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6 de agosto de 2024

Lênin: organização ampla e flexibilidade tática

Como internacionalista convicto e maior liderança da Revolução Russa, Lênin tornou-se a principal referência de revolucionários no mundo todo. Durante o 3º Congresso da Internacional Socialista, em 1921, ao discutir com camaradas italianos, alemães e outros, ele fez a seguinte observação:

Terracini diz que fomos vitoriosos na Rússia, embora nosso partido fosse muito pequeno. O camarada entendeu muito pouco a revolução russa. Na Rússia, éramos um partido pequeno, mas tínhamos conosco, a maioria dos Sovietes de Deputados Operários e Camponeses em todo o país. Fomos vitoriosos na Rússia não apenas porque a maioria indiscutível da classe trabalhadora estava do nosso lado (durante as eleições de 1917, tivemos uma votação esmagadora contra os mencheviques), mas também porque metade do exército, imediatamente após a tomada do poder, e 90% dos camponeses, no decorrer de algumas semanas, passaram para o nosso lado...

Já em seu panfleto “Comunismo de Esquerda”, Lênin enfatizou que ”a história como um todo, e a história das revoluções em particular, é sempre mais rica em conteúdo, mais variada, mais multiforme, mais viva e engenhosa do que imaginam até mesmo os melhores partidos”.

Ainda segundo Lênin, os “verdadeiros revolucionários” não devem perder de vista os objetivos que compartilham com os camaradas ao redor do mundo. Devem levar em conta “as características concretas que esta luta assume em cada país, em conformidade com o caráter específico de sua economia, política, cultura, composição nacional, divisões religiosas, e assim por diante”.

Ou seja, Lênin nunca defendeu o partido como organização cuja influência deveria se limitar aos revolucionários convictos nem fórmulas rígidas e válidas para todas as revoluções.

Leia também: Lênin e a dialética das revoluções

1 de agosto de 2024

O colapso do planejamento soviético

Em seu livro “The People's Republic of Walmart”, Leigh Phillips e Michael Rozworski afirmam que as guerras e o planejamento econômico têm uma longa história em comum. E os grandes conflitos do século 20 exigiram planejamento e inovação em grande escala, impulsionados pelo setor público.

Não à toa, a estatização das fábricas russas, pouco depois da Revolução Russa, aconteceu durante um período chamado de “comunismo de guerra”. Cercado por quase duas dezenas de exércitos imperialistas, restavam poucas opções ao poder soviético, se não uma pesada intervenção estatal para concentrar os esforços econômicos na defesa da revolução.

Criado em fevereiro de 1921, o Comitê Estatal de Planejamento foi encarregado de elaborar um plano econômico único para toda a União Soviética. Para isso, criou aquele que provavelmente foi o primeiro sistema de contas nacionais da história.

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, pode-se dizer que a União Soviética já funcionava como uma única fábrica abarcando um território correspondente a um sexto do mundo.

O planejamento se mostrou eficaz em relação às decisões brutas e de larga escala necessárias a indústrias básicas como mineração, siderurgia, manufatura pesada e geração de eletricidade. Mas com o fim da guerra, os itens de consumo se tornaram prioridade. O número de mercadorias explodiu, junto com a complexidade de rastrear, avaliar e reconciliar todos os fatores de produção, reduzindo as probabilidades de erro.

Se o planejamento soviético se baseasse em mecanismos democráticos e transparentes de decisões e informações, esses obstáculos poderiam ter sido superados. Mas décadas de autoritarismo stalinista cobraram seu preço e o sistema começou a estagnar, a caminho do colapso.

Leia também: O caótico planejamento soviético

25 de julho de 2024

Lênin e a dialética das revoluções

Em dezembro de 1917, Gramsci publicou um artigo chamado “A revolução contra o Capital”. O “Capital” de que fala o título era a famosa obra de Marx. O revolucionário italiano considerava a façanha bolchevique uma negação das conclusões simplistas deduzidas das elaborações de Marx.

Segundo tais conclusões, revoluções socialistas somente seriam possíveis em nações altamente industrializadas, como Inglaterra, França, Alemanha. Países “atrasados”, como a Rússia, teriam que superar algumas etapas. Primeiro, industrialização e democracia, a cargo da burguesia. Depois, socialismo e liberdade, conquistados pelos trabalhadores.

Marx nunca disse que a revolução só seria possível em países em que o capitalismo alcançasse seu auge. O mais importante não é o nível de desenvolvimento do capitalismo, mas seu caráter contraditório. Tanto é assim que Marx achava mais provável acontecer uma revolução na Alemanha, cujo desenvolvimento industrial era bem menor que o da Inglaterra, mas que apresentava contradições mais radicais entre o que o capitalismo prometia e aquilo que entregava.

