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27 de novembro de 2023

Quebrando as coisas no trabalho

Lançado em 2021, e ainda sem tradução do inglês, o livro “Breaking Things at Work” pode ter seu título traduzido como “Quebrando as coisas no trabalho”. Nele seu autor, Gavin Mueller, faz um exaustivo estudo sobre a resistência dos trabalhadores às inovações tecnológicas que lhes são prejudiciais, no espírito do que ficou conhecido como ludismo.

Trata-se de um movimento de resistência operária surgido na Inglaterra do século 19, promovendo a destruição de máquinas fabris. Mas segundo Mueller, o livro não é apenas sobre os luditas. Mais do que isso, ele afirma estar "interessado na política por trás do movimento. Política que assumiu uma postura militante em relação à reorganização tecnológica do trabalho empreendida pelos primeiros capitalistas”.

O objetivo do autor é “escavar” uma linha de pensamento dentro da teoria marxista, "voltando ao próprio Marx, para demonstrar que o ludismo é intelectualmente compatível com o marxismo”.

Para Mueller, "ser um bom marxista é também ser um ludita. Embora eu queira transformar os marxistas em luditas, também tenho outro objetivo: quero transformar as pessoas que criticam a tecnologia em marxistas”. Ainda segundo ele, o maior problema da tecnologia é “seu papel na reprodução de hierarquias e injustiças impostas à maioria de nós por proprietários de empresas, chefes e governos”.

A luta anticapitalista, conclui o autor, terá necessariamente as atuais máquinas como alvo, e sua obra pretende documentar os momentos em que isso já aconteceu. Dos primeiros teares mecanizados à automação dos processos de produção. Das sabotagens em linhas de montagem às ações de hackers contra as big techs.

Continuaremos a comentar esse interessante livro nas próximas pílulas.

Leia também: O movimento negro na resistência à automação produtiva

10 de novembro de 2023

Elis, Lennon e a inteligência espírita

No início de novembro, foi lançada a mais recente música dos Beatles. Com ajuda da inteligência artificial, John Lennon participou da gravação, 43 anos após sua morte. Pouco tempo atrás, Elis Regina estrelou um anúncio publicitário. A greve dos atores de Hollywood terminou recentemente com um acordo que inclui proteção contra manipulações tecnológicas das imagens dos artistas após sua morte.

Nas décadas finais do século passado, uma família de espíritas fazia sucesso na TV. Um de seus membros recebia espíritos de artistas como Monet, Rembrandt e Picasso, pintando quadros fiéis ao estilo de cada um deles.

Esses pintores passaram por várias fases de criação, durante suas vidas. Mas suas manifestações pós-morte permaneciam presas ao modo de pintar que haviam desenvolvido até o momento em que morreram. Afinal, ainda que fossem indivíduos geniais, sua arte era resultado do contexto social e histórico em que viviam. Das interações com fatos e pessoas que eram seus contemporâneos. Experiências que já não estavam a seu alcance no além-vida.

Pois bem, muito pouco da genial criatividade de Lennon e Elis ou do talento dos trabalhadores da indústria audiovisual permanece viva em suas respectivas ressurreições tecnológicas. A inteligência artificial não passa da mais nova encarnação da velha apropriação capitalista do trabalho vivo para transformá-lo em trabalho morto. Trata-se de sepultar a criatividade que resulta das relações humanas em ataúdes tecnológicos feitos para proporcionar mais lucros a poucos, em prejuízo do bem-estar e da dignidade da grande maioria.

A inteligência artificial só é capaz das façanhas que testemunhamos hoje porque desde seu nascimento o capitalismo vem sequestrando e matando a criatividade humana.

Leia também: Inteligência artificial e perfídia capitalista

6 de novembro de 2023

Viajando sem sair da bolha

Até uns 10 anos atrás, viajar para países estrangeiros costumava ser bem complicado. Principalmente, devido à falta de domínio do idioma e dificuldades para se deslocar por ruas desconhecidas e pelo emaranhado de linhas de ônibus, trens e metrôs.

