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22 de julho de 2022

As imprevisíveis transformações na ordem mundial

A nova ordem mundial está cada vez mais parecida com seu modelo original criado pela Paz de Westfália de 1648. A grande diferença é que agora esse sistema incorporou definitivamente a China, a Rússia, a Índia e mais outros 180 países, e não terá mais uma potência ou região do mundo que seja hegemônica e defina unilateralmente suas regras.

As palavras acima são de um recente artigo de José Luís Fiori, especialista em geopolítica e autor do livro “A Síndrome de Babel”, entre outros.

O texto merece ser lido. Contêm muitos elementos para entender o que está em jogo no conflito envolvendo Ucrânia e Rússia, com consequências muito importantes para ordem mundial.

A começar pela situação de impasse que pode levar a guerra a durar por muito tempo.

De um lado, a derrocada econômica da Rússia devido às sanções econômicas impostas pelo “ocidente” não dá sinais de acontecer no nível esperado. De outro, o conflito está desmantelando a União Europeia e evidenciando as enormes dificuldades dos Estados Unidos para manter seu papel de potência hegemônica absoluta.

Além disso, vai se consolidando uma aliança e uma integração “de largo fôlego” entre Rússia, China e Índia. Países cada vez mais estratégicos no cenário geopolítico mundial.

Por fim, Fiori afirma que fica escancarado o fato de que:

“capital financeiro globalizado” tem dono, obedece a ordens e pertence à categoria das “tecnologias duais”: pode ser usado para acumular riqueza, mas também pode ser usado como arma de guerra.

O fato é que tudo indica que as relações internacionais se tornarão ainda mais complexas e imprevisíveis os seus desdobramentos.

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2 de julho de 2022

Mais turbulências lá fora, mais fumaça por aqui

Dois elementos importantes se destacaram no cenário internacional, recentemente. O primeiro aparece em artigo publicado por José Eustáquio Diniz Alves.

Em seu texto, o demógrafo e pesquisador ambiental chama a atenção para o encontro ocorrido em junho passado, em Pequim, do chamado BRICS, grupo de países que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Para começar, o autor lembra que os BRICS surgiram no começo do século em desafio à hegemonia do G7, grupo formado pelos maiores países capitalistas: EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá.

No período recente, os BRICS perderam espaço no noticiário internacional, mas Alves lembra que, em termos econômicos, o grupo ultrapassou o G7 em 2020. Dados do FMI, diz ele, mostram que em 1980, o G7 representava cerca de 50% do PIB global e o BRICS, cerca de 10%. Mas, atualmente, cada um dos dois grupos é responsável por 30% da produção mundial.

No encontro de Pequim, a China deu o tom, com o presidente Xi Jinping, criticando os Estados Unidos e afirmando que “a hegemonia Ocidental tem provocado inúmeras tragédias, conflitos e guerras”. Segundo Alves, a China “pretende liderar um BRICS renovado e ampliado”.

Outro novo elemento importante no panorama global é o fortalecimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Em meio à crise militar na Ucrânia, a Otan anunciou o aumento de suas forças de reação rápida de 40 mil para 300 mil homens na Europa.

A ambição chinesa e a disposição bélica ocidental podem causar mais turbulências no já agitado panorama global e atiçar o incêndio em nosso circo local.

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1 de junho de 2022

EUA e Ucrânia: uma cajadada, muitos coelhos

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia já se arrasta por mais de três meses. Abaixo um pequeno resumo de um recente artigo de Chen Wenling, economista da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, do governo chinês.

Os Estados Unidos iniciaram o conflito russo-ucraniano para "matar três coelhos com uma cajadada só": usar a Ucrânia como peão para provocar o conflito, fortalecendo, assim, uma OTAN controlada por eles; romper os laços entre a Europa e Rússia, para acelerar o fluxo do dólar estadunidense e, por fim, fornecer contratos lucrativos para os cerca de 4 mil grupos de lobby do complexo militar-industrial dos EUA.

Em 2020, 37,4 trilhões de metros cúbicos de gás natural da Rússia foram exportados para a Europa. Com o conflito, as empresas de gás natural estadunidenses podem assumir esse lucrativo mercado.

Os EUA arrastaram a União Europeia para a guerra impactando gravemente seu crescimento econômico. Além disso, há um alto risco de que o euro seja desvalorizado devido à guerra.

Os Estados Unidos declararam a China seu maior concorrente estratégico. Mas não estão prontos para uma guerra "quente", já que sua economia e a chinesa estão intimamente ligadas. Além disso, os estadunidenses ainda não fizeram progressos substanciais no fortalecimento de sua cadeia de suprimentos, principalmente na produção de semicondutores. Taiwan pode ajudá-los, mas esse plano ainda não foi concretizado.