A partir desse entendimento, Lênin criou a “teoria do elo mais fraco da cadeia imperialista”, segundo a qual o capitalismo é uma totalidade mundial cuja integridade pode ser abalada pelo rompimento de seus elementos mais frágeis. Na época, a Rússia seria um desses elos fracos.

Essa dinâmica do funcionamento capitalista escapava a muitos marxistas dos países da Europa ocidental. Por eles, não apenas a revolução russa não teria ocorrido, como qualquer outra seria adiada indefinidamente. Aliás, foi o que aconteceu.

A mesma dialética explica tanto a ousadia da vanguarda de um país “atrasado” como a tacanhez de sua equivalente nos países “avançados”. É a dialética das revoluções.

Leia também: Lênin contra cancelamentos

20 de julho de 2024

Lênin contra cancelamentos

Logo após a Revolução Russa de 1917, um dos debates que tomou conta do partido bolchevique envolvia a necessidade da construção de uma cultura proletária. Uma proposta que pretendia negar radicalmente a “decadente cultura burguesa”. Tudo o que representava aquilo que a revolução havia derrotado deveria ser simplesmente substituído pela “cultura proletária” ou “Proletkult”.

Lênin era frontalmente contrário a essa política e escreveu uma proposta de resolução intitulada “Sobre a Cultura Proletária”. Publicado em 9 de outubro de 1920, um trecho do texto afirmava:

O marxismo ganhou seu significado histórico universal como a ideologia do proletariado revolucionário porque não rejeitou de forma alguma as conquistas mais valiosas da época burguesa, mas, ao contrário, assimilou e reformulou tudo o que era de valor em mais de dois mil anos de desenvolvimento do pensamento e da cultura humanos. Somente o trabalho posterior nessa base e nessa direção, inspirado pela existência prática da ditadura do proletariado como a luta do proletariado contra toda exploração, pode ser considerado como o desenvolvimento de uma cultura verdadeiramente proletária.

A resolução foi aprovada pelo 1º Congresso de Toda a Rússia da Proletkult, realizado em outubro de 1920. Mas essa elaboração acabaria sendo derrotada na década seguinte pela imposição do realismo socialista. Uma concepção grosseira, parte integrante da onda contrarrevolucionária que tomou conta da sociedade soviética.

De qualquer modo, é importante lembrar como Lênin concebia a forma dialética em que o velho e o novo se relacionam. Afinal, se o principal líder de uma ruptura radical como a revolução bolchevique era contra cancelamentos, quem somos nós pra dizer o contrário.

Leia também: Lênin, ocupado demais fazendo a revolução

11 de julho de 2024

Lênin, ocupado demais fazendo a revolução

No 100º ano da morte de Lênin, é importante destacar uma de suas obras mais importantes: “O Estado e a Revolução”.

Em seu livro “Lênin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, Paul Le Blanc lembra que a obra foi escrita a partir de algumas conclusões de Marx e Engels sobre a experiência da Comuna de Paris. A mais importante delas, a de que a dominação política pela classe trabalhadora exigiria uma nova máquina estatal radicalmente democratizada.

No livro, Lênin diz:

A partir do momento em que todos os membros da sociedade, ou pelo menos sua grande maioria, aprenda a administrar eles próprios o Estado, tomem este trabalho nas suas mãos, organizem o controle sobre a insignificante minoria capitalista, sobre a pequena nobreza que deseja preservar seus privilégios e sobre os trabalhadores que foram completamente corrompidos pelo capitalismo – a partir deste momento, a necessidade de qualquer tipo de governo começa a desaparecer completamente.

Além disso, o líder bolchevique afirma: “Para Marx, o proletariado precisa apenas de um Estado que esteja constituído de tal forma que comece a definhar imediatamente”. Infelizmente, até hoje, isso nunca se concretizou.

Mas Lênin jamais concluiu a segunda parte de “O Estado e a Revolução”. Em um posfácio à obra, escrito em novembro de 1917, logo depois da vitória dos sovietes, ele explica o motivo:

A redação da segunda parte deste panfleto (...) provavelmente terá de ser adiada por muito tempo. É mais agradável e útil viver a “experiência da revolução” do que escrever sobre ela.

Quanto a isso, Lênin tinha toda razão. Muito melhor que teorizar sobre revoluções, é realizá-las.

Leia também: Lênin, o revolucionário que sabia recuar

20 de junho de 2024

Os jornais falados dos bolcheviques

As informações que seguem abaixo são de uma matéria publicada no blog Rússia Beyond. O texto fala sobre um fenômeno muito interessante ocorrido na Rússia soviética das décadas de 1920 e 1930.

