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5 de junho de 2024

Do “doomscrolling” ao infocalipse

“Doomscrolling” é a palavra inglesa para o hábito de rolar imagens e notícias na tela do celular em busca de fatos negativos, tristes e deprimentes. Parece o antigo costume de “zapear” na TV em busca dos programas de notícias policiais mais escabrosos. Só que agora em maior velocidade e com oferta praticamente inesgotável.

Inesgotável porque os agentes produtores dessas imagens e informações são muitos. Em contrapartida, os centros distribuidores são bem menos. Não se trata dos inúmeros grupos de zap. Estes são apenas vetores que transmitem a doença.

O foco da moléstia são os poucos e poderosos monopólios de dados e algoritmos, como Facebook, Youtube, X... Esses abutres das redes virtuais precisam manter a atenção e a tensão dos usuários para extrair-lhes os dados e vender-lhes porcarias, enquanto os premia com ansiedade e depressão.

Outro efeito dessa situação é a infodemia, caracterizada pela Organização Mundial da Saúde como um “excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.

Informação distorcida e alarmista não atenua situações críticas nem mitiga consequências de eventos negativos ou catastróficos. Ao contrário, torna-as ainda mais nocivas e graves.

Mas não podemos ignorar a base material de todo esse caos. É o capitalismo em sua fase de colapsos cumulativos. Colapso político, social, ambiental, moral, sanitário...

O lado mais perverso disso tudo é que o sistema nos massacra com suas mazelas, enquanto nos distrai e nos torna viciados nelas. Vai nos acostumando com a ideia de que o mundo pode até acabar, mas o capitalismo tem que continuar.

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A economia política das fake news

30 de maio de 2023

A economia política das fake news

“Infocalipse” é um conceito criado por Aviv Ovadya, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Em 2018, ele descrevia esse fenômeno assim:

...à medida que a qualidade das informações no geral diminui, a inteligência de todos os membros da sociedade e de todas as diferentes organizações que a tornam funcional também diminui. E, se você vai muito fundo nisso, a sociedade basicamente desmorona.

Na época, Ovadya afirmou que só chegaríamos a esse ponto se coisas como a falsificação de áudios e vídeos se tornassem frequentes. Cinco anos depois, chegamos lá.

Estamos em plena era das fake news. Mas isso só ocorreu porque sua disseminação em larga escala foi viabilizada pelas redes virtuais. Estas, por sua vez, surgiram como resposta à necessidade de encurtar o tempo de circulação das mercadorias para realizar os lucros nelas embutidos. Google, Facebook, Youtube, Whatsapp, TikTok não são monopólios de interação social, mas de comercialização de publicidade. A principal função dos celulares não é agilizar a comunicação entre as pessoas, mas as trocas mercantis.

Desse modo, as informações sofreram a mesma metamorfose que já havia atingido outras bens sociais. Seu valor de troca vem eliminando seu valor de uso. A informação passou a ser valiosa apenas quando circula rapidamente. Se ela tem ou não alguma relação com fatos objetivos, pouco importa. Importam os cliques, retuítes, likes e zapeadas que movimentam a roda do consumo.

Assim, tudo indica que as fake news vieram para ficar. Pelo menos, enquanto a sociedade permanecer sob a lógica do capital.

Mas e os conceitos de realidade e verdade, como ficam? Bom, ficam para a próxima pílula.  

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12 de janeiro de 2022

Não olhe para cima: capitalismo suicida

Para encerrar os comentários sobre o filme “Não olhe para cima”, seria bom lembrar o que disse Fredric Jameson em seu livro “Arqueologias do futuro”, de 2009.  Segundo o filósofo  estadunidense, as pessoas conseguem imaginar o fim do mundo, mas jamais o fim do capitalismo. O sucesso dos filmes-catástrofe seria uma confirmação disso.  

A diferença de “Não olhe para cima” para os outros filmes do gênero é que nele a grande maioria se recusa a acreditar na iminência do desastre, apesar de todas as evidências científicas. É também a ideia de que tudo o que diz respeito ao que é real está sob intensa disputa, menos a realidade da tragédia capitalista.

Outro autor a destacar a incapacidade generalizada de imaginar o fim do capitalismo foi Mark Fisher em seu livro “Realismo Capitalista: não há alternativa?”.  O realismo capitalista, diz o filósofo britânico, seria uma espécie de barreira que impede pensar em alternativas ao atual modo de vida.

