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7 de maio de 2024

Combatendo o bolsonarismo sem moderação

“Bolsonarismo moderado”. Essa expressão anda provocando debates nas redes virtuais nos últimos dias. Teria surgido a partir de uma coluna publicada por Joel Pinheiro da Fonseca, na Folha de S. Paulo.

Moderação e bolsonarismo são incompatíveis. Mesmo assim, há quem acredite nessa possibilidade e acha que um dos candidatos a encarná-la seria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Mas basta observar o desempenho do governador na segurança pública para constatar que o bolsonarismo é incapaz de ser moderado. O número de pessoas mortas por policiais militares em São Paulo mais que dobrou no primeiro trimestre deste ano. Tarcísio também promoveu no Guarujá a maior chacina desde a matança do Carandiru. Atrocidades que ele cita com orgulho.

Tarcísio sabe que qualquer moderação é eleitoralmente suicida para quem quer manter os votos bolsonaristas. O governador sustenta altos níveis de aprovação popular, não apesar da truculência de sua política de segurança, mas graças a ela.

O Bolsonarismo é uma espécie de fascismo. E o fascismo não se deixa moderar porque se alimenta de uma realidade social cujas consequências catastróficas castigam a grande maioria sem qualquer comedimento.

Foi assim no século passado, quando o liberalismo capitalista causou crises que mergulharam o mundo no fascismo e em duas grandes guerras. O mesmo está acontecendo agora, com o neoliberalismo provocando novas e maiores catástrofes, não só econômicas, mas humanitárias, sanitárias, ambientais e bélicas.

Combater o bolsonarismo é combater o fascismo. Mas só é possível derrotar ambos atacando o sistema que alimenta essas bestas feras. Quem fala em luta antifascista sem falar em luta anticapitalista ou está enganado ou está enganando.

Leia também: A besta do fascismo continua fora da jaula

28 de novembro de 2023

O ludismo quebrando as armas do inimigo

Em seu livro “Breaking Things at Work”, Gavin Mueller afirma que o próprio Marx chegou a ressaltar a hostilidade dos trabalhadores em relação aos moinhos de água e de vento, desde pelo menos a década de 1630.

Mas Mueller diz que foi o historiador marxista Edward Thompson que melhor abordou as ações de destruição de máquinas promovidas pelos trabalhadores na Inglaterra do século 19. Ele soube compreender aquele que ficou conhecido como movimento ludita a partir de sua situação específica, e não como um mero obstáculo no caminho do progresso.

Quebrar máquinas foi apenas uma das táticas que os luditas utilizaram na estratégia mais ampla que buscava aumentar o poder dos trabalhadores e forjar uma luta comunitária e compartilhada.

A revolta dos luditas não era contra as máquinas em si, mas contra a sociedade industrial que fez da tecnologia uma arma para destruir os tradicionais modos de vida e a resistência dos trabalhadores.

“Dizer que eles se equivocavam ao lutar contra as máquinas é como dizer que um boxeador pode enfrentar seu adversário sem levar em conta seus punhos”, diz o autor.

Os luditas souberam ver que a toda tecnologia é política devendo, em muitos casos, ser combatida. Uma percepção que permeou todos os tipos de movimentos militantes, inclusive, os fora da Europa.

Afinal, nas rebeliões de povos indígenas e escravizados do Novo Mundo os ataques à tecnologia produtiva também podem ser entendidos como parte da história do ludismo, porque o ludismo é essencialmente anticapitalista.

Condenar ou desprezar esse tipo de resistência é como querer se defender de tiros, ignorando as armas que os disparam.

Leia também: Quebrando as coisas no trabalho

7 de junho de 2022

Palmares durou mais que a União Soviética

O bolsonarismo não criou qualquer tipo de violência nova – a novidade agora é que um importante setor das classes dominantes já não se importa mais em maquiar sua aparência, ou iludir a opinião pública com urbanidades típicas da hipocrisia dos neoliberais. O que chamamos de “Brasil” sempre foi um genocídio racista estruturado no escravismo.

Com estas palavras, Erahsto Felício e Joelson Ferreira começam seu artigo “Paz entre nós, guerra aos senhores – uma tradição rebelde de alianças”.

Em seguida, afirmam: “A esquerda institucional brasileira já tentou seu caminho – com o máximo respeito que temos aos companheiros, é chegada a hora de tentar outro. É aí onde a longa história de rebeliões dos povos no território brasileiro ainda tem muito a nos ensinar”.

