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3 de dezembro de 2024

A Covid, criada e fortalecida pelo capitalismo canibal

Nancy Fraser encerra seu livro “Capitalismo canibal”, mostrando a pandemia da Covid como um “ponto onde todas as contradições do capitalismo canibal convergiram: onde a canibalização da natureza e do trabalho de cuidado, da capacidade política e das populações periferizadas se fundiram em uma farra letal”.

Para começar, foram os efeitos combinados do aquecimento global e do desmatamento que colocaram o vírus em contato com os seres humanos. Depois, os efeitos da Covid foram agravados por nossos governantes, que a serviço do capital, haviam transferido funções vitais do atendimento na saúde a prestadores de serviços, convênios, farmacêuticas e fabricantes movidos pelo lucro.

Sem a retaguarda dos poderes públicos, o isolamento sanitário despejou novas e importantes tarefas de cuidado sobre famílias e comunidades, principalmente sobre as mulheres. Muitas delas acabaram pedindo demissão para cuidar dos filhos e de outros familiares, enquanto muitas outras foram demitidas.

Trabalhadores cujas funções eram essenciais continuaram ganhando uma ninharia e sendo tratados como descartáveis. Eram profissionais de saúde, trabalhadores de frigoríficos e abatedouros, funcionários de varejistas gigantes, profissionais de limpeza hospitalar, entregadores de refeições, repositores de mercadorias e caixas de supermercados. A maioria deles, mal pagos, precarizados, não sindicalizados, sem benefícios e proteções trabalhistas.

Em cada um desses casos, o racismo e o sexismo estruturais se manifestaram, infectando e matando desproporcionalmente mais não brancos e mulheres.

Desse modo trágico, diz Nancy, a Covid iluminou com um raio intenso todos os terrenos ocultos de nossa sociedade. Portanto, conclui ela, é hora de descobrir como deixar o monstro morrer de fome e acabar, de uma vez por todas, com o capitalismo canibal.

Leia também: O capitalismo canibalizando o planeta

15 de setembro de 2023

Um Tribunal de Nuremberg para os crimes da pandemia

Renato Tasca, Rebeca Freitas, Júlia Pereira e Evelyn Santos publicaram um artigo na Folha, em 12/09/2023, com importantes informações e fatos a serem lembrados sobre o Covid-19.

Em primeiro lugar, a pandemia acabou, mas o coronavírus ainda circula no Brasil, infectando muitos e, às vezes, matando. Entre janeiro e junho deste ano, cerca de 10 mil morreram em decorrência da Covid-19. Mais do que doenças como diabetes e muitos tipos de câncer.

Em segundo lugar, em 2022, no Brasil, foi notificado quase o mesmo número de casos de Covid-19 do que em 2021. No entanto, os óbitos caíram seis vezes de um ano para o outro graças à vacinação, que finalmente chegou, apesar do criminoso boicote bolsonarista.

Falando em bolsonarismo, não podemos esquecer as 700 mil mortes, entre as quais destacam-se as de 4,5 mil profissionais de saúde, principalmente, auxiliares ou técnicos de enfermagem e enfermeiros.

O texto cita ainda um estudo que calcula que mais de quatro em cada 10 pessoas tiveram problemas de ansiedade por conta da pandemia, para não mencionar o aumento da violência doméstica e da taxa de suicídio. Também merece destaque a elevada mortalidade da população negra e entre os mais pobres, em relação à média da população.

Tudo isso deveria estar sendo julgado em uma espécie de “Tribunal de Nuremberg” relacionado aos crimes cometidos durante a pandemia do coronavírus no Brasil.

Um julgamento paralelo ao que começou ontem sobre o 8 de Janeiro. Ainda que com a dificuldade operacional, mas não intransponível, de exigir a presença de muitos de seus réus tanto em um como no outro tribunal.

Leia também: 8 de Janeiro: nenhuma graça, só tragédia

17 de maio de 2022

A China e seu pretenso capitalismo sob controle

“Por que a economia da China continua a crescer?”, pergunta Lu Feng, professor da Escola de Governo da Universidade de Pequim, em recente artigo.

De acordo com ele, “o sistema industrial chinês está mais sólido do que nunca, e não há fim à vista para o progresso tecnológico e para as mudanças estruturais do sistema industrial. Assim, a era dourada do crescimento econômico da China ainda está por vir”.

