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27 de setembro de 2016

Carta ao século 19: meritocracia hereditária e guilhotina

Amigos do século 19, escrevo-lhes novamente direto do Brasil, no ano de 2016, onde vim parar sem saber como ou porque.

Dentre as muitas coisas prodigiosas que testemunhei, uma em especial muito me espantou. Quando eu vivia aí, no começo dos anos 1800, costumava denunciar os privilégios hereditários, em que a origem aristocrática se coloca acima dos méritos e esforços pessoais.

Duzentos anos depois, porém, percebo que pouca coisa mudou.

No mundo jurídico, por exemplo, somente alguns poucos, nascidos em “berço de ouro”, chegam aos mais altos tribunais. Na medicina, as melhores ocupações são dominadas por pessoas de famílias abastadas. Entre os generais, ocorre o mesmo.

A regra vale para a maioria das ocupações de maior prestígio. E, ainda que não seja este o caso dos políticos, metade dos atuais parlamentares do País “herdaram” os votos de seus parentes.

Claro que surgem, vez por outra, um cirurgião ou um alto magistrado negro. Mas as novas dinastias usam tais exceções para alegar que o esforço individual supera tudo. Por trás dessa esperteza a que dão o nome de “meritocracia” oculta-se a regra que dá caráter quase hereditário à ocupação dos altos escalões sociais.

Enfim, parece não passar de retórica vazia a igualdade de oportunidades que o advento da sociedade burguesa nos prometeu. Em grande parte, continuam a valer vantagens legadas pelo sangue.

Foi sangue, aliás, que alguns de meus predecessores no século 18 derramaram em profusão no combate a privilégios odiosos como esses. Naquela época, usaram a guilhotina. Estou ansioso para saber o que vão utilizar nos tempos que correm.

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29 de janeiro de 2015

Carta ao século 19: menos banhos, mais fidalguia

Caros consortes do século 19, volto escrever-lhes do século 21, onde reina uma barafunda dos diabos. A companhia que fornece água à gente paulista ameaça iniciar um racionamento. Haveria abastecimento por apenas dois dias semanais.

É algo que não chega a nos assustar, acostumados que estamos a tomar raríssimos banhos em nosso tempo. Mas, aqui, preocupa a todos. Por isso, me pediram que explicasse como vivíamos tão privados dessa forma de higiene.

Comecei por lembrar-lhes que o acesso à agua era muito difícil antes do século 20. Com exceção de lugares próximos aos rios, onde não apenas havia abundância aquífera, mas também a influência de povos indígenas, tão apegados a banhos.

Mesmo assim, muitos de nossos patrícios preferiam manter seus costumes europeus. Por isso é que trajávamos roupas pesadas adequadas ao inverno europeu, mesmo sob o tórrido calor tropical. Preferíamos o desconforto e a fedentina a adotar os hábitos daqueles que considerávamos bárbaros.

Ao mesmo tempo, trocávamos de trajes somente umas quatro vezes por ano, quando do lavatório sazonal. Eis por que chamávamos “armário” ao móvel em que hoje são guardadas as roupas. Necessitando apenas quatro ou cinco mudas anuais de roupa, usávamos o móvel para armazenar armas.

No intuito de acalmá-los, lembrei que D. João VI ficou famoso por deixar as camisas apodrecerem no corpo. Também citei o caso da Rainha Isabel, de Espanha. A monarca que enviou Colombo para a América só teria tomado dois banhos completos em seus 53 anos de vida.

Assim, talvez sirva de consolo a meus amigos o fato de que, em breve, estarão voltando à fidalguia de antigos costumes.

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25 de janeiro de 2015

Carta ao século 19: chega de banho todo dia

Prezados patrícios do século 19, não sei por que raios vim parar no século 21. Mas se me calhou de cá estar o melhor a fazer é aceitar o fado que me coube. 

Há muito progresso nestes tempos, como alguns de nós já prevíamos. As pessoas se deslocam muito rapidamente, por exemplo, fazendo uso de carros velozes. O problema é que há tantos desses veículos que se atrapalham uns aos outros e sua velocidade muitas vezes cai ao ritmo da mais simplória caminhada.

