Doses maiores

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18 de maio de 2024

Jornalões também podem fazer mal à saúde

“Philip Morris e Folha de S. Paulo se unem para checagem de fatos”, diz a revista Meio & Mensagem, em 26/04/2024

É isso mesmo. A Folha e uma empresa tabagista se uniram para criar a agência “Checamos”, que pretende combater fake news compartilhadas nas redes virtuais.

Mas que bela parceria hein, Folha? O problema não é apenas se aliar a uma poderosa produtora de uma das substâncias que mais causam dependência química, doenças e mortes.

Como alertam vários estudos, em especial um da Fiocruz, durante décadas, os grandes fabricantes de cigarros fizeram uso das seguintes táticas para influenciar as pesquisas científicas e desvincular seus produtos das patologias que causam:

–  Criar dúvidas sobre evidências, negando publicamente a relação entre fumo e câncer e o alto poder da nicotina na geração de dependência química;

–  Desviar a questão da ligação causal entre fumo e câncer para uma série de outros temas, como doença hereditária ou cigarros saudáveis.

Além disso, recentemente a Organização Mundial da Saúde, lançou uma campanha para “proteger os jovens da indústria do tabaco e dos seus produtos mortais”. O nome da campanha? "Parem as Mentiras".

Eis um exemplo do que está na raiz da onda de fake news que invade a sociedade no mundo todo. A extrema direita apenas se aproveita com mais eficiência e descaramento daquilo que o grande capital sempre fez. Manipular e distorcer a verdade para aumentar seus lucros.

Talvez fosse bom estender aquele aviso impresso nos maços de cigarro aos produtos de quem se une à indústria mortal do tabagismo. Eles também podem fazer muito mal à saúde da comunicação pública.

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10 de janeiro de 2024

A cabeça ferve diante da insensatez dominante

Está disponível na Netflix “Cabeça Quente”. Produzida na Turquia, a minissérie retrata um mundo em que uma doença altamente contagiosa transforma-se em uma pandemia que leva a sociedade ao caos.

Diante disso, é criado um órgão de controle sanitário que estabelece zonas de quarentena, além de impor uma lei marcial para diminuir os contágios. Mas as preocupações com a saúde pública logo se tornam pretexto para instalar uma ditadura. Desse modo, neutralizar ou erradicar a doença deixa de interessar aos ocupantes do poder.

O personagem Murat Siyavus, interpretado por Osman Sonant, é a única pessoa imune ao distúrbio. Portanto, interessa ao regime ditatorial impedir que o estudo de seu organismo possibilite encontrar a cura para a doença. Enquanto isso, uma organização de resistência à ditadura quer convencer Siyavus a colaborar na fabricação de uma vacina.

Mas o mais interessante na trama é a forma como a doença se manifesta. As pessoas infectadas passam a repetir coisas sem sentido, ficando incapacitadas de se comunicar.  O contágio ocorre pela fala. Desse modo, o uso de tampões de ouvidos torna-se medida fundamental para evitar mais contágios.

Siyavus é um linguista e não deixa de ser irônico que um estudioso da comunicação humana seja exposto ao besteirol dominante, sem sofrer maiores consequências do que um forte aumento na temperatura de sua caixa craniana. É dele a cabeça quente que dá título à série.

Trata-se de uma distopia da indústria de entretenimento. Mas parece a vida real, em que uma praga de opiniões e informações delirantes nos faz ferver a cabeça há algum tempo. E não há tampão que dê jeito!

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24 de novembro de 2023

A sociedade do espetáculo é capitalismo atualizado

O livro “Sociedade do Espetáculo”, de Guy Debord, foi lançado em 1967. Mas, desde então, vem sendo cada vez mais atualizado pelo capitalismo. Vejamos alguns de seus trechos:

As imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não mais pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo-mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo.

(...)

No mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.

Não são afirmações perfeitas para o caos cognitivo que estamos vivendo, alimentado por mentiras e distorções?

Há quem ache que Debord estava se referindo a uma espécie de pós-capitalismo, em que tudo é relativo e desmaterializado. Não é verdade. Vários momentos do texto deixam isso muito claro. Por exemplo, ao dizer que o espetáculo:

...não é um complemento ao mundo real, um adereço decorativo. É o coração da irrealidade da sociedade real. Sob todas as suas formas particulares de informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto do entretenimento, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário - o consumo.

