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13 de dezembro de 2024

A esquerda espectral e os espíritos malignos

Lula já foi descrito como uma espécie de “cavalo de terreiro” das contradições sociais do País. Cavalo no sentido de médium que é “possuído” por entidades espirituais.

No caso em questão, essas entidades seriam os conflitos e contradições de uma das sociedades mais injustas do planeta. E Lula seria alguém que as manifesta de forma barulhenta, porém conciliadora.

O mesmo tipo de conciliação tentado pelo varguismo para modernizar o capitalismo brasileiro, procurando incluir as massas. Lula quer algo parecido, mas usando sua origem e ligação com os movimentos sociais como fiadoras em acordos arrancados junto à classe dominante.

O problema é que seu vocabulário sindical e sotaque sertanejo formam uma combinação indigesta demais para uma burguesia elitista e colonizada. Vargas bateu contra a parede imposta por sua própria classe e se suicidou. Lula recebeu o castigo reservado a muitos de sua origem social: a cadeia.

Uma vez fora da prisão, a nova tarefa assumida por Lula foi a de organizar a direita tradicional contra a extrema-direita. Ocorre que a primeira mal consegue se distinguir da segunda. E a governabilidade petista depende mais do que nunca do Centrão, o que inclui a presença de bolsonaristas na base parlamentar e até em ministérios.

Some-se a tudo isso um congresso que controla quase todo o orçamento federal e uma subordinação suicida à austeridade fiscal que castiga a grande maioria da população.

Tudo isso parece indicar que o terreiro petista vem sendo rapidamente dominado pelos espíritos diabólicos da direita. Enquanto isso, o conjunto da esquerda mal consegue abandonar o plano espectral para se encarnar como força concreta no mundo real.

Leia também: O Lula empossado e o Lula possuído

20 de setembro de 2023

Alexandre Lex Moraes

Lex Luthor é conhecido pelos aficcionados em histórias em quadrinhos como um dos mais poderosos antagonistas do Superman.

O apelido “Lex” vem do nome Alexander. Mas há algum tempo, as buscas pelo nome do vilão nas redes podem retornar imagens com o rosto de outro Alexandre. O Moraes.

Muito provavelmente, o atual ministro do STF ganhou esse apelido de setores da esquerda quando ainda era considerado um conservador linha dura. Principalmente, em sua gestão à frente da secretaria de segurança pública do governo Alckmin. Foi nessa época, por exemplo, que blindados israelenses foram utilizados pela primeira vez para reprimir manifestações dos movimentos sociais.

Agora, Alexandre virou “Xandão”. Ao que parece, o primeiro a chamá-lo assim foi Roberto Jefferson em vídeos que o ameaçavam. O ódio que atraiu do bolsonarismo bastou para que boa parte da esquerda passasse a tratá-lo como um aliado.

Mas seria bom lembrar o que diz Thais Bilenky no último episódio do podcast “Alexandre”:

Pela ordem de chegada no Supremo, Alexandre de Moraes assumirá a presidência do tribunal daqui a quatro anos. Vai chefiar o Poder Judiciário inteiro, ambição de muita gente na Justiça. Em meados de 2029, se tudo correr como esperado, estará com 60 anos e uma avenida aberta pela frente.

O podcast revela que no final de 2022, Alexandre recebeu Lula para um jantar. Os dois corintianos roxos estreitaram relações em clima de grande simpatia, “sem que nenhuma notícia sobre o encontro vazasse”, informa Thais.

Alexandre não chega a ser vil e poderoso como Lex Luthor. Mas Lula e, principalmente a esquerda, estão longe de serem inexpugnáveis como o Superman.

Leia também: Alexandre, o paladino da democracia tutelada

25 de agosto de 2023

Uma porteira na foz do Amazonas

Uma justificativa utilizada para as enormes contradições dos governos petistas é seu caráter de governos em disputa. Pode ser. Mas que setores da sociedade realmente disputam os rumos dos governos petistas?

A questão da exploração de petróleo no Amapá é um exemplo claro de troca de fogo amigo nas disputas entre as forças que compõem o governo Lula. Em meio a esse tiroteio estão indígenas, populações locais e trabalhadores da área, como os petroleiros. Partiu destes últimos um documento aprovado no 36º Congresso Regional dos Petroleiros do Sindipetro PA/AM/MA/AP, em junho passado.