Os meios de comunicação também são espantosos. É possível falar com gente do outro lado do mundo instantaneamente. Só não alcanço compreender porque as pessoas se entregam a tais prosas remotas com muito mais constância e facilidade do que conversam com quem está a seu lado.

Mas o mais estranho dos costumes é o de tomar banhos com grande frequência. Diferente de nosso tempo em que esse tipo de higiene se fazia apenas a cada três ou quatro meses, a gente daqui mete-se sob jorros d’água uma ou duas vezes por dia!

Trata-se de algo impensável em nossa época, dada a escassez de água em nossas cidades. Mas parece que desde o século 20 grandes redes de encanamentos passaram a permitir a chegada de água a quase todas as casas.

No início, confesso que senti muita dificuldade em assimilar tal hábito. Mas, de repente, tudo começou a se arranjar. Parece que a água está se tornando novamente rara. De modo que, talvez, eu até possa ensinar aos que habitam estes tempos loucos como permanecer muitos meses sem molhar o próprio corpo.

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15 de outubro de 2012

No século 22, os interesses materiais imperam

Caros habitantes do século 21, escrevo diretamente do início do século 22 e tenho péssimas notícias. Aconteceu aquilo que alguns de vocês já temiam. Naquele que é meu presente e seu futuro, toda a vida social gira em torno do valor de troca.

Um jantar em família, um beijo de boa noite, um abraço afetuoso, cada uma dessas manifestações valem pontos que dão direito a créditos para consumo. Casamentos são decididos em leilões, bebês já nascem com suas vidas projetadas em planilhas. As relações sexuais são reguladas por determinações estatísticas.

O mesmo vale para as amizades, que são negociadas como ações nas bolsas de valores. Esferas espirituais, como a religião e a arte, foram quantificadas e compõem derivativos financeiros.

Os defensores desse tipo de relação social alegam que tudo ficou muito mais claro. Esse processo já vinha ocorrendo há alguns séculos, dizem eles. Mas ficava oculto sob camadas de hipocrisia. Agora, ninguém mais esconde que o que realmente importa são os interesses materiais.

O problema é que a mesma doença que atacava as operações financeiras, agora atinge as relações sociais. Conflitos especulativos entram pelas casas adentro. Contaminam o cotidiano, destroem famílias, amizades, lealdades, convicções.

Antes, as crises econômicas jogavam milhões na pobreza, mas laços afetivos e de lealdade serviam como refúgio à crueza quantitativa do capitalismo. Agora, os desequilíbrios econômicos partem do interior mesmo dessas relações. A crise já não atinge a humanidade. Ela é a humanidade. O colapso é inevitável.

A não ser que... Bom, a não ser que vocês mudem a história. Ainda há tempo. Mas não muito...

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21 de março de 2012

No século 22, a música jorra

Caros parceiros e parceiras do século 22, vim parar no século 21 não sei como, nem porquê. Há muitas coisas estranhas por aqui.

Outro dia, conversavam comigo sobre uma tal de “música nas nuvens”. Na verdade, trata-se do hábito de ouvir músicas diretamente das redes de computadores, desde que se pague pelo serviço que as disponibiliza. Alguns acham que esse tipo de acesso estaria levando as pessoas a sentir menos necessidade de ter a posse das obras.

Argumentei que em nosso tempo já não temos esse tipo de apego. Não entenderam. Por isso resolvi contar-lhes sobre nossa “música do subsolo”. Disse que entre seu tempo e o nosso, a sociedade humana passou por situações dramáticas e violentas. Longa guerra por liberdade e justiça social.

Em meio ao conflito, os poderosos resolveram esconder todo tipo de riqueza. Isso incluía obras artísticas, como filmes e músicas. Um modo de fazer isso foi transformá-las em dados digitais e armazená-las em redes de computadores que foram enterradas no subsolo.

Terminados os conflitos e derrotado o inimigo, ninguém mais sabia dizer onde ficaram enterradas os milhares de obras digitalizadas. Mas, aos poucos, cabos e fios começaram a surgir do chão. E descobrimos que bastava ligar um aparelho a eles para que a música jorrasse e os filmes aparecessem.

