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2 de outubro de 2024

O efeito estufa e o sufocamento machista

Eunice Newton Foote foi uma cientista e militante feminista estadunidense. Foi a primeira pesquisadora a concluir que certos gases aqueciam quando expostos à luz solar, e que o aumento dos níveis de dióxido de carbono mudaria a temperatura atmosférica, podendo afetar o clima. Um fenômeno conhecido atualmente como efeito estufa.

Falecida em 1888, suas contribuições caíram no esquecimento por mais de cem anos. Até o século 21, a descoberta do efeito de estufa era atribuída a John Tyndall. Mas Eunice publicou os resultados de sua pesquisa em 1856, três anos antes de Tyndall divulgar seu trabalho. Sendo que Eunice nem era uma cientista profissional, realizando seus experimentos movida pela curiosidade e guiada por seu talento.

Nascida em Connecticut, Eunice foi criada em Nova York, centro dos movimentos sociais e políticos da época, como o abolicionismo e a luta por direitos para as mulheres. Em 1848, participou da Convenção de Seneca Falls, a primeira sobre direitos das mulheres realizada nos Estados Unidos. Eunice e Elisha, seu marido, foram signatários da Declaração de Sentimentos aprovada no evento, exigindo direitos sociais e legais iguais aos dos homens, incluindo o direito ao voto.

As informações acima são da Wikipedia. Como se pode ver, não bastassem graves problemas como aquecimento global e negacionismo climático e científico, ainda há o sufocamento machista imposto às mulheres. É desse modo que se asfixia a inteligência de metade da humanidade para preservar os mitos sobre a superioridade intelectual masculina.

Como disse, certa vez, o educador Mario Sérgio Cortella: “O contrário do machismo não é o feminismo. O contrário do machismo é a inteligência”.

Leia também: Ada Lovelace, criadora do algoritmo cibernético

5 de setembro de 2023

Sobre bobagens e ciência zumbi

Pílula rápida.

A luta contra o fascismo não foi nem é uma luta contra forças obscurantistas, um termo mais apropriado aos debates teológicos do que às análises políticas. Analiticamente “obscurantismo” não diz nada, até porque, se me permitem, sempre se é o “obscurantista” de alguém. O que não poderia ser diferente, já que o conceito de racionalidade é um conceito histórico e em disputa, a ciência não é um espelho da natureza, e não há nada de “relativista” nessa posição. Não sendo uma luta contra o “obscurantismo”, nossa guerra contra o fascismo é uma luta política (...) contra uma junção devastadora de ultraliberalismo econômico, indiferença social, violência estatal e organização da sociedade a partir da generalização da lógica de milícias.

O trecho acima está em artigo publicado por Vladimir Safatle, em 29/08/2023. É mais um na polêmica envolvendo o livro “Que bobagem!”, de Natalia Pasternak e Carlos Orsi.

“Vocês já pararam para pensar quanto do que se produz na Ciência é tão ruim que deveria ir direto para a lata de lixo?”, pergunta Bruno Gualano em artigo publicado em 04/09/2023. Segundo ele, uma recente edição da prestigiada revista “Nature” divulgou levantamento revelando que um em cada quatro ensaios clínicos contém indícios de falha ou fraude. Outro levantamento foi feito pela publicação científica “Anaesthesia”, abarcando mais de 500 estudos. Desse total, 44% apresentavam um ou mais equívocos. Mais de 1/4 continha erros tão esdrúxulos que o editor da revista os apelidou de “estudos de zumbis”.

Este último texto não faz referência ao livro de Pasternak, mas também vale a leitura. Ambos ajudam a combater as verdadeiras bobagens.

Leia também: Como combater as fake news: a ciência segundo o Nobel

26 de maio de 2023

Ciência e fake news: eugenia e negacionismo

A pílula sobre a relação entre a ciência e as fake news abordou algumas contradições e equívocos de uma referência importante como o Prêmio Nobel. Mas não é só isso.