Nele, os representantes da categoria manifestam-se em defesa da “fase de exploração do Projeto Amapá Águas Profundas”. Entendem que o país “deve conhecer as reservas de seus recursos naturais estratégicos, numa perspectiva geopolítica e de soberania energética”. E caso elas existam seja criado um “marco legislativo” no qual estariam previstas várias ações para diminuir o impacto da exploração, prioridade do retorno financeiro para as populações locais, assim como a destinação de metade dos recursos obtidos para a transição energética para fontes sustentáveis, projetos de sustentabilidade e desenvolvimento científico.

O posicionamento reflete um esforço de intervenção por parte de um importante setor, diretamente envolvido na questão. Vale a leitura atenta.

Mas acontece que neste, como nos governos petistas anteriores, a verdadeira disputa de seus rumos ocorre entre diferentes alas do grande capital. No caso, opõem-se o desenvolvimentismo predador do século passado a um “identitarismo ecológico” que denuncia a destruição ambiental capitalista sem responsabilizar o capitalismo.

Diante dessa situação, o risco maior é a famosa boiada do Ricardo Salles. Melhor não abrir novas porteiras.

Leia também: Lula: três canoas e um iceberg

28 de junho de 2023

Lula: três canoas e um iceberg

O saudoso Vito Giannotti costumava dizer, em suas aulas, que Getúlio Vargas caiu porque tinha uma pé em cada canoa. De um lado, a canoa da classe operária. Do outro, a dos patrões e latifundiários. Quando as duas tomaram rumos diferentes, “tchibum pra Getúlio”.

A política de Lula sempre sofreu de mal parecido. Mas, ultimamente, apareceu uma terceira embarcação. Além dos barcos dos trabalhadores e do grande capital, se destaca o do ambientalismo.

O problema é que essa terceira canoa também está sob comando do grande capital, o que acaba inviabilizando sua navegação. Afinal, é impossível preservar o equilíbrio ambiental sem superar a submissão total à busca de lucros que é a razão de ser do capitalismo.

A principal função do ambientalismo capitalista tem sido a de servir de pretexto para as políticas comerciais que protegem os interesses das economias centrais. Depois de impor seu modelo colonial destrutivo em todo o planeta, elas cobram responsabilidade ecológica fora de suas fronteiras. É mais ou menos disso que falava Lula em frente à torre Eiffel, dias atrás.

Mas retórica bonita nada pode contra uma poderosa broca perfurando todas as embarcações ao mesmo tempo. No comando da furadeira o grande capital nacional e transnacional. Sua ala agro-destruidora odeia Lula. Apesar dos enormes lucros obtidos nos mandatos petistas, causa-lhe pânico a possibilidade de perder uma pequena lasca de seus latifúndios para trabalhadores rurais, indígenas e quilombolas. Já as alas industrial-financeiras-parasitárias, observam satisfeitas o governo aceitar a carta de navegação imposto pelo Banco Central.

Lula segue em seu exercício de equilibrista. Mas há um iceberg de tragédias sociais no horizonte.

Leia também: As “massas” não são ingratas, ignorantes ou traidoras

19 de maio de 2023

A besta do fascismo continua fora da jaula

Não nos enganemos, o governo Lula é uma ponte a ser queimada. E, se for necessário, ainda durante a travessia.

Bolsonaro não foi um raio num céu azul. A possibilidade de sua vitória foi um ponto cego até meses antes da eleição, mas apenas para as forças de esquerda e setores da direita tradicional. A maior parte da burguesia graúda começou a apostar suas fichas no capitão fascista logo que ele se tornou competitivo.

Era uma aposta que tinha seus riscos, mas o baronato capitalista nacional preferiu isso a aceitar o petismo liberal da candidatura Haddad por causa da sombra de Lula que pairava sobre ela.

É costume dizer que o fascismo é uma fera que a burguesia mantém na jaula até que seja preciso libertá-la. Mas, quando solto, todo animal desembestado pode causar tantos problemas que não há exorcismo que dê jeito. Foi o que aconteceu com a besta de plantão. Alguns de seus cuidadores, como a Globo e alguns outros monopólios de comunicação, chegaram a ter as mãos mordidas pela ingrata criatura.

Mas se Bolsonaro acabou se dando mal, o bolsonarismo continua vivo e operante. No Congresso, no governo de estados importantes como São Paulo, Rio e Minas, nos parlamentos pelo país afora e na própria base de apoio do governo petista.

A tarefa das classes dominantes agora é se livrar de Lula o quanto antes. Com menos de seis meses de governo, os editoriais dos grandes jornais não deixam dúvidas sobre isso. Incluindo aqueles cujas patas dianteiras ainda estão envolvidas em ataduras.  

A besta recuou, mas não voltou pra jaula. Está disponível.

