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25 de setembro de 2024

A fenda irreparável do Antropoceno capitalista

Em “O Capital”, Marx procurou mostrar como os imperativos do crescimento capitalista inevitavelmente entram em conflito com as leis da natureza. A economia capitalista, escreveu, não pode "fazer nada melhor com os excrementos produzidos por 4,5 milhões de londrinos do que poluir o Tâmisa a um custo monstruoso".

Marx considerou tais fenômenos como "uma fenda irreparável no processo interdependente do metabolismo social e natural". Abaixo, alguns exemplos dessa “fenda irreparável”:

- Em 1925, eram necessárias dezesseis semanas para criar uma galinha de 2,5 kg. Hoje, são apenas seis semanas para criar uma com o dobro do peso. Criação seletiva, hormônios e ração química permitiram que as fazendas industriais produzissem não apenas mais carne, mais rápido. O sofrimento dos animais e a qualidade da comida são preocupações secundárias ou simplesmente inexistem.

- Terras férteis são destruídas, florestas são desmatadas e populações de peixes entram em colapso, tudo porque o capitalismo precisa operar em velocidades muito mais rápidas do que os ciclos naturais de reprodução e crescimento.

- O carbono que levou centenas de milhões de anos para se formar vem sendo consumido pelo capitalismo há menos de dois séculos. Milhões de toneladas de CO2 são liberados muito mais rapidamente do que os oceanos e outros elementos naturais conseguem removê-los da atmosfera.

A crise climática está levando o caos a centenas de milhões não porque os mercados não estejam funcionando bem o suficiente, mas porque funcionam bem demais na aceleração dos ciclos globais de energia e materiais.

As informações acima estão no livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus. Explicam porque o Antropoceno é tragicamente capitalista.

Leia também: O Antropoceno e o fio vermelho da resistência

8 de agosto de 2019

Vendem nosso ar, roubam nosso sono

Em “O Capital”, Marx chama a força natural proporcionada pela água e pelo ar de “serviço gratuito”. O trecho pressupõe o entendimento de que havia recursos naturais não mercantilizados. Há tempos, já não é assim.

Segundo reportagem de Silvia Scaramuzza, publicada pelo portal “Business Insider Italia”, em 01/08/2019:  

Em Nova York, cada metro quadrado é precioso. Em uma cidade onde falta espaço, só resta ir para cima. Para os construtores de arranha-céus de Nova York, a última fronteira a conquistar é o céu. Como? Comprando o ar inutilizado dos edifícios adjacentes à área onde se pretende construir, apossando-se dos chamados air rights [direitos do ar].

Mas há coisas piores, como mostra Ronaldo Lemos, em sua coluna na Folha de 05/08/2019. O artigo descreve, entre outros produtos tecnológicos, colchões “inteligentes” que:

...monitoram cada movimento, virada ou variação de temperatura do corpo. No momento em que a pessoa está adormecendo, ele aquece. Quando a pessoa adormece, ele diminui um pouco a temperatura, aprofundando assim o ciclo de sono profundo...

Tudo isso para “minerar dados” que permitirão a fabricação dos mais diversos produtos, capazes de gerar muitos lucros para alguns poucos. Dentre os quais, dificilmente, estará o dono do colchão.

Certamente, Marx imaginou que algo assim aconteceria. Afinal, ele foi um dos principais “profetas” da mercantilização de cada aspecto da vida humana pelo capitalismo.

Mas, pelo menos, no caso de Nova York, a operação é um pouco mais transparente que o ar poluído da cidade. Já quanto a nosso sono, trata-se de roubo, mesmo. E cometido, literalmente, na calada da noite.

É de tirar o fôlego. E o sono.

27 de abril de 2018

O exército de trabalhadores e suas divisões

É costume dizer que Marx falhou completamente em sua previsão de que o desenvolvimento capitalista levaria a que a burguesia se visse cercada por uma grande e homogênea classe social: o proletariado. Tais críticas costumam traduzir proletariado por “classe operária”, quando a interpretação correta seria “classe trabalhadora”.

