis. Além, claro, de estabelecer as condições em que esses débitos serão quitados. Cada empréstimo é uma abstração que mascara algo concreto como ocupações para trabalhadores, moradias para a população ou cursos de graduação.

E adivinhem o que está no centro de qualquer sistema financeiro contemporâneo? O Banco Central, o banco dos banqueiros. A ironia aqui é que se trata de uma agência governamental que só presta contas ao mercado, não recebe um voto popular, mas intervém pesadamente na economia. Quanto a isso, os discursos da elite contra intervenções estatais emudecem.

É um sistema em grande escala, tecnocrático e sistêmico. Mas não tem nada de conspiratório. Seu domínio decorre da implacável lógica capitalista. Mas, claro, qualquer ameaça a suas determinações poderá enfrentar a truculência repressiva do Estado. Outra intervenção estatal muito bem recebida pela classe dominante.

Leia também: República Popular da Amazon

4 de julho de 2024

A mão pesada do planejamento nas corporações capitalistas

Em seu livro “The People's Republic of Walmart”, Leigh Phillips e Michael Rozworski demonstram que praticamente todos os grandes monopólios capitalistas adotam a planificação econômica em seu modo de organização. Algo parecido com o que faziam os soviéticos, por exemplo.

Mas uma grande corporação tentou fazer diferente. Entre 2010 e 2017, quase 2.300 lojas da Sears fecharam. O motivo? A desastrosa decisão do presidente da varejista de desagregar suas divisões em unidades concorrentes, criando um mercado interno.

A ideia era usar a Sears como uma grande experiência para mostrar que a “mão invisível” da livre concorrência superaria o planejamento central típico de qualquer empresa. O problema é que as diferentes unidades caíram em uma selvagem competição entre si, pouco se importando com a empresa como um todo.

O fato é que mesmo os mais fervorosos defensores do mercado livre preferem o planejamento à liberdade de mercado quando se trata da gestão de grandes corporações privadas. Mas trata-se de um planejamento autoritário. Tudo é definido rigidamente nas organizações capitalistas, desde a distribuição do dinheiro entre os departamentos até o tempo exato necessário para montar um hambúrguer. E em todos os casos, o planejamento determina qual trabalhador individual fará qual tarefa, quando, onde e como.

Os enormes lucros dessas empresas mostram que o planejamento econômico também pode funcionar para a sociedade como um todo, desde que voltado para o bem comum, aproveitando os avanços da cibernética e com os meios de produção sob controle dos trabalhadores.

O planejamento estatal é incompatível com o capitalismo, não com a administração socializada das necessidades, capacidades e potencialidades da sociedade humana.

Leia também: A República Popular do Walmart

3 de junho de 2024

Retroengenharia: o capitalismo precisa ser desfeito

Voltando ao tema geoengenharia, no lugar de adotar remendos ambientais que ameaçam piorar o caos ambiental, que tal defender uma espécie de “retroengenharia”?

“Retroengenharia” seria desfazer aquilo que nem deveria ter sido feito. É o caso dos sistemas viários urbanos. Imagine se cada apartamento de um edifício tivesse um elevador próprio. Pois é isso o que acontece quando uma em cada duas famílias utiliza um automóvel para se deslocar nas grandes cidades. Tal como no caso do elevador, muito mais racional seria adotar um sistema de deslocamento únicos e unificado, com diversas entradas e muitos ramais, servindo a quase totalidade da população.

Esse sistema já existe. Chama-se transporte público. O problema é que os investimentos em sua manutenção e ampliação jamais receberam a mesma prioridade destinada à infraestrutura voltada para o transporte individual. Afinal, a indústria automobilística precisa manter e ampliar seus lucros. O mesmo vale para as petroleiras e, agora, para a indústria de componentes para automóveis elétricos.

Mas a simples adoção dessa lógica não é necessariamente positiva. Os primeiros computadores pessoais eram máquinas isoladas, cheias de programas e dados redundantes. Mais tarde, passaram a se comunicar, compartilhando tarefas e informações pela internete.

