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3 de agosto de 2018

7.500 compositoras brasileiras e seus parasitas

Dificilmente uma pessoa que não seja muito especializada seria capaz de utilizar todos os dedos das mãos para enumerar quantas compositoras brasileiras conhece. Por isso, o número exposto no título acima parece tão surpreendente.

Ele é produto da pesquisa de pós-doutorado "Cartografias da Canção Feminina – Compositoras Brasileiras no século 20 [e um passeio pelos séculos XIX e XXI]”. Sua autora é Carô Murgel, doutora em História Cultural pela Unicamp.

Em entrevista a Arrigo Barnabé, no programa Supertônica, Carô lembra, por exemplo, que o famoso samba “Chiclete com Banana” não é de Jackson do Pandeiro, mas de sua mulher, Almira Castilho.

Não fosse pela desconhecida Dora Vasconcelos, obras-primas de Villa Lobos continuariam restritas às salas de concertos. Suas inspiradas letras permitiram a intérpretes como Olivia Byington e Monica Salmaso gravarem maravilhas como “Canção sentimental” ou “Cair da tarde”.

Helena dos Santos deveria ser famosa, mas não é. Negra e de origem pobre, ela é responsável por várias composições de sucesso gravadas por Roberto Carlos.

Alice Ruiz fez a letra de “Socorro”, musicada e interpretada por Arnaldo Antunes. Também compôs “Quase nada”, em parceria com Zeca Baleiro. Além disso, tem cerca de 50 músicas gravadas por artistas como Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, Gal Costa e Ney Matogrosso. Mas é mais conhecida por ser viúva de Paulo Leminski.

Voltando ao século 19, Carô descobriu que muitas criações musicais femininas eram atribuídas a figuras tão genéricas e anônimas como “uma niteroiense talentosa”. E que até algumas décadas atrás, os direitos autorais de compositoras eram arrecadados em nome de seus maridos, pais, irmãos e outros parasitas masculinos do talento feminino.

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9 de junho de 2017

Lênin sentia sono quando lia Maiakóvski

“Várias vezes tentei ler Maiakóvski e nunca pude ler mais que três versos: sempre durmo”. Esta frase de Lênin está na pequena e brilhante biografia de Trotski, escrita por Paulo Leminski.

Segundo o poeta paranaense, a vanguarda artística russa do começo do século foi importantíssima. Maiakóvski é considerado o grande representante dessa arte revolucionária, mas havia pintores como Chagall e Maliévitch; escritores como Górki e Bábel; e os cineastas Eisenstein e Djiga-Viértov.

Movimentos como o futurismo, cubismo, suprematismo também deveram muito à ebulição revolucionária russa. Neste contexto, diz Leminski, surgiu, por um momento, “a miragem da fusão revolução artística/revolução política”. Seriam “uma nova arte para um novo mundo, novas linguagens para uma nova vida”.

Infelizmente não foi isso que aconteceu. “Maiakóvski suicidou-se em 1930. Eisenstein acabou domesticado, fazendo filmes patrióticos. Meyerhold desapareceu, depois de preso pela polícia de Stálin”, afirma o autor. A partir daí, passaram a ser permitidas apenas as manifestações artísticas chanceladas pelo Estado.

Frente a essa situação, parece a Leminski que a “inovação artística se dá muito bem nas temperaturas revolucionárias. Mas fenece quando os regimes se consolidam”.

Mas esta regra também poderia se aplicar a outras “inovações” revolucionárias. Os enormes avanços na emancipação feminina e liberdade sexual conquistados pela Revolução também se perderam ao longo do caminho. 

Culpar exclusivamente a contrarrevolução stalinista não basta. Lênin e Stálin eram muito diferentes. Um sentia sono diante da arte de vanguarda. O outro jogava seus artistas nas prisões. Mas ambos participaram do processo que se dobrou ao pragmatismo econômico da acumulação capitalista.

Antes, como agora, vale a palavra-de-ordem: “A gente quer comida, diversão e arte.”

3 de maio de 2017

Populus, o cão de Belchior

Era 1977. Belchior lançava o LP “Coração Selvagem”. A ditadura já havia matado o jornalista Vladimir Herzog e ainda mataria o operário Santo Dias. Entre as músicas do álbum, uma que falava de um cão. O cantor cearense chamava o bicho de “Populus”.  

Populus, meu cão...
O escravo, indiferente, que trabalha

Naquela época, se dizia que era preciso fazer crescer o bolo econômico primeiro, para só depois reparti-lo. Mas de certo mesmo, Populus:

...por presente, tem migalhas sobre o chão.