Leia também: Os neoliberais têm um comunismo pra chamar de seu

4 de maio de 2023

Os neoliberais têm um comunismo pra chamar de seu

O fantasma alardeado pela direita fanatizada é o comunismo. A mera defesa de direitos básicos, liberdade de comportamento, diversidade religiosa e sexual, combate à desigualdade, a estupidez fascista transforma em silenciosa e sistemática revolução comunista. Segundo esses maníacos-repressivos, nossos ordeiros partidos de esquerda defenderiam programas tão radicais quanto o repertório dos primeiros discos dos Titãs ou dos Racionais.

Mas os fanáticos da direita neoliberal também têm um comunismo pra chamar de seu. É o “populismo econômico”, no qual se enquadra qualquer um que ouse apenas desconfiar da “austeridade fiscal”. Uma fórmula econômica grosseira que se resume ao “não pode gastar mais do que se arrecada”. Mantra que só não serve quando se trata de pagar a impagável dívida pública.

Sob essa ladainha presente na grande maioria dos textos editoriais e colunas de especialistas medíocres, esconde-se o escoadouro de recursos públicos para a roleta do cassino das Letras do Tesouro Nacional, em torno da qual sentam-se banqueiros e grandes empresários em geral. Tanto locais como alienígenas.

É isso que explica a teima do BC em manter os juros altos, apesar das humildes genuflexões petistas diante desse altar da ortodoxia neoliberal. Esse episcopado zeloso dos interesses de seitas como a da Faria Lima. Com mandato todo-poderoso, sem um único voto popular.

De modo que o governo Lula continuará acossado pelo fanatismo fascista e pela intolerância neoliberal. O primeiro atacou em 8 de janeiro e não pretende parar. O segundo faz o mesmo há décadas e deve continuar. Ambos mal disfarçam sua simpatia mútua, baseada no ódio aos pobres e a qualquer política com cheiro de redistribuição de renda.

Leia também: Pandemia e oportunismo: keynesianismo para ricos

24 de março de 2023

2016, ano referência para a burguesia

Obviamente, o país que Lula voltou a governar tem pouco a ver com aquele que encontrou em 2003. Mas segundo Eduardo Costa Pinto e Ronaldo Bicalho, o ano de referência é 2015.

Os dois são pesquisadores do Instituto de Economia da UFRJ e na edição 135 de seu programa “Diário da Crise”, destacaram dados sobre a taxa de lucro das 500 maiores empresas não financeiras nacionais entre 2000 e 2021.

Em 2004, um ano após a posse de Lula, a taxa de lucro daquelas empresas era 17,9, mantendo-se nesse patamar até 2007. Começou a cair a partir de 2008, despencando para -5,1 em 2015. No ano seguinte, a lucratividade voltou a se recuperar, chegando a 11,5 em 2018. Em 2021, alcançou 22,9, maior taxa em 50 anos.

No mesmo período, a lucratividade dos bancos manteve-se confortavelmente elevada.

O ano-chave, portanto, é 2015, quando os lucros desabaram. O que aconteceu nesse ano? Vários fatores. Entre eles, diz Costa Pinto, a política econômica neoliberal de Joaquim Levy no Ministério da Economia de Dilma. No ano seguinte, não à toa, veio o golpe do impeachment.

Quanto à disparada dos lucros em 2021, certamente foi resultado das políticas que cortaram direitos, achataram salários e eliminaram empregos promovidas pela dupla Temer/Bolsonaro.

Nada disso autoriza teorias da conspiração envolvendo maquinações eleitorais e golpistas do grande capital. Fosse assim, Bolsonaro teria sido reeleito facilmente. Mas mostra uma forte correlação entre os interesses do empresariado graúdo e o cenário político.

Apesar da derrota de Bolsonaro, a burguesia pretende manter a lucratividade recorde de 2021 a todo custo. Para ela, o marco referencial é 2016.

Leia também: O grande capital não tem o que reclamar de Bolsonaro

22 de março de 2023

Grande Mídia: cercados por inimigos de um lado e do outro

“As plataformas digitais são coniventes com a campanha contra a imprensa orquestrada por grupos de extrema direita nas redes sociais e deveriam ser responsabilizadas por isso”, diz editorial do Globo, de 19/03/2023.

O texto utiliza dados da pesquisa “Ataques à imprensa”, do laboratório NetLab, da UFRJ. Apresenta números sobre o poder de fogo das plataformas YouTube, Facebook, WhatsApp, Telegram e Tik Tok. Por fim, revela quais seriam as narrativas de ataque à imprensa identificadas pelo levantamento:

1) a “mídia” representa o “establishment” e manipula o “povo”; 2) os grupos de extrema direita defendem a “liberdade de expressão” e revelam a “verdade”; 3) a imprensa profissional é “autoritária” e quer calar a extrema direita; 4) ela defende imoralidades contra a família; 5) ela conspira com os institutos de pesquisa; 6) ela dá muito espaço às mulheres.