Claro que houve ganhos de racionalidade, rapidez e eficiência. Mas para quem e com que objetivos? Basta observar como o imenso poder dos monopólios que controlam os dados e algoritmos provoca um enorme estrago social e econômico.

O motor do atual sistema são os lucros em benefício de uma elite cada vez menor. A engenharia que não funciona para a grande maioria da humanidade é a do capitalismo. Retroengenharia nele!

Leia também: Geoengenharia: falsa solução para a crise climática

22 de maio de 2024

Em nossos corpos, poeira de estrelas da morte

A 3M Corporation fabrica de tudo, desde lixas até esponjas de cozinha, além de fita adesiva e post-its. Muitos desses utensílios fabricados pela empresa contêm produtos químicos fluorados (PQFs), classificados entre os elementos químicos eternos, chamados assim porque permanecem na natureza e nos organismos vivos por muitos anos.

No final da década de 1970, os próprios cientistas da 3M descobriram que o PQFs são tóxicos para animais e se acumula em organismos humanos. Ainda assim, a empresa continuou a produzir toneladas da substância por ano. Entre 1951 e 2000, foram pelo menos 52 toneladas de PQFs. Aproximadamente, o peso do Titanic.

As informações acima estão em uma reportagem publicada na revista The New Yorker, em 21/05/2023. Escrita por Sharon Lerner, o texto relata “como executivos da 3M descobriram – e depois ajudaram a esconder – os perigos dos produtos químicos que a sua empresa criou”.

Sharon informa que os fluoroquímicos tiveram sua origem no esforço americano para construir a bomba atômica. Após a guerra, a 3M contratou alguns cientistas do Projeto Manhattan e começou a produzir moléculas de átomos de carbono e de flúor. Os produtos resultantes provaram ser surpreendentemente versáteis, em parte porque resistem ao óleo, à água e ao calor. Também se mostraram incrivelmente duradouros, o que lhes valeu o apelido de “produtos químicos eternos”.

Atribui-se ao astrônomo Carl Sagan a frase que afirma sermos “todos feitos de poeira estelar”. Na época em que ele disse isso, já vivíamos a fase do imperialismo bélico nuclear, em que o capitalismo impregna nossos corpos com partículas de estrelas da morte, como a de Hiroshima.

Leia também: Oppenheimer e a bomba mais eficiente

21 de março de 2024

Ada Lovelace, criadora do algoritmo cibernético

Ela é considerada a criadora do primeiro algoritmo cibernético da história. Filha do poeta Lorde Byron e da frequentemente esquecida matemática Anne Isabella Milbanke, Ada Lovelace foi assistente do pioneiro da computação Charles Babbage. Ambos trabalhavam na engenharia de produção da indústria de tecelagem da Londres do século 19.

Ada elaborou um conjunto de instruções a serem executadas por teares mecânicos que teve papel fundamental para a ciência da computação. Ela, porém, dava a essas instruções o nome de “diagrama” no lugar de “algoritmo”.

As operações que Ada criou incluíam a manipulação abstrata de qualquer entidade, não apenas de números. Desse modo, atribuiu um significado mais amplo para a definição de automação. Esta concepção de uma máquina que manipula símbolos de acordo com regras levou a uma transição fundamental das operações de cálculo para a computação de uso geral.

Infelizmente, tanto as contribuições de Babbage como as de Ada pertencem a uma época em que as hierarquias sociais e as apropriação dos saberes dos trabalhadores foram mistificadas e ocultadas pelo culto à genialidade de cientistas a serviço da burguesia. Como disse o historiador da computação Simon Schaffer, “Lovelace nunca viu maiores problemas na substituição da inteligência dos tecelões por uma série de cartões de programa, nem no desemprego a que foram condenados muitos trabalhadores qualificados de Londres.”

As informações são do livro “The Eye of the Master: A Social History of Artificial Intelligence” ou “O Olho do Mestre: Uma História Social da Inteligência Artificial”. Ainda sem tradução para o português, a obra é do filósofo italiano Matteo Pasquinelli e será tema de novas pílulas em breve.