E não apenas ele:

Primeiro, foi seu pai,
segundo, seu irmão;
terceiro, agora, é ele... agora é ele,
de geração, em geração, em geração.

“No congresso do medo internacional”, diz a canção, referindo-se a um poema de Carlos Drummond, ouve-se “o segredo do enredo final sobre Populus, meu cão”. Em “documento oficial” e em “testamento especial”, “a morte, sem razão”. De Populus, o cão.

Um desfecho que, em meio a “delírios sanguíneos” e “espumas nos teus lábios”, parece mesmo muito “em vão”.

Populus, está “roto no esgoto do porão”. Lá onde governo e capital jogavam os que ousavam desafiá-los. E destes restavam apenas “seu olhar de quase gente” e “as fileiras dos seus dentes”.

A música agoniza em direção a um pedido de ajuda final, em sílabas alongadas: “SOS é só, SOS é só”.

Populus quer dizer “povo” em latim. O que torna tudo ainda mais compreensível. E atual.

Mas como diz aquele poema de Drummond citado por Belchior: “Provisoriamente não cantaremos o amor”. Ele está refugiado “mais abaixo dos subterrâneos”.

Leia também: Em Mariana, poesia que dói

27 de março de 2017

Na era Trump, um pesadelo utópico feminino

Em 20/03, manifestantes ocuparam o Senado estadual do Texas para protestar contra tentativas de restringir o direito ao aborto no Estado.

Algumas mulheres que participaram da atividade vestiam hábitos vermelhos. Era uma referência às roupas da personagem principal do livro “O conto da aia”, de Margaret Atwood.

Publicado em 1985, a obra mostra um futuro em que as mulheres vivem um pesadelo opressivo. Neste pesadelo utópico, elas não passam de serviçais condenadas à procriação. A palavra “estéril”, por exemplo, não existe mais. Afinal, homens jamais seriam estéreis e mulheres estéreis nunca seriam consideradas mulheres.

Abaixo, alguns trechos:

...quando mataram a tiros o presidente e metralharam o Congresso, e o exército declarou um estado de emergência. Na época, atribuíram a culpa aos fanáticos islâmicos.

Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer nenhum tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção.

Excitação sexual e orgasmo não são mais considerados necessários; seriam meramente um sintoma de frivolidade, como ligas rendadas ou pintas falsas: distrações supérfluas para os volúveis. Fora de moda.

Ó Deus, Rei do Universo, obrigada por não ter-me criado homem. Ó Deus, oblitera-me. Torna-me fecunda. Mortifica a minha carne; para que eu possa ser multiplicada. Permite-me ser preenchida.

Renuncio a meu corpo voluntariamente, para submetê-lo ao uso de outros. Eles podem fazer o que quiserem comigo. Sou abjeta. Sinto, pela primeira vez, o verdadeiro poder deles.

O livro está entre os mais vendidos desde que Donald Trump foi eleito. Provavelmente, porque passou a ser considerado profético. Exagero? Tomara que sim.

Leia também: O estupro como arma racista

20 de março de 2017

Nat King Cole e o racismo no país de Trump

Nat King Cole teria completado 98 anos em 17/03, se estivesse vivo. A data foi lembrada por um artigo de João Máximo, no Globo.

Entre outras coisas, Máximo afirma que ele foi “o primeiro negro a estrelar um programa de TV nos Estados Unidos e o maior vendedor de discos da gravadora Capitol, numa época em que Frank Sinatra vivia nela sua melhor fase”.

Em 1948, ele estourou nas paradas com “Nature boy”. Foi o bastante para que o mundo caísse sobre ele. Os moradores brancos de Hancock Park, onde Cole comprara um casarão de três andares, “fizeram pressão para que ele se mudasse”, conta Máximo.

Seu programa de TV foi transferido do horário nobre para a manhã e, um ano depois, suspenso. Os patrocinadores começaram a sumir, pois telespectadores brancos se recusavam a aceitar “um negro cantando coisas de amor para suas mulheres”.

Mas o pior viria em Birmingham, Alabama, em 1956. Ele e sua banda aceitaram se apresentar em sessões separadas. Uma só para negros, outra, para brancos. Nesta última, “cinco membros do Conselho dos Cidadãos Brancos do Alabama subiram ao palco e o espancaram à vista de todos”, diz o artigo.

