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25 de fevereiro de 2025

O tudo ou nada de Trump

A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção e, com elas, todo o conjunto de relações sociais. A conservação do velho modo de produção numa forma inalterada era, pelo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. O revolucionamento constante da produção, a perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, a incerteza e agitação contínuas distinguem a época burguesa de todas as anteriores.

O jornalista Luiz Carlos Azedo citou as palavras acima no artigo “Um pouco de Marx para explicar as loucuras de Trump”, publicado no Correio Braziliense. São de Marx e Engels e estão no Manifesto Comunista. Segundo Azedo, o trecho mostra-se profético em relação ao governo Trump. Afinal, diz ele, “para modernizar a sua economia e enfrentar a China, o presidente dos Estados Unidos põe em xeque tudo o que obstrui suas intenções, inclusive a democracia e a ordem mundial”.

Faz sentido, mas Trump apenas escancara o papel caótico e desagregador que a burguesia e seus vários setores desempenham sempre que a luta de classes permite.

Os explorados estão desorganizados e desorientados. O sistema imperialista sob estresse, com vários polos em disputa. O império estadunidense debate-se em seu declínio, mas tem munição, literalmente falando, para aliviar seus problemas, causando muito sofrimento, destruição e morte, principalmente para as maiorias exploradas e oprimidas da população mundial.

É a aposta no tudo ou nada da dominação do capital. A ela os trabalhadores e a humanidade em geral deveriam responder tal como Rosa Luxemburgo há mais de 100 anos: contra a barbárie, só o socialismo.

Leia também: Big thecs: o autoritarismo neoliberal escancarado

6 de agosto de 2024

Olimpíadas anticapitalistas

Nas Olimpíadas de Paris, estão competindo cerca de 10.700 atletas, vindos de 206 países. Mas houve uma olimpíada em que os competidores chegaram 100 mil e não representavam nenhum país específico.

Estamos falando da olimpíada que aconteceu na Áustria em 1931 e foi organizada por dezenas de entidades de trabalhadores socialistas. As únicas bandeiras hasteadas eram vermelhas, simbolizando a verdadeira pátria dos socialistas: a classe trabalhadora. O grande número de atletas se devia ao fato de que participavam aqueles que se sentiam aptos a competir e não apenas os “melhores”.

Esses jogos passaram a acontecer em 1925, em vários países da Europa. Mas vinham sendo organizados desde 1920, quando representantes de organizações esportivas proletárias da Alemanha, Inglaterra, Bélgica, França e Áustria se reuniram para formar uma associação internacional, a Sportintern.

Em 1936, mais uma edição dos jogos proletários ocorreria em Barcelona. Mas o golpe fascista inviabilizou o evento. Muitos dos participantes que já haviam chegado, porém, permaneceram na Espanha para combater os fascistas. Em seguida à derrota das forças socialistas, começou a Segunda Guerra e as Olimpíadas Populares não voltaram mais a se realizar.

Este relato está contado em detalhes no artigo Quando as Olimpíadas eram anticapitalistas, de Gabriela Leite, recentemente publicado no portal Outras Palavras. Uma história bonita e que pode inspirar novas iniciativas semelhantes.

Leia também: Pílulas antigas sobre os jogos olímpicos

24 de julho de 2024

Neoliberalismo, o exterminador do futuro

Dois textos. O primeiro é uma entrevista com o historiador marxista indiano Vijay Prashad, publicada recentemente na revista Jacobina, com o titulo “Não oferecer uma utopia é uma limitação imediata da esquerda”.

Referindo-se aos neoliberais, Prashad diz que a utopia deles funciona porque ela não é sobre a realização. É sobre competição. Eles dizem, por exemplo, que seu filho pode se tornar um grande sucesso e ser melhor que os filhos dos outros. Mas se ele não conseguir, o problema é dele. A utopia neoliberal está estruturada de uma forma tão inteligente que ela não falha. Só os indivíduos falham.

Já em nossa utopia, diz Prashad, o fracasso não é possível. Em uma sociedade socialista, não há fracassados. O problema é que tornou-se fortemente dominante a ideia de que nossa utopia já fracassou com o fim da União Soviética e as dificuldades de outras experiências ditas socialistas.

O outro texto é “Identitarismo enfraquece capacidade política da esquerda”, artigo de Leonardo Avritzer, publicado na Folha. Nele, o autor afirma que um dos maiores problemas da esquerda atual é o identitarismo. Com sua redução do fenômeno colonial ao “homem branco”, diz ele, trata-se de “uma teoria equivocada do presente na qual só o passado tem peso e nenhuma proposta de futuro comum é apresentada”.