Leia também: Racismo e machismo na conquista espacial

12 de março de 2024

Cessar-fogo e lucros cessantes

Os editoriais condenam a decisão do governo de reter o pagamento de dividendos aos acionistas da Petrobrás. A medida foi tomada pensando nos objetivos de longo prazo da estatal. Mas longo prazo é um conceito que não entra na cabeça tacanha dos grandes acionistas privados da petroleira. Tubarões gordos sempre famintos.

Outra notícia com repercussão bem menor foi a morte de um trabalhador de um galpão do gigante varejista Mercado Livre. Ele teria cometido suicídio, mas seus colegas foram obrigados a continuar trabalhando normalmente.

O que ambos os acontecimentos têm em comum? A lógica capitalista. Sejam as obrigações da Petrobrás em relação aos interesses públicos, seja a perda de uma vida, nada pode se deter diante da necessidade de manter elevada a rentabilidade que beneficia interesses privados.

No capitalismo, impera a ditadura do lucro. E não só nas tragédias ou decisões empresariais. Para que servem as fábricas de sapatos? Para calçar as pessoas? Não, para lucrar com a venda de calçados. O mesmo vale para as indústrias de alimentação e imobiliária. Aos milhões de desnutridos e sem-tetos não basta serem humanos se não forem consumidores.

A economia capitalista faz das necessidades vitais mero meio para gerar lucro abundante para alguns poucos. E não se trata apenas da vida humana, como demonstram os desastres ambientais.

Mas há um ramo econômico em que isso fica tragicamente explícito. A indústria armamentista multiplica seus ganhos na proporção direta em que destrói vidas. Seja nos conflitos entre países, seja no interior deles. Tanto em Gaza, Ucrânia, Sudão como nas periferias urbanas não há cessar-fogo porque isso implicaria lucros cessantes.

Leia também: O consumo como ameaça à humanidade

27 de fevereiro de 2024

Fé e Fuzil: o crime como modo capitalista de funcionamento

Já comentamos o estatuto que rege o funcionamento do PCC, a partir de informações do livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Segundo este autor, trata-se da “governança do PCC”, com a qual “procurava-se garantir a justiça e a concorrência entre os irmãos, cabendo à mão invisível do mercado ilegal empurrar seus membros para uma ação mais racional e lucrativa”.

O bandido impulsivo, com sangue nos olhos, disposto a matar ou morrer, diz Manso, tinha dado lugar a uma gama de profissionais, como doleiros e advogados capazes de comprar fazendas, postos de gasolina, bares e emissoras de rádio que podiam esquentar o capital fazendo apostas em sites esportivos, criando contas-laranja, investindo em criptomoeda, paraísos fiscais, empresas e imóveis.

Afinal, informa o autor, já que crimes e dinheiro ilegal são inevitáveis, o jeito era enquadrar os criminosos dentro de certos limites para diminuir os danos. Se o dinheiro viesse do crime, mas o ladrão seguisse uma ética mínima, evitando a violência quando possível, emprestando dinheiro e empreendendo em negócios legais, as portas do sistema se abririam para ele. Foi o que aconteceu.

Foram encontrados fortes indícios de participação do PCC em empresas de transporte alternativo em São Paulo. O mesmo acontecendo no Rio, mas, neste caso, sob controle das milícias. O objetivo principal? Criar firmas legais para lavar dinheiro e desviar recursos públicos.

Tudo isso sem preferências partidárias. A criminalidade empreendedora interage com representantes da esquerda e da direita. Afinal, ambas precisam de dinheiro para vencer eleições, conclui Manso.

Tá errado? Sim, muito. Mas o crime sempre fez parte do modo capitalista de funcionamento.

Leia também: Fé e Fuzil: PCC, religião e racionalidade

22 de fevereiro de 2024

A aposta de 1 bilhão de dólares na barbárie

Em 16/02/2024, Pedro Doria publicou o artigo “Como lidar com riqueza digital?”. Segundo o texto, recentemente Sam Altman, alto executivo da empresa de Inteligência Artificial OpenAI, deu uma entrevista em que declarou:

No meu grupo de chat com outros executivos de tecnologia temos um bolão para ver quem acerta o ano em que teremos a primeira empresa que vale US$ 1 bilhão com uma só pessoa.