Um dos maiores sucessos de Cole era “Unforgettable” (Inesquecível). As canções e o talento de Cole realmente jamais devem ser esquecidos. Mas, infelizmente, histórias como a perseguição racista que ele sofreu também não podem sair de nossas memórias. Elas ajudam a entender porque há um Donald Trump governando os Estados Unidos.

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É racismo, puta que o pariu!

13 de dezembro de 2016

Para nos livrar do peso das raças

 Surendra disse, então:

- Não gosto de pretos, Kindzu.
- Como? Então gosta de quem? Dos brancos?
- Também não.
- Já sei: gosta de indianos, gosta da sua raça.
- Não. Eu gosto de homens que não tem raça. É por isso que eu gosto de si, Kindzu.

O diálogo acima é do livro “Terra Sonâmbula” e está na peça “Os cadernos de Kindzu”, baseada na obra de Mia Couto. A montagem do Amok Teatro faz justiça ao belo texto do escritor moçambicano. Mas também chama a atenção a espetacular “cenografia musical” proporcionada por inúmeros instrumentos afro-orientais brilhantemente tocados por todo o elenco.

A trama gira em torno do jovem Kindzu, apanhado em meio à guerra civil que castigou Moçambique após a libertação do país do domínio português. Mia Couto e o Amok mostram que a libertação colonial foi só um primeiro passo para a verdadeira libertação dos povos africanos.

É por isso que Surendra, antes do diálogo acima, já havia dito a Kindzu que seria “preciso esperar séculos para que cada homem fosse visto sem o peso de sua raça."

É contra essa situação que a companhia teatral dirigida por Ana Teixeira e Stephane Brodt vem atuando, com seu trabalho ligado às tradições africanas iniciado com outra montagem maravilhosa. Trata-se de “Salina – A Última vértebra”, encenada em 2015.

O espetáculo só fica em cartaz até 18/12 no CCBB do Rio de Janeiro. E, infelizmente, ainda não há notícias de novas apresentações para o ano que vem.

Que possamos continuar contando com a arte do Amok para alcançar um futuro livre do peso do racismo.

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23 de outubro de 2016

China Miéville contra as mariposas-libadoras

China Miéville é autor do livro "Estação Perdido", recém-lançado no Brasil.  Ele é marxista, formado em Antropologia Social, mestre e doutor em Relações Internacionais e membro do Partido Socialista Inglês.

Seu gênero literário é a ficção científica. Das mais loucas, mas também preocupada com questões sociais, raciais, ideológicas. O romance tem uma profusão de seres das mais diversas espécies. Eles vivem amontoados em cidades sujas, enfumaçadas, atravancadas e dominadas por minorias ricas, poderosas e cruéis.

Isaac Dan der Grimnebulin, o personagem principal, é um cientista humano meio louco. Sua namorada é uma artista plástica que tem um besouro no lugar da cabeça. O racismo entre as espécies não permite que eles assumam sua relação em público.

Uma entidade chamada Tecelão manipula as dimensões da realidade como se fossem fios de um tear. Mas o faz de modo caótico e delirante.

As grandes vilãs são as “mariposas-libadoras”. Elas sugam as mentes de suas vítimas, transformando-as em corpos inertes, que só defecam e babam.

Imunes a seus ataques apenas as máquinas, que não têm consciência, e o Tecelão, para quem sonhos e consciência são uma coisa só.

Para derrotá-las, Grimnebulin constrói um engenho de crise. Uma complexa combinação do cérebro cibernético das máquinas, da consciência onírica do Tecelão e da mistura de consciente e inconsciente da mente humana. Essa combinação pretende aproveitar o que há de mais abundante na realidade social para derrotar as borboletas vampiras: as crises.

Qualquer semelhança com nossa realidade, rasgada por contradições, repleta de crises e à mercê de uma ideologia dominante que mutila nossas capacidades mentais, talvez seja mera coincidência. Talvez...

Leia também: O animal que calcula

9 de junho de 2016

As raízes femininas do blues

R. Crumb
Cerca de 75% dos sucessos do período clássico do blues foram compostos e interpretados por mulheres. A surpreendente informação está no artigo “A luta das mulheres no blues em sua era clássica”, de Tonny Araújo, publicado no site “Música e Sociedade”.

Ou seja, o blues não nasceu apenas negro, mas feminino.

Segundo Araújo, o pianista Jelly Roll Morton afirmou, por exemplo, que o primeiro blues que ouviu quando criança foi tocado por Mamie Desdunes, pianista e violonista que se apresentava principalmente em bares no final do século 19.