Após a Revolução de 1917, apenas 20% da população russa era alfabetizada. Uma das principais tarefas dos bolcheviques foi a eliminação do analfabetismo. Mas ensinar as pessoas a ler não é uma tarefa rápida, e a propaganda soviética não podia esperar. Afinal, o público-alvo era justamente a população analfabeta: trabalhadores, camponeses e soldados. Além disso, os bolcheviques não tinham recursos suficientes para a impressão de jornais. Para resolver esse problema, o governo revolucionário criou os “jornais falados”.

No início, esses jornais eram lidos em voz alta para grandes grupos de pessoas. No entanto, mesmo a leitura oral exigia muita criatividade dos oradores para o público não cair no tédio ou na desatenção. O aperfeiçoamento das técnicas de apresentação acabou se transformando em atuação teatral.

Mesmo após a eliminação do analfabetismo, os jornais falados continuaram a se apresentar em parques e casas de cultura por toda a União Soviética. O sucesso foi tão grande que “jornais ao vivo” existiram até a década de 1930, dando origem a um grande número de grupos de teatro amador para sua divulgação. Com o passar do tempo, as apresentações se tornaram mais complexas, tanto em conteúdo quanto na qualidade de sua produção.

É verdade que tudo isso ocorreu somente após a vitória da revolução, mas serve como inspiração para a construção de uma comunicação voltada aos explorados e oprimidos em sua luta contra o capitalismo.

Leia também: O Pravda enganando a perseguição czarista

4 de junho de 2024

Mais parteiras da revolução: Konkordia e Vera

Abaixo, novos relatos do livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid.

Uma grande lutadora bolchevique em defesa dos direitos das mulheres foi Konkordia Samoilova. Em 1903, quando fazia um trabalho militante entre ferroviários de Baku, ela foi acusada por algumas das esposas deles de tentar “roubar” seus maridos. O incidente ajudou a convencê-la da necessidade de concentrar-se no trabalho junto às mulheres da classe trabalhadora.

Dez anos mais tarde, Konkordia desempenhou papel fundamental na organização da primeira manifestação do Dia Internacional da Mulher na Rússia. Embora ela tivesse dificuldades em convencer seus camaradas bolcheviques a apoiarem suas ações, a persistência e seriedade de sua atuação conseguiu atrair muitas trabalhadoras.

Konkordia ajudou a fundar o “Rabotnitsa”, jornal bolchevique voltado para as mulheres operárias. Nessa condição, desenvolveu atividades de educação política através de cursos voltados às das trabalhadoras das fábricas. Trabalho que seria fundamental para a criação da seção feminina do partido. Konkordia morreria em 1921, aos 43 anos, vítima de cólera.

Assim como Nádia Krupskaya, esposa de Lênin, Vera Slutskaia atuava no importante distrito industrial de Vyborg, em Petrogrado. Inicialmente, ela resistia à organização separada das mulheres. Mas, diante da decisiva participação feminina na Revolução de Fevereiro, ela passou a organizar as trabalhadoras a fim de manter o seu impulso revolucionário.

Vera ajudou a promover grandes comícios de mulheres em Vyborg, mostrando ao partido bolchevique que era necessário criar uma sessão especial para coordenar esse trabalho. Perdeu a vida defendendo a Revolução de Outubro, logo depois da tomada do poder pelos sovietes.

Essas são apenas duas das muitas guerreiras anônimas que foram fundamentais para a vitória bolchevique.

Leia também: As mulheres bolcheviques e o machismo bolchevique

25 de maio de 2024

As mulheres bolcheviques e o machismo bolchevique

Em seu livro “Parteiras da Revolução”, Jane McDermid lembra que, embora seu ideal de militante revolucionário fosse o homem operário da grande indústria, os bolcheviques foram os primeiros a notar o surgimento da combatividade proletária em setores como o de serviços. Entre estes, se destacavam as mulheres empregadas em lavanderias. Foi assim que uma das principais organizadoras bolcheviques, Alexandra Kollontai, passou a concentrar grande parte do seu esforço no trabalho junto a elas.

Outra notável militante bolchevique foi Sofia Goncharskaia, que nasceu em uma família de mineiros de carvão. Tendo sido exilada no período posterior à Revolução de 1905, ela regressou a Petrogrado depois da Revolução de Fevereiro de 1917, assumindo a tarefa de organizar as lavadeiras. Percorreu as principais lavanderias da cidade, buscando convencendo suas trabalhadoras a aderir à greve de maio daquele ano, importante marco da resistência proletária ao governo provisório.