Eles se referem a Cabanagem, Balaiada, Praieira, Canudos, como “ações rebeldes construídas por meio da unidade dos povos”. Lembram que a Cabanagem, por exemplo, foi um movimento protagonizado pelos Sataré-Mawé, Mura, Mundurukus e outros povos indígenas. Aliados a pretos, cafuzos e brancos pobres lutaram contra o poder do latifúndio no norte do País.

Afinal, dizem, Palmares sobreviveu por 130 anos. “Uma experiência de resistência ao capitalismo mais longeva do que a União Soviética ou a China Popular”. A ciência por trás desta longevidade, e de sua capacidade rebelde, afirmam, está na aliança dos povos. A federação de quilombos, que impôs por tantos anos derrotas às potências imperiais da época, era formada por pretos e indígenas, assim como por brancos pobres e marginalizados.

Mas não se trata de qualquer aliança, advertem, por fim. É a unidade dos povos para vencer o capitalismo e o racismo.

Leia também: A resistência indígena desafia também a velha esquerda

17 de março de 2021

A pandemia e o reset capitalista

Em setembro do ano passado, o Financial Times defendeu um “recomeço” para o capitalismo. Para o diário ultraliberal, o “capitalismo de livre iniciativa mostrou uma capacidade notável para se reinventar”. Mas às vezes, “é necessário reformar para preservar. Hoje, o mundo chegou a esse momento. É tempo para um reinício".

Reinício em inglês pode ser “reset”. E foi esse o termo utilizado por Klaus Schwab, fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, em uma reunião realizada em junho de 2020. Entre os participantes, o Príncipe Charles, o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, e executivos da Mastercard e Microsoft.

Schwab defendeu o que chamou de “Great Reset” e apontou como seu gatilho a Covid-19, cujo impacto teria aberto uma “oportuna janela” para centrar as novas tecnologias “do mundo digital, biológico e físico no homem”.

Não demorou para que a extrema-direita surgisse com uma teoria da conspiração nas redes virtuais. Segundo ela, o tal reset nada mais seria que a implantação do comunismo global.

Delírios à parte, o fato é que o capitalismo já sofreu outros “reinícios” e o gatilho de um deles realmente tem a ver com o comunismo. Quando a Revolução Russa abalou o mundo, foi preciso preparar uma resposta rápida.

Há quem diga que essa resposta viria a ser a adoção da economia keynesiana. Mas a teoria de Keynes jamais sairia do papel sem a Segunda Guerra Mundial e esta foi produto da reação fascista ao avanço das lutas dos trabalhadores, evidenciado pelo surgimento da União Soviética.

O capitalismo não precisa de um reset. Precisa de um shutdown.

Leia também: Pandemia e oportunismo: veio a guerra, veio a peste

1 de dezembro de 2020

Videogames anticapitalistas. Eles existem

Mais jogos anticapitalistas trazidos por Jamie Woodcock em seu livro “Marx no Fliperama”. Desta vez, eletrônicos.

Em 2012, Paolo Pedercini criou “Phone Story”. Suas fases baseiam-se nas etapas de produção de um iphone, começando nas minas do Congo, passando por fábricas chinesas, lixões eletrônicos paquistaneses e terminando nas lojas das grandes cidades. O objetivo do jogo era arrecadar recursos para organizações de trabalhadores em luta contra abusos empresariais. Mas três horas após seu lançamento, foi banido da loja virtual da Apple. 
 
“Construindo uma Ratoeira Melhor“ é um videogame no qual o jogador dirige uma fábrica-ratoeira, selecionando “ratos-trabalhadores” e decidindo quanto pagar a eles.
 
Em “Todos os dias o mesmo sonho”, o jogador controla um funcionário de escritório em um mundo sombrio, focado na banalidade das tarefas.
 
Em “Papéis, por favor”, o jogador assume o papel de um oficial da imigração no imaginário país stalinista de “Arstotzka”. A principal função do jogador é aprovar ou negar a entrada de estrangeiros no país. O processo de decisão é complicado pelo fato de que o jogador é pago por cada pessoa barrada e enfrenta a pressão de ter que sustentar uma família.
 