Na mesma época, a trombonista Netti Goff, “tocava de maneira espetacular em uma companhia de menestréis”. Antes dela, Della Sutton, outra trombonista, teria sido “a primeira mulher a tocar o instrumento em Nova Orleans”.

Marge Creath Singleton, por sua vez, tocava nos famosos barcos a vapor que atravessavam os mais diferentes cantos do país.

Já a guitarrista Lizzie Douglas, mais conhecida nos prostíbulos como Memphis Minnie, diz o artigo, encarava “as incertezas de uma dura vida nômade por meio de circos e caravanas”.

Além de Minnie, muitas outras só achavam espaço para tocar nos bordéis. É o caso de Lulu White, Josie Arlington, Bertha Wenthal e Gypsy Schaeffer.

Todas elas enfrentaram a hostilidade de ambientes majoritariamente masculinos. Lugares em que o assédio sexual dos homens em geral era grande, agravado pelo racismo dos brancos.

Araújo encerra seu artigo dizendo que sem essas talentosas mulheres, “o blues talvez nunca teria saído das plantações”. Mais que isso, é provável que tenham sido elas as responsáveis por iluminar os primeiros caminhos para a música negra em meio às trevas do racismo.

Acesse o texto aqui.

Leia também: A música negra olha para a luz

17 de maio de 2016

Sobre homens e meninos negros

“Farinha com Açúcar ou Sobre a Sustança de Meninos e Homens” é “uma investigação acerca da construção da masculinidade negra periférica”. A definição é de Jé Oliveira, ao apresentar a peça teatral que protagoniza à frente dos músicos Cássio Martins, DJ Wojtila, Fernando Alabê, Mauá Martins e Melvin Santhana.

O projeto do Coletivo Negro nasceu a partir de entrevistas feitas com 12 homens negros de diversas idades e ocupações. Nos depoimentos, além da origem pobre, o 
elemento mais comum é a morte. 

É ela, em sua versão “matada” ou “morrida”, pela bala, pela faca, pelo álcool ou outras doenças, que cerca a masculinidade negra periférica. É ela, diz o personagem principal, que torna “impossíveis as metáforas” e faz as coisas serem o que são, nuas e cruas.

Mas a maior inspiração artística da obra são os Racionais MC’s. E o coletivo de hip-hop paulistano sabe como poucos transformar a justa revolta da juventude negra da periferia em poesia, ainda que dura e cortante. É a afirmação de que mesmo as piores situações de violência geram suas metáforas. Inclusive, com lirismo.

Mas se é pela morte que o espetáculo começa, a música vai tomando conta. As rimas ásperas e verdadeiras do rap passam pelo samba e se despedem com o soul dançante dos Jackson Five. É a arte cumprindo sua grande vocação de veículo para a emancipação.

Ainda assim, a realidade volta a bater na cara quando ficamos sabendo que os alvos de treinamento para tiro utilizados na cenografia foram obtidos junto à Polícia Militar. Neles estão desenhados perfis de homens negros. Mas podem ser meninos...

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A bailarina negra que fez das correntes sapatilhas

16 de maio de 2016

A bailarina negra que fez das correntes sapatilhas

Sexta-feira, 13/05, Sesc Copacabana. No centro do teatro de arena, atrizes, atores, dançarinas e dançarinos. O espetáculo é sobre Mercedes Baptista (1921-2014), primeira bailarina negra a integrar o corpo de dança do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, aprovada em concurso em 1948.

O talento de Mercedes não se impôs apenas aos palcos da elite. Também participou do “Teatro Experimental do Negro”, fundado por Abdias do Nascimento. Nesta condição, a bailarina que já havia trabalhado como operária e doméstica, militava por reconhecimento e dignidade para os atores e dançarinos negros no teatro brasileiro.

Seu talento foi reconhecido no exterior. Nos Estados Unidos, Mercedes ministrou cursos no Connecticut College, no Harlem Dance Theather e no Clark Center de Nova York. No Brasil, a coreografia afro-brasileira de Mercedes ajudou a revolucionar o carnaval carioca, tendo sido campeã com o Salgueiro, em 1962.

Tudo isso está esquecido, soterrado pela história dos que venceram, ainda que Mercedes sempre tenha sido vitoriosa. Como diz o personagem de Abdias na peça, nem todo esse reconhecimento a livrou de sentir o peso das correntes ancestrais em suas sapatilhas.