Mas, atualmente, o GPS nos guia pelas ruas e o aplicativo de tradução do celular facilita muito a comunicação. Além disso, é fácil pedir um carro no aplicativo e desembarcar no destino sem precisar trocar mais que duas palavras com o motorista.

O problema é que toda essa facilidade tende a nos tornar ainda mais impermeáveis a culturas diferentes da nossa. Há décadas, a indústria do turismo já vinha reduzindo a experiência de viajar aos atos de consumir e fazer imagens. Mas ainda era necessário tentar se fazer entender, nem que fosse para comprar um bilhete de metrô ou achar uma padaria.

Cometer enganos, ficar perdido ou ser mal entendido pode significar algum aborrecimento. Mas é o tipo de incidente que também pode nos levar a conhecer pessoas que nãos são necessariamente vendedores e profissionais do turismo. Contatos que podem render boas histórias e proporcionar experiências que não estão previstas nos guias e blogs de viagem.

Também no turismo, as relações entre coisas assumem o lugar das interações entre pessoas. É o fetichismo da mercadoria nos levando a viajar sem sair de nossas bolhas.

Mas, talvez, nem seja preciso sair do país para passar por experiências parecidas com essas. Turbinadas pelos aplicativos, as divisões de classe produzem cada vez mais estranhamento entre habitantes do mesmo país e falantes do mesmo idioma.

Leia também: O turismo da miséria e a miséria do turismo

11 de agosto de 2023

Inteligência artificial: o mundo ao deus-dará

"Oppenheimer virou símbolo contra inteligência artificial". Com este título Martim Vasques da Cunha publicou interessante artigo na Folha, em 22/07/2023. Ele mostra como o paralelo entre aquele que é considerado o pai da bomba atômica e os criadores da inteligência artificial foi traçado por estes últimos com intenções escusas.

É o caso de Sam Altman, um dos responsáveis pela OpenAI. Segundo ele, a criação da bomba atômica mostrou que o avanço da tecnologia é inevitável.

O que Altman e outros da área não dizem é que Oppenheimer defendeu a transparência e o compartilhamento do conhecimento sobre a fissão nuclear. O objetivo era impedir que uma nação ou um bloco delas ficassem tão à frente no domínio da nova tecnologia que se sentiriam seguros para atacar sem temer retaliações.

Ora, diz Cunha, “isso é o exato oposto do que nossos cientistas e intelectuais querem fazer com a inteligência artificial”. Lembrando a proposta de moratória do desenvolvimento da IA que partiu dos próprios especialistas, o autor afirma que a ideia é “suspender tudo, somente para manter o avanço tecnológico em segredo e deixar a sociedade civil no escuro”.

Oppenheimer temia que o “controle do apocalipse” ficasse nas mãos dos políticos e militares. Já a meia dúzia de desenvolvedores da inteligência artificial não presta contas a ninguém. Tornaram-se imensos monopólios graças a dinheiro público e à destruição de empregos, ocupações e negócios em vários setores da economia. De jornalistas e publicitários aos pequenos varejistas e prestadores de serviços. Mas, como diz Cunha, “querem desviar este novo tipo de conhecimento apenas para si mesmos e abandonar o mundo ao deus-dará”.    

Leia também: Barbenheimer ou Missão Oppenheimer?

20 de maio de 2019

Contra as tecnologias de adaptação, tecnologias rebeldes

Pawel Kaczynsku
Aplicativo GPS que alerta sobre trajetos perigosos nas grandes cidades.

Programa de mensagens virtuais utilizado por seus membros para criar uma rede de vigilância sobre atividades suspeitas em sua vizinhança.

Software de transporte urbano que barateia a força de trabalho de dezenas de milhares de motoristas no caótico trânsito das grandes cidades.

Esses são apenas alguns exemplos de ajustamentos cotidianos à grave situação de violência urbana, concentração de renda, destruição de empregos e desigualdade social presentes na vida contemporânea.

