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18 de agosto de 2023

José Paulo Paes e as cascas que o diabo espalhou

Mais poemas de José Paulo Paes, retirados do livro “Socráticas”, escrito às vésperas de seu falecimento. A obra inspira-se nos ensinamentos do filósofo Sócrates sobre a morte com dignidade. A ingestão voluntária de cicuta evitando a sentença que pretendia dar-lhe um fim humilhante.

Os crimes atribuídos ao filósofo foram ateísmo e corrupção dos jovens com seus ensinamentos. O poema “Promissória ao bom Deus” faz sutis provocações às relações com as divindades. Alguns trechos:

NÃO TE AMAREI sobre todas as coisas, mas em cada uma delas,
por mínima que seja. É o que compete aos poetas fazer.

NÃO TOMAREI teu nome em vão, mesmo porque nome é coisa séria. Inclusive os feios, que, ditos por dá cá aquela palha, perdem muito da sua eficácia.

GUARDAREI os domingos e quantos dias de festa houver, que ninguém é de ferro, como descobriste no sexto dia da Criação.

(...)

NÃO LEVANTAREI falso testemunho de ninguém, muito menos de ti, que hás por certo de preferir um agnóstico fora do teu templo a um vendilhão dentro dele.

NÃO COBIÇAREI coisas alheias. Deixo-as todas para os filisteus do meu país, fascinados pelas quinquilharias do que, enchendo a boca, eles chamam de primeiro mundo.

NÃO DESEJAREI a mulher do próximo nem a do remoto. Como sabes, jamais tive paciência de esperar na fila.

(...)

EM SUMA , Senhor, vou fazer o humanamente possível para seguir teus
mandamentos. Mas desculpa, agora e na hora de nossa morte, qualquer
eventual escorregão nas cascas que o Diabo espalhou a mancheias pelo
nosso caminho depois de ter comido todas as frutas do teu, para sempre
perdido, Paraíso.


Leia também:  Aprendendo a morrer com José Paulo Paes

10 de agosto de 2023

Aprendendo a morrer com José Paulo Paes

Paulista de Taquaritinga, José Paulo Paes foi um dos mais importantes poetas brasileiros da segunda metade do século passado. Também foi tradutor e crítico literário. Morreu aos 72 anos, em 1998.

“Socráticas” é uma obra póstuma do poeta. Foi editada por Alfredo Bosi, para quem o livro soa “como um recado joco-sério” sobre aprender a morrer com a mesma dignidade do grande filósofo grego.

Esta e outras pílulas trarão alguns dos curtos, céticos e "jocosos" poemas que estão presentes na obra:



Teologia


A minhoca cavoca que cavoca.
Ouvira falar da grande luz, o Sol.
Mas quando põe a cabeça de fora,
a Mão a segura e a enfia no anzol



Auto-epitáfio n
o 2

para quem pediu sempre tão pouco
o nada é positivamente um exagero



Fenomenologia da humildade

Se queres te sentir gigante, fica perto de um anão.
Se queres te sentir anão, fica perto de um gigante.
Se queres te sentir alguém, fica perto de ninguém.
Se queres te sentir ninguém, fica perto de ti mesmo



Dúvida

Não há nada mais triste
do que um cão em guarda
ao cadáver do seu dono.

Eu não tenho cão.
Será que ainda estou vivo?


Este último poema foi encontrado no computador de Paes com data de gravação de 08/10/98. Véspera da morte do poeta.

Leia também: Um pouco do bom humor poético de José Paulo Paes (1926-1998)