No espetáculo, a beleza da dança, da música, do cenário, do canto está a serviço de uma história dolorida, bonita e comovente. Tambores e atabaques recepcionando piano, violino e violoncelo. A coreografia como liberdade de usar o próprio corpo e recusar sua submissão aos abusos da escravidão, ontem, e do racismo, hoje.

Sexta-feira, 13/05, o Grupo EMÚ, em Copacabana, apresentava o lindo espetáculo “Mercedes Baptista” para uma plateia quase vazia. Apesar disso, os bailarinos e músicos não usavam nem correntes nem sapatilhas. Somente asas!

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24 de agosto de 2015

Trotsky, Guevara e Leminski num bar de rodoviária

Em seu blog, Mário Magalhães lembrou os 75 anos da morte de Trotsky com o belo poema “O velho León e Natalia em Coyoacán” que lhe dedicou Paulo Leminski.

Leminski também escreveu a pequena biografia “trótski – a paixão segundo a revolução”. Nela o poeta saúda a recusa de Trotsky em instrumentalizar ideológica e politicamente a arte e cita sua famosa frase: “A arte só pode ser o grande aliado da revolução na medida em que permanecer fiel a si mesma”

Leminski também poderia ter homenageado Che Guevara. Mas este, seu contemporâneo, receberia as honras em pessoa e numa mesa de bar.

No conto “Guevara em Curitiba”, Valêncio Xavier imaginou o Che desembarcando disfarçado na rodoviária curitibana a caminho da Bolívia. Era 1966, plena ditadura. Todo cuidado era pouco. Mas um bêbado o reconhece e insiste em lhe chamar pelo nome. Arrasta-o para uma pinga, umas tragadas de charuto e ainda o convence a cantar o trecho de um bolero.

Guevara finalmente livra-se da situação inconveniente e parte. O conto não nomeia o bêbado, mas tem graça imaginá-lo como sendo Leminski. Mais divertido ainda seria vê-lo surpreender Trotsky em pessoa desembarcando de outro ônibus. Pronto para ser arrastado para novos goles, conversas, cantorias.

Havia algo de trotskista na disposição internacionalista de Guevara, que abandonou seus cargos governamentais em Cuba para tornar a revolução permanente. Havia algo nas convicções estéticas de Trotsky que conquistou o respeito de Leminski. Há algo dos três nos versos do poeta paranaense, que dizem:

En la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras,
noches,
poemas.

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11 de agosto de 2015

É racismo, puta que o pariu!

Em 1963, uma bomba explodiu dentro de uma igreja batista no Alabama, Estados Unidos. Quatro meninas negras morreram.

Furiosa, Nina Simone compôs “Mississippi Goddam”, referindo-se a um dos estados americanos mais racistas. Nascia a guerreira. Explodia a raiva que ela acumulava desde que foi rejeitada como pianista clássica por ser negra.

A partir daí, Nina engajou-se firmemente na campanha pelos direitos civis e contra o racismo. Passou a compor canções de denúncia e protesto. Citava Luther King, Malcolm X e buscava inspiração em organizações como a dos Panteras Negras.

Foi o bastante para que a indústria cultural começasse a fechar-lhe as portas. O sucesso estrondoso da musicista de jazz não resistiu a seu engajamento político. Mas não teve arrego. “Como você pode ser um artista e não refletir os tempos? Para mim, essa é a definição de um artista”, afirmou certa vez.  

Antes do Alabama, as ações da Ku-Klux-Klan e os corpos negros pendurados em árvores. Depois, o assassinato de King e Malcolm X. Em 1992, Las Vegas literalmente pegou fogo porque sua população negra não aguentava mais o racismo policial.

Nina não chegou a ver as recentes revoltas contra o ódio racial em Fergurson. Não cantou com raiva pelos corpos negros que tombaram novamente em uma igreja, em Charleston. Morreu em 2003, longe do sucesso, cheia de dignidade e na memória de todos os que se levantam contra o racismo.

A palavra “goddam” costuma receber traduções suaves como “droga” ou “maldição”. Mas a expressão mais adequada e que traduz toda a indignação e fúria que o racismo merece, sem dúvida, é “puta que o pariu!”

Ouça a música, clicando aqui

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Um cineasta negro contra a Ku-Klux-Klan

18 de junho de 2015

O que temos a aprender com Nelson Rodrigues

Nelson Rodrigues nunca escondeu seu conservadorismo. Anticomunista visceral, apoiou entusiasticamente o golpe militar de 1964.