São “Tecnologias de Adaptação”, segundo a definição de Evgeny Morozov, em artigo publicado recentemente no portal Outras Palavras. Para esse pesquisador bielorrusso que estuda os impactos das novas tecnologias na sociedade:

“Tecnologia de Adaptação”, contudo, é marca muito ruim para intitular conferências ou manifestos laudatórios. Ao invés disso, fala-se da “economia do compartilhamento” (com startups que ajudam os pobres a sobreviver, aceitando empregos precários ou alugando suas posses), da “cidade inteligente” (com os municípios entregando sua soberania tecnológica – em troca de serviços temporariamente gratuitos – às gigantes digitais), da “fintechs” (com bancos que emprestam para os mais jovens capturando e vendendo seus dados, apresentados como uma revolução de “inclusão financeira”).

Morozov cita o Brasil como um laboratório de inovação nesse tipo de tecnologia. Mas também no resto do mundo, elas “permitem que cidadãos sobrevivam em meio ao caos, sem demandar nenhuma transformação social”.

E qualquer transformação social, diz ele, passa pela quebra das gigantes tecnológicas, mas também pelo abandono das tecnologias de adaptação em favor de tecnologias rebeldes.

Afinal, se tecnologia é técnica mais ideologia, nós também temos a nossa. Precisamos acioná-la contra a deles.

Leia também: Tecnologia: amor, medo, luta de classes

6 de maio de 2019

O risco de nos tornarmos peixes vermelhos

Nos tornamos peixes vermelhos trancados no aquário das nossas telas, sujeitos ao cuidado de nossos alertas e de nossas mensagens instantâneas.

Estas palavras são de Bruno Patino, autor do livro “A Civilização do Peixe Vermelho”. Ainda sem tradução do francês, a obra denuncia a ilusão da utopia digital promovida pelos grandes monopólios das redes virtuais.

À reportagem de Fabienne Schmitt, publicada por “Les Echos”, em 18/04/2019, Patino cita as palavras de um dos fundadores da Web, Tim Berners-Lee:

Ninguém roubou nada, mas houve captura e acumulação. O Facebook, Google, Amazon, com algumas agências, são capazes de controlar, manipular e espionar como nenhum outro antes.

O autor concorda e acrescenta:

Os novos impérios construíram um modelo de servidão voluntária, sem ter consciência disso, sem tê-lo previsto, mas com uma determinação implacável. No coração do reator não há um determinismo tecnológico, mas um projeto econômico que reflete a mutação de um novo capitalismo. No coração do reator está a economia da atenção.

Patino até acha possível encontrar um caminho para sair dessa situação:

Esse caminho possível é a vida em sociedade. Mas não podemos abandonar a essas plataformas o cuidado de se organizarem sozinhas, se quisermos que ela não seja povoada de humanos com um olhar hipnótico que, acorrentados às suas telas, não conseguem mais olhar para cima.

Para encerrar, a reportagem explica a metáfora utilizada pelo escritor:

De acordo com a Associação Francesa do Peixe Vermelho, “ele é feito para viver em bando, entre vinte e trinta anos, e pode chegar a 20 centímetros. O aquário atrofiou a espécie, acelerou a mortalidade e destruiu a sociabilidade...”

Leia também:

25 de abril de 2019

Prestando culto a uma carcaça

Abaixo, dois fragmentos jornalísticos recentes.

Primeiro, uma entrevista com o filósofo italiano Franco Berardi, publicada no Globo em 16/03/2019. Ele começa dizendo que:

As novas gerações aprenderam mais palavras com as máquinas do que com suas mães. A linguagem é, cada vez mais, uma ferramenta desprovida de dimensão afetiva e coletiva. A precarização da vida contemporânea não resulta apenas de mudanças no mundo do trabalho, mas também de trocas linguísticas desprovidas de afeto. A hipertrofia digital e a quantidade exorbitante de tempo que dedicamos à comunicação virtual estão transformando o sexo, a percepção e o desejo. Os efeitos disso são patológicos. Depressão, ansiedade e pânico não são mais patologias comportamentais tratadas individualmente, mas sintomas de uma mutação antropológica.

Mas além disso, Berardi identifica “um quê de necrofilia na glorificação contemporânea da tecnologia”. Para ele, estaríamos “vivendo dentro do cadáver do capitalismo, e viver em uma carcaça não é saudável para nossos corpos e mentes”.

