Doses maiores

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23 de outubro de 2024

Aquiles, Escamandro e os deuses do capitalismo

Em “A Ilíada”, de Homero, Aquiles é o combatente invencível, lutando ao lado dos gregos contra Troia. Mata a todos sem dó ou vacilação, até que encontra pela frente Escamandro.

Escamandro é um rio-deus. Na mitologia grega, os rios eram considerados entidades poderosas e sagradas. Como as águas de Escamandro banhavam Troia, a divindade também protegia os troianos. Aquiles despertou a fúria de Escamandro não apenas pelos inúmeros corpos de troianos que jogou em suas águas. Os cadáveres também as poluíam, matando peixes e outros seres vivos.

A batalha entre Aquiles e Escamandro é um dos momentos mais dramáticos da Ilíada. O deus-rio, enfurecido, tenta afogar Aquiles, acrescentando a suas águas as dos afluentes e riachos próximos. Pela primeira vez, o invicto herói grego se viu em apuros. Mas Aquiles é filho da deusa Tétis e protegido de Hera, mulher de Zeus. Contra uma retaguarda dessa, o rio-deus não tinha a menor chance. As deusas convocaram Hefesto e o deus do fogo fez as águas de Escamandro ferverem e evaporarem, garantindo a vitória a Aquiles.

Mas deixemos a mitologia de lado, por um momento, para destacar a seguinte notícia: “Banco do Brasil, Bradesco e Itaú Unibanco lideram ranking global de financiamento antiambiental. Maior parte do crédito liberado, explica a matéria, é destinada para as indústrias da soja e da pecuária bovina, setores com amplo histórico de violações socioambientais na Amazônia e no Cerrado brasileiro”.

Aí estão as causas das frequentes inundações catastróficas e queimadas calamitosas. No lugar de brigarem entre si, como na mitologia, os deuses do capitalismo se unem na promoção do apocalipse planetário.

Leia também: O ecossocialismo contra a barbárie do Antropoceno

21 de outubro de 2024

O ecossocialismo contra a barbárie do Antropoceno

Para Lênin, o militante socialista tinha que ser, antes de tudo, um “tribuno do povo”. Ou seja, ser alguém “capaz de reagir a qualquer manifestação de tirania e opressão, não importa onde apareça, nem qual seja a classe das pessoas atingidas por ela”.

Nos tempos atuais, os socialistas precisam ser também tribunos do meio-ambiente, diz Ian Angus, em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”.

Marx dizia que as pessoas não mudam a si mesmas e depois mudam o mundo. Elas mudam a si mesmas, mudando o mundo, afirma Angus. Mas não existe revolução em que todos ganham. Numa verdadeira revolução, diz ele, aqueles que têm poder e privilégios na velha sociedade devem perdê-los na nova.

Marx e Engels advertiram: a luta de classes conduzirá ou a “uma reconstituição revolucionária da sociedade em geral” ou à “ruína comum das classes em conflito”. No Antropoceno, a ruína comum, a destruição da civilização, é uma forte possibilidade. Por isso, o autor defende um movimento com um programa ecossocialista que faça a ligação entre a raiva espontânea de milhões de pessoas e o início de uma transformação ecossocialista.

Se lutarmos, podemos perder. Se não lutarmos, perderemos, diz ele. A sorte ou o acaso podem desempenhar um papel, mas uma luta consciente e coletiva para deter o trem infernal do capitalismo é a nossa única esperança para um mundo melhor.

Por fim, Angus cita Gramsci, para quem era urgente “deter a dissolução que corrói as raízes da sociedade humana”. Somente assim, a “árvore nua e estéril pode tornar-se verde novamente”.

Esta pílula encerra a série sobre a obra de Angus.

Leia também: A União Soviética se rende ao capitalismo fóssil

8 de outubro de 2024

Capitalismo fóssil: só danos, sem redução

Desde o século 19, a relação entre o crescimento do capitalismo e o aumento das emissões de gases de efeito estufa tem sido muito estreita. Esses gases liberam muito carbono na atmosfera devido ao uso excessivo de combustíveis fósseis.

Combustíveis fósseis estão presentes na produção de alimentos, roupas, moradias, aquecimento, remédios, transporte, comunicações, entretenimento e muito mais. O capitalismo nasceu e sempre foi fóssil, afirma Ian Angus em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”.

Estudos realizados por diversos grupos ambientalistas demonstram que é perfeitamente plausível uma transição completa para combustíveis renováveis e sem carbono. Mas a um custo estimado em US$ 100 trilhões. Muito caro?