É importante destacar a legitimação científica da eugenia. Por décadas, cientistas respeitáveis defenderam que a perfeição de nossa espécie seria garantida pela eliminação física ou seletiva de seres humanos sem certas qualidades e atributos que, não por acaso, combinavam perfeitamente com as que possuíam cientistas europeus e anglo-saxões.

Médicos fizeram propaganda dos benefícios do cigarro até os anos 60. Cientistas financiados pela indústria petroleira negaram o aquecimento global. Mulheres e não brancos só recentemente foram incluídos nos grupos a serem contemplados por análises clínicas.

Outro elemento importante é a própria especificidade da atividade científica, com suas certezas provisórias e sob constante debate e escrutínio. Algo perfeitamente legítimo, não fosse o isolamento das universidades, abertas apenas aos filhos da classe dominante e com raros egressos das camadas populares. O mesmo vale para as ciências humanas, mais acessíveis aos de baixo, mas ainda muito seletivas e sujeitas a fortes pressões de mecanismos de cooptação social.

É importante lembrar também as centenas de acadêmicos que escrevem diariamente nos grandes jornais para defender a economia neoliberal como ciência exata, inimiga de quaisquer ponderações sobre os terríveis efeitos sociais das políticas nela inspiradas.

Finalmente, junte-se a tudo isso a redução das políticas educacionais a técnicas de adestramento da população pobre para desempenho de tarefas braçais, alienadoras e mal pagas.

Eis aí, alguns dos principais ingredientes para a ampla aceitação de negacionismos e notícias falsas a serviço de projetos conservadores e fascistas.

Leia também: Como combater as fake news: a ciência segundo o Nobel

24 de maio de 2023

Como combater as fake news: a ciência segundo o Nobel

Dizem que uma forma eficiente de combater notícias falsas é apelar para as certezas científicas. Será? Uma das referências mundiais nesse quesito é o Prêmio Nobel.

O alemão Fritz Haber recebeu o Nobel de Química em 1918. O problema é que o laureado desempenhou papel importante no primeiro ataque de gás em larga escala na Primeira Guerra Mundial. Foi na Bélgica, em 1915, resultando na morte de cinco mil soldados.

Em 1926, o dinamarquês Johannes Fibiger recebeu o Prêmio de Medicina após afirmar que uma lombriga causava câncer em ratos. Mais tarde, ficou claro que não havia qualquer relação entre os vermes e a doença dos roedores.

Outro prêmio foi para o químico suíço Paul Müller. Em 1948, ele defendeu o uso do pesticida DDT no cultivo de alimentos. A partir dos anos 1970, o produto seria proibido em grande parte do mundo por envenenar o meio ambiente.

O médico português António Egas Moniz foi premiado em 1949 por defender a lobotomia como tratamento para transtornos mentais. Trata-se de mutilar ou retirar os lobos frontais do cérebro. Técnica que causa graves lesões cerebrais.

Mahatma Gandhi foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz cinco vezes, sem sucesso. Já, o presidente Barack Obama conquistou o seu em 2009. Ocorre que sua administração conseguiu travar mais guerras do que a de seu antecessor, o nada pacífico George Bush.

Por fim, é sempre bom lembrar que o cobiçado prêmio foi instituído por Alfred Nobel, um homem que enriqueceu com o patenteamento de mais de 300 tipos de explosivos. Entre eles, a dinamite.

Voltaremos a estas questões.

Leia também: A lenda dos cinco macacos e um cacho de banana

5 de outubro de 2022

O homo sapiens e sua duvidosa sapiência

“O lado B de Svante Pääbo, Nobel de Medicina” é o título de um bom texto jornalístico de Ana Lúcia Azevedo, publicado no Globo em 04/10/2022.

A reportagem fala sobre o mais recente ganhador do Nobel de medicina. Pesquisador do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, da Alemanha, o laureado se especializou em métodos para recuperar e sequenciar o DNA de fósseis de primatas. 

O trabalho do cientista sueco foi fundamental para descobrir que nós, Homo sapiens, tivemos um ancestral comum com os neandertais. Além disso, suas pesquisas mostraram que nos misturamos a esses hominídeos, em algum lugar entre a Europa e a Ásia, há cerca de 70 mil anos. Como resultado disso, 2% do genoma das pessoas de origem europeia e asiática carregam genes originários deles. 