Tornou-se um prazer sair em busca de “vazamentos” desse tipo. Passamos a cavoucar a terra como mineradores. Uma vez encontrado um “veio”, era só fazer a conexão certa para ter novas surpresas. Música e filmes dos mais variados tipos e épocas. Nem sempre agradáveis, mas abundantes como água.

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2 de dezembro de 2011

Ao século 21: comunismo é jogo

Amigos do século 21, não sei como nem porque, estou vivendo século e meio à frente daquele em que nasci. Ainda estou sob forte impacto do que testemunho. Mas posso dar muito boas notícias. Parece que finalmente a humanidade livrou-se de seus apertos materiais.

O trabalho duro, cansativo e aborrecido já não existe. Problemas sociais como pobreza, exploração, opressão e criminalidade também são raros. Aos poucos, a civilização parece ter encontrado um ponto de equilíbrio ecológico. Não se trata de harmonia perfeita, mas nossa relação com fauna e flora já não é marcada pela destruição. Acho que finalmente chegamos ao tal do comunismo.

No entanto, ainda há muita coisa que não consigo entender. Entre elas, a vida social. Quando sonhávamos com uma sociedade livre, era costume pensarmos em menos regras e leis. Mas não é isso o que vejo por aqui. São inúmeros os regulamentos e normas. Eles existem para quase tudo o que se faz. E há uma enorme variedade deles para cada coisa.

Mas o mais incrível é que nada disso significa menos liberdade. Ao contrário, as pessoas são livres para escolher as regras que bem entenderem desde que combinem com as outras. E tais combinações podem envolver tanto a forma como calçar os sapatos, como de que modo se deve tocar certa canção.

Pelo que entendi, a vida social é um grande jogo que se joga aos pares, em trios, quartetos, e envolvem até assembléias inteiras. E tudo isso sem a obsessão competitiva que marcou tanto os séculos passados. Ainda não aprendi direito a viver desse jeito. Mas é muito divertido.

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26 de outubro de 2011

Karaokê no século 17

Prezados amigos do século 19, sabeis como admiro a vida dos habitantes do século 21. Mas, por vezes, sinto que eles mesmos parecem se deslumbrar demasiadamente com sua própria época.

É o caso do entusiasmo com que alguns falam sobre as possibilidades criativas de seus avançados meios de comunicação. Uma delas é o “hipertexto”. Trata-se de textos que podem ser lidos, e modificados por várias pessoas através de ágeis redes de comunicação. Algo que eles chamam de “meio interativo”. É um assombro, sem dúvida alguma.

No entanto, fez me lembrar da utilização da escrita manual antes da popularização da imprensa no século 16. Diferente do texto impresso, o manuscrito acabava por passar por vários copistas. Nesse percurso ia sendo modificado. Digam-me se isso também não pode ser chamado de “meio interativo”? E com a vantagem de não haver tantas preocupações com direitos autorais.

Outra invenção que encanta os viventes destes tempos é o que eles chamam de karaokê. Uma forma de diversão em que os participantes cantam acompanhando música e letra transmitidas por um aparelho. Tal prática não é tão nova assim. Na Inglaterra do início do século 17 era costume homens e mulheres se reunirem para cantar em tabernas. E nestes lugares, as letras das canções eram pintadas nas paredes para que todos pudessem cantar juntos.

Não contesto as evidentes diferenças tecnológicas. Mas, quem sabe, falte um pouco de informação histórica a muitos daqueles que pensam e teorizam sobre seu próprio tempo. Seria prudente que se deixassem encantar menos por experiências que, talvez, não sejam tão recentes assim. Falta-lhes mais informação e humildade.
(Com base no livro “Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet”, de Asa Briggs e Peter Burke).

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8 de setembro de 2011

Ao século 15: fossos e jacarés

Prezados amigos do século 15, desde o século 21 envio-lhes algumas notícias. Estas são tão abundantes que existem publicações que as trazem todos os dias. São os jornais. Foi num deles que li algo que me chamou muito a atenção.

Referia-se a uma obra chamada condomínio. Apresentava tal profusão de coisas incompreensíveis que não me animei a pedir mais esclarecimentos aos amigos que fiz por aqui. Limitei-me a solicitar-lhes uma definição geral sobre o tipo de habitação a que o jornal se referia.