Durante a Segunda Guerra, foram produzidos cerca de 6 mil navios, 850 mil aviões, 5 milhões de tanques, 8 milhões de armas de grande porte e as bombas atómicas. Tudo em apenas seis anos e ao custo de muitos trilhões de dólares. O mesmo esforço poderia ser feito em relação à troca das matrizes energéticas? Sim, mas não sob o capitalismo.

O fato é que os combustíveis fósseis são a força motriz que garante ao capitalismo lucros nos níveis necessários para sua reprodução. O problema é que essa reprodução beneficia apenas uma pequena maioria e ainda causa os mais terríveis efeitos colaterais para o restante de nós. É só olhar em volta para constatar isso.

O capital é viciado em lucros e dependente de petróleo, gás e carvão. Mas quem sofre com essa relação patológica é a imensa maioria da humanidade. Ficamos com cada vez mais danos, sem qualquer redução. O capitalismo é uma droga de que precisamos nos livrar urgentemente.

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19 de setembro de 2024

O Antropoceno e o fio vermelho da resistência

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus lembra que, certa vez, Marx comparou o progresso capitalista àquele "ídolo pagão hediondo, que não beberia o néctar senão dos crânios dos mortos".

Essa incapacidade do capitalismo de criar sem destruir, afirma o autor, corre como um fio vermelho pela obra do grande revolucionário alemão. Mas nem ele poderia imaginar o quão extrema essa contradição se tornaria.

O Antropoceno é algo nunca visto na história do planeta, diz Angus. As mudanças que ocorreram antes, não importa quão extensas ou destrutivas, não causaram “mudanças significativas na estrutura ou funcionamento do Sistema Terrestre como um todo.”

Não é que haja vários focos de destruição ecológica espalhados pelo mundo. A catástrofe ambiental é sistêmica, planetária. São tempestades, furacões, incêndios, ondas de calor e de frio nos vários continentes. Além das cada vez mais frequentes epidemias ameaçando se transformar em nova pandemia. Até o equilíbrio das camadas geológicas mais profundas está ameaçado pela exploração de petróleo e gás usando a técnica do “fracking”.

Nenhum desses fenômenos respeita fronteiras ou trará consequências mais amenas para países ou regiões menos poluentes. Ao contrário, muitos deles afetarão principalmente as nações menos industrializadas e ambientalmente sujas.

Segundo o autor, o Antropoceno também é um território desconhecido. Ninguém pode assegurar qual será a dimensão dos efeitos das pesadas intervenções promovidas pela humanidade sob o domínio do capital. Um sistema cuja sanha por lucros para poucos está colocando em risco a vida da grande maioria explorada e oprimida.

Eis porque é preciso seguir aquele “fio vermelho” da obra marxista para rompermos definitiva e radicalmente com o capitalismo.

Leia também: A assinatura do Antropoceno com firma reconhecida

14 de setembro de 2024

A primeira quase catástrofe do Antropoceno

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus lembra a crise do buraco da camada de ozônio, fenômeno causado pela utilização do clorofluorcarbono (CFC) em produtos como inseticidas, desodorantes, lubrificantes, perfumes e tintas.

O rompimento na camada de ozônio causa desequilíbrios no regime climático e torna a atmosfera terrestre vulnerável aos raios ultravioletas, acarretando diversos problemas de saúde.

Estima-se que cerca de 750 mil toneladas de CFC já haviam sido liberadas na atmosfera em 1970. Mas apenas no final dos anos 1980, após muita pressão da opinião pública mundial, as grandes empresas que utilizavam o CFC deixaram de usá-lo.

Mas o buraco continuou a aumentar até alcançar uma área sete vezes a do território brasileiro, em setembro de 2000. Desde então, diminuiu ligeiramente e permanece precariamente estável.

Há quem diga que a recuperação da camada de ozônio prova que o capitalismo pode resolver problemas ambientais globais: “Se as negociações internacionais puderam aliviar a crise de ozônio, por que não a do clima?”. Esse raciocínio ignora o fato de que o ozônio era utilizado apenas por um punhado de empresas. Em contraste, eliminar combustíveis fósseis e emissões de gases de efeito estufa exigirá uma transformação de décadas da economia global.

Os donos do capital têm grande dificuldade em olhar mais do que dez anos à frente. Os prejuízos que seus altos lucros custam ao resto do planeta não estão em seus balanços financeiros.

A crise do CFC foi a primeira “quase catástrofe” do Antropoceno, mas a menos que nos livremos da máquina suja do capitalismo, haverá muitas mais. Já não temos espaço para novos “quases”.