O outro fragmento refere-se a matéria da Folha publicada em 21/03/2019, sobre um avião da Boeing que caiu em 10/03/2019, matando 159 pessoas na Etiópia.

Segundo a matéria, a causa da tragédia seria a falta de atualização de um dos sistemas de orientação da aeronave. Tratava-se de um dos itens “opcionais” pelos quais a Boeing “cobrava uma tarifa à parte”. Acontece que companhias aéreas menores ou de baixo custo costumam deixar de fora “atualizações opcionais”.

Talvez, o desastre aéreo sirva como demonstração do culto à morte mediado pela tecnologia denunciado por Berardi. Mas é preciso acrescentar que o verdadeiro deus é o lucro.

Não apenas vivemos em uma carcaça. Nós a veneramos.

14 de março de 2019

Facebook, partidos digitais, “tecnopólio”

Vivemos sob uma espécie de “tecnopólio”, diz Siva Vaidhyanathan no livro “Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia”.

Para explicar, ele cita o teórico da comunicação estadunidense, Neil Postman:

O tecnopólio é um estado de cultura. Também é um estado de espírito. Consiste no endeusamento da tecnologia, o que significa que a cultura busca sua aprovação na tecnologia, encontra suas satisfações na tecnologia e recebe ordens da tecnologia.

Sob seu império, diz Vaidhyanathan:

A aprendizagem torna-se uma questão de pesquisar, copiar e colar em vez de imergir, considerar e deliberar. Todos são quantificados. Todos estão expostos. Todos estão em guarda. Todos exaustos.

O tecnopólio surgiu sorrateiro no alvorecer do século 20, diz ele. Em 1992, uma canção de Bruce Springsteen descreveu seu poder sem explicitá-lo: "Cinquenta e sete canais e nada". “Hoje, perdemos a conta de quantos canais são”, afirma.

Apesar disso, Vaidhyanathan afirma que não pretende sair do Facebook. “O longo e lento processo de mudar mentes, culturas e ideologias nunca produz resultados em curto prazo”, diz.

Para ele:

...a resposta mais frutífera aos problemas que o Facebook cria, revela ou amplifica seria reinvestir e fortalecer instituições que geram conhecimento profundo e significativo.

Seria possível concordar com o autor se gerar conhecimento profundo e significativo em uma sociedade movida pela busca do lucro acima de tudo não fosse cada vez mais inviável.

É o que mostra, por exemplo, o surgimento dos chamados partidos digitais, cujo funcionamento fortemente condicionado pela tecnologia parece potencializar a democracia, mas pode derrotá-la definitivamente.

Tecnopólio, enfim, é só outra forma de monopólio do poder. Poder de classe.

Leia também:
O bode de estimação do Facebook

1 de março de 2019

Partidos digitais, precisamos falar sobre eles

Os partidos digitais são o tema do livro “The Digital Party”, recém-lançado e ainda sem tradução para o português. O autor é Paolo Gerbaudo, diretor do Centro de Cultura Digital no King's College, em Londres. 

Segundo Gerbaudo, os pioneiros foram os Partidos Piratas, surgidos em países do Norte da Europa. Mais recentemente, surgiram formações de esquerda como o “Podemos” espanhol e “França Insubmissa”. Outro exemplo é o “Cinco Estrelas” italiano, cada vez mais inclinado à direita.

Eles prometem uma nova política apoiada pela tecnologia digital. Alegam que seria mais democrática, mais aberta às pessoas comuns, mais imediata e direta, mais autêntica e transparente.

Seriam a solução para o déficit democrático que transformou os partidos tradicionais em instituições dominadas por tecnocratas e políticos que servem apenas a si mesmos.

Pretendem resolver a crise da democracia, a partir da organização que, tradicionalmente, sempre agiu como o principal elo entre os cidadãos e o Estado: o partido político.