A sociedade do espetáculo é o reino da mediação pela imagem como “corolário” da produção capitalista, não como ruptura com ela ou sua negação. A falsidade capitalista continua produzindo uma realidade de enorme sofrimento.

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5 de setembro de 2023

Sobre bobagens e ciência zumbi

Pílula rápida.

A luta contra o fascismo não foi nem é uma luta contra forças obscurantistas, um termo mais apropriado aos debates teológicos do que às análises políticas. Analiticamente “obscurantismo” não diz nada, até porque, se me permitem, sempre se é o “obscurantista” de alguém. O que não poderia ser diferente, já que o conceito de racionalidade é um conceito histórico e em disputa, a ciência não é um espelho da natureza, e não há nada de “relativista” nessa posição. Não sendo uma luta contra o “obscurantismo”, nossa guerra contra o fascismo é uma luta política (...) contra uma junção devastadora de ultraliberalismo econômico, indiferença social, violência estatal e organização da sociedade a partir da generalização da lógica de milícias.

O trecho acima está em artigo publicado por Vladimir Safatle, em 29/08/2023. É mais um na polêmica envolvendo o livro “Que bobagem!”, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi.

“Vocês já pararam para pensar quanto do que se produz na Ciência é tão ruim que deveria ir direto para a lata de lixo?”, pergunta Bruno Gualano em artigo publicado em 04/09/2023. Segundo ele, uma recente edição da prestigiada revista “Nature” divulgou levantamento revelando que um em cada quatro ensaios clínicos contém indícios de falha ou fraude. Outro levantamento foi feito pela publicação científica “Anaesthesia”, abarcando mais de 500 estudos. Desse total, 44% apresentavam um ou mais equívocos. Mais de 1/4 continha erros tão esdrúxulos que o editor da revista os apelidou de “estudos de zumbis”.

Este último texto não faz referência ao livro de Pasternak, mas também vale a leitura. Ambos ajudam a combater as verdadeiras bobagens.

Leia também: Como combater as fake news: a ciência segundo o Nobel

3 de junho de 2023

As fake news e a realidade grávida

Combater as fake news apelando às verdades cínicas do capitalismo é trocar a farsa pelo logro. Mas se os que se aproveitam dessa falência cognitiva são os conservadores e suas tropas fascistas, é o próprio sistema que roda em falso desde que surgiu.

A burguesia nasceu bradando “liberdade, igualdade e fraternidade”. Nada mais que cantos traiçoeiros para atrair o apoio da plebe contra seus desafetos aristocratas. Uma vez no poder, os senhores endinheirados fraudaram suas promessas de emancipação generalizada.

Ao longo do tempo, essa comédia grosseira vem conseguindo envolver as forças da resistência popular. Principalmente, ao oferecer uma democracia meramente cenográfica. Diante disso, só o foco na luta de classes permite enxergar o real em meio às seduções do ilusionismo institucional.

Por outro lado, os explorados e oprimidos tampouco foram ungidos pela clarividência divina. Mas, mesmo involuntariamente, são arrastados para a luta imposta por um sistema que fabrica injustiça e frustrações em escala industrial. Nesses momentos, descobrem como combater, combatendo.

Se Marx dizia que o concreto é produto de múltiplos fatores, também chamou o proletariado mundial a se unir e lutar. E se as determinações do capital subjugam toda a humanidade, somente suas maiores vítimas podem fazer valer os elementos concretos da realidade capazes de impedir a completa instalação da barbárie.

O real não está em disputa nas redes, ainda que estas façam parte daquele. Não é embate de narrativas. É luta de classes e enfrentamento ideológico. Segundo, Rosa Luxemburgo o presente pode ficar grávido de futuro pela ação militante consciente e combativa. E é somente essa ação que pode deixar a realidade prenhe de verdade.

Leia também: Fake news e a doença terminal do capitalismo

2 de junho de 2023

Fake news e a doença terminal do capitalismo

Comentando a Revolução Francesa, Alexis de Tocqueville afirmou: "Os franceses achavam suas condições de vida mais intoleráveis à medida que elas se tornavam melhores".

Tal contradição teria sido provocada pela nascente ideologia burguesa, que defendia uma igualdade social radical, com o fim dos privilégios de nascimento e de casta. Incapaz de eliminar essas regalias, o Antigo Regime foi derrubado pela irrupção revolucionária de 1789.