Leia também: Antropoceno: a era da sujeira capitalista

9 de setembro de 2024

Antropoceno: a era da sujeira capitalista

Em 1922, o geólogo soviético Aleksei Petrovich Pavlov propôs o conceito Antropoceno para caracterizar o período geológico marcado pela presença dos seres humanos, sucedendo a época do Holoceno. Mas a proposta não foi bem recebida.

Após reaparecer em algumas ocasiões sem sucesso, o conceito voltou a ser utilizado pelo químico Paul Crutzen, em fevereiro de 2000, em uma reunião do Programa Internacional Geosfera-Biosfera, no México. Desde então, vem ganhando unanimidade.

A questão que ainda divide os especialistas é sobre quando o Antropoceno teria começado. Mas um passo importante para tentar resolver a polêmica foi dado com a apresentação do documento “Mudança Global e o Sistema Terra”, no encontro internacional “Desafios de uma Terra em Mudança”, realizado em Amsterdã, em julho de 2001.

A publicação apresentava 24 gráficos: doze mostrando tendências históricas da atividade humana (crescimento do PIB, população, consumo de energia, uso de água, etc.) e doze abrangendo aspectos físicos como dióxido de carbono, redução da camada de ozônio, extinção de espécies, perda de florestas, etc.

Os gráficos mostraram um crescimento constante dos 24 índices, a partir do ano de 1750. Mas acusaram uma drástica elevação dos números de 1950 em diante. Ou seja, no momento em que se generalizava a utilização dos combustíveis fósseis pelo planeta.

As informações acima são do livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus. Não à toa, o autor chama a atual fase produtiva em que vivemos de capitalismo fóssil. Nele, as imundas máquinas a carvão da industrialização surgida na Inglaterra foram substituídas por motores ainda mais sujos, movidos pelo petróleo do capitalismo sob o domínio estadunidense.

Leia também: Enfrentando o Antropoceno com o ecossocialismo

4 de setembro de 2024

Enfrentando o Antropoceno com o ecossocialismo

“Enfrentando o Antropoceno” é o título de um recente livro de Ian Angus, militante ecossocialista canadense. Segundo ele:

É um desafio para todos que se importam com o futuro da humanidade encarar o fato de que a sobrevivência no Antropoceno requer uma mudança social radical, substituindo o capitalismo fóssil por uma civilização ecológica. Ou melhor, ecossocialista. Construir o socialismo nas condições do Antropoceno, por sua vez, envolverá desafios que nenhum socialista do século 20 jamais imaginou. Entender e se preparar para esses desafios deve estar agora no topo do programa socialista.

Mas apesar de Angus avaliar que os desafios são inéditos, ele resgata elementos das obras de Marx e Engels que já no século 19 começavam a mostrar o tamanho da encrenca. Em abril de 1856, em uma reunião de trabalhadores em Londres, Marx descreveu uma profunda contradição no desenvolvimento capitalista:

Por um lado, começaram a surgir forças industriais e científicas, das quais nenhuma época da história humana anterior jamais suspeitou. Por outro lado, existem sintomas de decadência, superando em muito os horrores registrados nos últimos tempos do Império Romano. Este antagonismo entre a indústria moderna e a ciência, por um lado, a miséria e a dissolução modernas, por outro. Este antagonismo entre os poderes produtivos e as relações sociais de nossa época é um fato, palpável, avassalador e incontestável.

Assim, para o autor, os socialistas precisam abordar o Antropoceno como uma oportunidade de unir a análise marxista ecológica com as últimas pesquisas científicas em uma nova síntese: “Um relato socioecológico das origens, natureza e direção da crise atual”.

Voltaremos a comentar a obra.

Leia também: A humanidade chegando ao limite

7 de agosto de 2024

A humanidade chegando ao limite

A metodologia dos limites planetários procura medir o impacto das atividades humanas no sistema terrestre. Ultrapassá-los significaria deixarmos o período de estabilidade do Holoceno, no qual vivemos durante os últimos 12 mil anos.

Os limites correspondem a nove processos de mudanças, que são: climáticas, integridade da biosfera, biogeoquímica, acidificação dos oceanos, uso do solo, camada de ozônio, aerossóis atmosféricos e liberação de químicos sintéticos no ambiente sem testes de segurança adequados.

Pois bem, um levantamento divulgado em setembro de 2023 mostra que seis deles foram definitivamente ultrapassados, e um deles, o elevado índice de acidez dos oceanos, está muito perto de seu limite. Apenas a deterioração do ozônio e os aerossóis atmosféricos estão sob controle.