No entanto, tal reestruturação organizacional não leva, como alguns de seus defensores gostariam que acreditássemos, a uma difusão radical do poder na organização, nem leva a uma situação na qual "todos têm o mesmo peso",

Pelo contrário, há uma tendência mais ambígua. Uma crescente concentração de poder nas mãos do líder do partido carismático, a quem o autor descreve como "hiperlíder", acompanhado de uns poucos à sua volta.

Uma "democracia reativa" que se manifesta pelo domínio de formas de um "engajamento democrático passivo". Constantemente retroalimentadas por intervenções da liderança, feitas de cima para baixo.

Partidos digitais, vamos falar sobre eles.

Leia também: Tecnologia: amor, medo, luta de classes

28 de fevereiro de 2019

Tecnologia: amor, medo, luta de classes

Atualmente, poucos temas apaixonam tanto como a tecnologia. Mas as paixões envolvidas são, principalmente, amor e medo.

Em “Rua de mão única”, Walter Benjamin afirma:

...que “[a] dominação da natureza, assim ensinam os imperialistas, é o sentido de toda técnica”. Mas a essa visão ele contrapõe outra: “A técnica não é dominação da natureza: é dominação da relação entre natureza e humanidade.” Na segunda versão de seu ensaio sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, ele desenvolve uma distinção entre a primeira técnica, cujo fim é o sacrifício da vida, e uma segunda técnica (...) calcada no jogar junto com a natureza: “A origem da segunda técnica deve ser buscada onde o ser humano, com uma astúcia inconsciente, chegou pela primeira vez a tomar uma distância em relação à natureza. Em outras palavras, ela encontra-se no jogo. […] A primeira [técnica] realmente pretende dominar a natureza; a segunda prefere muito antes um jogo conjunto entre natureza e humanidade.” Ele nota ainda: “Justamente porque essa segunda técnica pretende liberar progressivamente o ser humano do trabalho forçado, o indivíduo vê, de outro lado, seu campo de ação (...) aumentar de uma vez para além de todas as proporções...

(Acesse aqui o comentário acima)

O jogo a que se refere Benjamin, nas sociedades divididas em classes, torna-se luta. Luta de classes. Ou como sintetiza com perfeição meu amigo de Facebook, Caio Almendra: “Tecnologia é técnica mais ideologia”.

Só a partir dessa perspectiva, podemos começar a entender o maravilhoso ou catastrófico potencial da tecnologia. A partir do amor e do medo, mas para muito além deles.

Leia também: Tempos da aceleração sem sentido (2)

27 de fevereiro de 2019

Tempos da aceleração sem sentido (2)

Em 04/02/2019, Jean-Claude Guillebaud publicou artigo no portal “La Vie”, sobre “A grande inquietude contemporânea”.

Para o jornalista e escritor francês, as mudanças por que passamos nos últimos trinta anos, por sua “amplitude e, especialmente, sua velocidade, foram suficientes para deixar todos atordoados”. Elas teriam acontecido “mais rápido do que o pensamento”.

Para o articulista:

...o colapso do Império Romano, o Renascimento, o Iluminismo ou as duas Revoluções Industriais, deram origem a outro mundo. Mas nós ainda temos dificuldades, por enquanto, para ler o atual turbilhão planetário.

Vivemos “às apalpadelas”, continua Guillebaud:

Vivemos, pela força das circunstâncias, num universo impensado, o que não significa que seja impensável. Essa opacidade faz nascer em nós mais terrores obscuros do que esperanças, mais medos instintivos do que confiança, e mais perguntas do que (...) a nossa inteligência é capaz de apreender.

Ainda segundo o texto:

As disciplinas do conhecimento, como a sociologia ou a filosofia, não tiveram tempo, por assim dizer, para forjar os conceitos que possibilitariam compreender essas mudanças. E para exorcizar a ansiedade que elas inspiram.

“Nosso entendimento do mundo não está ‘em pane’. Está atrasado”, conclui Guillebaud.

Muito interessante. Mas corre o risco de sugerir que basta que o conjunto do conhecimento humano alcance a velocidade da vida contemporânea para dar conta de sua angustiante inquietude.