Mas não demorou muito para que a sociedade capitalista também traísse suas próprias promessas. É por isso que a crítica marxiana do capital é formulada opondo aquilo que a ideologia burguesa afirma ao que realmente acontece no mundo real.

A convicção revolucionária de Marx não veio de sociedades comunistas imaginárias. Veio da certeza de que para alcançar aquilo que a burguesia prometia seria preciso superar sua dominação, a partir da revolta dos explorados e oprimidos contra as enormes injustiças que pesam sobre eles.

No entanto, a frustração capitalista não provoca apenas raivas revolucionárias, mas também rancores reacionários. E são estes últimos que alimentam o fascismo desde meados do século 20, quando ficou evidente a natureza profundamente injusta e perversa do capitalismo.

O fascismo surgiu como válvula de escape para o sistema, criando inimigos imaginários, falseando a realidade e acusando algumas instituições e aparatos, como a grande imprensa, de participarem de conspirações contra a “civilização cristã e ocidental”.

As fake news são um dos desdobramentos mais recentes desse processo. São sintomas da doença terminal em que se transformou o capitalismo, revelando sua total incapacidade de conferir sentido à existência humana.

Encerraremos essa série sobre fake news na próxima pílula.

Leia também: Fake news: afinal, o que é a verdade?

31 de maio de 2023

Fake news: afinal, o que é a verdade?

A epidemia de fake news é um sintoma. Mostra que a noção do que é real ou não está em profunda crise. Aponta para a questão de saber o que, afinal, é a verdade?

Uma resposta possível é que verdadeiro é aquilo que nos aparece como realidade concreta. E, segundo Marx, o “concreto é a síntese de múltiplas determinações".

O concreto de que estamos tratando aqui diz respeito à realidade social. A realidade não social também é resultado de múltiplas determinações: é o caso das estrelas, dos fenômenos geológicos e climáticos etc. Mas somente a realidade dos relacionamentos entre pessoas está ao alcance da intervenção humana, mesmo que, em regra, esteja longe de ser plenamente consciente e, muitas vezes, produza resultados muito diferentes dos projetados.

Voltando a Marx, os “homens fazem a história, mas não sabem que a fazem”.

A realidade social é produto de determinações que surgem a partir das relações estabelecidas entre as forças vivas da sociedade. Forças conservadoras, revolucionárias, reacionárias, disruptivas. Para continuar no registro marxista, a realidade de uma sociedade de classes é produto contraditório da luta das classes que a compõem.

Tal como as outras esferas da vida humana, a ciência e o jornalismo também estão imersos nessa luta, mas pretendem captar e interpretar a realidade tal como ela é, acima das divergências.

Por muito tempo, essa pretensão foi amplamente aceita. Já não é mais. Resta saber o que explica que esse fenômeno esteja acontecendo no atual momento histórico e porque os piores ataques partem de forças conservadoras e fascistas.

É essa questão que a próxima pílula tentará abordar.

Leia também: A economia política das fake news

30 de maio de 2023

A economia política das fake news

“Infocalipse” é um conceito criado por Aviv Ovadya, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Em 2018, ele descrevia esse fenômeno assim:

...à medida que a qualidade das informações no geral diminui, a inteligência de todos os membros da sociedade e de todas as diferentes organizações que a tornam funcional também diminui. E, se você vai muito fundo nisso, a sociedade basicamente desmorona.

Na época, Ovadya afirmou que só chegaríamos a esse ponto se coisas como a falsificação de áudios e vídeos se tornassem frequentes. Cinco anos depois, chegamos lá.

Estamos em plena era das fake news. Mas isso só ocorreu porque sua disseminação em larga escala foi viabilizada pelas redes virtuais. Estas, por sua vez, surgiram como resposta à necessidade de encurtar o tempo de circulação das mercadorias para realizar os lucros nelas embutidos. Google, Facebook, Youtube, Whatsapp, TikTok não são monopólios de interação social, mas de comercialização de publicidade. A principal função dos celulares não é agilizar a comunicação entre as pessoas, mas as trocas mercantis.