Pääbo também foi responsável por descobrir uma nova espécie de hominídeo: o denisovan. Foi ele, ainda, que identificou genes dessa espécie em 6% das populações do Sudeste da Ásia e da Melanésia, na Oceania.

A história do mundo que os estudos de Pääbo revelaram é a da diversidade, afirma Ana. Um mundo que já teve gente filha de pai humano e mãe neandertal e vice-versa. Ou filha de neandertal com denisovan. A Humanidade é resultado dessas misturas, conclui corretamente a jornalista.

É relativamente recente a descoberta de que a nossa espécie conviveu com outros hominídeos por milênios. Depois do australopitecos, vieram outros, como os homos habilis, homos erectus e homos neanderthalensis, até que ficamos apenas nós. 

Nós, os sapiens. Nós, que pretendemos nos diferenciar pela sapiência, mas podemos acabar extintos graças a nossa burrice, arrogância e estupidez.

Leia também: A duvidosa sapiência do homo sapiens

8 de abril de 2021

Sonho ruim à base de cloroquina

“O que tira o sono dos especialistas em clima?”, pergunta reportagem de Samantha Baker, publicada na Deutsche Welle em 06/04/2021. A matéria tem por base uma enquete feita com uma dezena de especialistas envolvidos com os desafios climáticos.

A resposta da climatologista, Ruth Mottram, do Instituto Meteorológico Dinamarquês resume a preocupação que mais apareceu na consulta:

Estou menos preocupada de que estejam ocorrendo processos desconhecidos que não entendemos, e de que alguma catástrofe imprevista possa estar a caminho. Sabemos como será grande parte dos impactos. Acho que o que me deixa acordada à noite, no sentido metafórico, é realmente a interação entre o sistema físico e como as sociedades humanas vão lidar com ele.

De fato, não há nada mais preocupante no cenário atual que o elemento humano. Basta considerar a forma desastrosa como a pequena minoria que detém o poder no planeta vem lidando com a pandemia.

Não se trata apenas de alguns irresponsáveis que vêm desgovernando grande parte do planeta. Os governantes, em geral, têm tomado decisões preocupados muito mais com poderosos interesses econômicos.

Talvez, uma das origens desses problemas esteja nas décadas de desprezo dispensado às ciências sociais, enquanto se priorizam as chamadas “ciências duras”, com sua exatidão completamente míope em relação ao que ocorre na alma humana.

Quanto aos saberes das áreas biológicas, com destaque para a Medicina, tornaram-se cada vez mais enrijecidos por especializações tecnológicas que tratam órgãos, não pessoas. Abandonam a saúde para lucrar com a doença.

Não à toa, muitos médicos estão na vanguarda do atraso, receitando tratamento precoce à base de cloroquina.

Realmente, durma-se com um barulho desse.

Leia também:
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O Ebola e a pior das epidemias

17 de janeiro de 2020

De supercooperadores a supergoístas

Martin Nowak é professor de biologia e matemática na Universidade de Harvard. Em seu livro “Supercooperators” ele defende a hipótese de que nosso maior traço evolutivo é a cooperação e não a competividade. Um trecho:

Para a maioria de nós, quase parece um reflexo que não requer nenhuma tomada de decisão consciente: se vemos alguém em perigo, ficamos ansiosos e imediatamente queremos ajudar. Esse instinto pode ser tão forte que há pessoas que sacrificam sua própria vida para salvar a de outros. Todos temos esse instinto, mesmo que nem todos o sigamos. De alguma forma, a empatia pelo grupo manipula os indivíduos, sobrecarregando seu senso de interesse próprio, para que eles ajam em nome do bem maior.

Esse comportamento incomodou o próprio Darwin, diz Nowak. Tanto que em seu livro “A Origem do Homem”, de 1871, ele escreveu:

Não há dúvida de que uma tribo que inclui muitos membros (...) sempre prontos a ajudar um ao outro e a se sacrificar pelo bem comum, venceria a maioria das outras tribos; e isso seria seleção natural.