No artigo, Feng explica o advento dessa “era dourada” pelos seguintes fatores:

(1) o Estado domina a direção do desenvolvimento econômico; (2) a terra e os recursos naturais permanecem sob propriedade pública; (3) o sistema monetário e financeiro é controlado através da propriedade estatal dos principais bancos; (4) as maiores empresas industriais são estatais; (5) o governo mantém a capacidade de intervir diretamente na economia real através de investimentos em infraestruturas e grandes projetos tecnológicos e (6) o poder estatal atribui e fixa preços em áreas que afetam a segurança nacional.

Segundo o autor, esses fatores têm “assegurado que a economia da China se desenvolva de forma independente, não dominada por capitalistas e amplamente apoiada por toda a sociedade”.

A se crer na explicação, a China parece ter conseguido montar uma economia capitalista não dominada por capitalistas.

Enquanto isso, em abril, as atividades varejista e industrial chinesas caíram bruscamente por causa das medidas para evitar novos surtos de covid-19.

O que parece escapar ao especialista chinês é que nem mesmo os capitalistas ocidentais conseguem dominar o sistema que tanto os beneficia. Pandemias e crises climáticas são só os mais recentes dos efeitos nada colaterais do capitalismo.

17 de março de 2021

A pandemia e o reset capitalista

Em setembro do ano passado, o Financial Times defendeu um “recomeço” para o capitalismo. Para o diário ultraliberal, o “capitalismo de livre iniciativa mostrou uma capacidade notável para se reinventar”. Mas às vezes, “é necessário reformar para preservar. Hoje, o mundo chegou a esse momento. É tempo para um reinício".

Reinício em inglês pode ser “reset”. E foi esse o termo utilizado por Klaus Schwab, fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, em uma reunião realizada em junho de 2020. Entre os participantes, o Príncipe Charles, o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, e executivos da Mastercard e Microsoft.

Schwab defendeu o que chamou de “Great Reset” e apontou como seu gatilho a Covid-19, cujo impacto teria aberto uma “oportuna janela” para centrar as novas tecnologias “do mundo digital, biológico e físico no homem”.

Não demorou para que a extrema-direita surgisse com uma teoria da conspiração nas redes virtuais. Segundo ela, o tal reset nada mais seria que a implantação do comunismo global.

Delírios à parte, o fato é que o capitalismo já sofreu outros “reinícios” e o gatilho de um deles realmente tem a ver com o comunismo. Quando a Revolução Russa abalou o mundo, foi preciso preparar uma resposta rápida.

Há quem diga que essa resposta viria a ser a adoção da economia keynesiana. Mas a teoria de Keynes jamais sairia do papel sem a Segunda Guerra Mundial e esta foi produto da reação fascista ao avanço das lutas dos trabalhadores, evidenciado pelo surgimento da União Soviética.

O capitalismo não precisa de um reset. Precisa de um shutdown.

Leia também: Pandemia e oportunismo: veio a guerra, veio a peste

13 de abril de 2020

Pandemia: hora de criar trincheiras de solidariedade

“É uma guerra”, dizem Trump, Merkel, Macron. A utilização dessa metáfora para se referir à pandemia do coronavírus-19 vem sendo criticada com razão por muitas vozes sensatas.

A guerra contra as drogas veio para abater pobres e pretos. Na mira da guerra contra a AIDS estão os homossexuais. A guerra contra o terrorismo volta-se contra os muçulmanos.

Mas, na realidade, qualquer guerra raramente é justa. Por isso fomos contra a guerra do Iraque e do Vietnã. E muito antes disso, organizações de trabalhadores no mundo todo se opuseram à Primeira Guerra: “Paz entre nós, guerra aos patrões”.

Portanto, não há problema em aceitar a metáfora bélica, desde que saibamos que guerras, em geral, colocam lado a lado tanto combatentes sinceros como traidores. O objetivo pode até ser aniquilar o inimigo, mas os generais dos dois lados sempre utilizam os de baixo como bucha-de-canhão.

Na Primeira Guerra, os bolcheviques se opuseram firmemente ao conflito. Mas iniciada a participação russa e obrigados a pegar em armas, eles conquistaram muitos soldados para a revolução enquanto lutavam nas trincheiras.

A verdade é que já estamos em guerra. E já estão usando a maioria de nós como bucha-de-canhão. Diante disso, é preciso fazer como os bolcheviques. Nos juntarmos aos que já estão na luta.

As entidades populares e de esquerda precisam construir uma rede independente de solidariedade e apoio à população. Precisamos formar comitês coordenados e sob orientação dos trabalhadores da saúde pública.

Estas serão as únicas trincheiras possíveis, a partir das quais poderemos combater tanto as loucuras do capitão sociopata como a perversidade de comandantes como Witzel, Doria e Zema.

Leia também: A extinção da espécie mais perigosa