Ela admite que o conflito russo-ucraniano pode afetar a China em vários aspectos, mas acredita que o impacto geral sobre a economia chinesa não será significativo.

Resta saber a que ponto chegará o massacre de coelhos nessa troca de cajadadas.

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13 de maio de 2022

A guerra, a fome, o clima e o verdadeiro inimigo

Além da guerra da Ucrânia, há muitas outras que estão longe de merecer a mesma atenção. É o caso dos conflitos na Síria, Mianmar e Iêmen.

Mas há outros elementos sendo ignorados no panorama geral. Basta observar, por exemplo, os números de três relatórios importantes, divulgados em abril passado.

O primeiro é do Grupo de Trabalho III do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O segundo é do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI).

O documento do SIPRI revela que os gastos militares mundiais ultrapassaram 2 trilhões de dólares em 2021, cifra jamais atingida anteriormente. Já o informe do IPCC, revela que no mesmo ano o mundo investiu apenas US$ 750 bilhões de dólares em energia limpa e eficiência energética. A desproporção entre um e outro número dá uma boa ideia das prioridades que norteiam os donos do dinheiro e do poder no planeta.

Faltou citar ainda o relatório da Rede Global Contra Crises Alimentares, publicado pelas Nações Unidas e União Europeia, segundo o qual a fome cresceu 22% no mundo em 2021 em relação ao ano anterior. São 193 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda. Mas esses números são anteriores à crise da Ucrânia, país que está com 25 milhões de toneladas bloqueados em seus portos devido ao conflito.

Ou seja, das guerras na Ucrânia e em muitas outras partes do mundo às crises ambiental e alimentar, além da prioridade dos recursos destinados à indústria bélica, o que estamos vendo é o sistema capital-imperialista em pleno funcionamento. E este é o grande inimigo.

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A resposta zapatista frente ao genocídio capitalista

12 de maio de 2022

A resposta zapatista frente ao genocídio capitalista

Em 06/05/2022, o jornalista e analista político uruguaio Raúl Zibechi publicou um artigo no portal “La Jornada”. Ele começa dizendo:

Muitos dados apontam que as grandes empresas do complexo militar-industrial vêm obtendo lucros exorbitantes desde o início da invasão russa à Ucrânia. Mas outros dados afirmam o contrário. Dizem que a crise capitalista está se aprofundando: a ameaça de recessão nos Estados Unidos, o aumento dos preços em todo o mundo e as dificuldades da China em manter as cadeias globais de abastecimento, para citar alguns exemplos.

Em seguida, o autor afirma concordar com William I. Robinson, sociólogo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, segundo o qual, fica cada vez mais claro que as guerras ajudam o capitalismo a superar suas crises e desviam a atenção da deterioração da legitimidade do sistema.

No entanto, diz Zibechi:

...é provável que estejamos frente à radicalização das elites globais, que parecem dispostas a provocar um genocídio em massa contra uma parte da população do planeta, caso considerem que seus interesses estão em perigo.

Diante disso, o autor afirma que “devemos perder o medo da queda do sistema atual, que pode ser anárquica, mas não necessariamente desastrosa”. Mas encerra lamentando que falte à esquerda estratégias para enfrentar tal tarefa, “com a notável exceção do zapatismo”.

Os zapatistas protagonizaram a primeira grande reação popular à ofensiva neoliberal, desferida pouco depois do fim da União Soviética. Em 1994, os indígenas de Chiapas e Oaxaca pegaram em armas para defender seu território, valores e modos de vida. Já são quase 30 anos de resistência.

Há três décadas, eles estão mostrando o caminho.

Leia também: Guerra “inter-branca” e o estrangulamento das metrópoles

11 de maio de 2022

Guerra “inter-branca” e o estrangulamento das metrópoles

“Quem é o responsável por esta guerra? Quem a quis, provocou, arquitetou e desencadeou?” Estas são as perguntas a serem respondidas diz Franco ‘Bifo’ Berardi, filósofo e ativista italiano em recente artigo sobre a guerra na Ucrânia.

Ele responsabiliza o “nazi-stalinismo” russo liderado por Putin. Mas, adverte que alguém mais a quis com vigor e a está alimentando ativamente. Afinal, diz Bifo, se em fevereiro a União Europeia tivesse convocado uma conferência internacional para discutir as demandas do governo russo, a máquina de guerra poderia ter sido detida. Em vez disso, preferiram alimentar o fogo.

