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2 de fevereiro de 2015

Um oásis libertário e feminista na Síria

Na cidade de Kobane, região da Rojava, no norte da Síria, há um oásis de luta libertária. Ele surgiu quando seus habitantes expulsaram os representantes da ditadura Assad da cidade, em 2011. A partir daí, foram criadas assembleias populares e conselhos compostos paritariamente por curdos, árabes, assírios e armênios cristãos. Todos com representação feminina garantida. Trata-se de uma espécie de comuna anarquista, que tenta armar todos os seus membros para não precisar de polícia, exército e muito menos de um Estado.

Além disso, em pleno mundo islâmico, foi formado o exército feminista “União de Mulheres Livres – Estrela”. Suas integrantes foram responsáveis por grande parte das operações que expulsaram as temidas forças do Estado Islâmico de Kobane, em janeiro passado. Para os “jihadistas”, a derrota foi desastrosa porque desmentiu sua fama de invencibilidade. Mas foi ainda mais doloroso perder para mulheres, a quem desprezam e querem ver oprimidas e não utilizando armas com grande habilidade.

Infelizmente, essa corajosa iniciativa revolucionária deve atrair inimigos de todos os lados. Além dos Estado Islâmico e as potências da região, como a Turquia, também os membros da OTAN. O objetivo da guerra na Síria é substituir uma ditadura por outra. Não permitir que surjam e prosperem comunas libertárias. A experiência curda lembra a Comuna de Paris, o início da revolução dos sovietes e a resistência espanhola contra o fascismo.

Talvez, possa se mostrar tão fundamental como essas outras experiências históricas. Mesmo derrotadas, elas deixaram conquistas que incomodam os poderosos até hoje. Que o oásis curdo faça florescer muitos jardins nos desertos de injustiças em que vivem os povos do mundo.

Leia mais em:
DavidGraeber narra Revolução de Kobane

Leia também:
O sotaque inglês do monstro islâmico

23 de junho de 2014

Não tem Fla-Flu no Oriente Médio

O presidente do Irã não veio para a estreia de seu país na Copa. Não é que tenha adivinhado que o jogo não passaria de um zero a zero xoxo. As coisas é que ficaram ainda mais confusas no Oriente Médio.

Para ter uma ideia, os governos iraniano e estadunidense admitem algum nível de colaboração para ajudar o governo do Iraque. O país foi invadido por tropas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Isis). Também conhecidos como “jihadistas”.

O Isis pretende fundar um ditadura sunita na região e ameaça passar por cima de quem se opuser. Entre estes, os xiitas, que governam tanto o Irã como o Iraque. Enquanto isso, os curdos aproveitaram a confusão para tomar o controle da província iraquiana de Kirkuk.

Os jihadistas surgiram em reação à invasão do Iraque, mas se fortaleceram na guerra civil síria. Provavelmente, receberam ajuda da Arábia Saudita. Mas também foram financiados pelos Estados Unidos, que quer o fim da ditadura síria. Agora, atravessaram a fronteira para derrubar o governo iraquiano.

Ou seja, se há um grande culpado nisso tudo, são os Estados Unidos. Eles apoiaram Bin Laden contra o imperialismo soviético no Afeganistão e ajudaram a criar a Al-Qaeda. Agora, fortaleceram o Isis e colocaram fogo no Oriente Médio novamente.

Mas nada autoriza a enxergar esses conflitos como uma espécie de Fla-Flu. Não é possível apoiar as ditaduras locais ou forças fundamentalistas porque não são aliadas dos imperialistas ocidentais. Muito menos, ficar ao lado do imperialismo chinês ou russo.

Qualquer possível resposta tem que surgir de baixo pra cima. Da organização revolucionária dos povos envolvidos.

15 de janeiro de 2014

As eleições egípcias e a casa do desespero

Os egípcios foram às urnas em 14/01. Votaram em um plebiscito sobre uma nova Constituição. Na verdade, dizem os especialistas, trata-se de um referendo em relação ao atual governo chefiado pelo general Abdel Fatah al-Sisi. O que representaria a muito provável vitória do general?

Em primeiro lugar, uma vitória de golpistas a serviço de interesses poderosos. Mas outras respostas deveriam respeitar um princípio importante. Sisi não representa uma alternativa laica e ocidental, obrigado a fazer uso de autoritarismo contra o fanatismo islâmico. Ele mesmo é muçulmano.

Mais de 80% dos egípcios professam a fé islâmica. Ninguém foi às urnas votar a favor ou contra sua religião. A questão é política. Que relação a fé islâmica deve estabelecer com o Estado e a sociedade?

