Doses maiores

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17 de março de 2025

Elon Musk, Asperger e síndrome de nazismo

Em maio de 2021, Elon Musk declarou ser portador da síndrome de Asperger, que faz parte do chamado Transtorno do Espectro do Autismo. Em janeiro de 2025, ele fez um gesto nazista em um evento organizado por Donald Trump. Seus defensores logo apareceram com várias desculpas esfarrapadas para tentar esconder o significado do ato. Entre elas, sua condição de autista.

O transtorno psicológico que Musk alega ter foi identificado cientificamente pela primeira vez por Hans Asperger, em 1944. Pediatra, Asperger foi um dos pioneiros no estudo sobre neurodiversidade durante o período da chamada Viena Vermelha, entre 1918 e 1934. Nessa época, o Partido Socialdemocrata governou a capital austríaca e implementou diversas políticas públicas progressistas em áreas como saúde, educação, habitação e transporte.

Após a Segunda Guerra Mundial, Asperger alegou ter se oposto aos nazistas, atuando na proteção de crianças consideradas anormais contra medidas de higiene racial. Ocorre que em 2018, foram descobertas fortes evidências de sua colaboração na execução de políticas de eugenia e eliminação de crianças com deficiência, entre outras barbaridades.

Nada disso invalida os avanços obtidos a partir das descobertas feitas pelo cientista vienense. Além disso, o trabalho dele fez parte de um esforço coletivo dos trabalhadores austríacos por melhores condições de vida e combate ao supremacismo ariano. Asperger não foi o primeiro nem o último a ter prestado bons serviços à sociedade antes de se render ao fascismo.

Ao tentar esconder o nazismo de Musk por trás de uma condição neurológica que afeta dezenas de milhões de pessoas, seus seguidores mostram-se tão indignos e desprezíveis como ele. Ou como Asperger.

Leia também: O poder paralelo de Elon Musk e outros magnatas

6 de fevereiro de 2025

Zuckerberg, Musk, Bezos têm razões

Ao se negar a controlar os algoritmos de ódio e discriminação de suas redes virtuais, o proprietário da Meta faz o que qualquer capitalista faz. Cuida de seus lucros. Ao morder a mão do estado que o alimentou, promovendo o desmonte das estruturas públicas que não o interessam, Musk faz o mesmo.

Não peçam aos donos ou acionistas majoritários das petroleiras que abram mão dos enormes lucros que conseguem explorando combustível fóssil para salvar grande parte da humanidade do colapso climático. Isso não faz sentido tanto quanto pedir algo semelhante a Zuckerberg e Musk, em nome de salvar a “democracia” ou respeitar o bem coletivo.

A presença dos dois, mais Bezos e executivos da Microsoft, Apple e Google na posse de Trump é mais do que esclarecedora. Todos eles têm razão. Ou melhor, todos eles têm as suas razões. As razões da acumulação do capital, da opressão e ataques aos setores minoritários ou minorizados, da exploração econômica, da destruição bélica e da espoliação territorial, cultural, mineral, energética e ambiental dos países periféricos.

Ao mesmo tempo, em relação aos interesses da enorme maioria da humanidade e de grande parte da vida no planeta, todos eles estão completamente errados. O gesto nazista do dono da X não deixa dúvidas sobre isso e o torna representante legítimo e pleno de seus colegas bilionários e do governo a que eles servem e do qual se servem.

Leia também: O imperialismo na fase digital do capitalismo

30 de outubro de 2023

Inteligência artificial e perfídia capitalista

Em 26/10/2023, Ronaldo Lemos publicou um artigo na Folha lembrando o “aniversário de seis meses” da carta do Instituto Futuro da Vida. Um documento que causou polêmica ao acusar a inteligência artificial (IA) de representar “riscos profundos para a sociedade e a humanidade" e defender a interrupção das pesquisas relacionadas a essa tecnologia e a criação de regulamentações sobre seu desenvolvimento e aplicação.

Segundo Lemos, nesse período, só houve avanços na regulamentação da IA em três campos: direitos autorais, proteção dos dados pessoais e relações trabalhistas. Os dois primeiros envolvem os direitos de propriedade. Normal que sejam alvo de preocupação da ordem dominante. Já os avanços de caráter trabalhista citados no texto restringem-se ao acordo que encerrou a greve dos roteiristas de Hollywood. Algo muito pontual, apesar de envolver a poderosa indústria do entretimento.

Mas o que chama a atenção no texto é o cinismo dos gigantes que controlam as redes virtuais. Entre os mais de 30 mil signatários da tal carta aniversariante, estavam Elon Musk e executivos da Google. O primeiro criou sua própria empresa de inteligência artificial, meses após o lançamento da carta. A Google também não demorou a lançar seu smartphone baseado na nova tecnologia.

Em suma, conclui o articulista, a carta acabou se tornando uma grande jogada de marketing capaz de acelerar, em vez de reduzir, a expansão das empresas de IA.

Ou seja, na ausência de um grande movimento anticapitalista a partir de baixo, os de cima encenam suas farsas e seguem agindo contra os interesses da grande maioria da humanidade. Isso, sim, é muito inteligente.  E pérfido.

Leia também: Inteligência artificial e planejamento socialista

30 de agosto de 2023

O poder paralelo de Elon Musk e outros magnatas

Em 21/08/2023, a edição digital da revista New Yorker publicou o artigo “O governo paralelo de Elon Musk”, em tradução livre. Refere-se à grande sombra que o bilionário projeta sobre a administração da mais poderosa nação do mundo.