Mas no volume 3 de “O Capital”, Marx argumentou que mesmo essa grande classe trabalhadora está marcada por:

...uma hierarquia de forças de trabalho, à qual corresponde uma escala de salários (...). Ao lado das gradações da hierarquia, aparece a simples separação dos trabalhadores em qualificados e não qualificados.

De fato, em 1997 foi publicado um estudo sobre a estrutura de classes de Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Suécia, Noruega e Japão. Nele, Erik Olin Wright descobriu entre os setores que não possuem grandes meios de produção (fábricas, fazendas, supermercados etc.), três divisões com base nas habilidades (especialista, qualificado, não qualificado) e três baseados na autoridade (gerente, supervisor, sem autoridade). O resultado geral, portanto, foram nove frações internas à classe trabalhadora.

Os resultados correspondem ao que disse Marx em sua grande obra econômica:

Um exército industrial de trabalhadores sob o comando de um capitalista exige, como num exército normal, oficiais (gerentes) e sargentos (capatazes, supervisores) que comandam durante o trabalho o processo em nome da capital.

Ou seja, confirma-se não apenas a previsão marxista de que um imenso contingente de explorados cerca a burguesia por todos os lados. Mas também que, infelizmente, as tropas desse exército continuam muito divididas.


Leia também: No comunismo, ainda haveria inveja, sofrimento, mau gosto…

16 de janeiro de 2018

O novo individualismo já tem alguns séculos

Anthony Elliott é professor de sociologia das universidades South Australia e Keio, no Japão. Em 31/12, publicou artigo na Folha discutindo um novo tipo de individualismo.

Segundo ele, o individualismo atual “nos encoraja a mudar tão completa e tão rapidamente que nossas identidades se tornam descartáveis”.
                                    
Ele cita o filósofo e escritor estadunidense Don DeLillo, para quem:

...o capitalismo mundial gera transformações à velocidade da luz, não só em termos do movimento súbito de fábricas, migrações em massa de trabalhadores e transferências instantâneas de capital líquido, mas em “tudo, da arquitetura ao tempo de lazer, à maneira pela qual as pessoas comem, dormem e sonham”.

Ora, em 1848, o Manifesto Comunista já afirmava que a burguesia “não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção, e com isso, todas as relações sociais”.

Em relação ao mundo “profissional”, Elliott afirma:

A morte da ideia de uma carreira (uma vida de trabalho) desenvolvida dentro de uma só organização foi interpretada por alguns como sinal de uma nova economia —flexível, móvel, operando em rede. O financista e filantropo internacional George Soros argumenta que transações tomaram o lugar dos relacionamentos na economia moderna.

As transações que tomam o lugar dos relacionamentos identificadas por Soros continuam a movimentar mercadorias, ainda que, atualmente, muitas delas nem existam e circulem por meio de pulsos eletrônicos.

O conceito de “fetichismo da mercadoria” apresentado em “O Capital” diz algo muito parecido. É a relação entre as mercadorias ocupando o lugar da relação entre as pessoas.

Soros, DeLillo e Elliott poderiam dar os devidos créditos a Marx e Engels. 

Leia também: Uberização do desespero, luta de classes, disputa hegemônica

13 de dezembro de 2017

Tudo o que é sólido termina em exploração

“Capitalismo sem capital” é o nome de um recente livro publicado pelos britânicos Jonathan Haskel e Stian Westlake. Ainda sem edição no Brasil, a obra foi comentada por John Harris, em artigo reproduzido pelo portal IHU-Online.

Harris cita a famosa frase “Tudo o que é sólido desmancha no ar” para explicar o fenômeno que dá nome ao livro. Segundo ele, a nova economia dos aplicativos seria a melhor demonstração daquela passagem do Manifesto Comunista.

