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9 de dezembro de 2024

Atopia capitalista: tudo que é sólido se dissolve no espaço-tempo

Marx afirmava que enquanto na manufatura e no artesanato, o trabalhador se servia da ferramenta, na fábrica capitalista, ele passou a servir à máquina.

Dois séculos depois, muitos trabalhadores voltaram a usar suas próprias ferramentas. São os celulares, automóveis e outros equipamentos. Mas a jornada laboral invadiu o cotidiano e o controle da produção é um algoritmo implacável, impessoal e inacessível. A massificação operária deu lugar à atomização empreendendorista, aprofundando ainda mais a separação tanto entre o produtor e os produtos de seu trabalho, como entre os próprios trabalhadores.

Com fábricas cada vez mais robotizadas, os trabalhadores foram jogados nas ruas, onde dirigem seus automóveis, motos e bicicletas. Continuam a participar da criação de valor para o capital, mas foram expulsos dos espaços físicos da produção para se deslocarem em alta velocidade pelo fluxo consumista. Muitas vezes, com consequências fatais.

As fábricas e escritórios se esvaziaram. O trabalho está em toda parte e em lugar nenhum. Está em residências rebaixadas a oficinas, nos “coworkings” dos shoppings, em praças e ruas tornadas locais de descanso passageiro. As comunicações ganharam enorme dinamismo, mas são funcionais apenas sob o domínio de uma frenética competição selvagem e individualista. O resultado é um estado que podemos chamar de atopia. Ou seja, um não lugar.

Quando Marx e Engels escreveram que, sob o capital, tudo o que é sólido desmancha no ar, talvez, não imaginassem que até mesmo as referências espaciais se dissolveriam. Mas como na física da relatividade, tempo e espaço são contínuos, é preciso decifrar a dialética dessa materialidade para sintetizar novas forças sociais revolucionárias e emancipadoras.

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30 de novembro de 2024

Utopia, atopia, distopia

Pawel Kuczynski
A atopia não é um não lugar. A atopia não é um novo tipo de espaço, nem um território simulacro, nem poderia ser definida inteiramente como uma pós-territorialidade, no sentido único do superamento das formas físicas e geográficas do espaço. Melhor seria defini-la como a substituição destas por uma forma informativa digital e transorgânica, cujos elementos constitutivos são as tecnologias informativas digitais, os ecossistemas informativos elaborados pelos sistemas informativos geográficos e territoriais e as redes sociais, compostas pela fusão de coletivos inteligentes e pelas formas híbridas do dinamismo das linguagens transorgânicas. O habitar atópico se configura, assim como a hibridação, transitória e fluida, de corpos, tecnologia e paisagem...

A definição acima é do professor da USP, Massimo Di Felice. Apesar da abordagem exageradamente acadêmica e, sem necessariamente concordar com tudo o que ela propõe, traz um elemento importante para pensar a organização social tal como a vivemos na segunda década do século 21.

Uma sociabilidade marcada pelas redes digitais, por meio das quais acessamos e somos acessados, quase sem restrições de tempo e espaço. Seja no trabalho, na vida afetiva ou na militância, nos relacionamos instantaneamente, sem deslocamentos, lugares fixos, respeito a horários e, muitas vezes, sem nem mesmo recorrer às tradicionais saudações de chegada e partida.

Um fenômeno que vem se tornando presente na vida cotidiana dos últimos 10 ou 12 anos e mudando tudo de forma mais radical do que imaginamos. Principalmente, quanto às disputas de poder e na luta de classes, em geral.

Atopia não é utopia e tem grandes chances de nos levar às piores distopias. Voltaremos ao tema.

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