Ao contrário do que parece, os muçulmanos não têm uma única resposta para essa questão. É verdade que muitos islâmicos defendem o Corão como base para a constituição de um país. Mas há muitos outros que não pensam assim. Obama é tão cristão quanto os fundamentalistas do Tea Party. Nem por isso, é possível dizer que sejam politicamente idênticos.

Os poderes ocidentais têm procurado achatar as diferenças no interior do mundo muçulmano. Transformá-lo numa única massa fundamentalista com tendências terroristas. Desse modo, podem continuar impondo seus interesses políticos e econômicos com cada vez mais violência sobre seus adeptos.

Escondido por trás da defesa de valores laicos ocidentais também há o fanatismo mais selvagem da história humana. Como disse o filósofo Walter Benjamin, o capitalismo é a religião que leva “o planeta homem" a transitar pela "casa do desespero”.

Leia também: Intolerância religiosa e fanatismo neoliberal

4 de setembro de 2013

Para entender a guerra na Síria, leia Fisk

Robert Fisk é o mais respeitado correspondente estrangeiro britânico. Há 30 anos, cobre conflitos no Líbano, Afeganistão, Irã, Iraque, Líbano, Argélia e Balcãs. É um defensor da causa palestina e do diálogo entre os países árabes.

Com conhecimento de causa, denuncia incansavelmente as ações imperialistas nesses conflitos. Em 29/08 publicou um artigo cujo título diz: “Obama sabe que se aliou à Al Qaeda?”. No texto, ele mostra como a entrada dos Estados Unidos na guerra da Síria significaria lutar ao lado da organização que os americanos consideram sua maior inimiga:

Os homens que destruíram milhares, em 11/9, estarão lutando ombro a ombro com a mesma nação cujos inocentes eles mataram há quase exatamente 12 anos. Que grande feito para o currículo de Obama, Cameron, Hollande e o resto desses senhores de araque da guerra!

Em texto de 03/09, Fisk afirma “O verdadeiro alvo do Ocidente é o Irã, e não a Síria”. O jornalista é certeiro:

O Irã está profundamente envolvido na proteção ao governo sírio. Além disso, uma vitória de Bashar representa uma vitória do Irã. E vitórias do Irã não podem ser toleradas pelo Ocidente.

Fisk faz uma pergunta importante: “Mas espere um pouco. O Iraque – quando era aliado ‘nosso’ contra o Irã – também usou armas químicas contra o exército iraniano? Usou”. Mas, diz ele, “nós não demos a mínima bola para isso”.

O resumo disso tudo é o seguinte. Primeiro, as ações militares dos imperialistas no mundo nada têm a ver com humanitarismo. São motivadas por razões puramente econômicas e políticas. Segundo, não deixe de ler Robert Fisk.

27 de agosto de 2013

Os melhores filhos e filhas do povo estadunidense

Chelsea Manning ficou famosa quando ainda a chamavam de Bradley Manning e era soldado do Exército dos Estados Unidos. Nesta condição foi preso e processado por divulgar informações sigilosas do governo de seu país. Sua detenção aconteceu em 2010, enquanto ainda servia às tropas americanas no Iraque.

No último dia 22/08, Manning declarou que se considera mulher e pediu para ser chamada de Chelsea. A decisão é ainda mais corajosa porque a ex-soldado manteve a denúncia da política assassina do governo americano.

Estamos na iminência de mais uma possível intervenção militar do imperialismo ianque. Desta vez, na Síria. Uma carta recentemente divulgada por Chelsea talvez ajude a alertar para a necessidade de protestar contra mais este ataque americano a um povo.

Com a desculpa de deter os massacres da sangrenta ditadura Assad, as tropas estadunidenses pretendem promover suas próprias matanças. Referindo-se à reação após o 11 de Setembro, Chelsea afirma em seu texto:

Prendemos indivíduos em Guantánamo por anos, sem os devidos processos. Inexplicavelmente, fazíamos vista grossa às torturas e execuções praticadas pelo governo do Iraque. E engolíamos muitas outras coisas em nome da nossa guerra ao terror.

E citando o historiador Howard Zinn, Chelsea repete uma de suas certeiras frases sobre as consequências do estúpido patriotismo americano: “Não existe uma bandeira grande o suficiente para cobrir a vergonha de matar tanta gente inocente”.

No título de sua carta, Chelsea diz: “Na guerra, EUA esqueceram sua humanidade”. Mas a melhor parte da humanidade não esquecerá o heroísmo de muitos filhos e filhas do povo estadunidense.

