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25 de setembro de 2023

Colonização do futuro e distopias

Já se tornou comum dizer que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo.

Em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”, Alfredo Gonzalez-Ruibal alerta para o que chamou de “colonização do futuro” pela “modernidade tardia”, conceito que ele usa para caracterizar o capitalismo.

De fato, é o que se verifica ao observarmos a indústria cultural e suas inúmeras megaproduções audiovisuais sobre o pós-apocalipse. Aquelas em que o mundo tal como conhecemos aparece em um futuro não tão distante, quase totalmente destruído.

São cidades habitadas por poucos e tomadas por destroços. Ruas e estradas cheias de carcaças de veículos. Grandes prédios em ruínas, ocupados por sobreviventes que lutam entre si em selvagem competição. A diversidade biológica substituída por algumas raras espécies, tão resistentes quanto perigosas para a vida humana.

Na melhor das hipóteses, muitas dessas produções passam por ser uma advertência sobre as consequências dos desequilíbrios ambientais e da barbárie social causada pela distribuição cada vez mais injusta da renda e da riqueza.

Mas na medida em que só conseguem apresentar o futuro como uma versão piorada do presente, esses filmes e séries acabam por nos impor a catástrofe como inevitabilidade. Também nos distraem do apocalipse que já chegou para alguns setores da população, que a ele resistem heroicamente. É o caso dos povos indígenas e dos moradores de regiões empobrecidas das grandes cidades.

É a distopia nos impedindo de enxergar a existência de utopias concretas, representadas pela solidariedade surgida das lutas dos explorados e oprimidos.

Enquanto nossa imaginação se restringir aos elementos doentios e suicidas do capitalismo será assim.

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15 de setembro de 2023

Capitalismo, arqueologia, mandantes e executores

Uma das tarefas da arqueologia dos tempos contemporâneos é reconstituir ligações e genealogias, diz Alfredo Gonzalez-Ruibal, em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”.  

Segundo ele, o desempenho dessa função assemelha-se à crítica do fetichismo proposta por Marx. Na maioria dos casos, as ligações já são vagamente conhecidas, mas esquecidas: dissociamos as mercadorias das suas origens obscuras e da violência dos seus efeitos. É por isso que nos sentimos tão chocados quando somos forçados a comparar o contexto do consumo de mercadorias ao das suas condições de produção.

As ligações entre o consumo de carne bovina e a destruição da Amazônia, por exemplo, são sistematicamente apagadas, e esse apagamento é essencial para a continuação e expansão do sistema capitalista, cujo caminho de destruição é “apagado, escondido ou ignorado”

Em 2006, Gonzalez-Ruibal trabalhou em um projeto arqueológico em acampamentos madeireiros e fazendas de gado estabelecidas ilegalmente dentro de uma reserva indígena no Maranhão. Foram mapeadas áreas desmatadas, rotas e acampamentos de madeireiros e inventariados os diversos objetos que ficaram para trás após uma operação policial. A “feiura” da floresta violada, os rios sujos e a miséria dos acampamentos contrastam com o luxo dos móveis feitos com madeiras “nobres” e o alegre consumo de carne no Brasil e em outros lugares.

O caso acima exemplifica como, muitas vezes, a modernidade torna difícil estabelecer as ligações entre crimes ambientais, de um lado, e consumismo glamourizado, do outro.

Ou seja, entre os mais importantes mecanismos de manutenção do capitalismo está o ocultamento das relações entre mandantes e executores. Não poucas vezes, apelando aos sangrentos préstimos de jagunços e capangas.

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1 de setembro de 2023

Marco temporal: atualizando o apocalipse indígena

Grande parte do registro arqueológico da contemporaneidade é constituída por ruínas. Nenhum outro período da história produziu tantas delas, tão diferentes e tão rapidamente, afirma Alfredo González-Ruibal em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”.

Mas é melhor entender “ruína” como um verbo, em vez de um substantivo, porque trata-se de um processo, não de um estado, diz ele.

Os habitantes urbanos ocidentais costumam imaginar o apocalipse como cidades desertas, mas para muitas comunidades indígenas e camponesas em todo o mundo o apocalipse são as metrópoles lotadas. Apocalipse para essas populações é a destruição do mundo delas pelo nosso.

Eric Hobsbawm, lembra o arqueólogo, afirmou que, da perspectiva de um futuro historiador, as guerras mundiais pareceriam um acontecimento relativamente menor no século 20. O que os estudiosos de amanhã verão com mais clareza é o desaparecimento das sociedades agrárias que predominaram nos últimos oito mil anos. Os arqueólogos não precisam esperar pelo futuro. Podem compreender no presente as consequências desta interrupção fatal de sociedades que anteriormente foram extremamente resistentes.