Anastasia Deviatkina foi mais uma militante bolchevique valorosa, desempenhando papel fundamental na organização das esposas dos combatentes russos, desde o início da Primeira Guerra. Um trabalho que levaria à criação de uma aguerrida associação de esposas de soldados, após o levante de fevereiro de 1917.

A intervenção das militantes bolcheviques e de outras organizações de esquerda foi essencial também em setores com maioria feminina, como as tecelãs.

O fato é que por melhores que fossem as intenções dos militantes homens, seu comportamento em relação às trabalhadoras muitas vezes refletia o tratamento desrespeitoso que elas recebiam dos capatazes e patrões.

A participação das trabalhadoras foi decisiva para a vitória em 1917, mas não aconteceu graças aos homens bolcheviques. Aconteceu apesar deles.

Leia também: Parteiras da revolução: as irmãs Ulianova

14 de maio de 2024

Parteiras da revolução: as irmãs Ulianova

Anna e Maria Ulianova não foram apenas irmãs de Lênin, mas suas colaboradoras, participando durante muitos anos do trabalho de propaganda e agitação dos bolcheviques.

Tornaram-se integrantes do comitê central bolchevique e contribuíram para o jornal do partido que era dedicado às mulheres trabalhadoras, o “Rabotnitsa” (“A mulher trabalhadora”). Após a Revolução de Fevereiro de 1917, elas ajudaram na produção do Pravda, para o qual escreveram textos e artigos.

Embora sua trajetória no movimento revolucionário tenha sido ofuscada pelo papel crucial do irmão, a atuação delas foi fundamental para a sobrevivência e eficácia de uma organização cujo líder foi jogado na clandestinidade e no exílio pela repressão czarista.

Anna revisou todos os livros de Lênin até 1917. Desempenhou um papel importante na manutenção da imprensa partidária, especialmente em julho daquele ano, quando sua gráfica foi invadida pelo governo.

Infelizmente, nem elas escaparam à sobrecarga imposta pelo acúmulo de tarefas entre trabalho, militância e serviços domésticos. Maria, cuidando da mãe idosa, enquanto Anna desempenhava o típico papel de esposa junto a seu marido, militante revolucionário como ela.

As mulheres na vida de Lênin parecem ter aceitado sua condição de auxiliares, tanto na política como na organização partidária. Mas isso não impediu que fizessem contribuições vitais para o movimento revolucionário que eclodiu em 1917. Pena que continuem sem o devido reconhecimento.

Mesmo em meio a todas essas dificuldades, militantes revolucionárias, como Maria e Anna, foram essenciais para que o estado soviético adotasse a legislação mais avançada do mundo em relação aos direitos das mulheres.

Este é mais um relato do livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid.

Leia também:
Não há revolução possível sem a luta das mulheres
Os bolcheviques contra a família e por liberdade sexual

10 de maio de 2024

Não há revolução possível sem a luta das mulheres

Segundo o livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid, muitos historiadores costumam considerar a Revolução de Fevereiro de 1917 como uma explosão espontânea. Afinal, ela foi produto de uma greve dirigida por mulheres e elas seriam demasiado atrasadas politicamente para se organizar conscientemente.

Ou seja, a ”espontaneidade” seria produto da ausência dos partidos políticos na organização e direção dos acontecimentos. Na verdade, as organizações socialistas nem mesmo previram aqueles momentos decisivos. Uma exceção importante eram algumas revolucionárias, incluindo as do partido bolchevique.

No período anterior à revolução, as militantes bolcheviques haviam criado núcleos de organização de trabalhadoras em toda a Petrogrado. Foram elas que decidiram transformar o Dia Internacional da Mulher em manifestação anti-guerra. As direções revolucionárias não esperavam que o resultado fosse a queda do czarismo, mas as operárias e mulheres do povo de Petrogrado já haviam percebido que a revolução estava na agenda. Não estava relegada a um futuro indeterminado, esperando a aprovação das direções partidárias.

A historiografia que adotou o ponto de vista das lutas travadas no “rés do chão”, demonstrou que, em cada fase do processo revolucionário, a sorte dos bolcheviques e de outras organizações socialistas dependia da massa de trabalhadores com pouca qualificação profissional, entre os quais estavam as mulheres trabalhadoras.

Jane afirma que sua obra “pretende mostrar que as mulheres foram parte integrante do processo revolucionário russo, desafiando as suposições de que serviram apenas para desencadear uma revolta essencialmente masculina”.

Ela cita a historiadora francesa Dominique Godineau, para quem, muitas vezes, as mulheres são apresentadas à parte dos processos revolucionários. Mas não há revolução possível sem a luta das mulheres.