Essas mesmas evidências mostram que as ações humanas, especialmente as das sociedades industrializadas, tornaram-se o principal motor da mudança ambiental global. É o resultado dos estragos feitos pela exploração capitalista, que caracteriza um período sem paralelo na história humana: o Antropoceno.

Segundo Johan Rockström, um dos pesquisadores responsáveis pelo levantamento, essas perturbações ambientais são abordadas como se fossem questões separadas. Por exemplo, mudanças climáticas, perda de biodiversidade ou poluição. Essas abordagens, no entanto, ignoram as interações não lineares desses desequilíbrios e os efeitos agregados resultantes no conjunto do sistema terrestre. Os limites planetários trazem uma compreensão científica dos impactos ambientais antropogênicos em uma estrutura que considera o sistema terrestre como um todo.

Ou seja, os efeitos destruidores do capitalismo são globais e precisam ser combatidos em sua totalidade e com muita urgência. A humanidade está chegando literalmente aos limites de sua sobrevivência como espécie.

Doses serão suspensas até setembro.

Leia também: O Antropoceno e o Atlas Selvagem

19 de junho de 2024

Capitalismo verde, capitalismo sujo

A denúncia está na matéria “Bahia: energia ‘limpa’ contra o povo”, publicada pelo portal Outras Palavras. É sobre as serras de Jaguarari, na Bahia, conhecidas como a “caixa d’água do sertão”. Suas 63 fontes abastecem mais de um milhão de pessoas.

Um consórcio chamado Quinto Energy escolheu a região para construir o “Complexo Manacá”, que prevê a instalação de 405 torres eólicas e 476 mil placas fotovoltaicas. A produção de energia equivaleria a um quarto da gerada por Itaipu, a maior hidrelétrica do país.

Serão abertas estradas com até 20 metros de largura para que carretas transportem torres eólicas com 43 metros de altura para o alto da serra. Além disso, será preciso construir plataformas de concreto, desmatando e cimentando as caixas d´água do sertão. Apesar disso tudo, a obra recebeu sinal verde do governo baiano.

Este é mais um exemplo de que mesmo as chamadas energias “limpas” e “sustentáveis” podem causar mais estragos que benefícios. Mas vai muito além dos impactos locais.

Parques eólicos e fotovoltaicos estão sujeitos à inconstância dos ventos e da luz solar. Desse modo, seus proprietários criam demandas que não têm condições de garantir de forma sustentável. A qualquer momento, essas fontes ditas alternativas podem “secar”, provocando apagões que o Estado será pressionado a resolver. Na utilização da energia hidrelétrica essas intermitências são corrigidas pelo sistema público, que alterna o uso das usinas espalhadas pelo país.

Fontes de energia renováveis devem substituir as tradicionais, diminuindo o impacto ambiental e social, mas também integrar os sistemas públicos. Qualquer coisa diferente disso é o velho capitalismo sujo disfarçado de capitalismo verde.

Leia também: O capitalismo verde e os latifundiários dos ventos

29 de maio de 2024

Geoengenharia: falsa solução para a crise climática

Em 27/05/2024, Ronaldo Lemos publicou o artigo “Chegou a hora da geoengenharia?”, na Folha. Segundo o colunista, geoengenharia é a “ambição de interferir no clima do planeta em escala global, para corrigir o curso do aquecimento e das mudanças climáticas”.

Por exemplo, espalhar silicato em grandes extensões da superfície do planeta para acelerar o processo de remoção de CO2 da atmosfera. Ou lançar escudos refletores no espaço para diminuir a incidência da luz solar.

Na verdade, o objetivo é deixar em paz os grandes geradores de gases de efeito estufa, já que tudo seria corrigido por soluções extravagantes como essas. Produtores de combustíveis fósseis, desflorestadores e queimadores de vegetação agradecem o empenho.

Apesar do título do artigo, a geoengenharia já foi um dos principais temas tratados na Conferência Rio+20, ocorrida em 2012. Desde então, a indústria e alguns setores da academia continuam a insistir na geoengenharia como solução. Solução para seus negócios, não para a grande maioria da população do planeta.

Intervenções em larga escala no meio ambiente envolvem inúmeras variáveis. Podem resolver um problema e desencadear muitos outros. Uma ação em certa região do planeta ameaça desequilibrar as condições climáticas em outras.

Algumas formas de energia sustentáveis até podem ser consideradas uma forma amenizada de geoengenharia. Mas nada substitui a necessidade de diminuir as altas emissões de carbono.

O pior é que a geoengenharia usa como pretexto para se justificar as cada vez mais frequentes tragédias ambientais, como a que atingiu as terras gaúchas. Típico caso de solução que faz parte do problema. Como tudo o que tenta manter intacta a insustentabilidade capitalista.  