Da China ao Peru, sistemas sociais foram dizimados pelas multinacionais do agronegócio, pelo êxodo urbano e pela modernização predatória do campo. A modernidade colonial e pós-colonial fraturou uma paisagem em padrões de povoamento que permaneceram pouco alterados durante muitos séculos.

Todo um sistema desmoronou em apenas algumas décadas: casas, arados, caminhos, celeiros, palheiros, moinhos d’água, capelas, curtumes, cercas e todos os outros elementos imagináveis que sustentavam as paisagens rurais tradicionais desapareceram num piscar de olhos, conclui.

Seguindo esse raciocínio, podemos dizer que a imposição do marco temporal é mais uma tentativa de atualizar o apocalipse indígena.

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23 de agosto de 2023

Antropologia anarquista antifascista

A antropologia anarquista reúne um conjunto de pesquisas científicas e teorias antropológicas que, por um lado, tem ligações com as teses anarquistas e, por outro lado, implementam os princípios explicativos relevantes ao pensamento anti-autoritário...

A definição acima pode ser encontrada na Wikipedia. Uma das referências dessa corrente acadêmica e política é Alfredo González-Ruibal, do Instituto de Ciências do Patrimônio, da Espanha.

Mas o trabalho dele concentra-se na arqueologia do passado contemporâneo. Mais especificamente, nos aspectos mais obscuros dos séculos 20 e 21, envolvendo guerras, colonialismo, totalitarismo, entre outros. Muitos restos mortais foram exumados nos últimos anos por arqueólogos e antropólogos dessa área de conhecimento.

Um dos livros de González-Ruibal é “Uma arqueologia da era contemporânea”, ainda sem edição brasileira. Nele, o autor cita lugares como o parque de La Carcavilla em Palência, Espanha. Até 2011, o lugar era apenas um parque infantil. Graças a escavações arqueológicas descobriu-se que foi usado para enterrar mais de 500 pessoas executadas pelos franquistas, durante a Guerra Civil Espanhola.

Este, no entanto, é apenas um exemplo desse importante trabalho que procura literalmente desenterrar evidências e provas. Indícios de crimes que estavam destinados a ficar, de novo literalmente, soterrados sob o negacionismo de ditaduras e regimes fascistas.

Trata-se, segundo o autor, de resgatar memórias dos crimes contra humanidade. Isso significa, diz ele:

...que, na ausência de material de arquivo e com memórias evanescentes, a arqueologia terá um papel cada vez mais importante na revelação das atrocidades coloniais. Casos como campos de concentração e extermínio, centros clandestinos de detenção e valas comuns.

Voltaremos com mais informações sobre essa importante frente da luta antifascista.

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15 de agosto de 2023

Doi-Codi: escavando as trevas

“Escavação no DOI-Codi acha inscrições nas paredes, objetos antigos e vestígios de sangue”, diz título de matéria publicada na Folha em 13/08/2023. O material foi encontrado durante escavações iniciadas em agosto e organizadas por arqueólogos reunidos em projeto envolvendo Unifesp, Unicamp e UFMG.

“Além de solas de sapato, botões, vidros e papéis de bala, foi encontrado material biológico que pode ser sangue no chão de algumas salas do prédio”, explica a reportagem.

O lugar ficou tragicamente famoso pelos inúmeros casos de tortura cometidos em suas dependências durante a ditadura militar. As vítimas eram homens, mulheres e até crianças, considerados terroristas por lutarem por democracia.

Como parte da iniciativa foram recolhidos depoimentos de sobreviventes daquele terrível período. Um deles foi Emílio Ivo Ulrich, segundo o qual, a tortura que sofreu “nunca teve fim”.

A atividade faz parte da arqueologia forense, voltada para o levantamento de elementos em investigações criminais. Mas há uma área de estudos chamada Arqueologia do Passado Contemporâneo, que se concentra em momentos mais recentes, aplicando suas técnicas ao período que abrange os séculos 20 e 21.

Uma dos mais respeitados estudiosos dessa área é Alfredo González-Ruibal, arqueólogo espanhol. Um de seus livros é “Uma arqueologia da era contemporânea”, ainda sem edição brasileira.  Nele, Gonzalez-Ruibal afirma que:

...os séculos 20 e 21, caracterizados por uma forma de modernidade excessiva e altamente destrutiva, são únicos na história da humanidade e essa singularidade deve ser concretizada em termos materiais.

De acordo com o arqueólogo, muitas vezes suas pesquisas transformam-se numa “viagem ao lado escuro do mundo contemporâneo”. Em nosso caso, as trevas nunca tiveram fim.

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