Em certo momento, ele se pergunta o que faria se estivesse na Ucrânia:

Se eu vivesse em Kiev e alguém me explicasse que tenho que defender o Mundo Livre, a Democracia, os Valores do Ocidente, palavras com letras maiúsculas, eu desertaria. Mas talvez optasse por me unir à resistência para defender minha casa, meus irmãos... Palavras com letras minúsculas.

Mas quanto ao panorama geral, Berardi entende que, pela primeira vez, delineia-se um cenário geopolítico que percorre a linha de fratura colonial. “Os impérios brancos do passado colidem ou se unem, enquanto o mundo não-branco emerge no horizonte”.

A guerra “inter-branca” da Ucrânia, conclui o autor, “é o catalisador de um processo de fratura entre o sul e o norte do mundo, do qual estamos vendo apenas os primeiros movimentos”. E lembra o que teria teorizado MaoTsé-Tung nos anos 1960, ao prever “que os subúrbios logo estrangulariam as metrópoles”.

Resta saber se teremos tempo e capacidade de sufocar nossos inimigos antes que nos falte o ar.

Leia também: Ucrânia: observações de um especialista chinês

10 de maio de 2022

Ucrânia: observações de um especialista chinês

Wang Xiangsui é cientista da Universidade de Aeronáutica e Astronáutica de Pequim. Publicou artigo em março passado, que traz alguns elementos importantes sobre a crise na Ucrânia.

Segundo ele, a economia mundial divide-se em três grandes esferas: a esfera do Euro, que representa mais de 70% do comércio interno europeu; a norte-americana, dominada pelos Estados Unidos; e a esfera oriental, composta principalmente pela China e países do sudeste asiático.

A Zona do Euro não tem força militar autônoma e sua segurança é garantida pela Otan, controlada pelos EUA. Enquanto isso, a Rússia é o único país europeu com grande poder militar. Sua integração à zona do euro tornaria a Europa um polo mundial difícil de abalar.

A economia russa depende da Europa e seu comércio exterior está limitado pelo dólar e pelo euro. Desse ponto de vista, está em uma posição fraca diante de estadunidenses e europeus.

Houve erros de todos os lados, continua Xiangsui. O governo da Ucrânia é favorável ao Ocidente, mas este é incapaz de dar o apoio de que os ucranianos necessitam. A eclosão da guerra arrastou a região europeia de volta às tradicionais disputas de soberania territorial.  

Por fim, a crise ucraniana deu um novo impulso à cooperação sino-russa. A China é um grande país produtor. A Rússia é o país mais rico em recursos naturais, mas precisa de um mercado grande e estável como o da China.

Os EUA cometeram um erro estratégico ao confrontar a Rússia, a China e a Europa. Já não é uma superpotência, mas apenas um dos muitos centros de poder do mundo, conclui Xiangsui.

Leia também: A Ucrânia no meio de uma guerra interimperialista

9 de maio de 2022

A Ucrânia no meio de uma guerra interimperialista

Lênin dizia que o imperialismo não é um resquício arcaico da época colonial nem apenas grandes potências intimidando países mais fracos. Trata-se de um sistema global de dominação e rivalidade capitalista, no qual um punhado de poderosos estados capitalistas compete econômica e geopoliticamente em escala global.

As palavras acima são de recente artigo de Alex Callinicos, um dos mais importantes marxistas britânicos dos últimos 40 anos. O texto refere-se à guerra entre Rússia e Ucrânia e procura restabelecer certos critérios que a esquerda, em especial a que se diz marxista, não deveria esquecer ou ignorar.

O conflito em terras ucranianas não tem nada a ver com a defesa de valores democráticos pelo “Ocidente”, lógico. Mas também não tem qualquer coisa que lembre a formação de um polo anti-imperialista a partir de Rússia e China. Os protagonistas nesse cenário continuam a se ser perfeitamente retratados na imagem leninista em que um “punhado de poderosos estados capitalistas competem econômica e geopoliticamente em escala global”.

E ainda que não se trate de considerar todos os envolvidos como farinha do mesmo saco, é preciso reafirmar sempre que uma guerra interimperialista não diz respeito aos interesses dos explorados. Afinal, seus maiores contendores estão muito mais integrados à economia mundial do que estiveram as potências imperialistas do passado.

Dito isso, é importante considerar as sérias implicações que o conflito certamente trará para a luta anticapitalista. E neste aspecto, parece que ainda estamos tateando no escuro. E a falta de luz sempre torna o ambiente perfeito para o avanço da direita. Inclusive, e principalmente, de sua versão fascista.

Voltaremos ao tema.

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