Mas o genial escritor soube como poucos mostrar toda a hipocrisia da classe média brasileira. Demolia com seus artigos, crônicas e peças a mentalidade desse setor social que esconde por trás de seu moralismo seus próprios desejos inconfessáveis.

Nelson arrancava aplausos de plateias que não notavam serem elas próprias o alvo do ridículo e do desprezo de suas peças.

Obras como “Álbum de Família”, “O Beijo no Asfalto” e “Vestido de Noiva” abordam temas como o incesto, a homossexualidade e a competição desleal, que são ocultados pela falsidade moral de quem se julga superior à plebe e olha invejoso e submisso para os ricos.

E a inteligência ácida do dramaturgo não ficava apenas no terreno dos costumes. A denúncia do racismo, por exemplo, era uma de suas maiores frentes de batalha. Ele foi uma das primeiras celebridades a dizer que a “
vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações” e a nos considerar um dos povos “mais racistas do mundo”.

Enquanto isso, a maioria dos dirigentes comunistas ignorava a importância da luta contra a opressão racial para derrotar o capitalismo. Impunha regras moralistas a seus liderados, vigiando seus hábitos, sua vida sexual, sacralizando a vida familiar baseada no machismo.

O resultado é que, hoje, assistimos 
em estado de semiparalisia à ofensiva de fanáticos religiosos e conservadores em geral contra homossexuais, mulheres, jovens, artistas. Não é que tenhamos muito a aprender com Nelson Rodrigues. Mas o pouco que sua obra pode nos ensinar já é demasiado para nossa incompetência revolucionária.

Leia também:
A vocação conservadora da classe média brasileira

5 de maio de 2015

Um exemplo da estupidez da censura

Em 1971, Chico Buarque se envolveu em uma polêmica com a censura da ditadura militar. Ela envolvia a música “Minha História”, bela versão para o português de canção da dupla italiana Dalla e Pallotini.

Seu verso inicial diz “Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar”, referindo-se ao filho de uma prostituta, e termina com “Me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus”. Claro que a estupidez da censura vetou.

Chico, aconselhado por seu advogado, escreveu uma explicação:


O texto conta a história da mulher que se apaixona, como tantas outras, por um aventureiro que parte, como tantos outros, e do filho que nasce sem pai, como tantos outros. O poema – é um poema – difere dos demais pela maneira singela como a autora aborda o problema da mãe solteira. Nada de abortos, de fugas, nada de entregar o filho a um orfanato ou deixá-lo à porta de uma Igreja. A mãe, desesperada, alucinada, “com o olhar cada dia mais longe”, simplesmente dá ao filho o nome de Jesus. Um pouco por alucinação, mas também por ignorância. Um pouco por devoção, “por ironia ou por amor”. E um pouco, entende-se, para se comparar à Virgem Maria e se isentar de qualquer pecado. Finalmente temos o filho feito homem, igual a todos os homens, pequeno como todos os mortais, fraco demais para carregar às costas o nome de Jesus Cristo. E é só isso o poema.

Mas o censor manteve a proibição.

E é a este tipo de asneira que os saudosos da ditadura querem retornar.

Leia também:
A ditadura de 1964 era militar e empresarial

24 de fevereiro de 2015

Telefone para Neguinho da Beija-Flor

Causaram escândalo as recentes declarações de Neguinho da Beija-Flor sobre a origem dos financiamentos dos desfiles das escolas de samba. Segundo o sambista, “o maior espetáculo audiovisual do planeta” só é possível graças à contravenção.

As ligações do samba com atividades ilegais vêm de longa data. Para começar, seus praticantes eram considerados culpados pelo delito de vadiagem. No início do século 20, por exemplo, o sambista João da Baiana costumava ter seu pandeiro frequentemente apreendido pela polícia.

Um desses confiscos o impediu de comparecer a uma festa na casa do senador Pinheiro Machado. Diante disso, o poderoso político presenteou o sambista com um novo pandeiro. O instrumento trazia a assinatura de Machado, garantindo a seu proprietário livre circulação pela capital carioca.

A contravenção aparece também no primeiro samba gravado no Brasil. Sua versão mais popular denunciava os laços íntimos entre contraventores e poder público:

 
O chefe da polícia/ Pelo telefone/ Mandou avisar/ Que na Carioca/ Tem uma roleta/ Para se jogar
 
Os versos atribuídos a Donga e Mauro de Almeida faziam referência a Aurelino Leal, chefe da polícia carioca nos anos 1930. No combate aos jogos de azar, Leal tinha fama de alertar os contraventores contra os quais ele próprio ordenava diligências.