Segundo Nowak, o primeiro a explorar esse “insight” de Darwin foi o zoólogo e ecologista britânico Vero Wynne-Edwards. Em 1962, ele publicou “Animal Dispersion in Relation to Social Behavior”, no qual sugere que os animais não estão, como Darwin supunha, sempre tentando aumentar seu número, mas são programados para regulá-los de modo a alcançarem um bem maior.

Desde então, a importância da cooperação tem sido verificada em muitas outras espécies também. O problema é que entre nós o “bem comum” vem sendo soterrado pela hipercompetividade capitalista. Somos cada vez mais superegoístas.

Leia também: Entre o comunismo e os chimpanzés

23 de abril de 2019

Futilidades da adolescência no comando

Um dos problemas mais discutidos nas ciências biológicas é o surgimento da vida. As condições necessárias para que isso aconteça são muito raras.

A transição do mundo inorgânico ao orgânico depende de uma combinação muito improvável de diversos fatores. Mas a transição da vida simples à mais complexa também é um grande problema.

“Mais de 2 bilhões de anos se passaram desde o primeiro procariota até o surgimento da primeira forma de vida morfologicamente complexa, chamada de eucariota”, diz Henrique Gomes, em sua coluna na Folha, publicada em 10/04/2019. E sem os eucariotas, não estaríamos aqui.

O colunista alerta, no entanto, para mais uma passagem importante. A da vida inteligente que se torna capaz de se comportar como espécie que governa a si mesma, sem colocar em risco a existência da grande maioria de seus próprios membros.

Para Gomes não é o que vem acontecendo:

Hoje, a tecnologia militar continua avançando. Mas Trump, Putin, Bolsonaro, Brexit e a revigoração de sentimentos e movimentos nacionalistas ao redor do mundo não aponta para maior coesão internacional. Ao contrário: um governo global parece cada dia mais improvável.

Essa disparidade entre evolução social e tecnológica aumenta a chance de que uma pequena nação (um estado? Uma cidade? Uma célula terrorista?) desenvolva e utilize armas devastadoras —um vírus apocalíptico, por exemplo— impedindo o desenvolvimento da espécie humana como um todo. Neste caso, a humanidade nunca atingiria seu potencial; ficaria presa nas futilidades da adolescência.

Futilidades da adolescência não são um mal em si. O problema é quando elas não só não terminam como governam nações importantes com o dedo no gatilho.

16 de abril de 2019

Quando de um buraco negro sai alguma luz

Cosmologia é o “ramo da astronomia que estuda a estrutura e a evolução do universo em seu todo, preocupando-se tanto com a origem quanto com a evolução dele”, dizem os dicionários.

Uma notícia correu o mundo recentemente: “Equipe internacional divulga primeiras imagens já feitas de um buraco negro”. É um momento histórico para a cosmologia, dizem os especialistas.

Entre outros motivos, porque também confirma previsões feitas mais de um século atrás por Albert Einstein.

Mas a primeira parte do título da notícia também deveria receber alguma atenção. A imagem foi obtida graças a oito conjuntos de observatórios espalhados pelo mundo, incluindo Europa, Estados Unidos, Chile e Polo Sul.

E contou com equipes internacionais ainda mais numerosas para processar o enorme volume de dados. É por isso que o anúncio do sucesso da missão foi feito em entrevistas coletivas simultâneas em Washington, Bruxelas, Santiago, Xangai, Taipé e Tóquio.

Todo este esforço internacional pode ser uma demonstração de que ainda temos alguma chance de nos comportar como espécie única, em meio a nossa rica diversidade e tantas contradições.

Mas não é a suposta neutralidade da ciência que leva a tais proezas. Trata-se de investimentos em termos de esforços humanos. E a conjugação destes últimos diz respeito mais ao que se conhece sobre relações sociais e políticas do que sobre equações matemáticas.

Quanto mais coletivas e solidárias, mais as iniciativas humanas podem levar a conquistas importantes para a humanidade como um todo. Não à toa, Einstein era socialista.

Do buraco negro nem a luz escapa. De acontecimentos como esse, alguma luz faísca.