Com alguns ajustes, nós, da esquerda, poderíamos até assinar embaixo dos pontos 1 e 5 desse diagnóstico. Os outros são coisa de lunáticos.

Mas o que o texto mostra, mesmo, é como perdemos espaço nessa arena tão fundamental para a disputa de hegemonia com as classes dominantes. Estamos reduzidos a assistir a uma guerra entre antigos e novíssimos monopólios midiáticos. Conflito que pode ter como
provável resultado a derrota das forças populares. Principalmente, se resolvermos apoiar um dos lados.

E é assim que parecem estar se comportando o governo Lula, o PT e a esquerda em geral. Continuamos menosprezando a necessidade de uma rede própria de comunicação popular. Um erro histórico, renovado periódica e frequentemente. Nossos inimigos, de um lado e do outro, agradecem.

Leia também: A disputa nas redes não deve ser menosprezada

16 de janeiro de 2023

Dando nome às serpentes

“É preciso dar nomes aos bois”, brincam alguns memes que circulam nas redes, referindo-se à necessidade de identificar o “gado” bolsonarista que atacou as sedes dos “Três Poderes” em 08/01/2023. É verdade. Mas se identificar e punir os golpistas é importante, também é fundamental fazer o mesmo com seus mandantes, seus financiadores.

E eles não são terroristas. Essa caracterização, não à toa rapidamente adotada pela grande imprensa, é perigosa. Costuma ser muito utilizada para acusar militantes de esquerda e dos movimentos sociais. O nome correto é “fascista”, designação que deixa muito menos dúvidas sobre de quem e do quê se trata.

Também não está claro que 93% “dos brasileiros condenam os ataques dos bolsonaristas”, como diz a pesquisa Datafolha divulgada em 11/01/2023. Afinal, segundo um levantamento da pesquisadora de Comunicação da PUC-Rio, Letícia Capone, “a narrativa de que os atos teriam sido praticados por infiltrados da esquerda alcançou 327 mil usuários no Facebook e Instagram”, logo após os episódios de Brasília.

Ao mesmo tempo, dados da consultoria Bites apontaram que, entre 9 e 12 de janeiro, 2,8 milhões de postagens no Twitter afirmavam que os bolsonaristas presos no DF estariam em “campos de concentração”.

Os dados acima aparecem em reportagem no jornal o Globo de 13/01/2023, permitindo à sua autora, a jornalista Luísa Marzullo, afirmar que após a tentativa golpista dos fascistas, o “bolsonarismo se reagrupa e domina narrativa nas redes”.

Tudo isso agravado pela notícia de que a rede de comunicação antifascista, tão importante durante a campanha eleitoral de Lula, foi desarticulada.

Mais importante que identificar bovinos é nomear e dar cabo das serpentes.

Leia também: O quebra-cabeça e as cabeças quebradas

10 de janeiro de 2023

Se Deus é brasileiro, o diabo é patriota

Está em fase de finalização o filme “Deus ainda é brasileiro”, continuação de “Deus é brasileiro”, de 2003. Ambos de Cacá Diegues. 

Com Antônio Fagundes no papel principal fazendo dupla com o então estreante Wagner Moura, o primeiro filme foi sucesso de público. Lançado logo depois da posse do primeiro governo Lula, era possível ver na produção uma espécie de símbolo da época que se iniciava. “Cheia de esperanças por concretizar e sem abrir mão de alguma astúcia para desviar-se dos percalços que estão por vir”, dizia um texto de minha autoria, publicado na mesma época. 

Trata-se de “Deus é brasileiro e quer férias”, que aproveitava a trama da produção para arriscar uma avaliação sobre a forma como a religiosidade judaico-cristã estaria se manifestando na vida social contemporânea. Segundo o texto, diante de um mundo cada vez mais desencantado, privado de forças mágicas, as pessoas poderiam se sentir convocadas a assumir o fardo de conduzir seu próprio destino.

O problema é que o esvaziamento do sentido religioso também vinha ocorrendo em outras esferas de organização da vida social, como as da política, do trabalho e dos laços comunitários. E o conservadorismo passou a utilizar o fanatismo religioso para preencher esses vazios existenciais. Fenômeno que viria a se manifestar como forte onda ultraconservadora, cerca de uma década depois. E se Deus parecia brasileiro no começo do século, passados 20 anos, seu diabólico adversário se revelou patologicamente patriota. 