Há muito tempo, fazer samba já não é delito. Mas permanece sendo coisa de preto e pobre. Como tal, continua a ser empurrado para a ilegalidade. O poder público despeja dinheiro nos desfiles sem licitação ou transparência enquanto fecha os olhos para patrocínios ilícitos ou imorais.

O mais provável é que Neguinho da Beija-Flor também receba muitas ligações dos atuais “chefes da polícia”.

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16 de dezembro de 2014

A ONU não merece Portinari

O mural "Guerra e Paz", de Cândido Portinari, está voltando à sede da ONU, em Nova Iorque, onde foi instalado em 1957. A obra estava no Brasil passando por restauração.

Poucos episódios mostram o verdadeiro caráter das Nações Unidas como a história da obra do pintor brasileiro. As dependências da ONU são consideradas território internacional, mas ficam nos Estados Unidos. Portinari era comunista. Por isso, o governo estadunidense jamais permitiu seu ingresso no país. O genial artista morreu em 1962, sem ver sua obra exposta.

A ONU deveria representar os países do mundo, mas está enfiada no centro do imperialismo que explora a grande maioria deles. Seu objetivo principal é promover a paz e a integração entre os povos. Mas suas poucas decisões realmente efetivas envolvem as chamadas “tropas de paz”. Na verdade, destacamentos militares facilmente manipuláveis por interesses poderosos.

É o caso das tropas lideradas por brasileiros no Haiti. Presentes no país desde de 2004, são responsáveis por casos de corrupção, repressão a movimentos sociais e até por terem espalhado o vírus do cólera, doença que havia desparecido daquele país no século 19.

Tudo isso sem falar no Conselho de Segurança, em que uma minoria de estados pode vetar ou impor decisões aos restantes dos países. Nele, Estados Unidos, França, Reino Unido, Rússia e China valem muito mais do que os outros 188 membros da organização.

A obra de Portinari mostra os horrores da guerra para celebrar a paz. A ONU jamais impediu que os primeiros ocorressem nem conseguiu que fosse promovida a segunda. Seu compromisso é com os poderosos. Não merece exibir um Portinari.

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O Ebola e a militarização do racismo
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O cólera e a cólera no Haiti

10 de dezembro de 2014

Lennon, o Beatle radical

Há 34 anos, em 08/12, morria John Lennon. Com o passar do tempo, a grande mídia transformou o ex-Beatle em um cara pacífico e doidão. Um cabeludo simpático e sonhador. Alguém cujas lindas músicas são boas para cantar no Natal e no Ano Novo.

Mas o genial cantor e compositor foi um rebelde radical não apenas no terreno musical. Em 1969, engrossando os protestos contra Guerra do Vietnã, ele e Yoko Ono organizaram “luas-de-mel” de protesto. Logo após se casarem, foram para a cama e chamaram os jornalistas.

Vestidos com seus pijamas, o casal recebia a imprensa cercados de cartazes pela paz mundial. Deitados, divulgavam suas mensagens libertárias e compuseram a música que se tornaria um hino do movimento contra a Guerra do Vietnã: “Give peace a chance” (“Dê uma chance à paz”).

Mas Lennon e Yoko não ficaram apenas no discurso da paz e do amor. Já morando em Nova York, passaram a apoiar abertamente o Partido dos Panteras Negras em sua luta contra a violência racista da sociedade e do Estado norte-americanos.

Estas e outras posturas, como a defesa da descriminalização da maconha ou apenas cultivar cabelos longos, tornou o casal um dos alvos prioritários do governo Nixon. Foi dado início a um processo de expulsão dos dois dos Estados Unidos. Mas após dez anos de batalhas judiciais, o governo estadunidense foi derrotado.

Jamais ficou provado que o assassino de Lennon fosse mais que um fã enlouquecido. Mas, certamente, os poderosos dos Estados Unidos e do mundo comemoraram a desaparição do mais radical dos Beatles.

25 de julho de 2014

Entre o circo tradicional e o midiático

Em 2013, o Sesc e a Fundação Perseu Abramo realizaram uma pesquisa sobre hábitos culturais dos brasileiros. A esquerda deveria estudar seus resultados. A direita já o faz, lamentando dados como:

- 89% dos entrevistados nunca foram a uma ópera ou concerto de música clássica;
- 75% nunca foram a espetáculos de dança ou balé;
- 71% nunca estiveram em exposições de pintura, escultura e outras artes;

Tais queixas mal conseguem esconder os preconceitos em relação à arte e diversão mais populares. A mesma pesquisa aponta, por exemplo, “Dançar em balada/ baile/ forró/ gafieira” como segunda opção de lazer, com 80% de citações pelos entrevistados.