As duas elaborações falam sobre a dificuldade da esquerda em se livrar do peso do passado. Seja aquele do socialismo real, seja o do colonialismo. São debates centrais, mas longe de chegarem a sínteses que armem os explorados e oprimidos.

Enquanto isso, o neoliberalismo vai acanhando nossos horizontes e exterminando nosso futuro.

Leia também: O apocalipse na sala de estar

5 de julho de 2024

República Popular da Amazon

Friedrich Hayek é considerado um guru do neoliberalismo. Para ele, nenhum planejamento estatal da economia de mercado é possível devido à enorme quantidade e complexidade de suas variáveis. O único fator regulador possível seriam os preços em livre concorrência.  

Pois bem, segundo Leigh Phillips e Michael Rozworski, em seu livro “The People's Republic of Walmart”, a era do “big data” está provando que Hayek estava errado. Principalmente quando se olha para o que uma Amazon faz com a massa caótica de dados produzida por suas operações de venda e entrega.

Segundo os autores, a Amazon não rastreia apenas transações de mercado. Além daquilo que você compra, a empresa coleta dados sobre como você navega, os caminhos que percorre entre os itens, quanto tempo permanece em cada página, o que coloca e tira do carrinho de compras e muito mais.

Os métodos de planejamento da Amazon não são soluções completas para problemas que jamais seriam totalmente resolvidos. São simplesmente as melhores aproximações. Não é uma luta para derrotar o caos, mas para torná-lo manejável. A empresa sabe que isso é melhor que esperar que o jogo dos preços resolva as coisas.

A Amazon desenvolveu ferramentas e métodos que poderiam ser radicalmente reconfigurados para serem utilizados no planejamento das coisas públicas. Hayek jamais imaginou as vastas quantidades de dados que atualmente podem ser armazenadas e manipuladas sem precisar participar das transações do mercado.

É mais um exemplo do que Marx dizia sobre a necessidade de libertar forças produtivas com enorme potencial de emancipação social das amarras impostas por relações de produção baseadas na opressão e exploração humanas.   

Leia também: A mão pesada do planejamento nas corporações capitalistas

29 de junho de 2024

A República Popular do Walmart

“O Walmart poderia ser uma conspiração socialista secreta?” Esta intrigante questão foi feita pelo crítico literário estadunidense e marxista Fredric Jameson no livro “Arqueologias do futuro”. Ela aparece em uma nota de rodapé e não chega a ser desenvolvida pelo autor.

Mas os jornalistas e pesquisadores Leigh Phillips e Michael Rozworski usaram a provocação de Jameson como inspiração para escrever “The People's Republic of Walmart” (“A República Popular do Walmart”). Publicado em 2019, o livro ainda não tem edição em português.

Rozworski e Phillips lembram que o varejista emprega mais trabalhadores que qualquer outra empresa privada. Se fosse um país, sua economia seria do tamanho de uma Suécia ou de uma Suíça. O que interessa a eles destacar, porém, é que o Walmart funciona como uma economia nacional planificada semelhante à adotada pela União Soviética no auge da Guerra Fria.

Além disso, arrematam os autores, a rede varejista é apenas um caso entre centenas de empresas multinacionais igualmente gigantes. Todas elas funcionando como economias planificadas, pelo menos internamente.

Ou seja, o objetivo do livro é mostrar que, ao contrário do que dizem os neoliberais, a economia planificada não é uma aposta equivocada dos socialistas. Uma proposta que o fracasso soviético teria provado ser inviável. A maior evidência  disso é que os maiores campeões do capitalismo a adotam em sua organização interna.

Portanto, a provocação de Jameson faz sentido. O Walmart seria uma demonstração de que a economia planificada é possível. Principalmente, com as recentes inovações em cibernética e inteligência artificial, que poderiam ser colocadas a serviço de uma sociedade verdadeiramente socialista.   

Voltaremos ao assunto.

Leia também: Intelecto geral x trabalhador coletivo na obra de Marx

4 de março de 2024

Fé e fuzil: espiritualidade, religião e emancipação humana

Se quiserem ter uma ideia sobre o que eram as primeiras comunidades cristãs, observem uma seção local da Associação Internacional de Trabalhadores.

A frase acima é de Joseph-Ernest Renan, filósofo francês do século 19. Ele se refere à chamada I Internacional, que teve entre seus fundadores Marx e Engels. E é este último que cita Renan em sua obra “Contribuição para a História do Cristianismo Primitivo”, buscando mostrar o potencial emancipador das primeiras comunidades cristãs.