Leia também: As revolucionárias russas subestimadas pelos revolucionários russos

9 de maio de 2024

As revolucionárias russas subestimadas pelos revolucionários russos

No início de 1917, com a Rússia mergulhada na Primeira Guerra, a polícia secreta czarista considerava as mulheres pobres a maior ameaça ao regime. Exaustas, ocupando intermináveis filas de pão racionado e sofrendo ao ver seus filhos esfomeados, elas formavam “uma massa inflamável que só precisaria de uma faísca para explodir”. Além disso, houve um forte aumento do número de mulheres nas fábricas, em substituição aos homens convocados para a guerra.

Essa situação passou quase despercebida pelas organizações socialistas. Mesmo os bolcheviques investiam pouco na organização da militância feminina. Uma das poucas exceções foi um panfleto escrito pelo partido para o Dia Internacional da Mulher, em 1915. A publicação chamava as trabalhadoras a parar “de sofrer em silêncio e agir para proteger seus homens”, adotando o lema “Abaixo a Guerra!”

Em vários momentos, os bolcheviques até enfatizaram que a luta por aumento salarial e redução da jornada só seria possível com a plena participação das trabalhadoras. Mas viam na luta pelas questões especificas das mulheres uma ameaça à unidade operária.

Em fevereiro de 1917, a direção bolchevique orientou as trabalhadoras a priorizar a organização do 1º de Maio em prejuízo do Dia Internacional da Mulher. Pois foi exatamente este o dia escolhido por operárias têxteis para iniciar uma grande greve, que detonaria a primeira fase da Revolução Russa.

Nem assim, a luta das mulheres conquistou o respeito que merecia. Aquela paralisação decisiva ainda é considerada por muitos apenas uma explosão social espontânea.

O relato acima está no livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid. Obra que voltaremos a comentar, em breve.

Leia também: Alexandra Kollontai contra as feministas burguesas

20 de março de 2024

Lênin sem tempo pra conversa fiada

Em seu livro "Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, Paul Le Banc define o leninismo como “um marxismo com pressa”. O autor também cita as palavras de Ana, irmã do líder russo, segundo as quais:

Vladimir não tinha paciência para a passividade, menos ainda para conversa fiada e exibicionismo. Ele queria levar seu conhecimento e suas habilidades para a classe que ele considerava destinada a realizar a revolução – a classe trabalhadora. Procurava pessoas que, como ele, estivessem convencidas de que a revolução na Rússia seria feita pela classe trabalhadora ou não seria feita.

Em 1900, ele expressou isso no ensaio “As Tarefas Urgentes do Nosso Movimento”:

Se tivermos um partido fortemente organizado, uma única greve pode transformar-se numa manifestação política, numa vitória política sobre o governo. Uma revolta numa única localidade pode transformar-se em revolução vitoriosa. Devemos entender que as lutas por reivindicações parciais e pela obtenção de certas concessões são apenas escaramuças leves com o inimigo, encontros entre postos avançados, enquanto a batalha decisiva ainda está por vir. Diante de nós, ergue-se a fortaleza inimiga, que faz chover tiros e granadas sobre nós, ceifando nossos melhores combatentes. Devemos capturar esta fortaleza, e iremos capturá-la, se unirmos todas as forças do proletariado que desperta com todas as forças dos revolucionários russos num partido que atrairá tudo o que é vital e honesto na Rússia.

O líder bolchevique tinha pressa porque sabia que capitalismo e barbárie são causa e efeito. Mais de 120 anos depois, as crises do sistema são cada vez mais frequentes e destrutivas. Estamos com cada vez menos tempo para conversa fiada.

Leia também: Lênin, sempre atento à luta de classes

19 de março de 2024

Alexandra Kollontai contra as feministas burguesas

Alexandra Kollontai foi a primeira mulher a integrar o alto escalão de um governo. Nada menos que o governo bolchevique. Sua trajetória mostra a importância do papel feminino no processo revolucionário russo.

Em “As Bases Sociais da Questão Feminina”, documento publicado em 1909, ela diferencia claramente as feministas das operárias:

O mundo das mulheres está dividido, tal como o mundo dos homens, em dois campos: os interesses e aspirações de um grupo de mulheres aproximam-no da classe burguesa, enquanto o outro grupo tem ligações estreitas com o proletariado e as suas reivindicações de libertação abrangem uma solução completa para a questão da mulher. Por mais aparentemente radical que sejam as demandas das feministas, não se deve perder de vista o fato de que elas não podem, tendo em conta a sua posição de classe, lutar pela transformação fundamental da estrutura econômica e social contemporânea da sociedade, sem a qual a libertação das mulheres não pode ser completada.

