Doses maiores

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21 de dezembro de 2023

Sobrevivencialismo e bunkerização

O mais recente sucesso da Netflix é “O Mundo Depois de Nós”. Um dos personagens do filme é um “sobrevivencialista”. Ou seja, alguém preparado para sobreviver a catástrofes extremas, o que inclui transformar sua casa em um bunker. Ele é de classe média remediada, mas seus medos são compartilhados com gente com muito mais dinheiro.

É o caso dos multibilionários que há alguns anos se preparam para uma hecatombe decorrente de mudanças climáticas ou guerras generalizadas. É o caso de Mark Zuckerberg, que está construindo um abrigo subterrâneo com fontes de energia próprias, no Havaí.

Mas esse fenômeno não é tão restrito. Na verdade, a “bunkerização” se espalha pela sociedade. O que muda é sua forma e eficácia. Pode ser um enorme porão com alimentos, rádio por satélite e forças armadas particulares. Mas também um condomínio cercado tanto de muros e vigilantes, como de muita pobreza e injustiça. O que torna sua segurança bastante vulnerável, inclusive frente à ação de milícias.

O empreendedorismo popular é outro desses castelos de areia, cuja proteção contra tormentas econômicas é quase nula. Planos de saúde e de previdência complementar iludem com garantias que podem desaparecer graças a qualquer instabilidade empregatícia ou remuneratória.

Tudo isso é produto de décadas de neoliberalismo. Aqui e no mundo, foram sendo abandonadas diversas formas de resistência e proteção coletivas, muito mais eficazes para a defesa não apenas da subsistência, mas da dignidade. Não há sobrevivencialismo que dê jeito. Não é o mundo depois de nós, mas um mundo infernal que uma minoria minúscula e cada vez mais covarde e irresponsável está querendo nos deixar.

Leia também: O medo egoísta de bilionários diante do apocalipse

21 de junho de 2022

As ambições totalitárias da Google e Cia.

Em 17/06/2022, o colunista Pedro Doria escreveu sobre um recente encontro promovido por executivos do Google no Brasil. Eles anunciaram, entre outras coisas, “a criação de endereços numéricos, georreferenciados por mapas, para casas nas favelas brasileiras”.

“Em nosso País, comenta Doria, tem mais gente com celular do que gente com endereço, e ter endereço quer dizer poder fazer buscas de preços mais baixos para comprar online. A empresa vai distribuir também bolsas de estudo para quem quiser dominar tecnologia, aprendendo no nível técnico profissões do século 21”.

Ele admite que a Google “não está sendo bonzinho”. Afinal, afirma corretamente, trata-se de criar “mercado consumidor para seus produtos”. Mas, adverte, “a ideologia conduz a ação”. A Google “não vê só o andar de cima” no Brasil. Enquanto direita e esquerda são cegas para o potencial “empreendedor”, um monte de gente quer “montar um negócio, ser o próprio patrão, empregar gente”, diz Doria. E encerra perguntando: “Por que é preciso uma multinacional para que possamos enxergar aquilo que é evidente?”.

O colunista dá pouco destaque ao fato de que a Google está a serviço não apenas do “livre mercado”, mas do mercado livre de qualquer intromissão do Estado. Uma “ideologia” claramente a serviço das forças de direita. Portanto, não paira acima dos mundanos conflitos de esquerda e direita.

É mais do que isso. Gigantes como Google, Facebook, Twitter, Microsoft, Amazon não gostam de Estado. Mas atuam cada vez mais como um Estado totalitário mundial. E o fazem pelo consumo e pelo controle ideológico mais sutil, invadindo nossas casas e locais de trabalho por nossa própria iniciativa.

Leia também: Google e Amazon de olho nas oportunidades do apocalipse

27 de abril de 2020

Qualityland, a distopia aqui e agora

De volta a Qualityland, país ficcional criado pelo escritor alemão Marc-Uwe Kling, descrito no livro homônimo.

Na terra da qualidade, tudo é superlativo. Lá nada é apenas maravilhoso. É mais maravilhoso!

E nesse lugar hiper-extraordinário, as teias virtuais e seus aplicativos dominam tudo. A maior rede social do mundo está lá, claro. É a Everybody.

Todos estão nela. Literalmente. Afinal, a Everybody se encarrega de criar automaticamente perfis para aqueles que ainda não conseguiram criar um para si. Ele também se encarrega de manter os status dos usuários atualizados automaticamente.

Por exemplo, sempre que você tomar aquele costumeiro café, o sistema publicará instantânea e autonomamente a atualização apropriada em seu perfil: “Nesse momento, estou tomando um café na Starbucks. Totalmente delicioso!”