Rosa Luxemburgo faz o mesmo em “O Socialismo e as Igrejas”. Ela transcreve, por exemplo, a passagem bíblica de "Atos dos Apóstolos", em que a primeira comunidade de Jerusalém é descrita desse modo:

Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. E a cada um era distribuído de acordo com a sua necessidade.

Essas passagens ajudam a mostrar como as contradições da luta de classes atravessam as mais variadas esferas das sociedade, em épocas e situações  mais díspares. Vivemos um momento em que a religião é fortemente utilizada por projetos autoritários. É o que evidencia o livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso, que comentamos nas últimas pílulas.

Mas Manso também mostra que há muita gente atuando em defesa da fraternidade e da justiça social nas várias denominações religiosas. Além disso, o ateísmo ou agnosticismo são igualmente capazes de alimentar fundamentalismos.

Se a espiritualidade é uma importante afirmação da condição humana, a religiosidade que justifica a exploração e a opressão nas relações sociais é sua negação.

Leia também: Fé e Fuzil: o crime como modo capitalista de funcionamento

9 de novembro de 2023

O sionismo a serviço do imperialismo e do colonialismo

“Kibutz” (“kibutzim”, no plural), quer dizer, em hebraico, "assembleia" ou "coletividade". Originalmente, era uma comunidade agrária israelense sem propriedade privada dos meios de produção. Segundo a Wikipédia,  baseava-se “nos princípios do sionismo trabalhista (combinação de socialismo e sionismo)”.

Os primeiros kibutzim surgiram no século 19. Mas só ganhariam um perfil socialista após a Primeira Guerra, sob influência da Revolução Russa e do forte movimento operário da época. O sionismo que inspirava muitos kibutzim, no entanto, era um projeto nacionalista. Uma característica que se chocava com as concepções de grande parte dos marxistas
internacionalistas da época.

Os criadores dos kibutzim acreditavam que seria possível ampliar o número de suas comunidades até transformar Israel em uma nação unida e igualitária, capaz de resistir aos poderes imperialistas que cercavam a chamada “Terra Prometida”.

Para os socialistas internacionalistas, o imperialismo é que acabaria utilizando os kibutzim para seus propósitos. E foi o que aconteceu. A partir dos anos 1940, muitos deles começaram a cumprir funções militares, contribuindo para a expulsão dos palestinos de suas terras a partir de 1948.

Desde então, a combinação de sionismo com socialismo mostrou-se definitivamente equivocada. O sionismo acabou por se impor como consolidação do Estado de Israel menos como nação soberana do povo judeu e muito mais como ponta-de-lança dos interesses britânicos e estadunidenses na região que tem as maiores jazidas petrolíferas do planeta.

Atualmente, o projeto sionista serve aos objetivos globais do imperialismo e à opressão colonialista do povo palestino na região. Por isso, jamais poderá ter um caráter de esquerda e deve ser combatido como parte da luta anti-imperialista e anticolonialista.

Leia também: Os acordos de Oslo e o Golias sionista

11 de setembro de 2023

Inteligência artificial e planejamento socialista

Reportagem do Globo publicada em 10/09/2023 anuncia que “Empresas já usam inteligência artificial para prever descontos e efeitos climáticos”.

Segundo a matéria, empresas dos mais variados setores vêm empregando algoritmos e aprendizado de máquina para tentar prever desde fenômenos climáticos ao comportamento dos preços de matérias-primas.

A C&A, por exemplo, com um portfólio de 90 mil itens, usa Inteligência Artificial para definir “o melhor mix de produtos para cada uma de suas 330 lojas”.

A Nestlé captura informações para prever os movimentos futuros da cadeia do leite e sua rede de abastecimento em “uma arquitetura de dados com mais de seis milhões de combinações diárias”.

As ferramentas da Gerdau conseguem “avisar” com antecedência o melhor dia para a empresa fazer compras e aproveitar as melhores oportunidades.

Já a Vale desenvolveu modelos computacionais capazes de prever níveis perigosos de precipitação, e, em caso de tempestade, “retirar os empregados do local de trabalho antecipadamente”. Quanto às populações do entorno, nenhuma palavra.

A reportagem não esclarece que tais ferramentas ultrassofisticadas devem eliminar empregos. Muito menos, mostram que elas só existem por causa da enorme base de dados fornecidos gratuitamente por milhões de consumidores e do sequestro dos saberes e habilidades dos trabalhadores das áreas envolvidas.