De qualquer maneira, talvez o texto ainda mereça uma leitura: clique aqui para acessar.

Leia também: Sou o Deus que transtorna, diz o Capital

9 de janeiro de 2023

O Lula empossado e o Lula possuído

Lula subiu a rampa acompanhado de uma mulher negra, liderança dos catadores de materiais recicláveis; do cacique Raoni; de um menino negro; um metalúrgico; um professor; uma cozinheira e um militante em defesa de pessoas com deficiências.

Todos encarnados em representatividade. Mas quem viu a cena do ponto de vista da sagrada tradição das lutas populares, enxergou muito mais gente subindo aquela rampa.  

Estavam presentes os espíritos de Palmares, Canudos, Contestado, Conjuração Baiana, Revolta Malê, Cabanagem, Sete Povos das Missões. Também compareceram Sepé Tiaraju, Zumbi, Marighella, Chico Mendes, Dorothy Stang, Marielle, Bruno, Dom e muitos outros que adotaram o ex-metalúrgico e eterno sertanejo como seu cavalo de santo. Aquele que recepciona a energia de resistência popular. Aquela que nunca se acaba, apenas se transforma.

É certo que também havia os espectros de capitães-do-mato, bandeirantes, cangaceiros, jagunços, carrascos, torturadores e fascistas. Pois a mediunidade de Lula encarna as contradições da luta de classes da história nacional. Atrai não apenas os bons espíritos, mas também arrasta consigo os piores.

Lula tomou posse ao mesmo tempo em que era possuído. Governo de frente ampla pode até ser de salvação nacional, mas tanto invoca como é presa de coisas ruins.

É verdade que, durante a posse, o ar estava leve e limpo como nas matas guardadas pelos orixás e encantados. Mas criaturas malignas continuam circulando pelo terreiro nacional. Foi o que se viu ontem, na Praça dos Três Poderes. Por algumas horas, imperou o poder trevoso do fascismo bolsonarista, enquanto as forças da ordem conjuravam a desordem.

É resistência, povo lutador! Mbaraeté! Empunhemos com firmeza o machado de Xangô!

Leia também: Lula, o cavalo do terreiro nacional

14 de dezembro de 2022

O quebra-cabeça e as cabeças quebradas

São muitas as peças a serem encaixadas. Ministérios disfuncionais, decretos absurdos, políticas públicas destruídas, órgãos inteiros abandonados, servidores perseguidos, números sem lógica.

No Congresso Nacional, o apoio a um governo de frente ampla exige alianças das mais razoáveis às mais temíveis. O espaço para traições e sabotagens é enorme. Fora dos palácios, a grande mídia faz de tudo para enquadrar o novo governo em sua agenda neoliberal e antipopular.

Mas algumas peças desse complicado quebra-cabeças são muito perigosas e de ajuste quase impossível. São peças de artilharia. Uma verdadeira derrama de armamentos ocorreu entre a população desde que o governo Bolsonaro facilitou sua aquisição.

O número de licenças para armas de fogo subiu 473% de 2018 a 2022, segundo dados do Anuário de Segurança Pública divulgados em junho passado. Antes, a população civil podia adquirir até 4 armas e 100 munições para cada arma por ano. Bolsonaro baixou portarias que permitem o acesso a até 60 armas e 180 mil munições, anualmente.

Os Colecionadores, Atiradores desportivos e Caçadores possuíam cerca de 648 mil armas, em junho de 2021, enquanto as Polícias Militares totalizavam 583 mil. Até novembro de 2021 havia no país um total de 2,3 milhões de armas registradas. Trata-se de um aumento de 78% em relação a 2018, quando havia 1,3 milhão de armas contabilizadas.

Com toda a violência que marca nossa sociedade há séculos, desarmar essa bomba-relógio não será fácil. Mas ficará impossível se seu principal estopim não for desativado. É o aparato sob controle dos generais infiltrado nas instituições militares e civis.

São essas as cabeças a serem quebradas...

Leia também: E a encrenca continua enorme

13 de dezembro de 2022

E a encrenca continua enorme

Durante a campanha eleitoral, Lula disse que o orçamento secreto tornara Bolsonaro um bobo da corte, pois transferiu ao Legislativo a prerrogativa do Executivo de gerir os gastos da União. Até o momento, as negociações do governo eleito com o Legislativo caminham para a manutenção do orçamento secreto.