Responderam-me que se trata de áreas cercadas, contando com segurança, comércio e todo tipo de serviço. Pelo que entendi, seu habitantes isolam-se do restante da cidade o máximo que podem. Procuram evitar a violência e os desconfortos da caótica vida urbana destes tempos.

Eis que fiquei mais tranqüilo. Não passam do que chamaríamos de castelos feudais. O problema é que os moradores desses sítios não parecem dar-se conta de que permanecer de tal forma separados não é garantia de sossego. É muito provável que a vida do restante da população cedo ou tarde, de um modo ou de outro, acabe por lhes atingir.

Tal impressão me foi confirmada através de novas leituras dos mesmos jornais. São muitos os relatos de condomínios invadidos por bandidos. Ou casos de violência e crimes cometidos entre seus muros. Sem falar na impossibilidade de estender a proteção residencial aos inevitáveis deslocamentos pelo restante da cidade.

Talvez, fosse melhor cavar fossos ao redor de seus territórios e enchê-los de jacarés. Mas, como sabemos, nem isso impediu que os castelos feudais acabassem por encontrar seu fim.

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26 de agosto de 2011

Sou medieval, mas quem não é?

Volto a lhes escrever, irmãos do século 16. Como já disse, são muitas as maravilhas tecnológicas do século 21. Quase tudo pode ser feito através de modernos mecanismos. Há uma infinidade de tarefas feitas por máquinas rápidas e poderosas. Causa muito menos fadiga o ato de trabalhar.

Mas, há algo que muito me incomoda. Eles costumam nos chamar de medievais. Pertencemos à “Idade Média”, nome que dão para nosso período histórico. O problema é que nossa época tornou-se sinônimo de brutalidade, ignorância, fanatismo, atraso.

Costumam justificar essa idéia citando as fogueiras da Inquisição, as relações de servidão, os privilégios da nobreza, as câmaras de torturas, as mulheres caçadas como bruxas. Não posso negar que são horríveis estas características de nosso tempo. No entanto, os habitantes do século 21 deveriam olhar para si mesmos mais criticamente.

Já não há fogueiras para os infiéis. Ainda assim, a intolerância religiosa serve de pretexto para guerras em que morrem milhares de inocentes. Não há mais caça a bruxas, mas as mulheres continuam a ser tratadas como inferiores. A tortura saiu das masmorras para se instalar em postos policiais e quartéis.

Agora, só trabalha quem quiser. Mas, a alternativa é morrer de fome. Todos são iguais perante a lei. Tal igualdade desaparece diante das dificuldades econômicas e sociais sofridas pela maioria pobre. Há poucos nobres, mas poderosos exploradores. A antiga intolerância ganhou novas formas e nomes como racismo, homofobia, xenofobia.

Assim, me parece que toda a modernidade atual não beneficia a todos. Continuamos a conviver com injustiça, desigualdade, exploração e intolerância. Diante disso tudo, sou medieval sim, mas quem não é?

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O amor como epidemia

8 de agosto de 2011

O amor como epidemia

Uma notícia surpreendente, concidadãos do século 19. No século 21, as pessoas se casam por amor!

Em nosso tempo, a maioria dos casais formava-se pressionado pelas necessidades materiais. O homem escolhia a melhor parideira, trabalhadora, saudável. A mulher tinha sorte se lhe coubesse um marido sem medo de trabalhar. Que não fosse violento nem exagerasse na bebida.

Entre os aristocratas, às exigências materiais somavam-se os interesses da família. O que importava era uma prole saudável e a fortuna reservada aos de sangue nobre. Entre os casados, pouca intimidade e muitas formalidades. Em ambos os casos, a autoridade absoluta do homem.

O amor era um acidente nada recomendável. Em geral, não acontecia entre os destinados a casar. Daí, as constantes infidelidades, principalmente pela parte masculina.

Mas nem tudo é tão róseo no século 21. É verdade que a individualidade é mais respeitada. A família ficou menor e menos influente. Mas, a maioria delas tornou-se um ajuntamento de pessoas solitárias. Os laços de sangue têm um peso desproporcional à liberdade individual conquistada.