Existem até robôs de bate-papo que se encarregam de iniciar e manter diálogos com os seus contatos na rede. De modo que a pessoa recentemente registrada já chega com suas conversas em adiantado estágio de andamento.

É como diz a propaganda do Everybody: “Você economiza o esforço de ter que conversar com seus amigos. E a situação ideal surge quando os robôs assumem as duas pontas da conversa, proporcionando mais tempo livre para os respectivos usuários.”

Calcula-se que esse recurso libera cerca de 10,24 horas por semana por membro da rede. Não é fantástico? Fantástico, não. Extremamente fantástico!

Lógico que numa sociedade como essa não existem segundos lugares. Todo e qualquer serviço, empresa, corporação são, ao mesmo tempo, gigantes, únicos e os melhores. Assim, não há espaço para coisas bobas como a livre concorrência.

Não lembra um lugar nem tão ficcional? Tipo, aqui e agora?

Leia também: Qualityland: uma distopia com cara de realidade

24 de abril de 2020

Qualityland: uma distopia com cara de realidade

O escritor alemão Marc-Uwe Kling acaba de lançar a edição brasileira de “Qualityland”. O livro faz uma sátira inteligente e divertida, ao imaginar uma sociedade em que seríamos dominados pelas máquinas e seus algoritmos.

Qualityland é um país surgido após “uma crise econômica tão severa que ficou conhecida como a crise do século”. Entre suas muitas esquisitices está o aplicativo “MeAvalie”, que estabelece um sistema de qualificação social que vai de 1 a 100. Mas...

...segundo rumores, o nível mais baixo é o Nível 2. Parece que ninguém é classificado no Nível 1, para que as pessoas do Nível 2 achem que ainda há alguém abaixo delas. O medo da queda é considerado útil porque as pessoas que pensam que não têm nada a perder são perigosas. O nível mais alto é 100. Embora, presumivelmente, também não haja pessoas nesse nível, para que as pessoas do Nível 99 acreditem que ainda há espaço para melhorias, já que ainda têm alguém acima delas
Com base nesse “ranking”, os bancos concedem crédito ou não. Os empregadores contratam o candidato ao emprego ou não.

Muitas lojas, restaurantes e clubes só abrem suas portas automáticas para pessoas acima de um determinado nível. A polícia está autorizada a parar, revistar e deter qualquer pessoa abaixo de certa classificação.

Pessoas com nível de apenas um dígito são chamados, extraoficialmente, de “Inúteis".

Outra curiosidade: os sobrenomes sempre fazem referência à profissão da pessoa. Por exemplo, Daniel Dentista, Vanessa Balconista ou Margareth Oftalmo. Mas a família mais numerosa é a dos Sem Trabalho.

O livro pretende ser uma distopia. Talvez não seja.

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7 de abril de 2020

O coronavírus-19 e o policial de sacada

O verdadeiro vilão da enorme crise por que estamos passando está longe de ser o coronavírus-19. Por si só, até agora, o vírus vem apresentando baixa letalidade. É o modo como nossa sociedade extremamente desigual reage a ele que mata.

Os maiores ameaçados são os que vivem as mazelas de um sistema que promete prosperidade a todos, mas só a faz chegar a muito poucos. A este propósito, vale ler recente entrevista de Marina Garcés, professora da Universidade Aberta da Catalunha. Um trecho:

Nós, humanos, nos adaptamos a tudo quando temos medo, e vivemos coisas muito piores. Guerras, perseguições, fechamentos massivos. Há setores da população mundial que sofrem assim todos os dias, nos campos de refugiados, países em guerra, guetos, coletivos encarcerados... e a história também nos oferece exemplos constantes. A sociabilidade confinada não é nenhuma novidade. Sua dimensão global e generalizada e o fato de que afete aqueles que normalmente têm mais direitos e acesso à mobilidade, sim.
Para a filósofa, dessa situação podem surgir “duas coisas: redes de apoio mútuo e policiais de sacada. Moradores que ajudam e vizinhos que se delatam. As atuais condições de vida tiram o melhor e o pior que podemos chegar a ser”.

Segundo ela, caso “vença o medo e a suspeita entre vizinhos, daremos um passo a mais para uma sociedade autoritária”. Apesar disso, Marina acha que não devemos nos render aos relatos apocalípticos. Afinal, diz, “o valor da vida é lutar todos os dias, e são as pessoas anônimas mais castigadas que nunca deixam de fazer isso”.

É verdade, mas o policial de sacada está à espreita.