Leia também: A rebimboca climática da geoengenharia

22 de maio de 2024

Em nossos corpos, poeira de estrelas da morte

A 3M Corporation fabrica de tudo, desde lixas até esponjas de cozinha, além de fita adesiva e post-its. Muitos desses utensílios fabricados pela empresa contêm produtos químicos fluorados (PQFs), classificados entre os elementos químicos eternos, chamados assim porque permanecem na natureza e nos organismos vivos por muitos anos.

No final da década de 1970, os próprios cientistas da 3M descobriram que o PQFs são tóxicos para animais e se acumula em organismos humanos. Ainda assim, a empresa continuou a produzir toneladas da substância por ano. Entre 1951 e 2000, foram pelo menos 52 toneladas de PQFs. Aproximadamente, o peso do Titanic.

As informações acima estão em uma reportagem publicada na revista The New Yorker, em 21/05/2023. Escrita por Sharon Lerner, o texto relata “como executivos da 3M descobriram – e depois ajudaram a esconder – os perigos dos produtos químicos que a sua empresa criou”.

Sharon informa que os fluoroquímicos tiveram sua origem no esforço americano para construir a bomba atômica. Após a guerra, a 3M contratou alguns cientistas do Projeto Manhattan e começou a produzir moléculas de átomos de carbono e de flúor. Os produtos resultantes provaram ser surpreendentemente versáteis, em parte porque resistem ao óleo, à água e ao calor. Também se mostraram incrivelmente duradouros, o que lhes valeu o apelido de “produtos químicos eternos”.

Atribui-se ao astrônomo Carl Sagan a frase que afirma sermos “todos feitos de poeira estelar”. Na época em que ele disse isso, já vivíamos a fase do imperialismo bélico nuclear, em que o capitalismo impregna nossos corpos com partículas de estrelas da morte, como a de Hiroshima.

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29 de fevereiro de 2024

Os idiomas artificiais e o extermínio das línguas indígenas

Klingon: Star Trek. Dothraki: Game of Thrones. Nadsat: Laranja mecânica. Kryptoniano: Super-Homem. Na'vi: Avatar... Esta lista refere-se às línguas criadas para séries, filmes e livros de fantasia e ficção científica. Com menção especial para os idiomas Quenya, Sindarin e Élfico, inventados por J.R.R. Tolkien para a saga “Senhor dos Anéis”.

Fenômenos de massa, alguns desses idiomas artificiais estão disponíveis até em aplicativos de aprendizado de línguas estrangeiras. Ou seria melhor dizer alienígenas?

Mas o caso de Tolkien é específico. Ele criou os idiomas antes de inventar os povos que os utilizam. Faz todo sentido. Afinal, as formas simbólicas de comunicação de um povo dizem quase tudo sobre o que ele é, sua história, crenças, cultura, moral, religião. É por isso que entre as formas de dominação e extermínio cultural mais eficazes de um povo está a supressão de seu idioma. Um exemplo claro disso é a situação dos indígenas.

Calcula-se que quando os europeus invadiram as terras que atualmente chamamos Brasil, havia mais de 5 milhões de indígenas, falando cerca de 1.200 línguas. Hoje, esses idiomas foram reduzidos a um número entre 160 e 180. Uma das consequências disso é o baixo índice de pessoas que se identificam como indígenas na população brasileira. Ao massacre físico desses povos juntou-se seu extermínio simbólico. Um etnocídio.

Na esfera do entretenimento comercial, o capitalismo se apropria dos mundos criados pela fantasia humana para gerar cada vez mais lucros, beneficiando cada vez menos gente. Ao mesmo tempo, utiliza o extermínio cultural para eliminar mundos incompatíveis com sua lógica destruidora da vida e produtora de injustiça social.

Leia também: No pós-apocalipse, sob orientação indígena

9 de janeiro de 2024

Distopia capitalista: do gemido ao estrondo

Distopia vem do grego e pode ser traduzida como um lugar ruim, mas imaginário. Há décadas, tornou-se tema favorito de filmes, peças, séries, livros e quadrinhos. Geralmente, ambientados em um cenário pré ou pós-apocalíptico.

Elementos clássicos dessas tramas ficcionais são enorme repressão estatal, robôs e dispositivos eletrônicos descontrolados, vigilância e controle cibernéticos da vida social, multidões de miseráveis, hordas de criminosos, a sociedade dominada pela lei do mais forte, pandemias, hecatombes naturais, crises climáticas, extinções em massa, insanidade mental generalizada, minúsculas elites ricas, poderosas e fortemente protegidas.