Em seguida, o colunista explica que até 20 anos atrás, companhias avaliadas em US$ 1 bilhão tinham “parques fabris espalhados pelo planeta e centenas de milhares de funcionários”.

Já as atuais corporações tecnológicas que chegaram ao US$ 1 bilhão empregam somente algumas dezenas de milhares de trabalhadores. Agora, a utilização da inteligência artificial possibilitaria criar firmas com valor de mercado bilionário, empregando uma única pessoa, seu proprietário.

O articulista afirma que tais companhias poderiam ser pesadamente taxadas. Desse modo, financiariam um programa de renda mínima universal para socorrer os que tiverem seus empregos eliminados. Só que essa conta não fecha. O mesmo neoliberalismo que incentivou a criação dessas enormes corporações eliminadoras de empregos é especialista em transferir a carga fiscal do grande capital para os trabalhadores.

Claro que ainda há diversas atividades que exigem muita força de trabalho humana. Mas que a atual vanguarda tecnológica da economia capitalista trabalhe para aumentar ainda mais a concentração de patrimônio e riqueza mostra o tipo de sociedade que pretende construir.

E confirma que o propósito maior da inteligência artificial é descartar trabalho humano, contribuindo para condenar grandes parcelas da população ao subemprego, superexploração e desemprego.

A verdadeira aposta é na barbárie.

Leia também: Inteligência artificial e trabalho mal pago

9 de janeiro de 2024

Distopia capitalista: do gemido ao estrondo

Distopia vem do grego e pode ser traduzida como um lugar ruim, mas imaginário. Há décadas, tornou-se tema favorito de filmes, peças, séries, livros e quadrinhos. Geralmente, ambientados em um cenário pré ou pós-apocalíptico.

Elementos clássicos dessas tramas ficcionais são enorme repressão estatal, robôs e dispositivos eletrônicos descontrolados, vigilância e controle cibernéticos da vida social, multidões de miseráveis, hordas de criminosos, a sociedade dominada pela lei do mais forte, pandemias, hecatombes naturais, crises climáticas, extinções em massa, insanidade mental generalizada, minúsculas elites ricas, poderosas e fortemente protegidas.

A questão é que esse lugar ruim já deixou de ser imaginário há muito tempo. É só olhar em volta: caos violento nas cidades, desemprego e precarização, ilhas de prosperidade em oceanos de miséria, truculência policial contra pobres, facções e milícias criminosas presentes tanto no contexto urbano, como rural. Tudo isso promovido por uma elite cada vez menor e mais poderosa.

São famosos os versos de T.S. Eliot, que afirmam: “É assim que o mundo acaba.\ Sem estrondo, num gemido.” Ou seja, diferente do que vemos nos filmes ou lemos nos livros, não há uma grande e definitiva hecatombe. Só o ruído de fundo do capitalismo funcionando, enquanto destrói grande parte da humanidade.

Mas o poeta estadunidense era branco e viveu no século 20. Bem antes disso, a distopia já era o cotidiano de grande parte da população não europeia ou anglo-saxã. Para muitos dos povos não brancos, o apocalipse das crenças religiosas da colonização branca chegou para ficar. E é com eles que temos que aprender a resistir e lutar. Respondendo com estrondo, não com gemidos.

Leia também: Sobrevivencialismo e bunkerização

10 de novembro de 2023

Elis, Lennon e a inteligência espírita

No início de novembro, foi lançada a mais recente música dos Beatles. Com ajuda da inteligência artificial, John Lennon participou da gravação, 43 anos após sua morte. Pouco tempo atrás, Elis Regina estrelou um anúncio publicitário. A greve dos atores de Hollywood terminou recentemente com um acordo que inclui proteção contra manipulações tecnológicas das imagens dos artistas após sua morte.