Ou seja, como demonstra o personagem do filme, Pete Isherwell, não há motivos para pânico. Um planeta prestes a ser destruído pode ser abandonado a qualquer momento a bordo de uma nave espacial. O fato de que somente uma pequena minoria se salvaria é só uma extrapolação das condições imensamente mais vantajosas de que as classes dominantes dispõem para escapar das catástrofes que já ocorrem todos os dias pelo mundo e que, mesmo sendo menos espetaculosas, seguem fazendo vítimas aos milhões entre os mais pobres.

Tudo se resume a saber se permitiremos que o capitalismo morra de morte morrida ou de morte matada. No primeiro caso, trata-se de suicídio.

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11 de janeiro de 2022

Não olhe para cima: infodemia

Em 2003, o jornalista estadunidense David J. Rothkopf criou o termo infodemia, em artigo sobre a epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave. Dezessete anos depois, a Organização Mundial da Saúde adotou o conceito para a pandemia do Covid.

Segundo a organização, a infodemia caracteriza-se por um “excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.

Desde então, Covid e infodemia passam por momentos de alívio e agravamento, mas não cedem. As cepas do coronavírus se multiplicam tanto quanto as falsidades em relação a elas.

É um pouco disso que trata o filme “Não olhe para cima”, de Adam Mckay. Obter informações apenas não basta. É preciso literalmente fazê-las valer. Ou seja, agregar-lhes valor necessário para que circulem.

Mas o modo como isso vem sendo feito nos últimos anos é pela quantidade de cliques obtidos nas redes virtuais. Quanto mais cliques, mais a informação circula e mais se torna passível de monetização.

A lógica não é muito diferente da velha mídia empresarial. Mas nesta, a informação ainda mantinha um valor de uso residual necessário para a manutenção dos monopólios do setor.

Com os novíssimos gigantes midiáticos surgidos no Vale do Silício e arredores, o valor de troca da informação passou a engolir seu valor de uso ainda mais rapidamente. Paradoxalmente, o filme de Mckay faz parte dessa onda ao atrair para a plataforma que o divulga a audiência necessária para manter essa roda girando. Em falso, mas girando.

Na próxima pílula, porque é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

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10 de janeiro de 2022

Não olhe para cima: infocalipse

Dois astrônomos descobrem que em poucos meses um cometa destruirá a Terra. Mas seus alertas são ignorados, menosprezados ou ridicularizados por governantes e mídia. No final, o mundo acaba para todos, menos para uma pequena minoria poderosa e rica que foge do planeta num foguete.

Este é o resumo da trama de “Não olhe para cima”, grande lançamento da Netflix na virada de 2020/2021. O enorme sucesso da atração certamente deve-se às semelhanças com a vida real dos últimos tempos, em que desinformação, mentiras deslavadas e guerra de versões chegaram a um ponto inédito na sociedade de massas.

O apocalipse retratado pelo filme teve seu advento facilitado pelo que Aviv Ovadya, membro do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, chamou de “infocalipse”. Um fenômeno que ocorreria:

...à medida que a qualidade das informações num geral diminui, a inteligência de todos os membros da sociedade e de todas as diferentes organizações que a tornam funcional, no geral, diminui, e, se você vai muito fundo nisso, sua sociedade basicamente desmorona.

Certamente, há uns 10 anos, o filme de Adam McKay seria considerado bizarro demais. Hoje, somente seu tom fortemente satírico impede que a produção ganhe ares de documentário.

Alguns críticos condenam o filme por passar longe das causas profundas que levaram ao “desmoronamento social” de que fala Ovadya. Algo que McKay até certo ponto fez em seu filme “A Grande Aposta”, sobre a crise dos subprimes. Mas, talvez, a própria produção seja parte da “infodemia” que acomete o mundo atual. Fenômeno que abordaremos na próxima pílula.

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9 de julho de 2019

O apocalipse como catástrofe ou revelação

Recentemente, o filósofo italiano Franco Berardi concedeu entrevista publicada em Outras Palavras. Seguem alguns trechos interessantes:

Em condições de aceleração e intensificação da infosfera, o tempo de elaboração cognitiva se faz cada vez mais breve e restrito. Por isso, a faculdade crítica, como a capacidade de discriminar o que é verdadeiro e falso, fica confusa e obscurecida. Não temos tempo para analisar intelectualmente, nem para elaborar emocionalmente, os estímulos que chegam a nossa mente.

(...)