A questão é que esse lugar ruim já deixou de ser imaginário há muito tempo. É só olhar em volta: caos violento nas cidades, desemprego e precarização, ilhas de prosperidade em oceanos de miséria, truculência policial contra pobres, facções e milícias criminosas presentes tanto no contexto urbano, como rural. Tudo isso promovido por uma elite cada vez menor e mais poderosa.

São famosos os versos de T.S. Eliot, que afirmam: “É assim que o mundo acaba.\ Sem estrondo, num gemido.” Ou seja, diferente do que vemos nos filmes ou lemos nos livros, não há uma grande e definitiva hecatombe. Só o ruído de fundo do capitalismo funcionando, enquanto destrói grande parte da humanidade.

Mas o poeta estadunidense era branco e viveu no século 20. Bem antes disso, a distopia já era o cotidiano de grande parte da população não europeia ou anglo-saxã. Para muitos dos povos não brancos, o apocalipse das crenças religiosas da colonização branca chegou para ficar. E é com eles que temos que aprender a resistir e lutar. Respondendo com estrondo, não com gemidos.

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15 de dezembro de 2023

O planeta rumo à eliminação de algumas de suas pragas

A 28ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28) acabou há poucos dias. Aconteceu nos Emirados Árabes. Sob a presidência de um sultão, o país tem a sexta maior reserva de petróleo do mundo.

Um detalhe importante é que a maior representação do agronegócio veio do Brasil. Eles eram 10% dos membros de grandes indústrias mundiais do setor presentes. Todos juntos e misturados na grande delegação liderada pelo presidente Lula.

A próxima edição deve ocorrer no Azerbaijão, que, apesar de não ser governado por um sultão, tem um terço de sua economia ligado aos combustíveis fósseis.

Já a COP30, em 2025, será em Belém, na Amazônia. Seria bom lembrar que, em agosto passado, a capital paraense foi sede da Cúpula da Amazônia, que reuniu oito países da região. Do encontro resultou a chamada “Declaração de Belém”. Mas o documento não fixou metas ou prazos para a conservação florestal. A necessidade de zerar o desmatamento foi mencionada apenas como "um ideal a ser alcançado".

O texto também evitou estabelecer um compromisso de pôr fim à exploração dos combustíveis fósseis na Amazônia. A única autoridade a protestar contra isso foi o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que não se deixou influenciar pelo próprio sobrenome.

O fato é que apesar da heroica resistência dos movimentos populares, essas conferências vão cada vez mais se tornando um ponto de encontro de poderosos produtores de sujeira ambiental de todo tipo.

Enquanto isso, o planeta arde como uma febre que antecede o agravamento da doença que pode expelir algumas pragas de seu organismo. Adivinhem quem está entre essas pragas?

Leia também: O capitalismo verde e os latifundiários dos ventos

11 de dezembro de 2023

O capitalismo verde e os latifundiários dos ventos

Em 02/12/2023, o presidente da COP28 anunciou várias promessas para investimentos em energia renovável. A principal delas pretende triplicar a capacidade instalada global desse tipo de recurso até 2030. Mas, como no mundo dominado pelo capitalismo sempre tem um “mas”, a eliminação de novos investimentos em combustíveis fósseis ficou fora do texto.

O filósofo e escritor Airton Krenak costuma dizer que não adianta nada adotar fontes renováveis de energia se elas não substituírem recursos energéticos mais sujos, como petróleo, carvão e gás.

Fontes sustentáveis de energia não anulam os estragos sociais e ambientais. Apenas diminuem seu impacto. Enquanto não tomarem o lugar das fontes mais poluentes, acrescentarão novos problemas aos antigos. Além disso, é preciso considerar o caráter monopolista que assume a quase totalidade dos empreendimentos capitalistas na atualidade.

Vejamos o exemplo da energia eólica. Segundo um artigo publicado pelo portal ClimaInfo, empresas desse setor controlam pelo menos 262 mil hectares no Rio Grande do Norte, atualmente. Isso representa 5% da área do estado ou quase duas vezes o tamanho da capital paulistana. Metade disso está sob controle de 27 empresas sediadas aqui e a outra metade, com 19 companhias estrangeiras. “São os latifundiários dos ventos”, diz o texto.

Enquanto isso, os pequenos proprietários que arrendaram suas terras para as instalações eólicas viram seus rendimentos despencarem. Até porque estão impedidos por cláusulas contratuais de cultivar ou criar animais para não interferir na captação do vento.