Desse modo, as informações sofreram a mesma metamorfose que já havia atingido outras bens sociais. Seu valor de troca vem eliminando seu valor de uso. A informação passou a ser valiosa apenas quando circula rapidamente. Se ela tem ou não alguma relação com fatos objetivos, pouco importa. Importam os cliques, retuítes, likes e zapeadas que movimentam a roda do consumo.

Assim, tudo indica que as fake news vieram para ficar. Pelo menos, enquanto a sociedade permanecer sob a lógica do capital.

Mas e os conceitos de realidade e verdade, como ficam? Bom, ficam para a próxima pílula.  

Leia também: As fake news e o jornalismo conservador

29 de maio de 2023

As fake news e o jornalismo conservador

Como já vimos, apelar às verdades científicas para combater as fake news é insuficiente e contraditório. O mesmo vale para o jornalismo.

Por décadas, a esquerda denunciou e combateu os monopólios de comunicação, controlados pelo grande capital e a serviço das classes dominantes. É o que mostram, por exemplo, o apoio à ditadura militar, o boicote às Diretas-Já, o favorecimento a Collor e a campanha pelo impeachment de Dilma. São episódios que evidenciam a atuação desse verdadeiro partido informal na defesa da ordem conservadora.

Ocorre que, à medida que a esquerda ganhava espaço nos governos e parlamentos, deixava de lado o combate aos impérios midiáticos, ao mesmo tempo em que se afastava do cotidiano das camadas populares. Confundimos luta contra-hegemônica com disputa eleitoral.

Livres para atuar, lideranças conservadoras se aproveitaram dessas contradições para convencer vastos setores populares de que os veículos da grande mídia são utilizados pelos comunistas para atacar os “sagrados” valores patriarcais, cristãos, nacionalistas e hierárquicos.

De modo oportunista, a extrema-direita declarou guerra contra algumas alas do partido midiático, como os grupos Globo e Folha. Diante disso, a defesa que muitos de nós, corretamente, assumem da atividade dos jornalistas é distorcida de modo a parecer cumplicidade com seus patrões. Para piorar, setores importantes da esquerda passaram a confiar à grande imprensa a tarefa de resistir às mentiras e distorções da extrema-direita.

Esses elementos mostram que a atividade jornalística, por si só, é incapaz de resistir às ofensivas mentirosas do fascismo. Afinal, como disseram Marx e Engels, nas sociedades de classe, as ideias dominantes tendem a ser as ideias das classes dominantes.

Leia também: Ciência e fake news: eugenia e negacionismo

26 de maio de 2023

Ciência e fake news: eugenia e negacionismo

A pílula sobre a relação entre a ciência e as fake news abordou algumas contradições e equívocos de uma referência importante como o Prêmio Nobel. Mas não é só isso.

É importante destacar a legitimação científica da eugenia. Por décadas, cientistas respeitáveis defenderam que a perfeição de nossa espécie seria garantida pela eliminação física ou seletiva de seres humanos sem certas qualidades e atributos que, não por acaso, combinavam perfeitamente com as que possuíam cientistas europeus e anglo-saxões.

Médicos fizeram propaganda dos benefícios do cigarro até os anos 60. Cientistas financiados pela indústria petroleira negaram o aquecimento global. Mulheres e não brancos só recentemente foram incluídos nos grupos a serem contemplados por análises clínicas.

Outro elemento importante é a própria especificidade da atividade científica, com suas certezas provisórias e sob constante debate e escrutínio. Algo perfeitamente legítimo, não fosse o isolamento das universidades, abertas apenas aos filhos da classe dominante e com raros egressos das camadas populares. O mesmo vale para as ciências humanas, mais acessíveis aos de baixo, mas ainda muito seletivas e sujeitas a fortes pressões de mecanismos de cooptação social.

É importante lembrar também as centenas de acadêmicos que escrevem diariamente nos grandes jornais para defender a economia neoliberal como ciência exata, inimiga de quaisquer ponderações sobre os terríveis efeitos sociais das políticas nela inspiradas.

Finalmente, junte-se a tudo isso a redução das políticas educacionais a técnicas de adestramento da população pobre para desempenho de tarefas braçais, alienadoras e mal pagas.

Eis aí, alguns dos principais ingredientes para a ampla aceitação de negacionismos e notícias falsas a serviço de projetos conservadores e fascistas.