O teto de gastos aprovado durante o governo golpista de Michel Temer representou a constitucionalização de uma política fiscal feita sob encomenda para os grandes capitalistas que dominam a economia nacional. A necessidade de extingui-lo deveria ser obrigatória em um governo disposto a recuperar minimamente a capacidade do estado de implantar políticas públicas capazes de diminuir a catástrofe social que se abateu sobre o país nos últimos 5 anos. Mas as negociações com o Congresso têm se limitado a discutir flexibilizações do teto, não seu fim.

Recentemente, foi anunciada a indicação de José Múcio Monteiro para o Ministério da Defesa do novo governo. O nome agrada a cúpula militar. O problema é que o indicado foi relator no processo do TCU que condenou Dilma Roussef pelas pedaladas fiscais usadas como pretexto para o golpe que a depôs. Também é alguém por quem Bolsonaro já disse publicamente ter se “apaixonado”.

Em recente encontro com Lula, representantes das centrais sindicais cobraram dele a indicação de um progressista para o Ministério da Fazenda. O presidente eleito respondeu: “O progressista do governo sou eu”.

É isso. Não se trata de um governo petista ou progressista, mas de “salvação nacional”. Resta saber se nessas condições há como salvar alguma coisa que não sejam os interesses dos mesmos poderosos que elegeram Bolsonaro em 2018.

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O que era pra ser nunca deixou de ser o que é
O tamanho da encrenca

12 de dezembro de 2022

O que era pra ser nunca deixou de ser o que é

O que era pra ser eleições diretas, em 84, tornou-se eleição indireta, em 85. O presidente deveria ser o opositor Tancredo Neves. Acabou sendo seu vice, criatura da ditadura supostamente derrotada.

O que era pra ser uma anistia que faria justiça às vítimas dos generais ditadores, garantiu impunidade aos que as perseguiram e torturaram.

Era para ser uma nova constituição que assegurasse conquistas sociais. Muitas delas ficaram no papel, mas manteve-se a tutela militar sobre o poder civil.

Era pra ser Lula presidente em 89, representando uma década de lutas populares radicalizadas. O eleito foi um nordestino corrupto com o decisivo e fraudulento apoio da oligarquia sudestina.

Fracassada a aventura mafiosa collorida, o que era pra ser uma vitória eleitoral de Lula foi abortada pelo Plano Real. As perdas salariais foram congeladas e os conflitos sindicais neutralizados. A dívida externa transformada em dívida pública passou a saquear orçamentos como os da Educação, Previdência e Saúde. Bilhões de reais dos cofres públicos passaram a ser apropriados diariamente por rentistas nacionais e estrangeiros.

O PT só chegou ao poder após o neoliberalismo desarmar os movimentos populares e domesticar a esquerda institucional. O poder público transformado em dócil gerente da austeridade fiscal.

Todas essas contradições se acumularam até que a crise econômica mundial passou de “marolinha” a “tsunami”. E o que era pra ser Dilma reeleita, em 2014, tornou-se um golpe liderado por seu vice, em 2016.

Era pra ser Bolsonaro reeleito e o fascismo consolidado. Felizmente, Lula não permitiu. Mas continuamos dependendo do que era pra ser, enquanto as coisas nunca deixaram de ser o que são.

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29 de novembro de 2022

O tamanho da encrenca

“A verdade muito além do fiscal”, diz o título de artigo de Míriam Leitão, publicado no Globo de 27/11/2022. “O que gera mais incerteza? O golpismo de Bolsonaro ou a falta de definição sobre a âncora fiscal do novo governo?”, pergunta a articulista.

Ela afirma que sempre defendeu “a sustentabilidade da dívida pública e o rigor nos gastos do governo”. Mas, diferente do que vem fazendo o grande capital em relação ao governo eleito, pede paciência porque “o país está em escombros”.

Na mesma página, uma reportagem alerta: “Alckmin diz que novo governo não vai desfazer reformas”. Em evento com empresários no Guarujá, o vice-presidente eleito defendeu a reforma trabalhista e prometeu “quatro anos de ajuste fiscal”.

Eis aí a explicação para a boa vontade de Miriam Leitão em relação ao próximo presidente. Um governo que nem tomou posse, já se encontra cercado e chantageado pelo neoliberalismo. E ainda corre elevado risco de continuar convivendo com as ações terroristas dos bolsonaristas. Práticas às quais a “institucionalidade”, incluídas as forças repressivas, assistem com uma passividade carregada de cumplicidade. 

O governo Lula dificilmente chegará a ser progressista, dadas as limitações impostas por forças que, mais do que o apoiar, o limitam. Mesmo assim, será tratado como esquerdista pelo “mercado” e comunista pela extrema-direita. 