São dados públicos apropriados por uma dúzia de monopólios. Deveriam estar alimentando um amplo e ágil sistema de planejamento estatal. Um sistema capaz de equilibrar a economia, distribuir recursos de modo socialmente mais justo e evitar impactos ambientais e humanos desastrosos.

É uma força produtiva que poderia fazer maravilhas em uma sociedade socialista, mas está submetida às destrutivas e injustas relações de produção capitalistas.

Leia também: Inteligência artificial contra bactérias e sindicatos

7 de agosto de 2023

Allende e o embrião de uma internete socialista

Era outubro de 1972. Salvador Allende governava o Chile desde 1970, tentando implantar medidas radicais. Entre elas, reforma agrária e estatização de setores industriais. Foi o que bastou para ser alvo de ataques e sabotagens promovidos pela direita local com apoio do governo estadunidense.

Naquele mês, uma greve apoiada pela CIA paralisou 40 mil caminhoneiros, isolando Santiago. O movimento atingiu principalmente o abastecimento de alimentos para a população. Mas o governo conseguiu enviar cerca de 200 caminhões com mantimentos para a cidade, derrotando a greve. Essa operação só foi possível graças a uma rede de comunicação formada por máquinas de telex chamada Cybersyn.

Mas o objetivo original desse sistema era outro. Tratava-se de proporcionar um planejamento econômico controlado em tempo real pelo poder público. Como havia 500 máquinas de teletipo adquiridas pelo governo anterior que estavam ociosas, cada fábrica recebeu uma delas. Os dados da produção eram enviados diariamente para um centro de controle, permitindo aos órgãos governamentais fazer previsões, recomendações e tomar decisões estratégicas. Graças à cibernética, começava a tomar forma um planejamento econômico capaz de atender as necessidades da maioria, bandeira histórica do movimento socialista.

Além disso, o projeto pretendia criar uma rede de comunicação que possibilitasse aos chilenos opinar, votar e fazer propostas a partir de seus bairros e locais de trabalho.

Para muitos, o Cybersyn mostrou a possibilidade de criar uma internete orientada por valores democráticos e socialistas. Infelizmente, este foi mais um projeto destruído pelo golpe de setembro de 1973 por Pinochet e seus carrascos, apoiados e financiados pelo imperialismo estadunidense.

De Santiago do Chile ao Vale do Silício, pioramos muito.

Leia também: Os desafios estratégicos do ciberproletariado

1 de agosto de 2023

Barbie e as lutas identitárias

“Barbie” começa com uma divertida paródia da cena inicial de “2001, uma Odisseia no Espaço”. Mas no lugar da aurora da humanidade, nasce uma novidade no mercado de brinquedos. Pela primeira vez, bonecas não imitavam bebês e crianças para treinar meninas no papel de mães e donas do lar.

Em 1959, Ruth Handler criou para a Matel uma boneca na qual as meninas podiam se projetar como jovens adultas, ainda que brancas e loiras. Era a “Barbie estereotipada”, estrela da superprodução dirigida por Greta Gerwig. Mas, depois dela, vieram a Barbie médica, advogada, senadora, negra, cadeirante...

Essas variações profissionais, étnicas e físicas parecem acompanhar o identitarismo que se fortaleceu no cenário político e social nas últimas décadas.

Lutar pela afirmação de identidades perseguidas ou tratadas como subalternas não é um problema em si. Mas uma coisa é se engajar na luta em defesa de identidades. Outra, é ser identitarista. É abandonar o horizonte da transformação social radical para se limitar a pequenas vitórias que o sistema de dominação não só assimila como transforma em suas. Não à toa, a Matel se deixou ridicularizar no filme. O ridículo não é nada se garantir uma repaginada capaz de alavancar novos lucros.

Mas o identitarismo não ameaça apenas as lutas feministas, antirracistas e por diversidade sexual. Reduzir a luta de classes ao sindicalismo e a greves operárias também é uma forma de limitação identitária.

O feminismo de “Barbie” é literalmente cor-de-rosa. Mas as forças vermelhas do anticapitalismo não podem ignorar o potencial das resistências da mais variadas cores para reforçar a luta de todos os explorados e oprimidos.

Leia também: Identitarismo pra todos os lados

26 de julho de 2023

Racismo operário na África do Sul

Segundo João Bernardo, em seu livro “Labirintos do Fascismo”, a primeira greve da África do Sul ocorreu em 1850. Mas sua motivação não foi das mais nobres. O movimento se restringia a operários brancos e pretendia impedir o desembarque de condenados a trabalhos forçados. Temia que uma colônia penitenciária fosse transformada em reserva de mão-de-obra gratuita, levando a um achatamento salarial.