Assim, o entusiasmo pelas bodas pode confundir-se com uma fuga da opressão familiar. Namorados, noivos, cônjuges tentam encontrar na pessoa amada tudo o que lhes parece faltar na família. Por outro lado, os constrangimentos materiais continuam. Não há romantismo que resista às constantes dificuldades econômicas. Em meio a tudo isso, o machismo continua firme.

Com tanta confusão, as chances de frustrações são muitas. A valorização da individualidade é uma conquista, sem dúvida. Assim como a do amor. Mas, ainda que inspire belas obras de arte, o sofrimento amoroso é a mais resistente epidemia destes tempos.

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4 de julho de 2011

Às companheiras do século 19

Irmãs de luta, estou no século 21. Não sei como vim parar aqui. Não importa. Descobri coisas maravilhosas. Aqui, no futuro, parece que aquilo por que tanto lutamos está mais próximo.

As mulheres conquistaram o sufrágio universal. Podem eleger e podem ser eleitas. Ocupam vários cargos nos parlamentos e governos do mundo todo. Também estamos presentes nas artes, esportes, na ciência, na indústria. Certamente, podemos ficar orgulhosas. Tudo isso aconteceu graças a nossas lutas.

Infelizmente, restam muitos problemas graves. Não são apenas os salários menores que recebemos, mesmo tendo escolaridade igual ou superior à dos homens. Nem a dupla jornada de trabalho que teima castigar as mães trabalhadoras. Muitas das governantes que elegemos também não são exemplos animadores.

O pior são os preconceitos morais que continuam a nos vitimar. Vejamos um exemplo simples. Um homem casa com uma mulher com origem social inferior à dele. Pode até haver alguma desaprovação. Mas, no máximo, trata-se apenas de uma escolha pouco sensata.

Já não é caso quando uma mulher se casa com um homem mais pobre que ela. Pior ainda, se ele tiver boa aparência. Neste caso, a mulher cedeu a seus instintos sexuais. É praticamente uma escrava do cio. Uma vadia cegada por seus desejos de fêmea.

É triste ver tantos avanços tecnológicos e culturais convivendo com preconceitos tão ancestrais! Parece que ainda teremos que lutar muito para acabar com o machismo. Apesar disso, tenho muitas esperanças. Somos cada vez mais ousadas.

Encerro por aqui esta carta. Prometo voltar a escrever. Preciso apressar-me para o treino do esporte que adotei nestes novos tempos. É o futebol!

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24 de março de 2011

Carta à Roma Antiga

Ave, irmãos romanos. Dirijo-vos esta mensagem de muito longe, no futuro. Estou mais de 21 centúrias anuais à frente de nossa época.

São muitas as maravilhas que encontrei. Não teria como descrevê-las tão brevemente. Por isso, vou me ater à vida política destes tempos. A maioria dos povos atuais vive em repúblicas. Tal como nós, em Roma.

Muito me surpreendeu que já não haja escravidão. Ainda mais espantoso: até as mulheres são consideradas aptas a opinar nas coisas públicas. Isso permite o exercício do que eles chamam de “voto universal”. Portanto, vejo que rendeu frutos a luta que nós, plebeus, iniciamos em nosso tempo.

Lembro nosso primeiro grande movimento. Daqui, deste século, já se vão uns 2.500 anos. Retiramo-nos da cidade de Roma. Os patrícios ficaram sem nossos serviços. Foram obrigados a reconhecer o direito de elegermos um representante plebeu para o Senado.

Uns 20 anos depois, conquistamos a primeira Assembléia da Plebe. Foram precisos outros 20 anos para derrubar a diferença legal entre nossa gente e os patrícios. Aprovamos a Lei das Doze Tábuas. Gloriosas vitórias, sem dúvida.

Mas, percebi que a vida pública permanece vítima do mesmo mal que acometeu nossa república. A grande maioria do povo continua a influenciar pouco as coisas públicas. Agora como antes, só alguns têm condições de deixar de lado atividades relacionadas à sobrevivência. Apenas uma minoria se dedica aos afazeres políticos. Desse modo, governam conforme os interesses dos que têm o poder econômico.

Ao que parece, somente com o fim da classe dos que vivem do trabalho alheio, a verdadeira república será alcançada.