Leia também:
A turbulenta infância da espécie humana

4 de dezembro de 2018

Edição genética e escolhas humanas

No final de novembro, He Jiankui, cientista da Universidade de Shenzhen, na China, anunciou ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados do mundo. O objetivo seria tornar imunes ao vírus do HIV as duas gêmeas nascidas do procedimento.

O anúncio causou uma onda inicial de indignação. A edição genética de embriões é condenada pela grande maioria da comunidade científica. É que essa técnica poderia causar problemas imprevisíveis e irremediáveis para quem as sofre e seus descendentes.

Por isso, a prática é vetada por lei em vários países. Mas como não há impedimento legal na China, a questão passou a ser somente ética. Nem tudo o que não é proibido, pode necessariamente ser feito. É um debate que envolve valores. O maior deles sendo a integridade da vida humana.

Uma das alegações do geneticista chinês em sua defesa é que portadores de HIV sofrem muito preconceito em seu país. De novo, a questão envolve valores. A solução seria priorizar a manipulação genética ou o combate à discriminação?

O fato é que em se tratando de valores, aqueles que dominam a sociedade atual estão muito claros. É só observar as ações de empresas como “Editas”, “Intellia” e “Crispr Therapeutics”, proprietárias de patentes ligadas à técnica utilizada por He. Nos últimos dias, o preço de seus papéis disparou, com aumentos entre 10 e 20%.

Há muito conhecimento milenar acumulado sobre a importância das escolhas humanas. Mas ele continua a ser desprezado por áreas de pesquisa científica que foram sequestradas pela busca do lucro.

Enfim, tudo indica que o chinês está no caminho certo. A humanidade é que não.

11 de maio de 2017

Como é ser um morcego?

Em meio ao crescente debate sobre inteligência artificial, alguns trechos do livro “Homo Deus”, de Yuval Harari:  

Um dos mais importantes artigos sobre a filosofia da mente intitula-se “Como é ser um morcego?”. Nesse artigo de 1974, o filósofo Thomas Nagel assinala que a mente de um Sapiens não é capaz de conceber o mundo subjetivo de um morcego. Podemos escrever todos os algoritmos que quisermos sobre o corpo do morcego, seus sistemas de ecolocalização e seus neurônios, mas isso não vai nos explicar como é sentir-se um morcego. Como ele se sente ao localizar por intermédio do eco uma mariposa que bate suas asas?

(...)

Um morcego poderia estabelecer a diferença entre uma espécie saborosa de mariposa e uma espécie de mariposa venenosa a partir dos diferentes ecos que retornam de suas asas esguias.

(...)

Assim como o Sapiens não é capaz de compreender como é ser um morcego, temos dificuldade semelhante em compreender o que é se sentir uma baleia, um tigre ou um pelicano.

(...)

Baleias também podem ter experiências musicais espantosas que nem mesmo Bach e Mozart poderiam conceber (...). Mas será que qualquer humano seria capaz de compreender essas experiências musicais e perceber a diferença entre uma baleia Beethoven e uma baleia Justin Bieber?

Nada disso deveria nos surpreender. Sapiens não governam o mundo por terem emoções mais profundas ou experiências musicais mais complexas do que as de outros animais. Podemos ser inferiores a baleias, morcegos, tigres e pelicanos, ao menos em alguns domínios emocionais e empíricos.

Ou seja, não há artifício inteligente que dê conta de nossa vasta ignorância.

Leia também: Possíveis intimidades entre o sexo e a morte

10 de maio de 2017

Possíveis intimidades entre o sexo e a morte

Sexo sai caro. Requer laboriosas programações genéticas para a ligação de cantares e danças, para produzir feromonas sexuais, para desenvolver armações heroicas utilizadas apenas para derrotar rivais, para estabelecer peças de engrenagem, movimentos ritmados e um entusiasmo mútuo pelo sexo.

O trecho acima é do livro “Sombras de antepassados esquecidos”, de Carl Sagan e Ann Druyan. Os autores, no entanto, defendem o sexo como um investimento que vale a pena. Não fosse pela reprodução sexuada, seríamos como as paramécias. Este microrganismo unicelular e assexuado tem milhões de anos, mas seus últimos exemplares são idênticos aos primeiros.