Este é só um exemplo a mostrar como o verde das energias alternativas capitalistas restringe-se à cor do dinheiro que geram, tornando sustentáveis apenas os enormes lucros de uma minoria exploradora.

Leia também: Capitalismo, arqueologia, mandantes e executores

25 de setembro de 2023

Colonização do futuro e distopias

Já se tornou comum dizer que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”, Alfredo Gonzalez-Ruibal alerta para o que chamou de “colonização do futuro” pela “modernidade tardia”, conceito que ele usa para caracterizar o capitalismo.

De fato, é o que se verifica ao observarmos a indústria cultural e suas inúmeras megaproduções audiovisuais sobre o pós-apocalipse. Aquelas em que o mundo tal como conhecemos aparece em um futuro não tão distante, quase totalmente destruído.

São cidades habitadas por poucos e tomadas por destroços. Ruas e estradas cheias de carcaças de veículos. Grandes prédios em ruínas, ocupados por sobreviventes que lutam entre si em selvagem competição. A diversidade biológica substituída por algumas raras espécies, tão resistentes quanto perigosas para a vida humana.

Na melhor das hipóteses, muitas dessas produções passam por ser uma advertência sobre as consequências dos desequilíbrios ambientais e da barbárie social causada pela distribuição cada vez mais injusta da renda e da riqueza.

Mas na medida em que só conseguem apresentar o futuro como uma versão piorada do presente, esses filmes e séries acabam por nos impor a catástrofe como inevitabilidade. Também nos distraem do apocalipse que já chegou para alguns setores da população, que a ele resistem heroicamente. É o caso dos povos indígenas e dos moradores de regiões empobrecidas das grandes cidades.

É a distopia nos impedindo de enxergar a existência de utopias concretas, representadas pela solidariedade surgida das lutas dos explorados e oprimidos.

Enquanto nossa imaginação se restringir aos elementos doentios e suicidas do capitalismo será assim.

Leia também: Capitalismo, arqueologia, mandantes e executores

7 de setembro de 2023

Seremos capazes de ouvir as baleias?

A inspiração é a chave. Se pudéssemos comunicar com os animais, fazer-lhes perguntas e receber respostas – por mais simples que essas perguntas e respostas possam revelar-se – o mundo poderá em breve ser motivado o suficiente a, pelo menos, iniciar um processo capaz de deter a destruição descontrolada da vida.

As palavras acima são do biólogo estadunidense Roger Payne e aparecem na reportagem “Can We Talk to Whales?” (“Seremos capazes de conversar com baleias?”), recentemente publicada na revista New Yorker. Payne trabalha na Iniciativa de Tradução de Cetáceos, criado em 2017. A sigla do projeto em inglês é “Ceti”, lembrando propositalmente “Seti” (Search for Extraterrestrial Intelligence), cuja tradução é “Busca por Inteligência Extraterrestre” e está em operação desde os anos 1980.

Mas enquanto o Seti procura inteligência nas estrelas, o Ceti volta seus esforços para gravar a linguagem usada pelas baleias cachalotes. As gravações estão sendo feitas na ilha caribenha da Dominfica. Com caráter interdisciplinar, a iniciativa inclui biólogos e linguistas, mas também pesquisadores de inteligência artificial (IA), robótica e computação.

Pois é, não se trata de entrar em contato com possíveis civilizações alienígenas como nas obras de ficção científica, mas robôs e cérebros eletrônicos também estão envolvidos.

Os robôs são, principalmente, para capturar os sons nas enormes profundidades a que chegam as baleias. A inteligência artificial, para dar conta das milhares de combinações possíveis na enorme massa de áudios já captados.

Agora, é torcer para que das profundezas oceânicas nos cheguem bons conselhos sobre como poderemos escapar das catastróficas confusões ambientais que estamos provocando. Isso se não fizermos ouvidos moucos, claro.

Leia também: Como é ser um morcego?

29 de agosto de 2023

Engels e o trem suicida do progresso

Nós nos lisonjeamos demais por causa de nossas vitórias sobre a natureza. Para cada uma dessas vitórias, a natureza se vinga de nós. É verdade que cada vitória traz, em primeiro lugar, os resultados esperados, mas, no segundo e terceiro lugares, produz efeitos imprevisíveis e bastante diferentes, que muitas vezes anulam o primeiro. Assim, a cada passo, somos lembrados de que não dominamos a natureza como um conquistador sobre um povo estrangeiro, como alguém que está fora da natureza – mas que nós, com carne, sangue e cérebro, pertencemos à natureza e existimos em seu meio...

As palavras acima são de Engels e estão no livro “Os camisas negras e a esquerda radical: fascismo racional e a derrubada do comunismo” do historiador e economista estadunidense Michael Parenti.