Leia também: Pandemia e oportunismo: vigilância

9 de dezembro de 2019

Fragmentação social e conformismo institucional

Nick Dyer-Witheford, com “Cyber-Proletariat”, Shoshana Zuboff, autora de “TheAge of Surveillance Capitalism” (A era do capitalismo de vigilância) e Paolo Gerbaudo, que publicou “The Digital Party”.

Os estudiosos acima são apenas alguns dentre dos que têm entre suas maiores preocupações as dificuldades que as classes dominadas encontram em se organizar para resistir às atuais formas de acumulação e domínio pelo capital.

Um dos aspectos mais importantes dessas dificuldades seria a fragmentação crescente da vida social. E, com ela, a ausência de uma classe trabalhadora como agente capaz de se reconhecer e se organizar coletivamente.

Para o filósofo francês Gilles Deleuze, a sociedade contemporânea levou a fragmentação social ao nível mais pessoal. O que parecia indivisível já não é. Por isso, criou o conceito de “dividual”, em oposição ao “individual”.

Na era da digitalização da vida, esse estilhaçamento ficaria evidente com a onipresença das redes virtuais no cotidiano da imensa maioria das pessoas. O resultado seria uma sociedade sem unidade, sem sujeitos. Mas não sem política.

As classes dominantes quase sempre souberam manter sua unidade na hora de apelar a reações violentas e ao conservadorismo extremado quando foi necessário. Seja diante da radicalização da resistência operária e popular, seja quando a competição capitalista obriga a rearranjos entre seus setores.

Estamos vivendo outro desses momentos. Mas não se trata apenas de mais um ciclo. Acumulam-se sinais de que as crises tornam-se cada vez mais graves e ameaçadoras para o destino de grande parte da humanidade.

Felizmente, a história sempre apresenta caminhos alternativos. Mas é preciso saber reconhecê-los. E nenhum deles passa pelo mesquinho conformismo à política institucional.

Leia também: Os desafios organizacionais do ciberproletariado

17 de outubro de 2019

Google e Amazon de olho nas oportunidades do apocalipse

Imagine, apenas imagine, que setores poderosíssimos do capital mundial consideram irreversível o colapso da humanidade devido a problemas ambientais.

Esses setores estariam, então, fazendo o seguinte cálculo. Já que o fim é inevitável, vamos organizar a fila de salvação, de modo a ficar nos primeiros lugares e ainda lucrar com isso.

Muita teoria da conspiração? Vejamos.

Segundo recente reportagem do jornal britânico“The Guardian”, a Google teria feito doações “substanciais” para alguns dos grupos negacionistas climáticos mais relevantes dos Estados Unidos.

São organizações como Competitive Enterprise Institute, Cato Institute e Heritage Foundation, cuja atuação foi fundamental para que o governo Trump deixasse o Acordo de Paris, que pretende combater o aquecimento global.

O problema é que a Google lamentou publicamente a saída do Acordo. Portanto, aí, tem coisa...

Enquanto isso, outra reportagem afirma que Jeff Bezos, proprietário da Amazon, estaria trabalhando no projeto de um tubo cilíndrico que orbitaria a Terra, abrigando milhões de pessoas. Seria sua alternativa para um planeta que se tornará inabitável para a raça humana num futuro próximo.

Vale lembrar que a Amazon tem mais de 600 mil empregados, com inúmeras e graves denúncias de abusos cometidos contra eles nas enormes instalações da empresa. Será que Bezos não quer fazer o mesmo com grande parte dos milhões que pretende colocar em seus tubos espaciais?

Até agora, havia denúncias de que esses novos capitalistas poderosos estariam construindo suas próprias Arcas de Noé. Mas é pior. Parecem estar ajudando a preparar o dilúvio para nos vender bilhetes de salvação ou nos escravizar ou ambos.

Muita loucura? Sim, muita loucura. Impossível? Não, de jeito nenhum.

Leia também: Do descontrole ao apocalipse capitalista

13 de setembro de 2019

5G: mais vigilância e controle social

A tecnologia 5G foi criada principalmente para servir ao capital. Nesse sentido, acentua a subordinação da sociabilidade humana à circulação de mercadorias. Para que esta seja harmoniosa, aquela tem que ser cada vez mais conflituosa e alienada.

Quem quer que não acompanhe ou atrapalhe a valorização do capital está sob ameaça. Podem ser pequenos empresários, incapazes de concorrer com monopólios. Mas, certamente, o maior alvo são militantes políticos e sociais.

Afinal, em uma sociedade que assegura total liberdade às mercadorias, a liberdade das pessoas é que precisa ser controlada, vigiada, tolhida.

Para essa função a internete já se mostra bastante adequada. Mas com sua versão 5G, não será preciso aguardar que sejamos nós a acessar seus dispositivos.