“Uma única bactéria reproduzindo-se duas vezes por hora deixará um milhão de gerações sucessivas durante o nosso tempo de vida”. Todas iguais. Portanto, estaríamos falando de espécies que desfrutam de uma certa imortalidade, afirmam os autores.

É verdade que a reprodução sexuada dá trabalho, mas ela “rejuvenesce o DNA, revigora a geração seguinte”. Permite a diversidade e as mutações que dão origem a espécies mais complexas. Além disso, deu origem ao indivíduo, resultado singular da união de outros indivíduos.

Por outro lado:

Há bilhões de anos foi estabelecido um acordo: os prazeres do sexo em troca da perda da imortalidade pessoal. Sexo e morte: não é possível ter o primeiro sem ter a última.

Pois é, se para o poeta o amor é infinito enquanto dure, a ciência, de seu modo nada romântico, também pode chegar a conclusões semelhantes em relação ao sexo. Mas, talvez, seja apenas uma forma bem diferente de abordar o conflito freudiano entre Eros e Thanatos.

Leia também: Sobre generosidade e egoísmo

5 de maio de 2017

Sobre generosidade e egoísmo

No livro “Sombras de antepassados esquecidos”, Carl Sagan e Ann Druyan especulam sobre uma possível predisposição genética ao altruísmo. Segundo alguns teóricos, quem ajuda ou salva seu semelhante estaria apenas protegendo os genes de sua espécie.

Mas como explicar que cães arrisquem a vida para salvar pessoas? Golfinhos já foram vistos ajudando banhistas “prestes a se afogar empurrando-os em direção à praia”. Será o golfinho incapaz de distinguir uma pessoa em perigo de um filhote de sua espécie? Altamente improvável.

Bebês humanos abandonados ou perdidos são criados por lobos. Motoristas desviam para não atropelar um cão, mesmo que isso ponha em risco a vida dos filhos que vão no banco traseiro.

“Tais exemplos de coragem e dedicação para com outra espécie podem advir de uma seleção de parentesco mal direcionada, mas acontecem mesmo e salvam vidas”, dizem os autores.

E concluem:

O egoísmo e o altruísmo inabaláveis são, parece-nos, as extremidades mal ajustadas de um continuum; a posição intermédia ótima varia segundo as circunstâncias e a seleção inibe os extremos. E, já que os genes têm tanta dificuldade em descobrir por si mesmos qual o meio-termo ótimo para cada circunstância nova que surge, não seria vantajoso para eles se delegassem a autoridade? Para isso, uma vez mais, são necessários cérebros.

Ou seja, quando a atividade cerebral alcança certa complexidade, seus portadores não precisam ser escravos de seus genes, seja em favor da solidariedade ou do egoísmo. Trata-se de escolhas. No caso da humanidade, construídas social e historicamente. A responsabilidade é nossa. Não dos cromossomos.

Aqueles que ainda apresentam alguma atividade cerebral significativa, entenderão.

Leia também: Na pré-história, faça amor, não faça guerra

11 de julho de 2016

Galileu e o pacto entre ciência e religião

Há quatro séculos, em 1616, a Igreja Católica proibia a divulgação da teoria heliocêntrica, de Copérnico. Um dos principais atingidos pela medida foi Galileu Galilei, que a vinha aperfeiçoando.

Chamado a Roma para se explicar, Galileu apresentou argumentos bastante sólidos. Em “Para uma ontologia do ser social”, o marxista George Lukács explica como a Igreja, diante da situação embaraçosa, recorreu “à teoria da dupla verdade”, elaborada pelo cardeal Belarmino:

Quando novas cartas astronômicas, baseadas em novas hipóteses, facilitarem a navegação de nossos marinheiros, eles devem usá-las. A nós desagradam apenas as teorias que falsificam a Escritura.

Ou seja, os cientistas deveriam deixar as questões religiosas para as autoridades eclesiásticas. Seu trabalho envolve a razão, o do clero, a fé.