Nas décadas finais do século passado, uma família de espíritas fazia sucesso na TV. Um de seus membros recebia espíritos de artistas como Monet, Rembrandt e Picasso, pintando quadros fiéis ao estilo de cada um deles.

Esses pintores passaram por várias fases de criação, durante suas vidas. Mas suas manifestações pós-morte permaneciam presas ao modo de pintar que haviam desenvolvido até o momento em que morreram. Afinal, ainda que fossem indivíduos geniais, sua arte era resultado do contexto social e histórico em que viviam. Das interações com fatos e pessoas que eram seus contemporâneos. Experiências que já não estavam a seu alcance no além-vida.

Pois bem, muito pouco da genial criatividade de Lennon e Elis ou do talento dos trabalhadores da indústria audiovisual permanece viva em suas respectivas ressurreições tecnológicas. A inteligência artificial não passa da mais nova encarnação da velha apropriação capitalista do trabalho vivo para transformá-lo em trabalho morto. Trata-se de sepultar a criatividade que resulta das relações humanas em ataúdes tecnológicos feitos para proporcionar mais lucros a poucos, em prejuízo do bem-estar e da dignidade da grande maioria.

A inteligência artificial só é capaz das façanhas que testemunhamos hoje porque desde seu nascimento o capitalismo vem sequestrando e matando a criatividade humana.

Leia também: Inteligência artificial e perfídia capitalista

7 de novembro de 2023

Micro-lição de cinismo capitalista

A série é “A queda da Casa de Usher”, exibida pela Netflix. As palavras abaixo estão no terceiro episódio, ditas por Roderick Usher, personagem principal, ao se deparar com um famoso ditado:

Quando a vida te der limões, faça uma limonada? Não. Primeiro você torna escassa a oferta de limões, o que só acontece se você os estocar, controlar seu fornecimento e fazer uma campanha de mídia dizendo: limão é a única maneira de dizer “eu te amo”. É o acessório indispensável para noivados ou aniversários. Rosas estão por fora, limões estão na moda. Ela não fará sexo com você a menos que você tenha limões. Lance pulseiras de limões de ouro com edição limitada e diamantes chamados gotas de limão. Faça com que a Apple chame seu novo sistema operacional de OS-Lemon. Encha o Capitólio com lobistas de limão e faça com que uma Kardashian chupe uma rodela de limão em um vídeo de sexo que vazou. Um astro de cinema usando sapatos cor de limão em Cannes. Legal, irado, demais? Não. Limão. “Você viu aquele filme? Você viu aquele show? Foi muito limão!”. Aí, você obtém uma patente genética para a sequência de DNA do limão. Faz polinização cruzada. Faz com que essas sementes circulem na natureza, e então, processa o agricultor por violação de direitos de propriedade quando esse código genético aparecer nas terras dele. Sente-se, arrecade milhões e, quando terminar, e tiver vendido seu império cítrico por alguns bilhões de dólares, então, e só então, você fará a porra da limonada.

Verdade ácida proporcionada pelo entretenimento capitalista, cada vez mais cínico.

Leia também: O espelho escuro do capitalismo

15 de setembro de 2023

Capitalismo, arqueologia, mandantes e executores

Uma das tarefas da arqueologia dos tempos contemporâneos é reconstituir ligações e genealogias, diz Alfredo Gonzalez-Ruibal, em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”.  

Segundo ele, o desempenho dessa função assemelha-se à crítica do fetichismo proposta por Marx. Na maioria dos casos, as ligações já são vagamente conhecidas, mas esquecidas: dissociamos as mercadorias das suas origens obscuras e da violência dos seus efeitos. É por isso que nos sentimos tão chocados quando somos forçados a comparar o contexto do consumo de mercadorias ao das suas condições de produção.

