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9 de janeiro de 2024

Distopia capitalista: do gemido ao estrondo

Distopia vem do grego e pode ser traduzida como um lugar ruim, mas imaginário. Há décadas, tornou-se tema favorito de filmes, peças, séries, livros e quadrinhos. Geralmente, ambientados em um cenário pré ou pós-apocalíptico.

Elementos clássicos dessas tramas ficcionais são enorme repressão estatal, robôs e dispositivos eletrônicos descontrolados, vigilância e controle cibernéticos da vida social, multidões de miseráveis, hordas de criminosos, a sociedade dominada pela lei do mais forte, pandemias, hecatombes naturais, crises climáticas, extinções em massa, insanidade mental generalizada, minúsculas elites ricas, poderosas e fortemente protegidas.

A questão é que esse lugar ruim já deixou de ser imaginário há muito tempo. É só olhar em volta: caos violento nas cidades, desemprego e precarização, ilhas de prosperidade em oceanos de miséria, truculência policial contra pobres, facções e milícias criminosas presentes tanto no contexto urbano, como rural. Tudo isso promovido por uma elite cada vez menor e mais poderosa.

São famosos os versos de T.S. Eliot, que afirmam: “É assim que o mundo acaba.\ Sem estrondo, num gemido.” Ou seja, diferente do que vemos nos filmes ou lemos nos livros, não há uma grande e definitiva hecatombe. Só o ruído de fundo do capitalismo funcionando, enquanto destrói grande parte da humanidade.

Mas o poeta estadunidense era branco e viveu no século 20. Bem antes disso, a distopia já era o cotidiano de grande parte da população não europeia ou anglo-saxã. Para muitos dos povos não brancos, o apocalipse das crenças religiosas da colonização branca chegou para ficar. E é com eles que temos que aprender a resistir e lutar. Respondendo com estrondo, não com gemidos.

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21 de agosto de 2023

Antônio Bispo dos Santos e a cosmofobia eurocristã

Liderança nacional dos quilombolas, Antônio Bispo dos Santos se considera um tradutor. Um tradutor da esfera da escrita colonialista para o mundo da oralidade dos povos tradicionais.

Para ele, não se trata de “decolonizar” a sociedade, mas de “contracolonizar”:

Nós estabelecemos uma fronteira entre o nosso mundo e o mundo colonizador. Até aqui os colonizadores chegaram, daqui não passarão. Podemos até negociar, mas não vamos ceder mais território do que já nos tiraram. E seria bem melhor para vocês, do mundo colonialista, aprenderem com a gente. Aprenderem a se integrar com a natureza, ao invés de querer conquistá-la e esgotar suas forças e energia. Porque isso está se voltando contra vocês.

Bispo foi buscar na Bíblia o entendimento do que é o mundo “eurocristão”. Quando Deus expulsa a humanidade do Éden, diz ele, cometeu o primeiro ato terrorista. Trata-se de uma “cosmofobia” baseada no pânico e na violência. Difícil discordar dele diante do recente assassinato de Mãe Bernadete.

No Paraíso ficaram as outras criaturas. Para Bispo, esse rompimento de nosso relacionamento com os outros animais é um pilar do colonialismo e explica a perseguição aos povos tradicionais, que se veem como parte da natureza.

Ele faz afirmações provocativas. Entende que Estado, partidos e sindicatos carregam o colonialismo em suas estruturas. Por isso, os governos reproduzem essa lógica, sejam de direita, sejam de esquerda.

Admite que Bolsonaro e Lula são muito diferentes. Mas representariam graus distintos da mesma dominação colonialista.

Essas e outras declarações estão em entrevista concedida por ele ao podcast da Ilustríssima. Vale a pena submeter nossas certezas a essa outra tradução do mundo.

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