Doses maiores

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30 de julho de 2010

Os cronópios, de novo

Mais um pouco das estranhas aventuras dos personagens do livro Histórias de Cronópios e Famas, do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984).

Tristeza do cronópio

Na saída do Luna Park um cronópio percebe que seu relógio
[atrasa, que seu relógio atrasa, que seu relógio,
Tristeza do cronópio diante de uma multidão de famas que
Sobe a Corrientes à onze e vinte e ele, objeto verde e úmido,
[caminha às onze e um quarto.
Meditação do cronópio: “É tarde, mas menos tarde para
[mim do que para os famas,
para os famas é cinco minutos mais tarde, chegarão a suas
casas mais tarde, se deitarão mais tarde. Eu tenho um relógio
[com menos vida, com menos casa e menos deitar-me,
eu sou um cronópio infeliz e úmido.”
Enquanto toma café no Richmond da Florida,
o cronópio molha uma torrada com suas lagrimas naturais.

Terapias

Um cronópio se forma em medicina e abre um consultório na Calle Santiago de Estero. Logo chega um doente e lhe conta como há coisas que doem e como de noite não dorme e de dia não come.
- Compre um buquê grande de rosas – diz o cronópio.
O doente se retira surpreso, mas compra o buquê e fica bom instantaneamente. Cheio de gratidão corre para o cronópio e, além de pagar a consulta, lhe dá de presente, fino testemunho, um belo buquê de rosas. Apenas ele sai, o cronópio cai doente, sente dores por todo lado, de noite não dorme e de dia não come.

9 de julho de 2010

Você conhece os cronópios?

E os famas?

Ambos, mais as esperanças, são personagens do livro Histórias de Cronópios e Famas, do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984).

O que são? Quem são? Aí vão duas amostras. Leia e comece a descobrir.

História

Um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira; a mesa-de-cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.

A colherada estreita

Um fama descobriu que a virtude era um micróbio redondo e cheio de patas. Instantaneamente deu de beber à sua sogra uma grande colherada de virtude. O resultado foi horrível: essa senhora renunciou a seus comentários mordazes, fundou um clube para a proteção de alpinistas perdidos, e em menos de dois meses se comportou de maneira tão exemplar que os defeitos de sua filha, inadvertidos até então, passaram ao primeiro plano para grande sobressalto e assombro do fama. Não teve outro remédio senão dar uma colherada de virtude à sua mulher, que o abandonou nessa mesma noite por achá-lo grosseiro, insignificante e completamente diferente dos padrões morais que flutuavam rutilando perante seus olhos.

O fama refletiu largamente e afinal tomou ele próprio um frasco de virtude. Mas continuou da mesma maneira vivendo só e triste. Quando cruza na rua com a sogra ou a mulher, ambos se cumprimentam respeitosamente e de longe. Não ousam sequer se falar, tamanha é a sua perfeição respectiva e o medo que têm de contaminar-se.

Para saber mais: Cortázar, um eterno cronópio