9 de agosto de 2013

A luta de um padre contra a intolerância religiosa

“Jihadista significa um fiel muçulmano que é obediente à ordem divina de se comprometer com a luta pela justiça, inclusive militarmente”. Estas palavras foram ditas pelo padre católico Paolo Dall'Oglio, em abril passado, em uma reunião realizada em Roma, na Itália.

Referem-se aos adeptos do Jihad, conceito islâmico que pode ser traduzido por “esforço” ou “empenho”. Costuma ser traduzido pelos imperialistas como “ódio” ou “fanatismo” sangrentos para justificar sua perseguição aos povos muçulmanos.

Há 30 anos, vivendo na Síria, Dall'Oglio luta pela convivência pacífica entre as três religiões abraâmicas no país e na região. Ou seja, entre judeus, cristãos e muçulmanos, que teriam como patriarca comum o personagem bíblico Abraão.  

Em 2012, Dall’Oglio foi expulso da Síria por apoiar a luta contra a ditadura Assad. Voltou ao país recentemente e foi sequestrado pelo que a imprensa internacional considera ser uma versão síria da Al Qaeda.

O padre não deixa dúvidas quanto ao que pensa do governo sírio. Chegou a comparar a luta contra o regime à resistência italiana contra o fascismo. Mas reconhece que na guerra que sangra a Síria a maior vítima tem sido o povo. Os principais responsáveis, o imperialismo e Assad.

Antes de desaparecer, Dall'Oglio enviou uma carta aberta ao Papa Francisco. Pedia que o pontífice lidere uma “iniciativa diplomática” pelo fim do regime, manutenção da unidade nacional com diversidade religiosa e fim dos “extremismos armados”.

Talvez, a proposta seja ingênua. Dificilmente, o Vaticano se meterá nessa confusão, pisando nos calos de potências imperialistas. Mas eis aí um sacerdote que faz bem mais do que sorrir para as multidões e beijar criancinhas.

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9 de julho de 2013

O povo egípcio no auge da democracia

Em meio à confusão de informações sobre o que está acontecendo no Egito, uma coisa é certa. O governo Mursi caiu porque milhões de egípcios foram às ruas.

É o que se deduz do artigo “Egito: quatro dias que abalaram o mundo”, publicado pelo jornal inglês Socialist Worker. Seu autor é Sameh Naguib, membro dos Socialistas Revolucionários, do Egito. Seguem alguns trechos traduzidos do inglês:

O que aconteceu no Egito é o auge da democracia, uma revolução de milhões pela derrubada de um governo.
(...)
As instituições militares são hostis à revolução egípcia. Elas se livraram de Mubarak para escapar do fogo cruzado da revolução. Agora, os militares se livraram da Irmandade e de Mursi, seus antigos aliados, com medo de que o terremoto da revolução os atinja.
(...)
Por isso, devemos combater todas as formas de repressão aos muçulmanos, incluindo prisões e fechamentos de seus veículos e jornais. Para o que acontece hoje com eles não venha a acontecer amanhã com todos os trabalhadores e socialistas.
(...)
As massas egípcias conseguiram derrubar dois presidentes em 30 meses. Todo este poder não se reflete apenas em protestos reunindo milhões, mas também nas ondas de greves e manifestações populares que se seguiram. A confiança política se transforma em confiança nas lutas sociais e econômicas, e vice-versa.
(...)
O que está acontecendo ultrapassa de longe a democracia formal, com suas urnas. É a legitimidade democrática conquistada através da revolução popular. Democracia direta criando legitimidade revolucionária.

Como se vê, a situação é complexa. Cheia de idas e vindas. Disputas a cada passo e momento. Exatamente como são os processos revolucionários.

Leia a íntegra do artigo aqui

10 de junho de 2013

Na Turquia, uma grande certeza

Quando torcedores de times adversários se unem em uma manifestação popular é porque a coisa é séria. É o que vem acontecendo na Turquia. Rivais esportivos dos clubes Fenerbahçe e Galatasaray se juntaram nos protestos contra o governo de Recep Erdogan.

As manifestações começaram na praça Taksim, em Istambul, e se espalham por outras cidades. O estopim da luta foi o início da demolição de um parque no centro da cidade para a construção de um shopping.

No entanto, há muito mais do que isso por trás da revolta popular. No poder desde 2003, Erdogan teria a seu favor um período de forte crescimento econômico. O outro lado da moeda é um autoritarismo crescente.

A grande imprensa destaca propostas intolerantes do partido de Erdogan, o AKP. É o caso da proibição de consumir álcool depois das 10 da noite. Um exemplo da inclinação governamental pela moral islâmica num país em que a influência muçulmana é a menor da região.