Claro que muita coisa mudou nesse debate, desde então. Mas a revolução que Alexandra ajudou a construir trouxe medidas radicais e inéditas de emancipação feminina. Aboliu, por exemplo, a inferioridade legal das mulheres e extinguiu a obrigatoriedade do casamento religioso. Simplificou o divórcio e ampliou a garantia do pagamento de pensões alimentícias. Remuneração igual para trabalho igual entre mulheres e homens também ganhou força de lei.

Mais tarde a reação conservadora stalinista viria a enterrar muitas dessas conquistas. Mas elas nunca deixaram de servir como referência fundamental para a luta das mulheres em todo o mundo. Alexandra é mais uma personagem do livro “Parteiras da Revolução”, de Jane McDermid.

Leia também: Parteiras muito radicais da revolução

14 de março de 2024

Lênin, sempre atento à luta de classes

Mais relatos do livro “Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, de Paul Le Blanc.

No final de 1904, o padre ortodoxo Georgi Gapon liderava um numeroso setor dos operários russos. Como havia fortes suspeitas de que ele trabalhasse para a polícia czarista, os bolcheviques se negaram a participar do movimento.

Lênin também achava que o padre colaborava com as autoridades, mas avaliava que o movimento liderado por ele poderia levar a confrontos importantes para a conscientização da classe. Portanto, deveria ser fortalecido e disputado pelos bolcheviques.

Em janeiro de 1905, Gapon organizou uma grande marcha para pedir ao czar o atendimento de reivindicações populares. A marcha foi massacrada e o episódio serviu de estopim para a Revolução de 1905.

No mesmo ano, a direção bolchevique decidiu que não era hora de ajudar a criar sindicatos. Em vez disso, era preciso preparar uma revolta armada. Lênin discordou. Para ele, sindicatos eram organizações fundamentais para a conscientização dos trabalhadores e não havia qualquer sinal de disposição da população para um confronto armado.

Em outra ocasião, os dirigentes bolcheviques defenderam que o soviete de deputados operários adotasse integralmente o programa do partido. Novamente Lênin se opôs, afirmando que mais importante que tentar engessar os sovietes com doutrinas abstratas era conquistá-los para uma prática revolucionária.

Estes exemplos mostram a capacidade de Lênin de enxergar as oportunidades da luta de classes sem dogmatismos. Evidenciam também como as relações entre ele e seus camaradas eram conflituosas sem levarem a divisões ou paralisia. Mas isso só era possível porque o forte enraizamento do partido entre os trabalhadores servia como bússola para seus militantes.

Leia também: Lênin e o marxismo libertário

13 de março de 2024

Parteiras muito radicais da revolução

Em seu livro “Parteiras da Revolução”, Jane McDermid dedica um capítulo a mulheres militantes radicais que atuaram durante o processo revolucionário russo do começo do século 20. Entre elas, estava Vera Zasulich.

Na juventude, Vera abraçara o terrorismo dos populistas russos. Em 1878, atentou contra a vida do governador de São Petersburgo. Inesperadamente absolvida, ela fugiu para Genebra para escapar a novas prisões. Na capital suíça, aderiu ao marxismo, abandonando as ações violentas.

Vera considerava o feminismo divisionista e as concepções partidárias de Lenin elitistas. Para ela, a tomada do poder pelos sovietes em outubro de 1917 foi prematura. Apesar disso, sempre foi muito respeitada pelos bolcheviques.

Outra figura feminina radical era Ekaterina Breshko-Breshkovskaia. Integrante dos Socialistas Revolucionários (SRs), organização de esquerda adversária dos bolcheviques, era contrária às orientações da direção de seu partido, que condenava ações violentas. Defendia a necessidade de pegar em armas contra o Estado.

Maria Spiridonova também foi uma militante dos SRs que contrariava seus dirigentes, defendendo o assassinato de autoridades do regime czarista. Em 1907, ao tentar matar um guarda carcerário enquanto estava presa, foi condenada à morte. Aceitou sua execução como forma de dar novo impulso à luta. Mas a sentença foi anulada e ela passou dez anos na Sibéria.

Em 1917, presidiu o Primeiro Congresso dos Sovietes Camponeses. Apesar de rejeitar o marxismo, aliou-se aos bolcheviques na Revolução de Outubro. Acabou voltando ao terrorismo, ao tentar matar o embaixador alemão na Rússia, em julho de 1918.

Mas o stalinismo não poupou sua rebeldia. Maria desapareceu por volta de 1937, provavelmente executada por ordem de um tribunal militar soviético.