Afinal, a Airbnb não tem imóveis, o Alibaba não tem estoque e a Uber não tem automóveis, diz o artigo. Seriam exemplos perfeitos de capitalismo sem capital. Da crescente economia de bens intangíveis.

Mas, se realmente Haskel e Westlake utilizam como referência Marx e Engels, não entenderam nada de sua obra.

Primeiro, quando o Manifesto afirma que tudo que é sólido desmancha no ar, está se referindo à consolidação do capitalismo, não a seu desaparecimento. Airbnb, Alibaba e Uber são radicalizações dessa tendência, não sua negação.

Em segundo lugar, em “O Capital”, Marx deixou claro: “O capital não é uma coisa, mas uma relação social”.

A mercadoria mais valiosa na produção capitalista é a força-de-trabalho. Integrada à massa de forças-de-trabalho do conjunto dos trabalhadores, ela torna-se o mais intangível dos bens.

É exatamente esta intangibilidade da força-de-trabalho que permite esconder sua exploração como fundamento maior da sociedade atual.

Na verdade, a única coisa realmente sólida no capitalismo tem sido a exploração de uma maioria que só aumenta por uma minoria cada vez menor.

Mas Harris tem razão numa coisa. A atual fase do capitalismo “provavelmente disseminará incerteza e agitação como nunca”.

Leia também: Marx e Engels 4.0

11 de dezembro de 2017

Marx e o espaço anulado pelo tempo

A sensação de que a passagem do tempo vem se acelerando nas últimas décadas parece inegável. Há vários estudos em torno do fenômeno. No Brasil, por exemplo, há um laboratório dedicado a ele na Universidade Federal do ABC.

Mas uma das explicações possíveis poderia ser deduzida de uma necessidade econômica fundamental para o capital. É a aceleração de tempo de circulação das mercadorias para a realização dos lucros provenientes de sua comercialização.

“Grundrisse” é o nome pelo qual são conhecidos alguns manuscritos de Marx concluídos em 1858, na condição de rascunhos de “O Capital”. E se este já é de leitura complexa, imagine seu esboço. Mas segue uma citação interessante:

Enquanto o capital deve por um lado, esforçar-se por derrubar todas as barreiras espaciais para realizar o intercâmbio (isto é, a troca), e conquistar todo o mundo como seu mercado, esforça-se, por outro lado, em anular o espaço pelo tempo, isto é, reduzir a um mínimo o tempo despendido no movimento de um lugar ao outro. Portanto, quanto mais desenvolvido o capital, mais extenso o mercado pelo qual ele circula, (...) a órbita espacial de sua circulação, mais ele se esforça simultaneamente em direção a uma ainda maior ampliação do mercado e a uma maior anulação do espaço pelo tempo.

Olhemos agora para a onipresença das redes virtuais na vida atual, alimentando o consumismo e radicalizando a transformação de informações, dados e notícias em elementos imediatamente remuneráveis. Faz muito sentido, certo?

Mas para a maioria de nós, o tempo que falta para perceber isso também tira o espaço para nos livrarmos disso.

29 de novembro de 2017

Alguns oásis na travessia de “O Capital”

Para suavizar a árida travessia da leitura de sua maior obra, Marx oferecia alguns oásis literários.

Ao discutir, por exemplo, a utilização capitalista das máquinas, ele cita palavras do degolador Bill Sykes, de Charles Dickens:   

Senhores jurados, não há dúvida de que a goela deste caixeiro-viajante foi cortada. Mas isso não é culpa minha, é culpa da faca. Teremos nós, por causa deste inconveniente temporário, de abolir o uso da faca? Vejam só! Onde é que estariam a agricultura e o comércio sem a faca? Não é ela tão salutar na cirurgia quanto conhecedora em anatomia? E além disso uma ajuda que se deseja à mesa do festim? Se abolem a faca — lançam-nos de volta nas profundezas da barbárie.