Mas também houve um endurecimento na repressão e restrição à realização de greves, por exemplo. Tudo como parte de um programa neoliberal, que inclui uma onda de privatizações promovidas por Erdogan desde sua eleição.

Os sindicatos ameaçam iniciar uma onda de greves. Participam das manifestações desde forças de extrema esquerda até nacionalistas de direita. A grande mídia diz que o primeiro-ministro ainda conta com amplo apoio popular. Mas parte da imprensa turca e as redes virtuais estão censuradas.

É preciso levar em conta a influência da “Primavera Árabe”, também. Ou seja, por enquanto, só há uma certeza: todo apoio às revoltas populares na Turquia.

14 de maio de 2013

Os povos árabes sacrificados no altar imperialista

A guerra na Síria entra em seu terceiro ano. O conflito não só parece longe do fim, como ameaça se espalhar pela região. Do lado da ditadura Assad, xiitas da região, chineses e russos. Contra o regime sírio, Israel, Estados Unidos e Inglaterra. No meio, 70 mil mortos e centenas de milhares de feridos e desabrigados.  

É mais um capítulo na sangrenta história do Oriente Médio. Algo que já dura tanto tempo que temos a impressão de que faz parte do DNA dos povos da região. Mas não é verdade. Os verdadeiros responsáveis por toda essa tragédia têm pouco a ver com as tradições árabes. Tudo começou com o acordo Sykes-Picot, assinado em segredo pelos governos inglês e francês, em maio de 1916.

O objetivo era definir como essas potências dividiriam a região depois da Primeira Guerra. Terminado o conflito, Estados completamente artificiais foram formados, ignorando os interesses e características das populações envolvidas. A gradual descoberta de enormes jazidas de petróleo na região só piorou a situação.

Após a Segunda Guerra, os Estados Unidos assumiram a liderança da pilhagem das riquezas do Oriente Médio. Para isso, transformaram o Estado de Israel em feroz e belicoso representante de seus interesses. Nos anos 1960, as fronteiras impostas militarmente já não conseguiam conter as tensões acumuladas.

Desde então, a região atrai abutres de todos os lados para bicar a carne dos povos árabes. Mais recentemente, Rússia e China juntaram-se à carnificina. No berço das três maiores religiões monoteístas, muitos milhares de inocentes queimam no altar do petróleo. Sacrificados ao deus implacável do imperialismo.

Leia também: Intolerância religiosa e fanatismo neoliberal

8 de maio de 2013

Intolerância religiosa e fanatismo neoliberal

Longa reportagem publicada no Valor, em 03/05, mostra um quadro muito pessimista das chamadas revoluções árabes. Em “A Primavera na sombra”, Yan Boechat e Dubes Sônego afirmam que:

...Tunísia, Egito e Líbia avançam em direção ao cenário menos esperado quando das revoluções: o acirramento conservador proporcionado pelos movimentos islâmicos, os grandes vencedores políticos da Primavera Árabe.

Mas é a linha conservadora dos muçulmanos que ganha força. São os salafistas, que defendem a adoção do Corão como regra absoluta para a vida civil. Não fazem parte dos atuais governos islâmicos, mas sua grande influência popular empurra os políticos para o conservadorismo.

No Egito, por exemplo, em 2010, 54% da população eram favoráveis à separação por gêneros no ambiente de trabalho e 82% apoiavam o apedrejamento para mulheres adúlteras. Nesse cenário conservador, “até a descriminalização da mutilação do clitóris chegou a ser cogitada pelo atual presidente”, diz a matéria.

Nada disso surgiu do nada. A própria reportagem explica que durante os últimos governos ditatoriais da Tunísia, mulheres que usassem véu e homens com barbas no estilo muçulmano eram perseguidos pela polícia. Semeavam tempestades.

Além disso, os muçulmanos saíram-se vencedores nas eleições “porque, no fim das contas, eram os únicos verdadeiramente organizados politicamente", diz Stacey Gutowski, uma professora inglesa especialista no assunto.

Mas a lenha dessa fogueira é a situação econômica. Os atuais governos não ousam romper com modelos impostos pelo FMI, que penalizam a maioria pobre há décadas. É o fanatismo neoliberal alimentando a intolerância religiosa.

Só a luta unificada a partir de baixo contra o capital e por amplas liberdades pode salvar a primavera árabe.