A internete das coisas é a rede onipresente. Cada pessoa transforma-se em um ponto circulando por ela. E os nós dessa rede já não são apenas computadores e celulares. São automóveis, mobiliário urbano, a casa, o trabalho, o lazer.

Tudo e todos rastreados o tempo inteiro.

Não à toa, a rede 5G está no centro da disputa entre as duas maiores potências capitalistas da atualidade. Estados Unidos e China emparelhados na mais recente corrida tecnológica.

Os Estados Unidos com um liberalismo que assegura plena liberdade apenas para que suas grandes corporações privadas satisfaçam seus interesses. A China com seu capitalismo superplanejado a serviço de monopólios estatais e não estatais, incluindo alguns estadunidenses e europeus.

A 5G só é estratégica para os negócios e para o controle social porque obedece a uma lógica sistêmica. É esta lógica que devemos combater. Quem sabe, utilizando as próprias contradições da 5G para isso.

Leia também: 5G: a internete das coisas e de seu fetichismo

29 de julho de 2019

A resistência dos explorados expande horizontes

Há quem diga que a atual situação de estagnação da economia mundial em breve dará lugar a outro momento de expansão, criando empregos e elevando a renda.

Não é isso o que sugere a realidade do último meio século. Momentos de crescimento econômico realmente ocorrem ciclicamente, mas beneficiando cada vez menos gente. Concentrando mais renda e reservando a minorias minúsculas a vida digna prometida pelo livre mercado.

O fato é que o capitalismo está preso a uma tendência de fabricar lucros gigantescos, empregando cada vez menos força de trabalho. Vejamos um exemplo retirado de “The Age of Surveillance Capitalism” (A era do capitalismo de vigilância), de Shoshana Zuboff.

Nesse livro, ainda sem tradução, a autora mostra como as maiores empresas do mundo empregam pouca gente, em comparação a seu gigantesco valor de mercado.

Desde o momento em que passaram a vender ações em 2016, o valor de mercado da Google e do Facebook disparou. A Google alcançou U$ 532 bilhões e o Facebook atingiu U$ 332 bilhões. A Google emprega pouco mais de 75 mil pessoas e o Facebook cerca de 18 mil.

Enquanto isso, a General Motors levou quatro décadas para alcançar seu maior preço de mercado: U$ 225 bilhões, em 1965. Mas empregava, naquele momento, 735 mil trabalhadores.

Felizmente, nem esses grupos tão poderosos estão livres da luta de classes. Em maio passado, por exemplo, ocorreu uma “paralisação feminina” em várias sedes da Google pelo mundo contra disparidades salariais e denúncias de assédio sexual.

Os ciclos das lutas da classe trabalhadora, sim, são os únicos com potencial para verdadeiramente expandir os horizontes da humanidade.

Leia também: Doença e morte nas minas do trabalho uberizado

18 de julho de 2019

Capitalismo de vigilância e neofeudalismo

Shoshana Zuboff é professora da Harvard Business School e autora de “The Age of Surveillance Capitalism” (A era do capitalismo de vigilância), ainda sem tradução.

A obra denuncia o enorme poder dos novíssimos monopólios digitais. Em especial, a Google. Mas também alerta para os traços neofeudais da atual fase do capitalismo.

Comecemos pelo que a autora chama de “primeira modernidade”. Trata-se do advento do capitalismo, que tornou a vida “uma realidade em aberto a ser descoberta e não uma certeza a ser encenada”. Assim, com o devido esforço, você poderia ter casa própria, automóvel e muitos eletrodomésticos.

Por volta da segunda metade do século 20, a "segunda modernidade" permite a centenas de milhões de pessoas acesso a experiências antes restritas a poucos: educação universitária, viagens, maior expectativa de vida, aumento do padrão de vida, amplo acesso a bens de consumo etc.

Já no final do século passado, surge o culto neoliberal ao esforço individual acima de tudo e todos. Mas com ele também veio uma enorme concentração de renda e patrimônio. Tornou-se flagrante o predomínio da riqueza herdada sobre a conquista meritocrática, tal como acontecia no feudalismo.

Mas como contradições nunca deixam de surgir, no início deste século, a internete se espalha pelo mundo. Traz consigo um enorme potencial de produção colaborativa e sociabilidade compartilhada. Expectativa rapidamente frustrada pelo surgimento de monstros digitais como Google e Facebook.

A esperança da autora é a fundação de uma “terceira modernidade” baseada em “um novo capitalismo digital racional”, apoiado “por instituições democráticas”.

Mas é mais fácil voltarmos ao feudalismo que combinar capitalismo com racionalidade e democracia.

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