Leia também: Como combater as fake news: a ciência segundo o Nobel

24 de maio de 2023

Como combater as fake news: a ciência segundo o Nobel

Dizem que uma forma eficiente de combater notícias falsas é apelar para as certezas científicas. Será? Uma das referências mundiais nesse quesito é o Prêmio Nobel.

O alemão Fritz Haber recebeu o Nobel de Química em 1918. O problema é que o laureado desempenhou papel importante no primeiro ataque de gás em larga escala na Primeira Guerra Mundial. Foi na Bélgica, em 1915, resultando na morte de cinco mil soldados.

Em 1926, o dinamarquês Johannes Fibiger recebeu o Prêmio de Medicina após afirmar que uma lombriga causava câncer em ratos. Mais tarde, ficou claro que não havia qualquer relação entre os vermes e a doença dos roedores.

Outro prêmio foi para o químico suíço Paul Müller. Em 1948, ele defendeu o uso do pesticida DDT no cultivo de alimentos. A partir dos anos 1970, o produto seria proibido em grande parte do mundo por envenenar o meio ambiente.

O médico português António Egas Moniz foi premiado em 1949 por defender a lobotomia como tratamento para transtornos mentais. Trata-se de mutilar ou retirar os lobos frontais do cérebro. Técnica que causa graves lesões cerebrais.

Mahatma Gandhi foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz cinco vezes, sem sucesso. Já, o presidente Barack Obama conquistou o seu em 2009. Ocorre que sua administração conseguiu travar mais guerras do que a de seu antecessor, o nada pacífico George Bush.

Por fim, é sempre bom lembrar que o cobiçado prêmio foi instituído por Alfred Nobel, um homem que enriqueceu com o patenteamento de mais de 300 tipos de explosivos. Entre eles, a dinamite.

Voltaremos a estas questões.

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12 de janeiro de 2022

Não olhe para cima: capitalismo suicida

Para encerrar os comentários sobre o filme “Não olhe para cima”, seria bom lembrar o que disse Fredric Jameson em seu livro “Arqueologias do futuro”, de 2009.  Segundo o filósofo  estadunidense, as pessoas conseguem imaginar o fim do mundo, mas jamais o fim do capitalismo. O sucesso dos filmes-catástrofe seria uma confirmação disso.  

A diferença de “Não olhe para cima” para os outros filmes do gênero é que nele a grande maioria se recusa a acreditar na iminência do desastre, apesar de todas as evidências científicas. É também a ideia de que tudo o que diz respeito ao que é real está sob intensa disputa, menos a realidade da tragédia capitalista.

Outro autor a destacar a incapacidade generalizada de imaginar o fim do capitalismo foi Mark Fisher em seu livro “Realismo Capitalista: não há alternativa?”.  O realismo capitalista, diz o filósofo britânico, seria uma espécie de barreira que impede pensar em alternativas ao atual modo de vida.

Ou seja, como demonstra o personagem do filme, Pete Isherwell, não há motivos para pânico. Um planeta prestes a ser destruído pode ser abandonado a qualquer momento a bordo de uma nave espacial. O fato de que somente uma pequena minoria se salvaria é só uma extrapolação das condições imensamente mais vantajosas de que as classes dominantes dispõem para escapar das catástrofes que já ocorrem todos os dias pelo mundo e que, mesmo sendo menos espetaculosas, seguem fazendo vítimas aos milhões entre os mais pobres.

Tudo se resume a saber se permitiremos que o capitalismo morra de morte morrida ou de morte matada. No primeiro caso, trata-se de suicídio.

Leia também: Não olhe para cima: infodemia

11 de janeiro de 2022

Não olhe para cima: infodemia

Em 2003, o jornalista estadunidense David J. Rothkopf criou o termo infodemia, em artigo sobre a epidemia da Síndrome Respiratória Aguda Grave. Dezessete anos depois, a Organização Mundial da Saúde adotou o conceito para a pandemia do Covid.

Segundo a organização, a infodemia caracteriza-se por um “excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.

Desde então, Covid e infodemia passam por momentos de alívio e agravamento, mas não cedem. As cepas do coronavírus se multiplicam tanto quanto as falsidades em relação a elas.

É um pouco disso que trata o filme “Não olhe para cima”, de Adam Mckay. Obter informações apenas não basta. É preciso literalmente fazê-las valer. Ou seja, agregar-lhes valor necessário para que circulem.