Momento mais significativo, porém, ocorreu em 1911, quando foi promulgada uma lei estabelecendo demarcação rigorosa entre trabalhadores brancos e negros nas minas e fábricas, com pouca resistência dos sindicatos. Essa forma embrionária de apartheid acabou por institucionalizar as barreiras racistas que impediriam o proletariado de se constituir como classe e, portanto, de enfrentar de maneira eficaz o capital.

Em 1921, os donos das minas iniciaram uma grande ofensiva para que os mineiros negros mais habilidosos tivessem acesso a funções semiqualificadas. Surgiu uma enorme onda de greves em defesa dos privilégios da mão-de-obra de origem europeia que logo se transformou numa grande insurreição. Alguns sindicatos armaram os operários e cerca de 50 deles morreram.

Ao mesmo tempo em que defendiam a separação racial dos mercados de trabalho, os grevistas procuravam fundar uma república dos trabalhadores. Dos trabalhadores brancos, claro. A palavra de ordem era “Proletários de todo o mundo uni-vos por uma África do Sul branca”. O mais lamentável é que o movimento foi impulsionado por militantes da Internacional Comunista.

A este fenômeno Bernardo chama de “nacional-bolchevismo”. Ou seja, a luta socialista subordinada a objetivos nacionalistas. O caso sul-africano mostra que as consequências de uma concepção como esta podem ser as mais trágicas e vergonhosas.

Leia também:
Do socialismo nacional ao nacional-socialismo
Wagner, Hitler, Prigojin, Putin, Otan: uma ópera infernal!

2 de fevereiro de 2023

O potencial anticapitalista dos espaços exílicos

Encerrando os comentários sobre o livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”, de Denis O'Hearn e Andrej Grubačić, é importante destacar alguns pressupostos dos estudos apresentados na obra.

Em primeiro lugar, as recentes pesquisas do campo marxista-feminista apontando para a centralidade da reprodução e do trabalho reprodutivo na constituição da sociedade. Eles demonstrariam que a transformação do capitalismo requer não uma mudança fundamental na inovação tecnológica, mas nas relações sociais, em que a reprodução de nossas vidas é organizada como um processo coletivo e não mais subordinado à valorização do capital.

Em segundo lugar, estudos influenciados pelos escritos de Kropotkin sobre cooperação e associação voluntária levaram recentemente à criação de um novo campo de estudo: a pesquisa comparativa de espaços não estatais como expressões geográficas de cooperação e ajuda mútua que podem estar em contradição com o desenvolvimento do capitalismo.

A partir daí, O'Hearn e Grubačić fazem duas suposições: 1 - que as regras de desenvolvimento de espaços não estatais são independentes do capitalismo mundial e 2 - que os atores que povoam espaços não estatais estão totalmente fora do capitalismo.

Os autores chamam tais espaços de exílicos. Sua hipótese central prevê que esses espaços e seus atores interagem com processos, instituições e atores do sistema mundial, sendo necessário investigar como e em que grau essa interação limita sua autoatividade e como esses limites mudam ao longo do tempo.

A tradição marxista reluta em aceitar a existência de espaços externos ao capitalismo. Mas o que importa aqui é menos o debate teórico e mais o potencial anticapitalista das lutas abordadas pela obra. Sem dúvida, valiosas.

Leia também: A luta por dignidade nas prisões da Califórnia

1 de fevereiro de 2023

A luta por dignidade nas prisões da Califórnia

“Os Direitos do Homem”, de Tom Paine; “O Fim da América” de Naomi Wolf; “Desobediência”, de Howard Zinn. Estes e outros livros foram estudados pelos detentos da prisão Pelican Bay, na Califórnia, na primeira década deste século.

Mas a obra mais lida e debatida era a biografia de Bobby Sands, líder da comunidade dos homens-cobertor do sistema prisional de Belfast. Foi essa leitura que inspirou nos detentos a ideia de organizar uma greve de fome.

Confrontados com uma morte longa e lenta dentro do sistema, os prisioneiros já não “tinham nada a perder”. O movimento começou em 1º de julho de 2011, exigindo o fim do confinamento solitário. Demanda amplamente divulgada, inclusive em outros presídios.

Em outubro de 2011, uma segunda greve de fome envolveu todo o sistema carcerário da Califórnia, abrangendo 18 mil detentos. Em julho de 2013, mais de 30 mil prisioneiros daquele estado aderiram a uma terceira greve por 59 dias. Possivelmente, o maior movimento desse tipo na história mundial.