Leia também: Primavera árabe: melhor o caos que o despotismo

27 de fevereiro de 2013

Primavera árabe: melhor o caos que o despotismo

Gilbert Achcar concedeu entrevista ao jornal Le Monde em 25/02. Ele é libanês, analista do mundo árabe contemporâneo e professor da School of Oriental and African Studies, de Londres. Com o título “Há que passar pela experiência do islamismo no poder”, o depoimento começa destacando o caráter de longa duração do processo revolucionário na região.

Referindo-se à situação no Egito, Achcar afirma que o governo caiu, mas não o regime. A Irmandade Islâmica assumiu o poder por ser a única grande força organizada de oposição ao antigo governo. Mas paga um preço alto por isso. Segundo Achcar, a organização muçulmana construiu-se como força de oposição:

...com um slogan simplista: o Islã  é a solução. É algo completamente oco, mas funcionava num contexto de miséria e de injustiça no qual se podia vender essa ilusão. Os islâmicos são traficantes do ópio do povo. Desde o momento em que estão no poder, isso já não é possível. São incapazes de resolver os problemas das pessoas.

Assim, o desgastante exercício do poder poderia abrir caminho para forças verdadeiramente revolucionárias. Mas trata-se de possibilidade, não de certeza. Perguntado sobre um suposto complô imperialista por trás das revoluções na região, o professor responde:

Se, por oportunismo, as insurreições populares são apoiadas por potências imperialistas, não justifica que apoiemos as ditaduras. A teoria do complô americano é grotesca. (...) É claro que, depois de quarenta anos de totalitarismo, o que chega é o caos, mas, como diria Locke, prefiro o caos ao despotismo, porque no caos tenho uma opção.

Os revolucionários não precisam apostar no caos. Mas jamais devem aceitar o despotismo.

26 de novembro de 2012

É preciso deter o inverno árabe no Egito

É inverno no Egito. Mas as temperaturas médias dificilmente ficam abaixo dos 20º. Frio, mesmo, só no nível político. Os responsáveis são o presidente Mohamed Mursi e sua organização, a Irmandade Muçulmana. Eles acabam de adotar medidas que dão poderes ditatoriais ao chefe do governo.

Mursi alega que pretende “proteger a revolução”. Realmente, as medidas atingem juízes favoráveis a Mubarak. Verdadeiros carrascos de toga. Mursi também diz que soltará os milhares de revolucionários detidos e investigará a morte de dezenas deles.

Mas o governo Mursi está cheio de integrantes da época de Mubarak. É o caso do procurador-geral e do ministro do interior. O parlamento é governado com mão de ferro pela Irmandade Islâmica. Os membros da Assembleia Constituinte foram eleitos com regras que garantiram maioria esmagadora para o governo.

Nas ruas, o governo vem reprimindo as manifestações por mais liberdade e pela derrubada definitiva do antigo regime. Os partidários de Mursi defendem leis religiosas para governar o País. Enquanto isso, tentam se consolidar seu poder buscando a confiança dos capitalistas egípcios.  

A Revolução Egípcia chega a uma perigosa encruzilhada. Como aconteceu no Irã em 1979, forças conservadoras apoiadas no fanatismo religioso querem sequestrar e matar a revolução. Por outro lado, setores de direita que ficaram sem lugar no novo governo tentam voltar ao poder.

Aos revolucionários resta a dura tarefa de defender as conquistas da Primavera Árabe. Conquistar o apoio da maioria dos explorados para fazer avançar a revolução. Derrotar Mursi e os saudosistas de Mubarak. Afastar o abraço gelado dos capitalistas locais e seus aliados imperialistas.

29 de maio de 2012

Revolução egípcia: voto unitário contra Shafiq

Em 23 e 24 de maio, os egípcios foram às urnas para eleger um novo presidente. Nenhum candidato conseguiu mais da metade dos votos. Haverá segundo turno em 16 e 17 de junho.

Agora, a disputa é entre Ahmad Shafiq, ligado a Mubarak e o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohammed Morsi. Este último não era a melhor opção. O candidato da esquerda revolucionária era Hamdeen Sabbahi, que conseguiu mais de 21% dos votos. Votação expressiva, mas insuficiente.

A Irmandade Muçulmana tem posições bastante ruins, é verdade. Mas é um movimento muito contraditório. Muitos de seus seguidores estiveram nas batalhas que derrubaram Mubarak. Lutaram lado a lado com os revolucionários. E o fato é que Shafiq representa a continuidade do odioso regime dos militares que governou o país por 40 anos.