Há um trecho em que Marx destaca a capacidade do capitalismo em transformar trabalho vivo em trabalho morto. Em valor que se valoriza a si mesmo e, ainda assim, tem a capacidade de se mostrar como “um momento animado que começa a ‘trabalhar’ como se tivesse ‘amor no corpo’”. Esta última expressão pertence a um verso do “Fausto”, de Goethe.

Por fim, “Antígona”, de Sófocles:

Nada suscitou nos homens tantas ignomínias/ como o ouro. É capaz de arruinar cidades,/ De expulsar os homens de seus lares./ Seduz e deturpa o espírito nobre/ Dos justos, levando-os a ações abomináveis,/ Ensina aos mortais os caminhos da astúcia e da perfídia,/ E os induz a cada obra amaldiçoada pelos deuses.

Mas como disse Shakespeare, em outra frase presente na obra, “o curso do verdadeiro amor nunca é sereno”. E o deserto continua logo adiante, esperando pelos persistentes leitores.

22 de novembro de 2017

A luta de Marx contra a burguesia e seus furúnculos


Marx levou 15 anos para escrever o primeiro volume de “O Capital”. Principalmente, devido a seu perfeccionismo doentio e à complexidade do objeto de estudo.

Mas nos quatro ou cinco anos antes da publicação, surgiu um problema muito pior: furúnculos. E também carbúnculos, que são aglomerados de furúnculos.

O problema era tão grave que aparece com muita frequência em sua correspondência entre 1864 e 1868. Incluindo momentos em que sua vida correu risco.

Em carta a Karl Klings, de outubro de 1864, por exemplo, ele diz que ficou doente durante todo o ano anterior devido às terríveis feridas.

Se não fosse por isso, diz Marx, meu trabalho sobre economia política, "O Capital", já teria saído. Espero poder completá-lo em alguns meses, atingindo a burguesia com um golpe teórico do qual nunca poderá se recuperar.

Em fevereiro de 1865, Engels escreveu:

Estou um pouco preocupado por não tido notícias suas hoje, em vista dos furúnculos e carbúnculos que você mencionou nos lugares mais interessantes (ou melhor, mais interessados).

Escrevendo a Engels, um ano depois, Marx informa que ele mesmo tomou a iniciativa de lancetar uma das feridas, já que não poderia “permitir aos médicos que lidassem com minhas partes mais privadas ou suas vizinhanças”.

Finalmente, em junho de 1867, o primeiro volume estava pronto. E feliz com a aprovação de Engels, Marx escreveu:

Que você tenha ficado satisfeito é agora mais importante para mim do que qualquer coisa que o resto do mundo possa achar. De qualquer forma, espero que a burguesia se lembre dos meus carbúnculos até o dia de sua morte.

Que assim seja!

7 de novembro de 2017

Dicas (pouco animadoras) para ler “O Capital”

Há exatos 150 anos, em novembro de 1867, ano em que foi publicada a primeira edição de “O Capital”, Marx enviou uma carta a seu amigo Ludwig Kugelmann. Era a resposta às dificuldades que a esposa de Kugelmann, Gertrud, estava encontrando para entender a mais recente obra de Marx:

Diga à sua mulher que as partes mais imediatamente legíveis são “A jornada de trabalho”, “A cooperativa, a divisão do trabalho e a maquinaria” e, finalmente, “A acumulação primitiva”. Depois disso, será preciso explicar a ela a terminologia incompreensível. Sobre quaisquer outros pontos duvidosos, estou à disposição.

Ora, então por que Marx não começou seu livro por estes temas? Porque não seria dialético. O primeiro capítulo de “O Capital” é sobre a mercadoria, “célula econômica da sociedade burguesa”. Síntese do modo como funciona a lógica social sob o capitalismo.

O professor e filósofo José Paulo Netto costuma citar aquela correspondência com Kugelmann para explicar que para entender plenamente a maior obra de Marx é preciso superar a lógica quadrada que rege nossa cabeça há alguns séculos. É preciso pensar dialeticamente.

De fato, Marx só conseguiu desvendar o funcionamento do capital porque partiu do método dialético hegeliano para criar seu próprio modo de explicar a realidade material da sociedade burguesa.