Nesse cenário, caberá aos movimentos sociais e forças de esquerda assumir a defesa de um governo que nem será um aliado tão próximo assim contra ataques que virão de vários lados. Dos fascistas, dos neoliberais e de setores do próprio campo governista. Este é o tamanho da encrenca em que nos encontramos.

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22 de novembro de 2022

Ajuda-nos a te ajudar

“Temos que incluir o pobre no orçamento e o rico no imposto de renda”, declarou Lula em entrevista à CBN, em agosto de 2021.

Sintético, claro e inteligente como costuma ser, Lula estava se referindo a dois elementos fundamentais para começar a pensar em distribuição de renda em um país tão injusto como o nosso.

Primeiro, criar ou ampliar o lugar dos programas e direitos sociais nos orçamentos públicos. Segundo, cobrar menos impostos sobre o consumo e priorizar taxação pesada sobre grandes patrimônios e fortunas. 

Mais do que isso, é preciso cobrar impostos sobre lucros e dividendos. Desde 1995, o Brasil é um dos únicos países do mundo a isentar de tributação esse tipo de ganhos, beneficiando uma minoria de magnatas.

Durante a campanha eleitoral, Lula também reafirmou que despesas com saúde e educação não são gastos, mas investimentos. Era um recado para os defensores do teto de gastos aprovado durante o governo golpista de Michel Temer. 

Essa medida provavelmente coloca o Brasil como o único país do mundo a constitucionalizar uma política fiscal. Um absurdo criado apenas para garantir o enorme fluxo de recursos públicos para o pagamento da dívida pública, cujos títulos estão em poder do grande capital nacional e estrangeiro. 

Mas para além de esperar que Lula consiga fazer valer suas próprias palavras, seria importante avançar algumas propostas. Que tal tirar da Constituição o teto de gastos e colocar nela o Bolsa-Família, por exemplo? 

Nós, aqui do lado de fora, temos a obrigação de ajudar. Mas, como fazem os melhores cristãos, também somos obrigados a dizer: ajuda-nos a te ajudar, Lula.

Leia também: Preparando a cama para Lula

21 de novembro de 2022

Preparando a cama para Lula

Nas últimas semanas, a grande imprensa vem dando voz a uma entidade chamada “mercado”, que estaria muito nervoso. Na verdade, trata-se do grande capital, que exige de Lula um compromisso selado com sangue de irrestrita fidelidade à responsabilidade fiscal. 

Responsabilidade fiscal nada mais é que o desvio de enormes montantes de recursos públicos para o pagamento dos juros da dívida interna. Os beneficiários desse pagamento são capitalistas, detentores de títulos da dívida pública. E não se trata apenas de banqueiros, mas dos grandes empresários em geral, tanto nativos como estrangeiros.

Enquanto isso, a enorme maioria pobre da população vê seus direitos desrespeitados ou eliminados e programas sociais fundamentais para garantir o mínimo de dignidade para milhões de pessoas amargam a mais extrema penúria. Tantas perdas humanas apenas para honrar uma dívida que já foi paga várias vezes, sem que jamais tenha diminuído.

Na mitologia grega, um sujeito chamado Procusto costumava deitar suas vítimas numa cama. Se o coitado fosse maior que o leito, decepava-se o que ficava sobrando. 

É nesse leito cruento que o grande capital está querendo meter o governo Lula. Com a diferença de que mesmo que o encaixe entre a cama fiscal e o orçamento público fique do tamanho exigido pelo poder econômico, continua sendo grande o risco de graves mutilações. 

Afinal, não nos esqueçamos que Dilma aceitou as imposições desse mesmo Procusto fiscal, em 2015. Na época, ela delegou ao neoliberal Joaquim Levy a tarefa de conferir as medidas do catre a ser ocupado. O resultado todos testemunhamos. Foi um verdadeiro esquartejamento transmitido ao vivo, em cores e aos berros.

Leia também: A cama de Dilma

17 de novembro de 2022

Lula e STF facilitando para o bolsonarismo

“Discurso de Lula na COP27 resgata papel do Brasil”, diz o título do editorial do Globo de hoje sobre o pronunciamento do presidente eleito na conferência do clima das Nações Unidas.

Mas, segundo o jornalão, Lula “errou feio” ao aceitar carona no avião de José Seripieri Junior, dono da Qualicorp, um dos maiores grupos de saúde privada do País.

Depois de saudar o pronunciamento de Lula, o editorial termina, esperando que “doravante” ele saiba “separar o espaço público de interesses privados”.

Por falar em mistura de interesses públicos e privados o jurista Conrado Hübner Mendes, tratou do tema em sua coluna publicada também hoje, na Folha. Mendes destacou a presença de seis ministros do STF na "Lide Brazil Conference", em Nova York.