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6 de dezembro de 2010

Carta ao século 16: imagens vazias

Irmãos, cá estou. Ainda, no século 21. Cada vez mais espantado com os costumes desta época. Há algum tempo fui levado para o centro de uma de suas grandes cidades. Esqueçam nossos maiores burgos. Não passam de vilarejos se comparados ao menor dos ajuntamentos urbanos por eles chamados de metrópoles.

Dentre muitas outras de suas maravilhas, é impressionante a onipresença de imagens pela urbe. Ruas, praças, fachadas de edifícios, paredes em geral, veículos, postes, cercas. Quase tudo coberto de cartazes coloridos. Quase todos, retratando homens e mulheres bonitos, brancos e sorridentes. Aliás, bastante distintos da população que por entre eles circula.

Diante disso, indaguei um contemporâneo desta época cheia de maravilhas excêntricas. Questionei-o sobre os segredos que se escondem sob tais imagens? Afinal, em nosso tempo, as criações pictográficas requeriam um grande esforço de interpretação. Lembro de Piero della Francesca e suas pinturas cheias de enigmas. O ovo de avestruz sobre a cabeça da Virgem em “A Sacra conversação”. O “Flagelo de Cristo” e a dúvida sobre quem seriam os cavaleiros que se apresentam em primeiro plano.

Pensei que tamanha profusão de representações também guardasse seus segredos. Mais do que isso, fossem provas de que finalmente a figura humana tornara-se central em nossa civilização. Evidências de que o humanismo finalmente triunfara sobre o obscurantismo fanático das igrejas.

Mas não é o que meu interlocutor acabou por me explicar. Disse-me ele que as imagens que vi por todos os lados pouco significam. Não são mais do que anúncios para vender coisas. Longe da celebração do humano, representam um novo fanatismo. São cultos estéreis prestados a simples mercadorias.

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19 de novembro de 2010

Carta ao século 19: selvagem igualdade

Concidadãos, volto a escrever diretamente do século 21. Desta vez, para dizer-lhes que o livre comércio domina o globo. Dão-lhe o nome de capitalismo, hoje em dia. Um sistema que levou a humanidade a passar por uma verdadeira revolução.

Nunca se viu tamanha mobilidade social. Um sujeito pode nascer na pobreza e tornar-se milionário! É raro que lhe sejam interpostos obstáculos ligados a parentesco, ofício, casta, estamento, etc. Mas é enganoso pensar que os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade imperam.

Ocorre que a possibilidade de fazer fortuna é regulada pela competição. E esta é cada vez mais selvagem e cruel. São poucos os que sobrevivem a ela com dignidade. Por outro lado, são menos ainda os que têm condições de ao menos competir, tão enormes e poderosos são os monopólios que disputam o mercado.

O planeta chegou a uma população de vários bilhões de pessoas. Destas, apenas cerca de 2% controlam quase toda a riqueza produzida pelo restante. Assim, a igualdade nivela a grande maioria pela exposição à mais brutal exploração. A fraternidade inexiste entre os de cima e é recurso extremo a que apelam os de baixo para sobreviver e resistir. A liberdade transformou-se em desamparo e fragilidade em um ambiente tão eivado pelas hostilidades.

Verdade que a vergonhosa instituição da escravidão deixou de existir. Mas, um dos elementos mais utilizados na cruel competição que vigora são os preconceitos de raça. Já quase não há quem os defenda abertamente. No entanto, os não brancos, especialmente os negros, figuram entre as vítimas mais atingidas pela feroz exploração imposta pelo livre comércio.

Assusta ver como princípios tão belos transformaram-se em pesadelo.

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29 de outubro de 2010

Carta ao século 19: estranhas viagens

Concidadãos, vocês bem sabem que gosto de acompanhar os avanços das ciências e técnicas. Sempre fui um otimista em relação às invenções humanas.

Dessa forma, não me surpreendi em demasia com as maravilhosas máquinas feitas para voar que encontrei aqui, no século 21. São aparelhos fantásticos, que carregam milhões de pessoas de um lado a outro, a enormes velocidades e com grande conforto. São os aviões.

Recentemente, me deixei transportar num deles. Maravilhosa experiência. Cobrimos cerca de 3 mil quilômetros em poucas horas. Tempo bem ocupado com excelente serviço de refeições e refrescos.