Mas o modo como isso vem sendo feito nos últimos anos é pela quantidade de cliques obtidos nas redes virtuais. Quanto mais cliques, mais a informação circula e mais se torna passível de monetização.

A lógica não é muito diferente da velha mídia empresarial. Mas nesta, a informação ainda mantinha um valor de uso residual necessário para a manutenção dos monopólios do setor.

Com os novíssimos gigantes midiáticos surgidos no Vale do Silício e arredores, o valor de troca da informação passou a engolir seu valor de uso ainda mais rapidamente. Paradoxalmente, o filme de Mckay faz parte dessa onda ao atrair para a plataforma que o divulga a audiência necessária para manter essa roda girando. Em falso, mas girando.

Na próxima pílula, porque é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Leia também: Não olhe para cima: infocalipse

10 de janeiro de 2022

Não olhe para cima: infocalipse

Dois astrônomos descobrem que em poucos meses um cometa destruirá a Terra. Mas seus alertas são ignorados, menosprezados ou ridicularizados por governantes e mídia. No final, o mundo acaba para todos, menos para uma pequena minoria poderosa e rica que foge do planeta num foguete.

Este é o resumo da trama de “Não olhe para cima”, grande lançamento da Netflix na virada de 2020/2021. O enorme sucesso da atração certamente deve-se às semelhanças com a vida real dos últimos tempos, em que desinformação, mentiras deslavadas e guerra de versões chegaram a um ponto inédito na sociedade de massas.

O apocalipse retratado pelo filme teve seu advento facilitado pelo que Aviv Ovadya, membro do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, chamou de “infocalipse”. Um fenômeno que ocorreria:

...à medida que a qualidade das informações num geral diminui, a inteligência de todos os membros da sociedade e de todas as diferentes organizações que a tornam funcional, no geral, diminui, e, se você vai muito fundo nisso, sua sociedade basicamente desmorona.

Certamente, há uns 10 anos, o filme de Adam McKay seria considerado bizarro demais. Hoje, somente seu tom fortemente satírico impede que a produção ganhe ares de documentário.

Alguns críticos condenam o filme por passar longe das causas profundas que levaram ao “desmoronamento social” de que fala Ovadya. Algo que McKay até certo ponto fez em seu filme “A Grande Aposta”, sobre a crise dos subprimes. Mas, talvez, a própria produção seja parte da “infodemia” que acomete o mundo atual. Fenômeno que abordaremos na próxima pílula.

Leia também: A verdadeira aposta é contra o capital

13 de dezembro de 2021

Ilusões Perdidas ou a imprensa como armazém de palavras

“Ilusões Perdidas”, de Xavier Giannoli, é um belo filme. Baseado na obra-prima homônima de Honoré de Balzac, a abordagem do diretor privilegiou o comércio de informações a que parte da imprensa francesa das primeiras décadas do século 19 se dedicou. Mas, certamente, o objetivo é fazer referência aos tempos atuais, empesteados pelas chamadas “fake news".

Alguns trechos do romance original mostram essa situação, quando um dos personagens afirma: ”a polêmica, meu caro, é o pedestal das celebridades”. Ou quando alguém diz que todo jornal é “um armazém onde se vendem ao público palavras da cor que ele quiser”. Um jornal, reforça ele:

...não é mais feito para esclarecer, mas para adular as opiniões. Assim, todos os jornais serão, mais cedo ou mais tarde, covardes, hipócritas, infames, mentirosos, assassinos; matarão as ideias, os sistemas, os homens, e florescerão exatamente por isso. Terão o benefício de todos os seres da razão: o mal será feito sem que ninguém seja culpado por ele.

A trama de Balzac se passa durante a restauração da nobreza na França. Mas o verdadeiro poder já era o das finanças. O valor de troca iniciava seu longo império sobre o valor de uso, inclusive nos meios de comunicação.

Agora, como antes, não interessa saber o quanto de verdade há numa informação. Apenas o quão rápida e amplamente ela circula. Ontem, eram os jornais vendidos nas esquinas. Hoje, são cliques e likes.

Ilusão, mesmo, é a crença de que as manipulações cometidas por séculos pela imprensa empresarial não acabassem por jogar a tal esfera pública de volta ao pântano da desinformação em larga escala.

Leia também: A economia política da “pós verdade” (3)