Na mesma época, começou a circular o “Acordo pelo fim das hostilidades raciais”. O documento pedia a todos os grupos raciais nas prisões californianas que acabassem com a violência de uns contra os outros.

A grande maioria desses detentos foi condenada por crimes comuns. Sua conscientização e resistência não surgiram de experiências políticas prévias, mas como resposta à injustiça e desumanidade do sistema.

É mais um relato do livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”, de Denis O'Hearn e Andrej Grubačić, sobre o surgimento de espaços libertários nas brechas do capitalismo e nos lugares mais improváveis. Porque lutar por liberdade nunca é improvável.

Leia também: Os homens-cobertor constroem o comunismo na prisão

31 de janeiro de 2023

Os homens-cobertor constroem o comunismo na prisão

Bobby Sands era a principal liderança da comunidade dos homens-cobertor, criada na prisão de Long Kesh, em Belfast, em 1978. Ele e seus companheiros protestavam espalhando suas fezes nas celas que ocupavam.

É o que relata o livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”, de Denis O'Hearn e Andrej Grubačić. Mas a resistência desses militantes do Exército Republicano Irlandês (IRA) também produziu momentos bonitos. 

A atividade noturna favorita dos detentos era o “livro da hora de dormir”, em que os melhores narradores contavam histórias depois que os guardas deixavam a ala. Do interior de suas celas, eles gritavam seus relatos, enquanto o restante ouvia e comentava.

Quando a história era boa, a narração podia se arrastar por muitas noites. Incluíam desde biografias de lideranças indígenas às aventuras de um desertor da marinha americana no Vietnã.

Dezenas de prisioneiros contrabandeavam centenas de histórias, poemas e desenhos todas as semanas. A produção cultural foi uma forma importante utilizada pelos homens-cobertores para se apropriar dos espaços prisionais e travar o confronto coletivo com as autoridades.

Sands compôs de cabeça o poema épico "O Crime de Castlereagh", com mais de cem versos. Além de recitá-los para seus companheiros, ele os escreveu em papéis de cigarro e conseguiu contrabandeá-los para serem publicados. 

Em 1980, Sands elegeu-se para o parlamento britânico, mesmo estando na prisão. Mas, logo depois, ele e mais nove companheiros morreriam em uma greve de fome. 

Uma linda história de resistência em meio a tanta imundície. Não à toa, Sands costumava dizer a seus companheiros que aquilo que haviam construído era o mais perto que chegariam de um verdadeiro comunismo.

Leia também: Os “homens-cobertor” e suas celas imundas

30 de janeiro de 2023

Os “homens-cobertor” e suas celas imundas

“Homens-cobertor”. Assim eram chamados alguns militantes do Exército Republicano Irlandês encarcerados na prisão de Long Kesh, em Belfast. Como ativistas políticos, eles se recusaram a vestir uniformes de prisioneiros comuns e adotaram cobertores como roupas.

Mas não ficou nisso. Eles jogavam sua urina por debaixo das portas. Os guardas a empurravam de volta com rodos, à noite, para molhar seus colchões. Despejavam fezes pela janela, os carcereiros as jogavam de volta. Para radicalizar, passaram a espalhar seus excrementos pelas paredes e tetos. 

Apesar dessa situação repugnante, a moral dos prisioneiros era elevada. Quanto mais despojados, mais debatiam, planejavam e formulavam respostas coletivas não só para enfrentar solidariamente as autoridades, mas para construir alternativas que se baseavam principalmente na comunicação oral. 

Aprender irlandês foi fundamental porque os presos podiam se comunicar sabendo que os guardas não os entenderiam. No final de 1977, apenas alguns deles eram fluentes em irlandês. Em 18 meses, quase quatrocentos dominavam o idioma. 

Isolados dos outros, os “professores” introduziam novas palavras gritando sua pronúncia e ortografia. Os prisioneiros escreviam nos pequenos espaços limpos de suas paredes, usando qualquer instrumento que pudessem arranjar, como um fecho de zíper. Eram práticas que só poderiam ter sucesso se todo o coletivo participasse.

Tudo isso aconteceu em 1978 e está no livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”, de Denis O'Hearn e Andrej Grubačić. Para os autores, esse nível de solidariedade foi causado pela própria repressão carcerária. Particularmente, pelo completo despojamento das comodidades da vida imposto aos prisioneiros.

A seguir, a intensa produção cultural promovida pelos homens-cobertor em suas celas imundas, mas cheias de dignidade humana.

27 de janeiro de 2023

O “protesto do cobertor” irlandês

Mais um exemplo de experiência exílica retirada do livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”, de Denis O'Hearn e Andrej Grubačić. Desta vez, na Irlanda do Norte.