Mas algumas coisas me espantaram negativamente. Em primeiro lugar, o deslocamento rápido torna a viagem simples transferência. Sem paisagens para se ver, lugares por onde passar, pessoas a quem conhecer. A isso mal podemos chamar de viagem.

E o pior é que chegados ao destino, nos deparamos com um cenário muito parecido com o que deixamos há milhares de quilômetros. São as mesmas construções, casas de negócio e comércio, modos de vestir, formas de falar.

São os mesmos apetrechos, aparelhos, equipamentos. Em tudo e por todos os lugares reencontramos idênticas marcas comerciais, expostas em grandes cartazes.

Parece que as pessoas do século 21 deslocam-se a grande velocidade para alcançar um destino que é praticamente igual ao lugar de onde saíram. E lá chegando, não têm muito o que aprender com os hábitos e costumes da gente local. Por isso, gastam grande parte do tempo despendendo dinheiro.

É por isso que viajar tornou-se um negócio bastante promissor. Chamam-no de turismo.

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8 de outubro de 2010

Cartas ao século 19

Caros concidadãos dos anos 1800, não sei como vim parar no século 21, mas cá estou. Aos poucos enviarei notícias deste momento em que a humanidade conta com conquistas técnicas que o industrialismo de nossa época mal sonhava alcançar. Antes de tudo, algumas curiosidades.

Notei que, diferente da sociedade de nossa época, muitos dos ricos são magros. E despendem muito esforço e dinheiro para sê-lo. Os mais abastados comem pouco em lugares caros. E para manterem sua aparência esquálida também utilizam academias de ginástica. Nestes estabelecimentos gastam boa parte de seu tempo fazendo todo tipo de atividade física. A mais curiosa destas é feita em aparelhos em que o usuário corre sem sair do lugar. São as esteiras. Mecanismos parecidos com as rodas que costumamos colocar nas gaiolas utilizadas por ratos e esquilos de estimação.

Já os menos favorecidos, se alimentam em estabelecimentos que vendem comida barata, mas rica em gordura. Costume nada favorável à saúde. Além disso, gastam grande parte de seu dia em ocupações pouco favoráveis ao dispêndio saudável de energia física. Incluindo horas de deslocamento para suas casas, usando meios de transporte, que, apesar de modernos e velozes, amontoam-se por ruas, avenidas e estradas. Deste mal também sofrem muitos dos ricos. Às vezes, são os mesmos que correram quilômetros nas tais esteiras que levam a lugar nenhum. Acabam permanecendo horas sentados em seus veículos potentes, rastejando a caminho de algum lugar.

Voltarei a dar notícias, em breve. Talvez, sobre o estranho costume que os daqui têm de queimar a pele à luz do sol. Coisa de que todos procuram fugir em nossa época.

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4 de outubro de 2010

Cartas ao século 16

Caros irmãos, trago novidades. A primeira delas, estou no século 21. Uma outra, é que vocês estão no século 16. Século é o mesmo que 100 anos. No começo não entendi bem para quê contar o tempo desse modo. Mas logo ficou claro.

A gente aqui, nesta época, faz tudo muito rápido. Ninguém é capaz de ficar muito tempo em paz. Todos estão sempre correndo, fazendo coisas, andando pra lá e pra cá. Horas, dias, meses parecem cada vez mais curtos. Só que não entendi bem a que serve toda essa pressa.

Outra coisa curiosa é que muitos deles trabalham diante de caixas que soltam luzes e mostram imagens. São acionadas através de botões que são apertados com um frenético movimento dos dedos. Passam grande parte do dia nessa atividade.

E quando finalmente vão para suas casas, é para ficar contemplando outras dessas caixas. São maiores e ficam no centro de suas habitações. As famílias cercam os artefatos e passam horas a olhar para eles. Todo tipo de coisa é mostrado neles.

Aparentemente, a maior conseqüência disso é que as pessoas quase não falam umas com as outras. E quando conversam, o assunto é aquilo que foi mostrado nas tais caixas luminosas. Não sei quem opera esses aparelhos, mas devem ser muito poderosos. Será que são divinos? Será que esta é a religião deles por aqui?

Mais tarde, mando outras notícias. Agora, tenho que correr. Não sei pra onde...