É por isso que ninguém menos que Lênin afirmou em seus "Cadernos filosóficos":

É completamente impossível entender “O Capital” de Marx, e em especial seu primeiro capítulo, sem ter estudado e entendido a fundo toda a “Lógica de Hegel”. Portanto, faz meio século que nenhum marxista tem entendido Marx!

Ou seja, caras e caros camaradas... fodeu!


Leia também: Algumas instruções para a autossabotagem da esquerda

2 de outubro de 2017

O Capital pode sofrer de apendicite?

Em um famoso capítulo de “O Capital”, Marx fala sobre a transição entre antigos processos produtivos e aqueles sob a lógica do capital:

Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, tem-se um mecanismo morto, independente deles e ao qual são incorporados como apêndices vivos. 

Na mesma obra, Marx apresentou o conceito de fetichismo da mercadoria para explicar o caráter mistificador da economia capitalista. Vivemos sob uma forma de produção em que as relações humanas são cada vez mais intermediadas pelas mercadorias.


Enquanto elas circulam livremente pelo planeta, a enorme maioria de seus produtores vive isolada em suas fronteiras. Enquanto as mercadorias têm uma vida social, nós somos meros portadores de suas marcas, especificações, cores, modelos.

Esse fetichismo se revelava mais claramente no consumo. Agora, talvez, ele fique mais evidente, assustador e perigoso no nível da produção. Os locais de trabalho seriam dominados quase inteiramente por coisas robotizadas.

A Quarta Revolução Industrial pode ser a radicalização da redução dos trabalhadores aos “apêndices” a que Marx se referiu 100 anos atrás. Só que, agora, o Capital pretende extirpá-los.

Na verdade o que os capitalistas tomam por apêndices são órgãos vitais. Sem eles, sua exploração simplesmente não funciona ou funciona muito mal. O capitalismo é usuário dependente da exploração do trabalho humano.

Para tentar entender melhor essa questão, leia Robôs não ficam desempregados.

Leia também: Nós e os robôs, os robôs e nós. Os robôs e os robôs

22 de setembro de 2017

Uma nota de rodapé de “O Capital”


“O Capital”, talvez, seja a primeira obra teórica a utilizar notas de rodapé exaustivamente. Imaginando que seu estudo seria recebido com grande hostilidade e ceticismo, Marx apoiou suas muitas afirmações polêmicas em inúmeras fontes bibliográficas, factuais e estatísticas.

Apesar de tornarem a leitura ainda mais difícil, algumas delas servem como pausas divertidas em meio às acrobacias dialéticas do autor. É o caso de uma nota do capítulo III.

A nota refere-se a um trecho que ironiza a crença burguesa de que o valor das mercadorias é definido pelas etiquetas de preço que seus vendedores colam nelas. Cita o relato de um tal Capitão Parry sobre os estranhos hábitos comerciais de nativos da costa ocidental da baía de Baffin:

“Nesse caso”, (ao intercambiar produtos) “(...) eles o lambiam” (o que lhes foi oferecido) “duas vezes com a língua, com o que pareciam considerar o negócio concluído satisfatoriamente”. Se a língua no norte, portanto, serve de órgão de apropriação, não é de admirar que no sul a barriga funcione como órgão de propriedade acumulada e que o cafre calcule a riqueza de um homem segundo a sua pança. Os cafres são tipos muito espertos, pois enquanto o relatório oficial inglês sobre a saúde, de 1864, deplora a falta de substâncias formadoras de gorduras em grande parte da classe trabalhadora, um certo dr. Harvey (...) no mesmo ano fez a sua fortuna por meio de receitas que prometiam livrar a burguesia e a aristocracia de seu excesso de gordura (1).

(1) Marx, Karl. “O Capital” (1867), “Capítulo III - O Dinheiro ou a Circulação das Mercadorias”.

Leia também: Para o capital, o pecado. Para nós, o castigo