Doses maiores

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19 de fevereiro de 2025

Notícias do fim do mundo na periferia

A pílula de hoje é apenas uma pequena sequência de notícias que, talvez, se explique por si mesma.

Brasil é o país do mundo com maior probabilidade de calor extremo até o fim da semana, aponta instituto europeu
Desde o fim de janeiro, uma redoma se instalou no Centro-Sul do país, e vários municípios passaram a registrar temperaturas acima da média mesmo para o verão

Mudanças climáticas devem deixar alimentos ainda mais caros
Segundo pesquisadores, o aumento dos fenômenos climáticos extremos pode colocar em risco a segurança alimentar global

Em ano de temperaturas extremas e COP30, Brasil anuncia entrada na OPEP+
Sociedade civil diz que decisão de participar formalmente do grupo de grandes produtores de petróleo soterra planos nacionais de transição energética.

Governo anuncia leilão para mais 47 blocos de petróleo na Foz do Amazonas
Ao todo, são 68 blocos incluídos na oferta na Amazônia Legal. Além dos 47 na Foz do Amazonas, onde o governo defende o licenciamento do bloco 59, há outros 21 blocos em terra disponibilizados para as petroleiras, cercando terras indígenas e unidades de conservação.

Gilmar Mendes propõe liberar mineração em terras indígenas, acolhendo sugestão de advogado da Potássio do Brasil
Em decisão individual na mesa de conciliação do marco temporal, o ministro acolheu sugestão do advogado da mineradora para permitir a exploração de minerais estratégicos em terras indígenas em caso de “relevante interesse público da União”.

Conheça dez parlamentares que negam a crise climática
Na Câmara, há quem argumenta se tratar de "farsa" o aquecimento global. No Senado, um senador questiona a ação humana nas mudanças climáticas

Leia também: COP30 em plena fornalha

29 de agosto de 2023

Engels e o trem suicida do progresso

Nós nos lisonjeamos demais por causa de nossas vitórias sobre a natureza. Para cada uma dessas vitórias, a natureza se vinga de nós. É verdade que cada vitória traz, em primeiro lugar, os resultados esperados, mas, no segundo e terceiro lugares, produz efeitos imprevisíveis e bastante diferentes, que muitas vezes anulam o primeiro. Assim, a cada passo, somos lembrados de que não dominamos a natureza como um conquistador sobre um povo estrangeiro, como alguém que está fora da natureza – mas que nós, com carne, sangue e cérebro, pertencemos à natureza e existimos em seu meio...

As palavras acima são de Engels e estão no livro “Os camisas negras e a esquerda radical: fascismo racional e a derrubada do comunismo” do historiador e economista estadunidense Michael Parenti.

Parenti as utiliza para mostrar que desde muito tempo o capitalismo apresenta suas tendências ambientais destrutivas. Com sua ênfase incessante na exploração e na expansão, e a sua indiferença aos custos ambientais, diz ele, a essência do capitalismo, sua razão de ser, é converter a natureza em mercadorias e as mercadorias em capital, transformando a terra viva em riqueza inanimada. Por isso, conclui, a “ecologia é profundamente subversiva em relação ao capitalismo”.

O livro foi publicado em 1997, quando já tínhamos muitos sinais de que era urgente subverter o capitalismo também do ponto de vista ecológico. Quase trinta anos depois, o “trem do progresso” a que se referiu Walter Benjamin, lá em 1940, continua carregando a humanidade para o abismo. Mas a advertência de Engels é de 1876. Para ele já estava claro que o trem tomara o rumo errado.

Leia também: Os índios e o anjo desesperado

28 de agosto de 2023

A teoria do caos e o caos na prática

O bater de asas de uma borboleta numa parte do mundo pode causar um tufão no outro lado do planeta. Essa metáfora costuma ser utilizada para ilustrar a teoria do caos. Aquele pequeno movimento do inseto dispararia uma sequência de acontecimentos cujo resultado ninguém pode prever.

Mas ela também é útil para mostrar que situações caóticas são muito complexas, mas não são resultado de fatores aleatórios. Relacionar o surgimento de um tufão ao voo de uma borboleta é impossível. Isso, porém, não significa negar que, em muitos casos, um encadeamento causal efetivamente exista, mesmo que ele jamais possa ser comprovado.

Essa mesma teoria também pode ser usada para abordar as diversas crises do mundo atual. Aquecimento global, desequilíbrios ambientais, inúmeras guerras regionais, enorme injustiça social, elevada criminalidade, fome, miséria, epidemias, déficits habitacionais gigantescos, transporte público em colapso, crise alimentar, relações sociais tóxicas, redes de comunicação envenenadas, cidades, campos, rios e mares empesteados. Tudo isso ocorrendo de forma sincrônica, sistemática e disseminada pelo planeta. Um caos generalizado.

Mas ao contrário do caso da borboleta, não é difícil encontrar a origem dessa sequência causal. A mariposa atende pelo nome de capitalismo. E ainda que as consequências sejam as mais variadas, o bater das asas é a crescente mercantilização da vida e sua subordinação quase absoluta aos circuitos de trocas mercantis. É a escravização da maioria pela ditadura minoritária dos donos dos meios de produção em sua busca insana por lucros.

Precisamos interromper urgentemente essa cadeia catastrófica de eventos. É a única forma de salvar grande parte da humanidade e outras formas de vida. Incluindo várias espécies de borboletas.

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