Diante disso, a organização egípcia Movimento dos Socialistas Revolucionários, ligada à tendência Socialismo Internacional, declarou seu apoio ao candidato muçulmano. Mas apresentou as seguintes condições:

1. Formação de uma coalizão presidencial que inclua como vice-presidentes Hamdeen Sabbahi e Abd-al-Moneim Abu-al-Fotouh (candidato islâmico moderado).

2. A nomeação de um primeiro-ministro de fora das fileiras da Irmandade e a formação de um governo que inclua todo o espectro político, incluindo os coptas (cristãos egípcios).

3. Aprovação de uma lei sobre as liberdades sindicais que apoie claramente o pluralismo e a independência do movimento dos trabalhadores, ao contrário do que pretende projeto de lei proposto pela Irmandade.

4. Que a Irmandade e outras forças políticas lutem por uma Constituição que garanta justiça social, direito à saúde e educação gratuitas e de qualidade, direito à greve, manifestações e ocupações pacíficas, direitos públicos e individuais para todos os cidadãos, e a legítima representação de mulheres, coptas, trabalhadores e juventude na Assembleia Constituinte. Voltamos a apelar para que a Irmandade Muçulmana e todas as forças políticas coloquem a revolução acima de interesses partidários e se unam contra Shafiq, sob risco de torná-la presa fácil de seus inimigos.

A íntegra da declaração pode ser lida aqui, em inglês.


4 de maio de 2012

O regime sírio não é progressista

Há forças de esquerda que insistem em tratar como amigos governos que são inimigos do imperialismo americano ou europeu. É o caso do regime sírio, que luta para se manter através de uma sangrenta repressão a seu povo. 

Em favor do governo sírio, costuma-se citar seu apoio à causa palestina. Não é o que pensa o primeiro-ministro do movimento palestino Hamas, em Gaza, Ismail Haniyeh. Em fevereiro, ele saudou a resistência armada a Bashar Al Assad: “Saúdo o heróico povo da Síria que busca a liberdade, a democracia e a reforma”.

Mas Alex Callinicos, em recente artigo, refere-se a alguns episódios significativos também ligados à questão palestina. Lembra, por exemplo, que o pai do atual ditador:

...enviou o exército sírio ao Líbano em março de 76 para impedir a aliança da esquerda libanesa ao movimento palestino na guerra civil contra a direita cristã e mandou suas tropas bombardearem os combatentes palestinos do Fatah em Trípoli, em dezembro de 83.

Callinicos também considera abusivo chamar de anti-imperialista um regime que participou da coalizão contra o Iraque durante a Guerra do Golfo, em 1991. E conclui:

Novamente a luta no Oriente Médio coloca frente a frente as potências imperialistas (e seu cão de guarda de Israel) e as classes dominantes locais. O caso da Síria é a mais recente manifestação dessa dialética, e a forma que assumir pode destruir a revolução em curso na região. Mas isso não é motivo para alterar a postura que tomamos desde a queda de Ben Ali na Tunísia: ao lado das revoluções árabes e contra a intervenção ocidental.

Leia a íntegra do artigo de Callinicos, clicando aqui 

24 de outubro de 2011

Um cadáver que fede a imperialismo

O tratamento dispensado a Kadafi foi cruel. Não necessariamente desumano. Afinal, tanto ele como seus carrascos cometeram barbaridades bem típicas de nossa espécie. Por outro lado, entre as mais belas conquistas humanas está o respeito à dignidade dos que parecem não possuí-la.

Mais justo seria prender Kadafi com vida. Justo e pouco conveniente. Em um julgamento, ele poderia apontar seus cúmplices. Entre eles, o serviço de inteligência estadunidense. Pouco antes do início das revoltas populares, a CIA vinha ajudando Kadafi na perseguição a seus opositores.

Por enquanto, o imperialismo saiu ganhando. Alertado pelos acontecimentos na Tunísia e Egito, apressou-se a intervir na Líbia. Traiu seu mais recente aliado na região. Mas se isso não tira o sono de Obama, que dirá de seus generais. Ao mesmo tempo, a execução covarde de Kadafi certamente gelou a espinha de outros ditadores da região.

De qualquer maneira, nada está definido. É possível que a onda de revoltas continue a se espalhar para muito além de África e Oriente Médio. Ela inspirou a indignação que tomou conta de cidades européias e americanas. Os alvos políticos são bem diferentes. Mas começam a enxergar no capitalismo o inimigo maior.

A “Primavera Árabe” chegou perfumada pelas promessas de liberdade. Agora, o imperialismo tenta nos sufocar com seu fedor. Só a rebeldia popular pode trazer ar puro.