Em seu livro “Os meios de comunicação como extensão do homem” (1964), Marshall McLuhan escreveu que, quando a simultaneidade eletrônica substitui a sequencialidade alfabética, a faculdade mitológica substitui a cultura social e a razão crítica. O “meme” é a expressão midiática do pensamento mitológico que – como o inconsciente freudiano – não conhece o princípio de não contradição, não conhece a irreversibilidade temporal, não conhece a crítica nem a temporalidade histórica.

(...)

As notícias falsas não são, naturalmente, um fenômeno novo; sempre houve informação mal-intencionada na história dos meios. O volume de notícias faltas aumentou hoje porque aumenta, em geral, a quantidade de informações que circulam na infosfera digital.

(...)

Acreditamos que ingressamos em uma época apocalíptica em seu sentido duplo; uma época de catástrofe e uma época de revelação. Não se pode evitar o apocalipse porque as tendências apocalípticas já estão se manifestando. Só podemos preparar a segunda vinda. E não me refiro a segunda vinda de Jesus Cristo porque não sou religioso. Refiro-me a segunda vinda do comunismo, mas não na forma totalitária em que se manifestou durante o século passado.

Preparar a “segunda vinda”, disse o entrevistado, não apenas esperá-la.

Leia também: Prestando culto a uma carcaça

22 de outubro de 2018

Como mentiras e autoengano antecipam os piores crimes


“Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal” é um livro de Hannah Arendt, de 1963. Descreve o julgamento de Adolf Eichmann, um funcionário da máquina de morte nazista que alegava estar apenas cumprindo ordens superiores.

Na obra, a filósofa alemã procura mostrar como a prática dos piores crimes contra a humanidade pode se tornar parte de um mecanismo burocrático. O genocídio como rotina administrativa.

Um trecho merece comentários pertinentes a nossos dias:

E a sociedade alemã de 80 milhões de pessoas se protegeu contra a realidade e os fatos exatamente da mesma maneira, com os mesmos autoengano, mentira e estupidez que agora se viam impregnados na mentalidade de Eichmann. Essas mentiras mudavam de ano para ano, e freqüentemente se contradiziam; além disso, não eram necessariamente as mesmas para todos os diversos níveis da hierarquia do Partido e para as pessoas em geral (...)

As mentiras que vêm circulando pelos meios digitais também não são as mesmas para “todos os níveis” sociais. Variam de bolha para bolha. Mas...

…a prática do autoengano tinha se tornado tão comum, quase um pré-requisito moral para a sobrevivência, que mesmo agora, dezoito anos depois do colapso do regime nazista, quando a maior parte do conteúdo específico de suas mentiras já foi esquecido, ainda é difícil às vezes não acreditar que a hipocrisia passou a ser parte integrante do caráter nacional alemão.

Trata-se de um estágio a que ainda não chegamos. Mas tudo indica que falta pouco.

Infelizmente, não há nada de muito novo sob o sol. Principalmente, quando o crespúsculo antecipa trevas ameaçadoras.

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19 de outubro de 2018

Vem aí o infocalipse. Ou não...

Infocalipse. Este conceito foi criado por Aviv Ovadya, membro do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Em entrevista concedida à agência Pública, em 30/05/2018, ele explica o que seria o infocalipse:

Você pode pensar na ideia como se, à medida que a qualidade das informações num geral diminui, a inteligência de todos os membros da sociedade e de todas as diferentes organizações que a tornam funcional, no geral, diminui, e, se você vai muito fundo nisso, sua sociedade basicamente desmorona.

Mas, segundo Ovadya, só chegaríamos a esse ponto se coisas como a falsificação de áudios e vídeos se tornassem regra. Pode ser, mas as atuais eleições no Brasil parecem mostrar que, entre nós, falta pouco.

Por outro lado, mentiras e distorções grotescas não surgem e se espalham do nada. Elas precisam ter alguma base real. Uma delas é formada por valores comportamentais. Por exemplo, é preciso haver um elevado nível de homofobia numa sociedade para que uma notícia falsa sobre distribuição de kits gays nas escolas sejam assumidas como verdade.

Outro fator importante é o velho e eficiente controle sobre as narrativas históricas. É o caso da Ditadura Militar. Somente o enterro proposital de fatos inegáveis da vida nacional possibilita ao primeiro colocado nas pesquisas eleitorais afirmar que esse terrível período de nossa história fez bem ao País.

Nesse último caso, são vários os responsáveis: monopólios da grande mídia, instituições coalhadas de antigos membros do regime ditatorial e até a omissão de algumas de suas maiores vítimas.

Coisas assim indicam que, talvez, estejamos mais próximos do apocalipse tradicional, mesmo.

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