Para começar, a SpaceX, fábrica de foguetes de Musk, é atualmente o único meio pelo qual a Nasa faz seus voos para o espaço. Já os planos do governo estadunidense de priorizar a indústria de carros elétricos demandam estações de recarga, muitas das quais pertencem a outra empresa do bilionário, a Tesla. Enquanto isso, os militares ucranianos contam com os terminais de internete da Starlink, também de Musk, para comunicações na guerra contra a Rússia. “Estamos vivendo das boas graças dele”, disse um funcionário do Pentágono. "E isso é péssimo."

Nos últimos 20 anos, diz a matéria, Musk buscou oportunidades de negócios em áreas cruciais onde, após décadas de privatizações, o Estado retrocedeu. O governo agora depende dele. Funcionários atuais e antigos da NASA, dos departamentos de Defesa, Transportes, Administração Federal de Aviação e Administração de Segurança e Saúde Ocupacional disseram que a influência de Musk havia se tornado inevitável em seu trabalho e agora o tratam como uma espécie de autoridade não-eleita. Um porta-voz do Pentágono procurado pela reportagem, respondeu que só poderia falar sobre a presença da Starlink na Ucrânia com a permissão de Musk.

A publicação considera essa situação um produto do “capitalismo extremo”. Não é. É só capitalismo mesmo. E não é apenas Musk, mas uma longa linhagem de magnatas: Carnegie, Rockfeller, Gould, Morgan, Gates, Bezos. Todos sob a sombra do governo de plantão.

Leia também: Fascismo atualizado por algoritmos

29 de junho de 2022

Davos Men, novos parasitas do velho capitalismo

O autor do livro “Davos Man” pode ter as intenções mais louváveis. Mas delas, o inferno capitalista está cheio.

São justas as denúncias que Peter S. Goodman faz dos ricaços que frequentam o Fórum de Davos. Mas ele atribui as maldades desses homens a eles próprios e não ao sistema que os criou.  

Segundo Goodman, o capitalismo é “a forma mais avançada de organização econômica”. Só lhe faltaria “um mecanismo inerente que distribua com justiça os ganhos”. Uma responsabilidade de governos “operando sob um mandato democrático”.

Cita como exemplo a Grã-Bretanha, que teria reagido à depressão dos anos 1930, “construindo um modelo de bem-estar social que compartilhava os ganhos de seu poderio industrial”.

Mas foi a classe trabalhadora em sua luta contra a barbárie fascista que levou o capital a aceitar dividir uma fração de seus lucros. Mesmo assim, apenas durante um pequeno intervalo na história do capitalismo e em algumas poucas regiões do planeta.

Não há “mecanismo inerente de distribuição econômica justa” no capitalismo. A prova é exatamente a existência dos homens de Davos. Não há nenhuma grande contradição entre eles e o restante da burguesia mundial.

Bezos, Musk, Gates, Zuckerberg, Google, Uber apenas encontraram novas e mais sofisticadas formas de parasitar o trabalho de bilhões de pessoas. Foi o aprofundamento do capitalismo que possibilitou isso, não sua negação.

Goodman diz que “recuperar o poder do Homem de Davos não requer insurreição ou revolução”. Apenas “o uso ponderado de uma ferramenta que sempre esteve presente: a democracia”.

É o contrário. Contra a exploração mais radical, só a mais radical das resistências.

Leia também: Davonianos: os bichos rasteiros que voam pelo espaço

28 de junho de 2022

Davonianos: os bichos rasteiros que voam pelo espaço

Em julho de 2021, Jeff Bezos subiu a bordo de um foguete em uma pequena cidade no oeste do Texas e voou para o espaço.

Após uma viagem de onze minutos, o dono da Amazon pousou e agradeceu a seus funcionários e clientes, “porque foram eles que pagaram” pela empreitada. Emocionado, afirmou ainda que “em duzentos anos, o sistema solar poderá suportar facilmente um trilhão de humanos”.

Bezos gastou US$ 5,5 bilhões em sua empresa espacial. Esse montante poderia salvar 14 milhões de pessoas da fome, não nos próximos dois séculos, mas agora. Em plena pandemia, também poderia fornecer dois bilhões de doses de vacina contra o COVID-19. E apenas uma pequena fração disso poderia financiar as licenças médicas que a Amazon cobra de seus funcionários como faltas ao trabalho que os adoece.

O relato acima está no livro “Davos Man”, de Peter S. Gooldman. É mais um exemplo do tipo de comportamento dessa criatura que o autor batizou de “Homem de Davos”. Aventuras espaciais são uma obsessão da espécie. É o caso de Elon Musk, com sua SpaceX e planos para colonizar Marte.

O fato é que as bilionárias fantasias intergalácticas desses senhores são financiadas por coisas muito terrenas. Por exemplo, pela exploração de seus trabalhadores e pela sonegação sistemática de impostos. No caso de Musk, envolve também o apoio ao golpe de estado na Bolívia, ocorrido em 2019, de olho nas maiores reservas de lítio do mundo.

A despeito de suas ambições aeroespaciais, esses “davonianos” são, na verdade, os bichos mais rasteiros e repugnantes que o capitalismo poderia parir.

Concluiremos na próxima pílula.

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Os heróis de Davos lucram com doença e morte
Ora, (direis) explorar as estrelas!