Leia também: Por um internacionalismo socialista

O que cheira mal nas imagens de Kadafi

Os carrascos de Kadafi igualaram-se a sua vítima em crueldade. Mas também chamou a atenção a ampla divulgação da violência. Quase toda a grande imprensa mundial exibiu as terríveis imagens.

Os editores alegam que em tempos de internete elas viriam a público de qualquer forma. Um fenômeno que acontece porque as pessoas comuns teriam se tornado repórteres. Milhares delas no mundo todo registram imagens que vão parar na rede mundial. Mas divulgar fotos e filmes desse modo é jornalismo?

Se olharmos para a atual comunicação de massa, a resposta é sim. E isso é muito perigoso. Basta lembrar um artigo que Roland Barthes escreveu em 1962. Em “A mensagem fotográfica”, ele diz que a imprensa:
...utiliza a credibilidade particular da fotografia (...) para fazer passar como simplesmente denotada uma mensagem que na verdade é fortemente conotada; em nenhum outro tratamento a conotação toma tão completamente a máscara "objetiva" da denotação”.
Conotação é o sentido figurado de um texto. Denotação é seu sentido literal. O que Barthes diz é que a fotografia dá a impressão de objetividade. É uma imagem. É o fato. É denotativa. Mas os vários modos de tratar e manipular a imagem dão a ela sentidos conotativos. Resta muito pouco de neutro nela. Principalmente, da forma como a grande mídia a utiliza.

As imagens de Kadafi servem a quê? Guerra por audiência? Afirmação da vitória imperialista? Recado a outros ditadores? Tudo isso é possível. Mas, com certeza, elas denunciam uma imprensa cada vez mais rasa e sensacionalista. Perfeitamente adequada à alienação geral que aumenta a tolerância social tanto em relação aos ditadores quanto a seus carrascos.

Leia também A mídia merece uns molotovs

21 de julho de 2011

Chile: uma festa muito séria

O Chile vem assistindo a um dos maiores protestos estudantis desde o fim da ditadura. São milhares de jovens nas ruas, usando muita criatividade e bom humor.

Os estudantes reproduziram uma dança de “Thriller”, sucesso de Michael Jackson. Organizaram uma maratona de 1.800 horas em volta do Palácio do Governo.

A grande mídia tenta mostrar os protestos como apenas uma grande festa de adolescentes. Nada disso. A alegria das manifestações tem razões muito sérias.

Os estudantes exigem profundas reformas na educação. Entre elas, ensino universitário para todos. A tradicional Universidade do Chile é pública, mas cara. Um curso custa US$ 8.000 anuais. A renda média chilena não chega a US$ 700 mensais.

O Chile foi um dos primeiros países a adotar o modelo neoliberal. Tarefa imensamente facilitada pelo governo sangrento de Pinochet. O resultado é uma grande desigualdade social.

É o que mostram dados da reportagem de Lucas Ferraz para a Folha de S. Paulo, de 20/07: cerca de 60% dos 17 milhões de chilenos têm renda média inferior à de Angola. Enquanto isso, 20% vivem com renda semelhante à de países como Noruega e Dinamarca.

O atual governo é de direita. O anterior era formado por partidos de esquerda. Mas, limitou-se a participar dessa festa para poucos. Daí, a desilusão popular com as instituições oficiais e a opção pela política feita nas ruas.

Os chilenos aceitaram o convite feito pelos povos africanos, árabes e europeus. Invadiram as praças. E não abrem mão da alegria como parte da revolta. Mas, é preciso preparar a resistência. As forças da repressão odeiam folias.

Leia também: A revolução egípcia sob ameaça

15 de julho de 2011

A revolução egípcia sob ameaça

A derrubada de Mubarak foi uma vitória histórica do povo egípcio. Tem inspirado milhões de lutadores no mundo todo. Mas, o processo revolucionário também mostra a capacidade de recuperação de seus inimigos.

Mubarak concordou em renunciar, pressionado por seus aliados. Entre eles, o marechal Mohamed Tantawi. Hoje, Tantawi preside o Conselho Militar que assumiu o poder no país. Vem conduzindo uma transição por cima.

Há 10 mil revolucionários jogados nas prisões. Cerca de 1.200 lutadores foram mortos pela repressão do regime durante as revoltas de rua. Apenas um policial foi julgado. Um grande protesto das famílias dos mortos saiu às ruas no mês passado. As forças policiais voltaram a reprimir.