Os videogames acima são voltados para um público já politicamente definido. Mas uma exceção importante é o jogo “Uber”, lançado no site do Financial Times, cujas tendências esquerdistas são nulas. Nele, o jogador descobre como é trabalhar para a Uber e, geralmente, termina com ganhos totais inferiores a meio salário mínimo.
 
Há algum tempo, tornaram-se comuns os jogos anti-Donald Trump, nos Estados Unidos. Agora, talvez surjam também os dedicados a Joe Biden.

Nos vemos no próximo nível.

Leia também:
A origem anticapitalista do “Banco Imobiliário”

30 de novembro de 2020

A origem anticapitalista do “Banco Imobiliário”

Em seu livro “Marx no Fliperama”, Jamie Woodcock revela a existência de alguns jogos anticapitalistas que ganharam fama. Um deles é “Monopoly”, conhecido como “Banco Imobiliário” no Brasil e sucesso de vendas há muitas décadas em todo o mundo.

Inventado em 1903 por Elizabeth Magie, nos Estados Unidos, era originalmente chamado “Jogo do Proprietário”. Em 1925, foi rebatizado como “Monopoly” e apresentava o seguinte texto de apresentação:

Monopólio foi projetado para mostrar os males causados pela propriedade privada. No início do jogo, cada jogador tem a mesma chance de sucesso. Mas no final, apenas uma pessoa fica com todo o dinheiro. O que explica o fracasso dos outros participantes? Que fatores justificariam a distribuição obviamente desigual que essa situação representa? Aqueles que vencerem, responderão "habilidade". Os que perderam, dirão “sorte”. Mas talvez haja alguns que, ainda que admitam o peso desses fatores, responderão “é a propriedade privada”.

No entanto, a versão moderna mudou esse texto introdutório para: “A ideia do jogo é comprar e alugar ou vender propriedades de forma tão lucrativa que torne o jogador mais rico e finalmente monopolize toda a riqueza”.
 
No final dos anos 1970, no Estados Unidos, Bertell Ollman lançou o jogo de tabuleiro “Luta de Classes”. A embalagem trazia a imagem de Karl Marx disputando uma queda de braço com Nelson Rockefeller. As duas possibilidades de vitória apresentadas no tabuleiro eram: “Socialismo (Os trabalhadores vencem!)” e “Barbárie (Os capitalistas vencem!)”. Vendeu 230 mil unidades quando foi lançado, mas logo desapareceu.

As versões anticapitalistas para o meio eletrônico não tardaram a surgir. É o que veremos na próxima fase.

Leia também: O potencial anticapitalista dos jogos

27 de novembro de 2020

O potencial anticapitalista dos jogos

O que é um videogame, pergunta Jamie Woodcock em seu livro “Marx no Fliperama”. Segundo ele, seria um meio dinâmico que envolve um conflito estruturado em busca de um objetivo através de um “aparato audiovisual”. Tais características o diferenciam dos outros jogos, assim como de outras formas de arte ou cultura, tendo se tornado um fenômeno de massa.

O autor também lembra o que disse o sociólogo francês Roger Caillois, segundo o qual, jogos "não criam riqueza ou bens, diferindo assim do trabalho ou da arte." Neste processo, Caillois argumenta, “nada foi colhido ou fabricado, nenhuma obra-prima foi criada, nenhum capital foi acumulado. Brincar é uma ocasião de puro desperdício: perda de tempo, energia, engenhosidade, habilidade e, muitas vezes, dinheiro para a compra de equipamentos necessários e, eventualmente, para pagar o estabelecimento.”

Adaptando essa ideia de Caillois para o pensamento de Marx, Woodcock entende que o jogo pode ser um meio para que seus participantes deixem de ser trabalhadores por um tempo limitado, tornando-se, de forma lúdica, algo mais do que escravos dos limites do capitalismo”.

Por um momento, diz ele, é possível não ser mais um trabalhador, mas alguém livre para explorar novos mundos fora do trabalho penoso imposto pelo capitalismo. Um espaço de experimentação, descobertas e também de recuperação das energias exauridas pela exploração capitalista.

Mas será que a esfera dos jogos também poderia possibilitar uma atividade lúdica anticapitalista? Woodcock não só afirma que sim, como dá alguns exemplos muito interessantes. Entre eles, quem diria, o famoso “Banco Imobiliário”, que foi criado para denunciar os monopólios. É o que veremos na próxima etapa.

Leia também: Videogames e mais-valia