Leia também: Mais parteiras da revolução: Sanité Bélair

7 de março de 2024

As parteiras da revolução

O livro é “Midwives of the Revolution: Female Bolsheviks and Women Workers in 1917”. Ainda sem edição em português, seu título pode ser traduzido como “Parteiras da Revolução: Mulheres Bolcheviques e Mulheres Trabalhadoras em 1917”.

A autora, Jane McDermid, decidiu chamar as revolucionárias russas de parteiras porque elas “estiveram presentes no nascimento da nova ordem, mas não se limitaram a entregá-la aos revolucionários profissionais, tendo sido fundamentais nas fases finais do parto. O modo como a nova ordem se desenvolveu posteriormente e o desempenho das parteiras não deve obscurecer o papel crucial que desempenharam tanto na gestação como no nascimento”.

A autora cita como exemplo um artigo das irmãs de Lênin, Ana e Maria, publicado no Pravda em 5 de Março de 1917. Segundo o relato delas:

No Dia da Mulher, 23 de Fevereiro, foi declarada greve na maioria das fábricas. As mulheres estavam animadas de um espírito muito militante. E não apenas as trabalhadoras, mas também as que estavam nas filas do pão. Elas realizaram reuniões políticas. Eram a maioria nas ruas. Deslocavam-se pela cidade exigindo pão dos governantes. Paravam os bondes e gritavam aos passageiros: “Camaradas, saiam!”. Foram de fábrica em fábrica, convocando os trabalhadores a cruzarem os braços. Em suma, o Dia da Mulher foi um tremendo sucesso e deu origem ao espírito revolucionário.

23 de fevereiro correspondia a 8 de março no calendário ocidental. E o que as irmãs Ulianov relataram foram as manifestações do Dia Internacional da Mulher se transformando nas primeiras dores do parto da revolução que ocorreria meses depois, em outubro. As parteiras eram imprescindíveis e estavam na vanguarda.

Leia também: 1917: operárias russas atropelam bolcheviques

23 de janeiro de 2020

Lênin: o revolucionário que sabia errar

Ainda lembrando os 96 anos da morte de Lênin, mais pílulas antigas sobre o grande revolucionário socialista. Algumas delas trazem seus equívocos e  insuficiências de suas formulações teóricas. Mas nada que diminua sua estatura histórica.

Em um artigo sobre guerra de guerrilhas, de 1906, uma pista para entender como Lênin se tornou a maior liderança da maior das revoluções.

Quando a Revolução de Fevereiro estourou, Lênin estava exilado. Em plena guerra mundial, sua única chance de voltar à Rússia seria embarcar num trem blindado oferecido pelo governo alemão.

Agosto de 1917: Lênin erra, os trabalhadores acertam
Lênin não acreditava que um golpe contrarrevolucionário viria. Felizmente, os trabalhadores de Petrogrado não achavam o mesmo.

Em abril, Lênin havia puxado o partido para a esquerda. Em julho, estava tentando empurrá-lo para a direita. Mas não estava dando muito certo.

Lênin sentia sono quando lia Maiakóvski
“A inovação artística se dá muito bem nas temperaturas revolucionárias. Mas fenece quando os regimes se consolidam”, diz Paulo Leminski na biografia que escreveu sobre Trotski.

O partido de Lênin era pouco “leninista”
O historiador britânico Alexander Rabinowitch mostra que aquele que é considerado o partido leninista por excelência não era assim tão leninista. Na verdade, nem Lênin era.

Rosa, ainda mais necessária que Lênin
Aparentemente, vivemos tempos que deixaram para trás personagens como Rosa Luxemburgo e Lênin. Mas continuamos a precisar de ambos, ainda que não em medidas iguais.

Leia também:  Algumas pílulas sobre Lênin

22 de janeiro de 2020

Algumas pílulas sobre Lênin

Em 21 de janeiro de 1924, morria Lênin. Foi-se o homem, ficaram as lendas. Muitas delas negando sua grande obra revolucionária.

Algumas pílulas abordam essas contradições. É o caso de “Um Lenin anarquista, louco, isolado”, que relata o modo como foram recebidas suas Teses de Abril, em 1917. O episódio mostra como é falsa a ideia de que o partido bolchevique fosse dirigido de forma ditatorial por Lenin.

“Lênin, o grande navegador e suas dúvidas” recomenda a leitura de “Reconstruindo Lênin”, biografia intelectual do marxista húngaro Tamás Krausz. Nela ficamos sabendo, por exemplo, que o grande navegador também teve sérios momentos de incerteza. Principalmente, quando as esperadas revoluções na Europa ocidental faltaram ao encontro com a História.