Em 1976, detentos do Exército Republicano Irlandês (IRA) na prisão de Long Kesh, em Belfast, passaram a ser considerados prisioneiros comuns. Começava uma longa luta pelo direito a serem reconhecidos como presos políticos. 

De 1976 a 1978, os espaços prisionais de Long Kesh foram apropriados para fins coletivos: troca secreta de correspondência com o lado de fora e contrabando de pequenos confortos, como tabaco, cargas de canetas, papel para escrever, materiais de leitura e envelopes plásticos para proteger de fluidos corporais objetos escondidos dentro do corpo dos prisioneiros. Até rádios e câmeras miniaturizados eram contrabandeados.

Essas práticas elevaram a moral coletiva e aumentaram a solidariedade. As visitas tornaram-se ataques ao território inimigo e o contrabando, um grande risco assumido em nome da comunidade.

Os prisioneiros não apenas obtinham coisas materiais, como também alimentavam seu orgulho coletivo. Desse modo, alguns “luxos” foram redefinidos como bens coletivos e não como itens de consumo individuais.

Mas em 1978, um membro do IRA se envolveu numa briga com um carcereiro e foi isolado numa cela. Surgiram denúncias de que ele estava sofrendo tortura e os outros prisioneiros reagiram. Recusando-se a usar uniformes de presos comuns, os detentos passaram a vestir apenas cobertores, deixaram de fazer higiene pessoal e espalhavam fezes e urina pelas celas. Era uma forma de transformar o despojamento político que sofreram em uma ofensiva insuportável para seus carcereiros.

Na próxima pílula, mais sobre esse protesto muito ousado. E muito sujo.

Leia também: Espaço exílico e comunismo prisional

26 de janeiro de 2023

Espaço exílico e comunismo prisional

No livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”, Denis O'Hearn e Andrej Grubačić relatam “alguns resultados inesperados do isolamento nas prisões”. Referem-se, especificamente, aos detentos confinados em pavilhões de segurança máxima. 

Segundo eles, prisioneiros nessa situação viveriam experiências de “vida nua”, em que só o mínimo de subsistência é garantido pelas autoridades penitenciárias (comida, abrigo, entretenimento rudimentar). Essas mesmas circunstâncias também os isolam do consumismo capitalista e os afastam da influência da ideologia dominante. 

Essa forma de despossessão radical levaria os encarcerados a uma situação de exílio no interior mesmo do isolamento a que já estão condenados. Condição propícia para o desenvolvimento do que os autores chamam de “produção exílica”. Esta envolveria desde o acesso a coisas como tabaco e materiais de leitura e escrita a atividades solidárias como música, narração de histórias e autoaprendizagem. Tudo viabilizado clandestinamente e pela criação de “espaços” autônomos com o uso criativo da linguagem e do tempo.

Para superarem seu isolamento, os prisioneiros frequentemente usam seus idiomas originais como código (irlandês, curdo, basco) e “sistemas de remessas” furtivos, mas engenhosos, para unir espaços autônomos e criar um único território solidário para além do controle das autoridades.

Nesse caso, “acordos de lealdade” ocorreriam entre os membros da comunidade exílica, familiares e a sociedade civil fora da prisão. Por outro lado, uma vez que as condições melhoram, as práticas comunitárias podem diminuir. Além disso, as autoridades penitenciárias podem introduzir privilégios e penalidades de forma a dividir os detentos.

Processos desse tipo, afirmam os autores, o historiador Carlo Ginzburg chamou de “comunismo prisional”.

Nas próximas pílulas, veremos alguns exemplos desse fenômeno. 

Leia também: O arco-íris anticapitalista dos zapatistas

25 de janeiro de 2023

O arco-íris anticapitalista dos zapatistas

Em seu livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”, Denis O'Hearn e Andrej Grubačić lembram que para reduzir sua dependência do Estado, os zapatistas criaram fortes relações com o “mundo exterior”. As organizações internacionais, e não as comunidades de base, fornecem a maior parte dos fundos necessários para a sustentação das infraestruturas comunitárias autônomas. 

Essa barganha exílica exige que os zapatistas sirvam não apenas à sua base, mas também a seus apoiadores. Tal situação viria a se refletir na “Outra Campanha”, anunciada em junho de 2005. A partir dela as declarações zapatistas já não visavam apenas os pobres, mas também um “arco-íris” de “outros”, incluindo os movimentos feminista e LGBTQIA+. Era um novo “acordo de lealdade”, dizem nossos autores.