O julgamento de Mubarak e de outros carrascos do regime vem sendo adiado. Estas e outras informações desanimadoras estão em reportagem de Robert Fisk para o The Independent, de 12/07. Nela, Fisk observa que:
A vantagem da revolução, ao que parece, foi que ela não teve nenhum líder, ninguém para ser preso. Mas a sua desvantagem, também, foi que ela não teve nenhum líder, ninguém que assumisse a responsabilidade pela revolução, assim que ela acabasse.
Não é verdade que ninguém tenha sido preso ou que a revolução tenha acabado. Porém, realmente parece faltar uma direção organizada. Afinal, o regime cambaleia, mas continua em pé. O inimigo conta com toda a estrutura repressiva do Estado.

Processos revolucionários sem organizações revolucionárias são como movimentos grevistas sem organizações sindicais. Greves espontâneas podem até arrancar conquistas. Mas a luta permanente contra os patrões precisa de entidades atuantes e controladas pelos trabalhadores.

O destino da revolução egípcia não está definido. A população continua a resistir e a exigir o fim definitivo do regime. A vitória só tem alguma chance se a resistência assumir formas organizadas, com decisões aprovadas democraticamente e colocadas em prática unitariamente.

Leia nota de revolucionários socialistas egípcios: A máscara caiu

Leia também: Por um internacionalismo socialista

7 de julho de 2011

Revolução é fúria e consciência

Um elemento muito comemorado nas recentes revoltas africanas, árabes e européias é a espontaneidade. As revoluções e motins em curso teriam sido organizados quase sem participação de partidos, sindicatos e instituições.

Em primeiro lugar, a principal função de partidos, sindicatos e instituições não é organizar revoltas. Ao contrário, em geral, estas entidades servem para derrotá-las. E algumas delas o fazem usando a violência.

Não deveria ser o caso dos partidos de esquerda. Mas, entre estes, são muito poucos os que não se assustam com revoltas populares. A maioria corre para tentar controlar a fúria do povo. Colocar ordem na casa e tentar lucrar politicamente com os acontecimentos.

Em segundo lugar, não há revolta ou revolução sem fortes elementos espontâneos. Há muitos que acreditam que a Revolução Russa, por exemplo, foi obra de um partido comandado pelas mãos de ferro de Lênin e Trotski.

Os trabalhadores russos não tinham a menor razão para temer Lênin e Trotski. O partido que eles lideravam não tinha cargos em governos, verbas oficiais, sedes luxuosas, homens armados. Os bolcheviques conquistaram o respeito das multidões em luta misturando-se a elas. Compartilhando de sua ira justa.

Além disso, a Revolução de Fevereiro de 1917 nasceu contra a vontade do partido. Operárias têxteis iniciariam uma greve contra as orientações dos bolcheviques. Mas, o que fez o coletivo partidário? Virou as costas? Não. Assumiu seu erro e engrossou a luta que as trabalhadoras iniciaram.

É nesses momentos que a fúria espontânea assume uma forma consciente e unitária. Daí, a necessidade de uma organização revolucionária. Os operários russos souberam construir a deles.

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6 de julho de 2011

Google e Facebook não têm nada de revolucionário

As revoltas na África, Oriente Médio e Europa animam a esquerda mundial. O entusiasmo é ainda maior em relação às ações organizadas através das “redes sociais”. Muito justo. Mas vamos com calma.

Redes de apoio, solidariedade e organização sempre existiram na luta dos explorados. Elas é que tornaram possível vários avanços e conquistas populares.

A classe trabalhadora mundial se mobilizou em vários momentos. No apoio à Comuna de Paris, por exemplo. Contra a execução dos anarquistas Sacco e Vanzzetti. Nas brigadas formadas para lutar na guerra civil espanhola contra o fascismo.

O que pode surpreender é a rapidez da internete. No entanto, tal agilidade é também uma resposta desigual a ação das próprias classes dominantes.

A internete foi criada por militares. Universidades públicas a tornaram um poderoso canal de comunicação. Foi apropriada pelas grandes corporações do comércio mundial. Vem sendo utilizada pelos monopólios de comunicação para impor padrões de consumo e valores conservadores. Só muito marginalmente, ela serve a objetivos subversivos.

Um século atrás, a reposta dos trabalhadores aos jornais dos patrões foi a imprensa operária. Antes disso, as idéias revolucionárias circulavam através dos imigrantes. O capitalismo precisava deles em vários pontos planeta. Anarquistas e socialistas chegavam aos locais mais distantes com suas idéias “virais”. Espalhavam rapidamente sua experiência de luta contra o capital.

Internete e rede social? Tá valendo. E muito. Mas não custa lembrar que as tão festejadas “redes sociais” são monopolizadas por duas empresas gigantes. Google e Facebook não estão a serviço da revolução. Nossas idéias, sim.

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