Doses maiores

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28 de setembro de 2020

Da física quântica ao trabalho de base

“Hoje, dispomos de mais dados sobre os aglomerados humanos do que sobre a maioria dos fenômenos físicos que temos o hábito de estudar”, afirma Giuliano Da Empoli, em seu livro "Os Engenheiros do Caos".

Comparado a um gás, diz ele, o Facebook tem quase o mesmo volume de elementos. Ou seja, usuários. Neste caso, os métodos da Física levariam vantagem, já que trabalham com uma quantidade infinita de dados.

Na campanha favorável ao Brexit, por exemplo, o trabalho de físicos aplicado à comunicação permitiu que cada categoria de eleitores recebesse uma mensagem sob medida:

...para os animalistas, uma mensagem sobre as regulamentações europeias que ameaçam os direitos dos animais; para os caçadores, uma mensagem sobre as regulamentações europeias que, ao contrário, protegem os animais; para os libertaristas, uma mensagem sobre o peso da burocracia de Bruxelas; e para os estatistas, uma mensagem sobre os recursos desviados do estado de bem-estar para a União. Graças a todas as versões possíveis dessas mensagens, os físicos de dados puderam identificar as mais eficazes, da formulação do texto ao aspecto gráfico. Puderam também otimizar continuamente, em função dos cliques registrados em tempo real.

O grande problema é que não nos interessa essa dinâmica da fragmentação alienante. Não podemos entregar mensagens sob encomenda para cada segmento dos explorados e oprimidos, sem apontar para a totalidade do sistema que nos divide para nos oprimir e explorar.

Dominar algoritmos é muito importante, claro. Mas de nada vale sem o retorno ao trabalho de base e o abandono das prioridades meramente eleitorais. Ainda é a velha luta de classes. Mas de baixo para cima.

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25 de setembro de 2020

Eleições e física quântica

Em seu livro "Os Engenheiros do Caos", Giuliano Da Empoli destaca o papel dos físicos como profissionais capazes de influenciar os resultados das atuais disputas eleitorais.

Para justificar, ele cita o físico Antonio Ereditato, diretor do “Centro de física fundamental Albert Einstein”, em Berna, Suíça:

Na física, o comportamento de cada molécula não é previsível, uma vez que cada uma delas é submetida a interações com uma infinidade de outras moléculas. O comportamento de um aglomerado, por outro lado, é previsível, pois através da observação do sistema é possível deduzir o comportamento médio. (...) não poderemos jamais gerenciar um bilhão de pessoas como um bilhão de moléculas, mas há analogias com base nas quais alguns princípios podem ser aplicados, mesmo se forem sistemas caóticos.

Para um físico, explica Da Empoli, sistema caótico é aquele “no qual uma pequena variação das condições iniciais pode produzir efeitos enormes em sua evolução”. Assim, exemplifica ele, uma “fake news pode ser a pequena modificação inicial que produz imensos efeitos secundários”.

E não se trata apenas da física que vai de Newton a Einstein, mas também da física quântica, teorizada por Max Planck. Neste domínio, a relação entre causa e efeito deixa de ser determinista, pois as variáveis passam a ser aleatórias no nível mais profundo.

Bom, não é preciso ser um especialista para saber que um modelo como o fornecido pela física quântica pode ser muito útil para interferir na dinâmica do comportamento das massas populacionais contemporâneas. Sempre muito próximo do caos.

Na próxima pílula, mais sobre as relações entre física e política.

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24 de setembro de 2020

Na campanha eleitoral, esqueça os marqueteiros. Chame os físicos

Mais um interessante relato do livro "Os Engenheiros do Caos", de Giuliano Da Empoli.

Em 2016, os britânicos foram às urnas para votar em um plebiscito sobre a saída ou não do Reino Unido da União Europeia. O famoso “Brexit”.

O principal estrategista da campanha em favor do Brexit era Dominic Cummings. Certa vez, ele escreveu em seu blog: “Se você quer fazer progresso em política, meu conselho é contratar físicos, e não especialistas ou comunicadores.”

Cummings organizou sua campanha com a ajuda de uma equipe de cientistas originários das melhores universidades da Califórnia e de uma empresa canadense de Big Data ligada à Cambridge Analytica. A eles pediu apenas o seguinte: digam para onde devo enviar meus voluntários, em que portas devo bater, a quem devo mandar e-mails e mensagens nas redes sociais e com quais conteúdos.

Muitos cientistas sonham reduzir o governo da sociedade a equações matemáticas que suprimissem as margens de irracionalidade e de incerteza inerentes ao comportamento humano.

Nos últimos anos, essa aspiração tem se tornado muito próxima de se concretizar. É o que mostrou o referendo sobre o Brexit. Ainda que por pequena margem, o resultado foi favorável à saída dos britânicos da União Europeia.

As redes virtuais se generalizaram e os comportamentos humanos começaram a produzir um fluxo de dados que podem ser mensuráveis. “Cada um de nós se desloca voluntariamente com sua própria ‘gaiola de bolso’, um instrumento que nos torna rastreáveis e mobilizáveis a todo momento”, diz Da Empoli.

O que exatamente os físicos têm a ver com tudo isso, é o que abordaremos na próxima pílula.