Mas já havia precedentes. É o caso da Lei Revolucionária das Mulheres do EZLN, “imposta” pelas mulheres zapatistas em 8 de março de 1993 e frequentemente descrita como a “revolução antes da revolução”.

O'Hearn e Grubačić também ressaltam o surgimento do termo “capitalismo”, até então ausente nos pronunciamentos do movimento. Segundo o EZLN, a Outra Campanha veio para “nomear o inimigo, o capital, e o aliado deste inimigo, a classe política (...). E então, como alguém disse uma vez, teremos apenas conquistado o direito de recomeçar, mas teremos que começar por onde sempre se deve começar, por baixo”.

Infelizmente, a persistência da resistência zapatista não representa garantia de uma vitória final. Trata-se de uma fissura no sistema capitalista mundial que dificilmente será tolerada por muito tempo. Por isso, é urgente a criação de novos espaços exílicos ou seu equivalente.

Na próxima pílula, espaços exílicos em prisões.

Leia também: A força exílica da autonomia zapatista

A força exílica da autonomia zapatista

Em 12 de janeiro de 1994 entrava em vigor o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) entre México, Canadá e Estados Unidos. No mesmo dia, um grupo de indígenas declarou guerra ao governo mexicano e ocupou alguns municípios do estado de Chiapas. 

Era a insurreição do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Suas reivindicações: trabalho, terra, moradia, alimentação, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz. 

Este é mais um caso que Denis O'Hearn e Andrej Grubačić abordam em seu livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”.

O EZLN evita a violência, mas permanece uma força guerrilheira comprometida com a auto-organização territorial e a autogestão nas esferas da política, justiça, educação, saúde e economia. Sua autonomia caracteriza-se por práticas cooperativistas, organização descentralizada do território, assembleias democráticas e estruturas igualitárias de produção, distribuição e abastecimento. Ao contrário dos cossacos, sua barganha de lealdade se dá mais com a sociedade civil nacional e internacional do que com o Estado. 

Enquanto os militares mexicanos tentavam reprimir o levante, milhões de pessoas em todo o mundo exigiam a suspensão dos ataques aos zapatistas. O clima pós-Guerra Fria impossibilitou ao Estado usar força militar suficiente para aniquilar o movimento, como ocorria durante as décadas de 1970 e 1980. 

Para os autores, a persistência dos zapatistas como um espaço exílico só foi possível porque surgiu durante a crise e reestruturação da economia mundial, com uma nova hierarquia de poder hegemônico, novas lideranças econômicas e novas divisões globais e regionais do trabalho.

Certamente, um dos mais importantes fenômenos de resistência popular em muitas décadas. Voltaremos a ele, na próxima pílula.

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23 de janeiro de 2023

O espaço exílico dos cossacos do Don

Em seu livro “Vivendo nas Fronteiras do Capitalismo”, Denis O'Hearn e Andrej Grubačić relatam alguns exemplos daquilo que chamam de “espaços exílicos”.

No final do século 16, cada vez mais camponeses procuravam abrigo na região do Don, na Rússia. Nela viviam cossacos cujo território estava aberto a receber refugiados de todo tipo: piratas, fugitivos e pequenos criminosos. Reunidos, formavam uma sociedade sem senhores e fora do alcance da lei.

A região do Don representava uma promessa de terra e liberdade. De cooperação, autossuficiência e mutualismo, em vez de servidão. Mas também era um lugar onde os cossacos resistiam a diversos povos que ameaçavam a integridade territorial russa. Formava uma “zona tampão” entre o império e potenciais invasores. Em troca de detê-los, o estado czarista concedia-lhes autonomia territorial. Um pacto de lealdade.

O problema é que os cossacos enfrentavam grande escassez de recursos essenciais. Dependiam do Império Russo para o suprimento de muitos deles. Aos poucos, o poder czarista se aproveitou disso. No final do século 19, a autonomia cossaca já não existia.  

A experiência de dissolução do exílio cossaco é um antídoto para o utopismo ingênuo, concluem os autores. Aponta para os perigos das sociedades de exílio, incluindo os riscos envolvidos nas políticas de barganha de lealdade. No entanto, mesmo aqui há vislumbres de esperança, afirmam eles. 

O surgimento de conselhos descentralizados no Don comprovam o que defendia Kropotkin. Para ele, o desejo humano de praticar a ajuda mútua está à espreita sob a superfície das instituições individualistas possessivas modernas ou pós-modernas. Sempre procurando oportunidades para surgir.

Na próxima pílula, a experiência exílica dos zapatistas. 

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