Parenti as utiliza para mostrar que desde muito tempo o capitalismo apresenta suas tendências ambientais destrutivas. Com sua ênfase incessante na exploração e na expansão, e a sua indiferença aos custos ambientais, diz ele, a essência do capitalismo, sua razão de ser, é converter a natureza em mercadorias e as mercadorias em capital, transformando a terra viva em riqueza inanimada. Por isso, conclui, a “ecologia é profundamente subversiva em relação ao capitalismo”.

O livro foi publicado em 1997, quando já tínhamos muitos sinais de que era urgente subverter o capitalismo também do ponto de vista ecológico. Quase trinta anos depois, o “trem do progresso” a que se referiu Walter Benjamin, lá em 1940, continua carregando a humanidade para o abismo. Mas a advertência de Engels é de 1876. Para ele já estava claro que o trem tomara o rumo errado.

Leia também: Os índios e o anjo desesperado

28 de agosto de 2023

A teoria do caos e o caos na prática

O bater de asas de uma borboleta numa parte do mundo pode causar um tufão no outro lado do planeta. Essa metáfora costuma ser utilizada para ilustrar a teoria do caos. Aquele pequeno movimento do inseto dispararia uma sequência de acontecimentos cujo resultado ninguém pode prever.

Mas ela também é útil para mostrar que situações caóticas são muito complexas, mas não são resultado de fatores aleatórios. Relacionar o surgimento de um tufão ao voo de uma borboleta é impossível. Isso, porém, não significa negar que, em muitos casos, um encadeamento causal efetivamente exista, mesmo que ele jamais possa ser comprovado.

Essa mesma teoria também pode ser usada para abordar as diversas crises do mundo atual. Aquecimento global, desequilíbrios ambientais, inúmeras guerras regionais, enorme injustiça social, elevada criminalidade, fome, miséria, epidemias, déficits habitacionais gigantescos, transporte público em colapso, crise alimentar, relações sociais tóxicas, redes de comunicação envenenadas, cidades, campos, rios e mares empesteados. Tudo isso ocorrendo de forma sincrônica, sistemática e disseminada pelo planeta. Um caos generalizado.

Mas ao contrário do caso da borboleta, não é difícil encontrar a origem dessa sequência causal. A mariposa atende pelo nome de capitalismo. E ainda que as consequências sejam as mais variadas, o bater das asas é a crescente mercantilização da vida e sua subordinação quase absoluta aos circuitos de trocas mercantis. É a escravização da maioria pela ditadura minoritária dos donos dos meios de produção em sua busca insana por lucros.

Precisamos interromper urgentemente essa cadeia catastrófica de eventos. É a única forma de salvar grande parte da humanidade e outras formas de vida. Incluindo várias espécies de borboletas.

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25 de agosto de 2023

Uma porteira na foz do Amazonas

Uma justificativa utilizada para as enormes contradições dos governos petistas é seu caráter de governos em disputa. Pode ser. Mas que setores da sociedade realmente disputam os rumos dos governos petistas?

A questão da exploração de petróleo no Amapá é um exemplo claro de troca de fogo amigo nas disputas entre as forças que compõem o governo Lula. Em meio a esse tiroteio estão indígenas, populações locais e trabalhadores da área, como os petroleiros. Partiu destes últimos um documento aprovado no 36º Congresso Regional dos Petroleiros do Sindipetro PA/AM/MA/AP, em junho passado.

Nele, os representantes da categoria manifestam-se em defesa da “fase de exploração do Projeto Amapá Águas Profundas”. Entendem que o país “deve conhecer as reservas de seus recursos naturais estratégicos, numa perspectiva geopolítica e de soberania energética”. E caso elas existam seja criado um “marco legislativo” no qual estariam previstas várias ações para diminuir o impacto da exploração, prioridade do retorno financeiro para as populações locais, assim como a destinação de metade dos recursos obtidos para a transição energética para fontes sustentáveis, projetos de sustentabilidade e desenvolvimento científico.

O posicionamento reflete um esforço de intervenção por parte de um importante setor, diretamente envolvido na questão. Vale a leitura atenta.

Mas acontece que neste, como nos governos petistas anteriores, a verdadeira disputa de seus rumos ocorre entre diferentes alas do grande capital. No caso, opõem-se o desenvolvimentismo predador do século passado a um “identitarismo ecológico” que denuncia a destruição ambiental capitalista sem responsabilizar o capitalismo.

Diante dessa situação, o risco maior é a famosa boiada do Ricardo Salles. Melhor não abrir novas porteiras.

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