Na verdade, seria preciso encontrar um rumo radicalmente diferente para a humanidade. Um que torne possível que sejamos nós a decidir a velocidade dos acontecimentos e não o contrário.

Um passo importante nessa direção seria entender melhor qual é, afinal, o papel da tecnologia. Tentaremos fazer isso na próxima pílula.

Leia também:
Tempos da aceleração sem sentido
Sobre esquisitões e Inteligência Artificial

26 de fevereiro de 2019

Tempos da aceleração sem sentido

Parece inegável que vivemos tempos extremamente acelerados. Uma percepção que teria origem na frenética circulação da informação. Da informação, não do conhecimento. Este é produto da elaboração da primeira. Processo a que cada vez menos pessoas podem se dedicar.

E nem falemos da sabedoria, produto de uma compreensão da realidade que vai muito além de sua racionalidade. Exige um tempo ainda menos compatível com os atuais canais de comunicação, tão alucinantes na velocidade quanto superficiais na qualidade.

Uma explicação para este fenômeno tem raiz em um sistema econômico que recompensa a troca apressada de valores quantitativos e pune a reciprocidade ponderada de experiências qualitativas.

Essa lógica tem levado a reviravoltas tecnológicas tão frequentes que dificultam sua apreensão pela grande maioria. Por exemplo, do arado ao trator passaram-se uns 5 mil anos. Já da calculadora eletrônica ao smartphone, cerca de 70 anos. No primeiro caso, centenas de gerações. No segundo, algumas.

É o que alguns chamam de lacuna geracional, que vinha se alargando a cada ano. Agora, podem ser meses. Rapidamente tornam-se obsoletos não apenas saberes, mas ocupações. O mesmo mundo que impôs o trabalho como o sentido da vida, priva de sentido bilhões de vidas.

Daí o surgimento das mais variadas moléstias. As do corpo, mas principalmente as do espírito. As pessoais, mas perigosamente as sociais. E cada vez mais desastrosamente, as políticas.

Tudo isso diz respeito ao domínio da técnica sobre a vida. Mas em “Rua de mão única”, Walter Benjamin lembra que “a técnica não é dominação da natureza: é dominação da relação entre natureza e humanidade.”

Voltaremos ao tema, o mais rápido possível...

Leia também:
Marx e o espaço anulado pelo tempo
Depressão, trabalho e tempo

10 de agosto de 2018

Celular no modo boteco

O questionário CAGE consiste de quatro perguntas criadas para detectar problemas com alcoolismo. Mas ele pode ser utilizado para outras formas de dependência. Por exemplo:

- Você já tentou diminuir ou cortar ("Cut down") o uso do celular?
- Você já ficou incomodado ou irritado ("Annoyed") com outros porque criticaram seu jeito de lidar com o celular?
- Você já se sentiu culpado ("Guilty") por causa da forma como utiliza o celular?
- Você já teve que recorrer ao celular para aliviar os nervos ou reduzir os efeitos de uma ressaca ("Eye-opener")?

A sugestão inspira-se em entrevista de Catherine Price, autora do livro “Como largar o celular: Manual de Desintoxicação”. No depoimento publicado pelo portal Público, em 30/07/2018, ela fala sobre estratégias para reconquistar “o tempo que se perde ao celular”.

Mas dieta absoluta não adianta, diz a entrevistada. É preciso “criar uma nova relação” com o aparelho.

Certo. Mas, tal como no caso da bebida, a dependência não pode ser tratada apenas em nível individual. A relação que precisa ser renovada não é apenas com certas substâncias ou tecnologias. É com o mundo ao redor.

Segundo Catherine, o primeiro passo para uma vida melhor é “romper a relação amorosa com o celular”.

De novo, ela está correta. Mas os próximos passos deveriam caminhar em direção ao rompimento com outras relações nada amorosas. Principalmente, com as formas de exploração e opressão que, frequentemente, transformam prazeres e facilidades em vício e sofrimento.

Enquanto isso, e como é sexta-feira, que tal começar colocando o celular no “modo boteco” e celebrar com amigos e amores do melhor jeito possível?

Leia também:
Militância por aplicativo