Não se trata de discutir quais atividades de lazer proporcionam “capital cultural” relevante. Assistir a um concerto não implica necessariamente maior contato com a diversidade artística de que a humanidade é capaz. Jamais ter ido a um forró ou gafieira também é manter uma alta proporção de ignorância cultural.

Alguns dados são mais objetivos e preocupantes. É o caso dos 58% que não haviam lido nenhum livro nos últimos 6 meses. Aqui já não está em debate a qualidade da leitura, mas sua raridade. E a dependência de fontes audiovisuais de informação e cultura, monopolizadas por grandes corporações. As mesmas que lucram com o consumo cultural de massa, repetitivo e pouco variado.

Surpreendente é a citação do Circo como uma das atividades mais apreciadas e a quarta em frequência. Trata-se do circo tradicional. Não aquele midiático, que a direita tenta impor e nós, da esquerda, costumamos usar para esconder nossa incompetência na disputa de corações e mentes.

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2 de junho de 2014

E por falar em Copa, ouçamos Gonzaguinha

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior era filho do Gonzagão, o rei da música nordestina. Mas Gonzaguinha também tem um respeitável repertório. Morreu muito cedo, em 1991, aos 45 anos, num acidente automobilístico.

Durante a ditadura militar, usou sua voz corajosa contra o autoritarismo que reinava. Algumas de suas canções, infelizmente, continuam atuais. É o caso de “Pequena memória para um tempo sem memória”. Com os carrascos da ditadura ainda à solta e muitas de suas vítimas desaparecidas, a letra da canção ainda faz muito sentido:

Humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
É um defeito que mata.

Outra música quase perfeita para o atual momento é “E por falar no Rei Pelé”:

Craque mesmo é o povo brasileiro
Corre em campo, se esforça o tempo inteiro
Vai pra ponta e centra e cabeceia
E ele mesmo é o goleiro que escanteia
E o gandula que apanha no fosso a pelota
E a galera que a equipe incedeia

Craque mesmo é o povo brasileiro
Carregando esse time da terceira divisão
Nesse jogo sem gol, mas que emoção,
Couro cru também é um mata fome!
Sempre um bamba se esquece
E a bola come
Sempre um morre,
É falta de indigestão

Craque mesmo é o povo brasileiro
Com os homens em cima na marcação
Transformando a partida em pedreira
Uma rinha sem gol, mas que emoção
Na redonda ele se atira qual leão
Tá pensando que é um prato cheio de feijão
E não é não!

30 de janeiro de 2014

Não à pacificação do hip-hop!

O hip-hop nasceu da resistência à discriminação social, racismo, violência policial, falta de direitos básicos. Seus criadores eram negros, porto-riquenhos, jamaicanos e outros setores marginalizados da população estadunidense.

Esse caráter combativo está explícito na letra dos melhores raps, mas não apenas neles.

Jovens pobres criaram o grafite para mostrar que tinham ocupado com sua arte os territórios em que foram abandonados para morrer.

Os movimentos quebrados do break recusam o corpo domesticado que a disciplina autoritária da fábrica, do quartel e das escolas tenta impor.

O DJ dá vida nova a sons que permaneceriam sepultados no vinil se dependesse da reprodução gangrenada da indústria fonográfica.

O hip-hop nasceu para alegrar, mas pegou raiva quando seus adeptos passaram a ter seus bailes interrompidos pela polícia e proibidos pelas autoridades.

Teve seu ódio despertado pela violência com que suas cores, gestos, roupas, jeitos de cantar e dançar foram tratados.

Mas o hip-hop olha para a luz cada vez que tira crianças e jovens da ignorância e da ira sem direção. Quando mostra quais são seus verdadeiros inimigos e os acolhe num abraço firme de combatente.

Tudo isso fez do hip-hop uma cultura de resistência e luta, que tem no Estado um de seus maiores inimigos e no mercado uma força que procura amansá-lo.

Por isso, o hip-hop não precisa que o Estado o reconheça como movimento cultural, como quer um projeto de lei. Também não pode ser reduzido a uma ocupação profissional, como pretende outra proposta legislativa. Ambas no Congresso Nacional. As duas exigem uma resposta firme do hip-hop coerente com suas origens.

Não à pacificação do hip-hop!

Leia também: Hip Hop contra ficha limpa pra torturadores