De certa maneira, essa “divisão de trabalho” persiste até hoje. Há poucos cientistas que se dedicam a questionar a existência de forças divinas e transcendentes. Já a Igreja Católica, por exemplo, reconheceu as teorias de Galileu e Darwin.

Mas há um problema mal resolvido nesse arranjo. É novamente Lukács que o expõe:

...se a ciência não se orienta para o conhecimento mais adequado possível da realidade existente em si, (...) então sua atividade se reduz, em última análise, a sustentar a práxis no sentido imediato. (...) uma manipulação dos fatos que interessam aos homens na prática.

E de que homens falava Lukács? Daqueles que controlam as instituições. Neste caso, as religiosas e científicas. E a que prática se dedicam? Àquela que justifica a exploração e a opressão por meio de dogmas fantasiados de verdades.

Há quatro séculos, ciência e religião mantêm um pacto muito conveniente aos poderosos.


12 de setembro de 2013

O Capital quer muito te conhecer

“Explorada por consultorias, a neurociência pode contribuir para o bom desenvolvimento de uma companhia”, diz matéria de Luísa Melo, publicada na revista Exame em 30/08.

A reportagem mostra como a ciência que estuda o funcionamento do cérebro humano pode servir a fins empresariais. Para coisas repulsivas como “processos práticos dentro de uma organização” e “otimização de treinamentos corporativos”. Tudo pelo “aumento da produtividade”. Melhor dizendo, pela busca cega por lucros.

Há valiosas palavras como as da neuropsicóloga e fundadora da Tai Consultoria, Inês Cozzo:

A esmagadora maioria das pessoas é mais produtiva entre as 6h e as 10h e entre 16h e 20h. No restante do tempo, o corpo precisa se esforçar mais, então o volume e qualidade do trabalho são menores.

Os intervalos “não produtivos” devem ser trabalhados, diz a consultora. "Salinhas do cochilo", quem sabe? Só se for numa outra sociedade, porque na que vivemos não há salas para sonecas ligeiras e ceder a elas pode acabar em demissão.

Ou seja, o Capital não exige apenas nosso esforço físico. Está atrás de nossos neurônios, também. É como disse Noam Chomsky em “As 10 estratégias de manipulação midiática”:

...o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

Por isso, não se assuste se você olhar no espelho e ver um cifrão...

11 de abril de 2013

Querem controlar até os sonhos. Que pesadelo!

Em 28/10/2011 o portal G1 divulgou o artigo “Cientistas conseguem ‘ler’ sonhos em estudo alemão”. Pesquisa do Instituto Max Planck de Psiquiatria teria identificado áreas do cérebro que são acionadas quando sonhamos.

Mas o estudo analisou apenas pessoas que são capazes de reconhecer que estão sonhando e controlar o que acontece no sonho. O problema, dizem os pesquisadores, é que os sonhos são incontroláveis para a maioria das pessoas.

Ainda no campo das investigações oníricas, a France Presse publicou a reportagem “Cientistas japoneses decifram parcialmente conteúdo dos sonhos”, em 05/04. Trata-se da criação de um “dispositivo para decodificar as imagens observadas em sonhos”. Depois de repetir a operação mais de 200 vezes por pessoa, teria sido possível criar:

...uma tabela de correspondências entre a atividade cerebral e objetos ou temas de diversas categorias (alimentos, livros, personalidades, móveis, veículos, etc.) observados nos sonhos: uma espécie de léxico que associa um sinal cerebral a uma imagem.

O tal léxico possibilitaria decifrar o conteúdo dos sonhos.

Por fim, a AFP publicou matéria em 11/04, com o título “Cientista desenvolve software de controle dos sonhos”. Desta vez, são estudiosos da universidade britânica de Hertfordshire. O programa ainda está em fase de testes. O objetivo seria “melhorar” os sonhos de pessoas com depressão.  

O que pensar quando a ciência começa a preocupar-se com o controle e a “melhoria” dos sonhos? Aceitar suas mais que duvidosas pretensões curativas? Melhor nos prepararmos para novos e aterrorizantes pesadelos.