“Quando nem a dialética de Lênin funciona” mostra como a situação do Estado soviético no início dos anos 1920 era tão complicada que nem a sofisticada dialética política de Lênin deu conta de suas contradições.

Em “Aventureiros e mafiosos no poder soviético” ficamos sabendo que nos primeiros meses da revolução, Lênin já identificava certo número de aventureiros e mafiosos ocupando posições de autoridade. Gente cuja vocação para a corrupção e o autoritarismo, Stálin saberia utilizar mais tarde na contrarrevolução que viria a liderar.

“União Soviética: preservando o estado às custas da revolução” discorre sobre como Stálin inverteu a lógica libertária presente na obra “O Estado e a Revolução”, de Lênin.

Finalmente, “A grandeza e a tragédia da Revolução Russa” traz fragmentos de autoria de Victor Serge e Vassili Grossman. Ambos lamentando que a revolução liderada por Lênin tenha se transformado em seu oposto sob o stalinismo.

4 de maio de 2018

Para Marx, igualdade é coisa de burguês

Em seu livro “Marx Estava Certo”, Terry Eagleton procura refutar as “dez das críticas mais frequentes a Marx”. E uma delas é a de que “o socialismo nos tornaria, todos, iguais”.

É verdade que, para Marx, “a igualdade abstrata” era um avanço bem-vindo com relação às hierarquias do feudalismo, diz Eagleton. Mas ele achava que essa pretensão igualitária não tinham chance de tornar-se concreta para todos enquanto o capitalismo ainda existisse.

Segundo Eagleton, Marx achava que “igualdade genuína não significa tratar todos do mesmo jeito, mas atender às necessidades diferentes de cada um de forma igual”.

O autor também diz que Marx era contra um tipo de comunismo que envolve um nivelamento social geral e o denuncia nos “Manuscritos econômicos e filosóficos” como “uma negação abstrata de todo o mundo da cultura e da civilização”. Ele:

...encarava a igualdade como um valor burguês. Via nela o reflexo na esfera política do que chamava valor de troca, em que uma commodity tem o valor nivelado com o de outra. Uma commodity, comentou certa vez, é a “igualdade concretizada”.

É esta a igualdade que prevalece numa sociedade que despreza a “individualidade das coisas e das pessoas”, diz Eagleton. Foi o capitalismo, e não o socialismo, que padronizou os indivíduos.

Eagleton não aborda a manutenção e radicalização dessa padronização pelo “socialismo” stalinista. Mas é possível dizer que trata-se daquele “comunismo nivelador” condenado por Marx. Uma das piores consequências do covarde cerco imposto pelo imperialismo à Revolução Bolchevique.

O resultado foi uma caricatura que, mais do que exagerar a igualdade burguesa, nos revela ainda mais razões para combatê-la.

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28 de março de 2018

A revolução bolchevique, segundo a receita conservadora

O debate sobre a Revolução Russa está longe de chegar a amplos consensos. Mas há obras historiográficas que conquistaram grande aceitação. É o caso dos estudos de Alexander Rabinowitch.

Pesquisador das universidades de Columbia, Princeton e Stanford, não pairam sobre Rabinowitch suspeitas de esquerdismo. Mas suas conclusões levam a uma interpretação radicalmente democrática dos acontecimentos de 1917. Em especial, em relação à vanguarda bolchevique.

É o que mostra, por exemplo, um trecho retirado do artigo “Comoos Bolcheviques venceram”, publicado no Blog Junho:

A diferença mais fundamental entre mim e muitos historiadores da “Revolução de Outubro” é que, na minha opinião, a capacidade do partido em acomodar opiniões teóricas divergentes com um grau significativo de iniciativa e independência tática por parte de agências subordinadas nominais, bem como a estrutura descentralizada do partido e sua capacidade de resposta ao humor popular predominante, explicam tanto o sucesso do partido (se não ainda mais), do que a disciplina revolucionária, a unidade organizacional e a obediência a Lenin. Pois é evidente que as táticas bem-sucedidas dos Bolcheviques de Petrogrado, no outono de 1917, emergiram de um intercâmbio contínuo de ideias sobre o desenvolvimento da revolução e uma constante interação entre os membros do partido em todos os níveis com trabalhadores das fábricas, os soldados e os marinheiros.

Claro que conclusões como essa desagradam as forças conservadoras, que procuram mostrar a revolução bolchevique como obra de uma minoria arrogante e autoritária, controlando um partido fortemente hierarquizado. Receita adequada para tudo, menos para uma revolução social.

Mas nosso maior problema é que grande parte da esquerda tenta seguir receita semelhante.

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