As ligações entre o consumo de carne bovina e a destruição da Amazônia, por exemplo, são sistematicamente apagadas, e esse apagamento é essencial para a continuação e expansão do sistema capitalista, cujo caminho de destruição é “apagado, escondido ou ignorado”

Em 2006, Gonzalez-Ruibal trabalhou em um projeto arqueológico em acampamentos madeireiros e fazendas de gado estabelecidas ilegalmente dentro de uma reserva indígena no Maranhão. Foram mapeadas áreas desmatadas, rotas e acampamentos de madeireiros e inventariados os diversos objetos que ficaram para trás após uma operação policial. A “feiura” da floresta violada, os rios sujos e a miséria dos acampamentos contrastam com o luxo dos móveis feitos com madeiras “nobres” e o alegre consumo de carne no Brasil e em outros lugares.

O caso acima exemplifica como, muitas vezes, a modernidade torna difícil estabelecer as ligações entre crimes ambientais, de um lado, e consumismo glamourizado, do outro.

Ou seja, entre os mais importantes mecanismos de manutenção do capitalismo está o ocultamento das relações entre mandantes e executores. Não poucas vezes, apelando aos sangrentos préstimos de jagunços e capangas.

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27 de julho de 2023

Oppenheimer e a bomba mais eficiente

Chegou aos cinemas o filme sobre o grande responsável pela criação da bomba atômica. No grandioso “Oppenheimer”, Christopher Nolan coloca o público em contato com os principais personagens, impasses e polêmicas envolvendo a mais terrível arma já inventada.

Mas o poder das bombas que destruíram Hiroshima e Nagasaki não está no número de vítimas que fizeram em agosto de 1945. As mortes diretas causadas por elas foram cerca de 110 mil. Já o bombardeio de Tóquio, ocorrido no ano anterior, tirou a vida de pouco mais de 100 mil pessoas.

Portanto, a grande diferença entre elas é outra. O bombardeio de Tóquio levou meses, fazendo uso de milhares de bombas e dezenas de aviões. Hiroshima e Nagasaki exigiram apenas dois artefatos, duas aeronaves e alguns minutos. Um enorme ganho de eficiência, segundo critérios de racionalidade que fariam inveja aos nazistas.

Mas a comparação também mostra que a lógica da guerra nuclear já estava presente antes da invenção de seus armamentos. Trata-se da indiferenciação entre alvos militares e civis.

Na Segunda Guerra ficou mais claro do que nunca. Para derrotar o inimigo é preciso minar todos os seus recursos. E entre os mais estratégicos destes, estava a força de trabalho. Necessária não apenas na indústria bélica, mas em todo o esforço exigido por uma economia voltada para a guerra.

Derrotar o fascismo era fundamental, sem dúvida. Mas para o imperialismo estadunidense foi mais importante deixar uma advertência para os soviéticos e as heroicas forças populares da resistência comunista. A vitória dos Aliados não foi a da democracia e da liberdade. Foi da máquina de morte mais eficiente.

Leia também: Nas origens da Inteligência Artificial, uma bomba de hidrogênio

25 de julho de 2023

O consumo como ameaça à humanidade

Acabou de aparecer na imprensa. Com 1,6 milhão de metros quadrados, um gigantesco lixão situado no Pacífico tem tamanho equivalente ao do estado do Amazonas. A quase totalidade desses detritos é formada por plástico. Material que se tornou o grande vilão da sujeira ambiental.

Diante dessa tragédia, uma medida importante seria diminuir drasticamente a utilização do plástico. Principalmente, nas embalagens, tão presentes em nosso consumo diário, atualmente. Mas um estudo escocês mostra que não é bem assim.

Segundo a pesquisa, sacolas plásticas, quando comparadas a suas equivalentes em papel, geram menos gases de efeito estufa, assim como consomem menos água e energia em seu processo de fabricação.

Mas as surpresas não param por aí. Em 19/07/2023, o New York Times divulgou estudo que demonstra que “Vazamentos de gás natural podem ser tão ruins para o clima quanto o carvão”. Considerado alternativa limpa ao carvão, bastam “que apenas 0,2% de gás natural vaze para que ele se torne um fator de mudança climática tão grande quanto o carvão”, concluiu a pesquisa.