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Um pioneiro do caos político

23 de setembro de 2020

Um pioneiro do caos político

Arthur Finkelstein militava, desde muito jovem, no Partido Republicano. No final dos anos 70, teve um papel decisivo na projeção no cenário nacional estadunidense do então governador da Califórnia, Ronald Reagan.

Já nessa época, seu método era o “microtargeting”. Ou seja, análises demográficas sofisticadas e sondagens de boca de urna entre os participantes de eleições. Levantamentos que vão permitir identificar os diversos grupos para os quais devem ser enviadas mensagens segmentadas.

O Facebook ainda está longe, mas Finkelstein já utiliza maciçamente cartas e telemarketing para mapear os partidários em potencial de seus clientes. Mas seu verdadeiro talento consiste, desde o começo, não tanto em promover seu candidato, mas em destruir seus adversários. Segundo ele, "uma forma de arte".

Em 1996, Finkelstein desembarca em Israel. Com uma campanha violentíssima, totalmente inédita em Israel, pinta o pacifista Shimon Peres como um traidor da pátria. No lado oposto, o slogan criado para o candidato conservador é simples e eficaz: “Benjamin Netanyahu é bom para os judeus”.

Netanyahu conquista a maioria graças a um punhado de votos de diferença e é eleito primeiro-ministro. Desde então, continuou a fortalecer sua hegemonia política utilizando a simples linha divisória estabelecida por Finkelstein: nós contra eles, eles contra nós, o povo de um lado, seus inimigos do outro.

Este é mais um relato do livro "Os engenheiros do caos", recentemente publicado por Giuliano Da Empoli. Mostra como a manipulação das comunicações para fins políticos é muito menos recente do que parece.

Mais do que causa, as novas ferramentas virtuais são consequência de um sistema que sempre colocou a política a serviço da classe dominante.

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22 de setembro de 2020

Do partido blockbuster ao partido netflix

Giuliano Da Empoli inicia seu livro “Os Engenheiros do Caos” sustentando que, no decorrer de todo o século 20, a Itália foi “o laboratório onde foram conduzidas experiências políticas vertiginosas”. Do fascismo ao maior partido comunista do Ocidente.

Portanto, afirma ele, não deveria surpreender que, no início do século 21, surgisse na Itália o “Vale do Silício do populismo”, referindo-se à utilização das redes digitais por forças políticas em disputas eleitorais.

O primeiro relato do livro envolvendo esse tipo de atuação é sobre o Movimento 5 Estrelas (M5S). O grande atrativo dessa organização seria uma proposta de democracia direta, em que seus participantes tomam todas as decisões por um processo de consulta on-line permanente.

Mas, na verdade, diz o autor, o M5S funciona como o “PageRank” do Google. Ele não tem visão, programa, qualquer conteúdo ou agenda positivos. É um simples algoritmo construído para aferir o consenso sobre certos assuntos e tópicos.

Segundo esse método de funcionamento, para onde quer que a opinião pública se inclinasse, o M5S mudaria de posição. Esse “partido-algoritmo” teria por único objetivo satisfazer de modo rápido e eficaz a demanda de consumidores políticos.

Numa entrevista ao Corriere della Sera, o chefão do M5S, Davide Casaleggio, definiu desse modo a organização que comanda: “A velha partidocracia é a Blockbuster, nós somos a Netflix".

O problema é que, prisioneiro da mesma lógica que rege os negócios da locadora de vídeos ou do serviço de streaming, o M5S jamais irá além dos limites impostos pelo sistema de dominação. Não à toa, surgiu como movimento de esquerda e se inclina cada vez mais à direita.

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Um país governado por um blog

21 de setembro de 2020

Um país governado por um blog

Um país governado por um blog, criado e administrado por um único homem. Esse homem controla com mão de ferro dezenas de milhares de inscritos em uma plataforma cujo funcionamento é mantido em sigilo absoluto, principalmente quanto a seus algoritmos.

Grande parte do alto escalão do governo desse país é ocupado por campeões de "likes" e "cliques". Mas tais pessoas são chamadas de "avatares", no sentido de que são meras representantes do dono do blog, não tendo qualquer autonomia para decidir coisa alguma enquanto ocupam seus cargos.

São obrigadas, inclusive, a revelar as senhas que dão acesso a suas redes sociais ao administrador do blog. Caso tentem qualquer rebeldia, serão imediatamente acusadas de traição e linchadas virtualmente até sua completa aniquilação no mundo digital.

Comportamentos inadequados serão imediatamente submetidos a votações virtuais, cuja efetivação e formas de apuração são completamente desconhecidas de suas dezenas de milhares de participantes.

Segundo essa poderosa personalidade, o movimento por ela dirigido os indivíduos são "formigas", cujo comportamento deve ser vigiado e controlado.

O programa desse movimento foi lançado como um não-programa e seu estatuto seria um não-estatuto. Mas ambos estabelecem regras e compromissos em relação aos quais não se admite indisciplina.

Não. O que está descrito acima não é o roteiro de uma distopia ficcional. O país em questão é a Itália, o blog é do Movimento 5 estrelas e o nome do todo poderoso que controla tudo isso é Davide Casaleggio.

Mais detalhes nas próximas pílulas sobre o livro "Engenheiros do Caos", de Giuliano Da Empoli, que descreve esse e outros fenômenos políticos atuais e muito assustadores.

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