O evento foi organizado pela "Lide - Grupo de Líderes Empresariais", empresa de João Doria, que segundo o articulista, dedica-se a "fazer pontes" entre o mundo corporativo e o mundo público. “Não precisa chamar de lobby se tiver apego ao eufemismo”, adverte ele.

Realmente, não há o que justifique seis dos togados mais poderosos do país juntos e misturados com quem manda em grande parte da economia nacional. Apesar disso, não houve editoriais condenatórios nem toda a comoção que se verificou no caso de Lula.

Além disso, comparando os dois casos, note-se que, diferente de magistrados pretensamente neutros, Lula nunca escondeu suas amizades com empresários desde que era metalúrgico.

Mas, de um jeito ou outro, é preciso levar a sério a advertência do colunista da Folha: “há várias formas de Bolsonaro sair vitorioso após a derrota eleitoral”. Toda essa promiscuidade é uma delas.

Leia também: Lula sob ameaça de prisão

11 de novembro de 2022

Lula sob ameaça de prisão

Uma pílula publicada em agosto passado já alertava que Lula, vitorioso nas eleições, seria nosso homem infiltrado na direita, “sozinho e muito mal acompanhado”.

Hoje, os jornais parecem confirmar essa ideia. Bastou o presidente eleito criticar a “responsabilidade fiscal que sacrifica o combate à fome e enche o bolso dos banqueiros” para o dólar disparar e a Bolsa despencar.

Também são recorrentes as cobranças pela nomeação imediata do sacrossanto Ministro da Fazenda, mesmo que gente como os pais do Plano Real e um neoliberal certificado e homologado como Henrique Meirelles estejam na equipe de transição. 

Falando em equipe de transição, há ótimos nomes em sua composição, como Silvio de Almeida, Sônia Guajajara, Guilherme Boulos, Anielle Franco. Mas resta saber quais deles realmente comporão o governo. Podem estar apenas aplainando o terreno para os tratores da direita passarem. 

Uma coisa é estabelecer um programa de diretrizes para os futuros ministérios. Outra é quem realmente será o titular das pastas. Não adianta, por exemplo, prever fortes medidas ambientais se a área correspondente ficar com representantes do agronegócio, como Simone Tebet ou Kátia Abreu.

Mas tudo isso já estava na conta desde que se impôs a necessidade de impedir a reeleição de Bolsonaro. Por mais que lamentemos, Lula já está com o cheque assinado em favor da austeridade fiscal.

O que não pode entrar nessa conta é impunidade para a indisciplina do aparato repressivo, os oficiais golpistas na máquina pública e a ação miliciana dentro e fora dos quartéis. Ou Lula dá um basta nisso tudo ou vai retornar à prisão. Desta vez, a do Alvorada.

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7 de novembro de 2022

É hora do exorcismo

“Ninguém sofreu tantas injustiças e foi tão ‘satanizado’ como o próprio Satã”. Estas palavras são de Leonardo Boff, no artigo “Dessatanizar a Satã ou o Diabo”. 

No texto, Boff lembra que Satã era um dos anjos de Deus. O problema é que na Bíblia recebeu a tarefa “inusitada e ingrata” de colocar à prova a fé do pobre e bondoso Jó, num dos momentos mais cruéis do Antigo Testamento.

Depois, veio a influência de Zoroastro, durante o exílio dos judeus na Babilônia, cuja cosmologia dividia o mundo entre o bem e o mal. Em seguida, veio a criação do inferno por teólogos da Idade Média. Daí foi um passo para que o inferno e suas criaturas servissem aos interesses colonialistas.

Os sacerdotes cristãos ameaçavam os povos originários com o inferno, caso não negassem suas crenças. Além de acusarem suas entidades espirituais de serem criaturas malignas. Prática, aliás, que não mudou muito. Ao contrário, tivemos provas muito recentes de que só vem se fortalecendo.

Como diz Boff: 

...o inferno e os demônios e o principal deles, Satã, são projeções nossas da maldade que existe na história ou que nós mesmos produzimos e das quais não queremos nos responsabilizar e as projetamos nestas figuras sinistras.

Ele também afirma que é apelando a Satã “que hoje, em tempos de ira e ódio social, procura-se desqualificar o adversário, não raro, feito inimigo a ser desmoralizado e, eventualmente, liquidado”. 

O autor está certo. Mas, cá entre nós, após quatro anos de um governo genocida, só dessatanizar parece muito pouco. Um bom e velho exorcismo é altamente recomendável. Sai, capeta!

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