O fato é que o maior problema em relação à sustentabilidade ambiental não diz respeito apenas aos materiais e recursos utilizados. É a escala e velocidade da circulação de capital. Para manter as taxas de lucros dos grandes monopólios, o consumo precisa ocorrer em ciclos cada vez mais curtos, massivos e sujos.

Não basta apenas estimular hábitos sustentáveis de consumo, se o próprio consumo continuar sendo a razão de ser da humanidade e uma das grandes ameaças a sua existência enquanto espécie.

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7 de junho de 2023

Inteligência artificial e alienação social

Não é verdade que o que distingue o ser humano dos outros animais é o uso das ferramentas. Mas elas certamente desempenham um papel fundamental, funcionando como extensões e aperfeiçoamentos dos atributos de nossa espécie.

É o martelo imitando o punho, a faca potencializando os dentes, a lança ampliando o alcance dos braços ou as rodas aumentando a velocidade de nossos deslocamentos. O advento das máquinas-ferramenta tornou possível ultrapassar muito nossas capacidades naturais.

Em meados do século passado, surgiu o computador, que tenta mimetizar o cérebro. Seria apenas uma tentativa frustrada, se a alienação da sociedade capitalista não tivesse conseguido rebaixar nossa inteligência até nos tornar dependentes da burrice cibernética.

Mas como sempre dá pra piorar, surgiu a inteligência artificial. Já é possível, por exemplo, definir alguns parâmetros e deixar que algoritmos autodidatas façam o trabalho de multidões de tarefeiros intelectuais. Quase todos condenados ao desemprego, evidentemente.

Outro risco muito provável é deixar essa novíssima ferramenta decidir o que é verdadeiro ou não. Com o agravante de que para os algoritmos a verdade é aquilo que se encaixa nos padrões mais conservadores e preconceituosos da vida social. Além disso, há a possibilidade de que as campanhas eleitorais se transformem em uma disputa entre poucas e poderosas máquinas cibernéticas de marketing político. O vitorioso seria o proprietário do aplicativo mais eficiente.

Claro que nada disso seria possível, se um dos principais fundamentos da sociedade capitalista não fosse a separação entre trabalhadores e meios de produção, incluindo suas ferramentas. Separação que se manifesta como alienação política, ao manter a democracia fora do alcance da grande maioria.

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3 de junho de 2023

As fake news e a realidade grávida

Combater as fake news apelando às verdades cínicas do capitalismo é trocar a farsa pelo logro. Mas se os que se aproveitam dessa falência cognitiva são os conservadores e suas tropas fascistas, é o próprio sistema que roda em falso desde que surgiu.

A burguesia nasceu bradando “liberdade, igualdade e fraternidade”. Nada mais que cantos traiçoeiros para atrair o apoio da plebe contra seus desafetos aristocratas. Uma vez no poder, os senhores endinheirados fraudaram suas promessas de emancipação generalizada.

Ao longo do tempo, essa comédia grosseira vem conseguindo envolver as forças da resistência popular. Principalmente, ao oferecer uma democracia meramente cenográfica. Diante disso, só o foco na luta de classes permite enxergar o real em meio às seduções do ilusionismo institucional.

Por outro lado, os explorados e oprimidos tampouco foram ungidos pela clarividência divina. Mas, mesmo involuntariamente, são arrastados para a luta imposta por um sistema que fabrica injustiça e frustrações em escala industrial. Nesses momentos, descobrem como combater, combatendo.

Se Marx dizia que o concreto é produto de múltiplos fatores, também chamou o proletariado mundial a se unir e lutar. E se as determinações do capital subjugam toda a humanidade, somente suas maiores vítimas podem fazer valer os elementos concretos da realidade capazes de impedir a completa instalação da barbárie.

O real não está em disputa nas redes, ainda que estas façam parte daquele. Não é embate de narrativas. É luta de classes e enfrentamento ideológico. Segundo, Rosa Luxemburgo o presente pode ficar grávido de futuro pela ação militante consciente e combativa. E é somente essa ação que pode deixar a realidade prenhe de verdade.

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