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21 de outubro de 2024

O ecossocialismo contra a barbárie do Antropoceno

Para Lênin, o militante socialista tinha que ser, antes de tudo, um “tribuno do povo”. Ou seja, ser alguém “capaz de reagir a qualquer manifestação de tirania e opressão, não importa onde apareça, nem qual seja a classe das pessoas atingidas por ela”.

Nos tempos atuais, os socialistas precisam ser também tribunos do meio-ambiente, diz Ian Angus, em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”.

Marx dizia que as pessoas não mudam a si mesmas e depois mudam o mundo. Elas mudam a si mesmas, mudando o mundo, afirma Angus. Mas não existe revolução em que todos ganham. Numa verdadeira revolução, diz ele, aqueles que têm poder e privilégios na velha sociedade devem perdê-los na nova.

Marx e Engels advertiram: a luta de classes conduzirá ou a “uma reconstituição revolucionária da sociedade em geral” ou à “ruína comum das classes em conflito”. No Antropoceno, a ruína comum, a destruição da civilização, é uma forte possibilidade. Por isso, o autor defende um movimento com um programa ecossocialista que faça a ligação entre a raiva espontânea de milhões de pessoas e o início de uma transformação ecossocialista.

Se lutarmos, podemos perder. Se não lutarmos, perderemos, diz ele. A sorte ou o acaso podem desempenhar um papel, mas uma luta consciente e coletiva para deter o trem infernal do capitalismo é a nossa única esperança para um mundo melhor.

Por fim, Angus cita Gramsci, para quem era urgente “deter a dissolução que corrói as raízes da sociedade humana”. Somente assim, a “árvore nua e estéril pode tornar-se verde novamente”.

Esta pílula encerra a série sobre a obra de Angus.

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18 de outubro de 2024

A União Soviética se rende ao capitalismo fóssil

Segundo Ian Angus, em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, no início da década de 1930, a União Soviética era líder mundial em ciência ecológica e legislação ambiental. Foi o primeiro país a criar grandes áreas de conservação e um dos pioneiros na proibição da caça de espécies ameaçadas de extinção.

Havia forte apoio para cientistas como Vernadsky, que desenvolveu a teoria da biosfera, e Vavilov, primeiro a traçar as origens genéticas das principais plantas alimentícias do mundo. Tragicamente, diz Angus, o estalinismo abandonou a visão marxista do socialismo como desenvolvimento humano sustentável. Para superar o capitalismo, o regime adotou um modelo de industrialização acelerada, desprezando os custos humanos e ambientais.

Para citar apenas um exemplo, na década de 1960, as autoridades soviéticas lançaram um enorme projeto de desvio de rios que desaguavam no Mar de Aral para irrigar plantações de algodão. As novas safras tornaram a União Soviética o segundo maior exportador mundial do produto. Mas, em 1989, o Aral, que era o quarto maior corpo de água do mundo, tinha sido reduzido a menos de 10% do seu tamanho original.

Na década de 1980, a União Soviética tornou-se o segundo maior emissor mundial de gases com efeito estufa. A legislação ambiental soviética era excelente no papel, mas não evitou que o país sucumbisse ao capitalismo fóssil, tal como aconteceu com as outras potências da época.

Os fracassos ambientais do Bloco Soviético no século 20 demonstram porque a ecologia deve ter um lugar central na teoria, no programa e nas atividades socialistas, conclui o autor.

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15 de outubro de 2024

Os palavrões do Antropoceno

Muito do que parece ser resultado das alterações climáticas é, na verdade, promovido por políticas de racismo e exclusão incorporadas à lógica do capitalismo fóssil. É assim que Ian Angus introduz o conceito de “exterminismo” em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”.

Em 1980, o historiador inglês E. P. Thompson, diz ele, criou o termo “exterminismo” para descrever as possíveis consequências da corrida nuclear.

Mas Angus prefere citar o escritor estadunidense Stan Goff, que utiliza o conceito de Thompson em seu relato sobre o Katrina, desse modo: “O exterminismo é a aceitação explícita ou não de mortes em massa como preço a ser pago pela preservação do poder econômico e político da classe dirigente. O exterminismo não se caracteriza por ações ofensivas, mas, frequentemente, ocorre por negligência calculada. Seus instrumentos são pobreza, doença, subnutrição e catástrofes ‘naturais', geralmente facilitadas pelo isolamento econômico e deslocamento populacional em massa”.

Nos dias que se seguiram ao furacão Katrina, em 2006, várias centenas de pessoas, incluindo bebês de colo e idosos cadeirantes, tentaram deixar Nova Orleans atravessando uma ponte para Gretna, cidade do outro lado do Rio Mississipi. Mas a força policial da localidade impediu o acesso, disparando tiros para o ar. As autoridades locais não permitiriam a entrada de “desabrigados” negros em Gretna.

Portanto, não surpreende o fato de que 46% dos moradores das áreas mais atingidas pelo Katrina fossem negros, em comparação com os 26% das áreas sem maiores estragos.

Antropoceno e exterminismo são dois conceitos malditos criados pela sociedade industrial. Precisamos nos livrar do capitalismo fóssil, para que nunca mais precisemos usar palavrões como esses.

Leia também: O Titanic das catástrofes ambientais

11 de outubro de 2024

O Titanic das catástrofes ambientais

Estima-se que 90% do comércio mundial é feito por navios que emitem anualmente mais gases de efeito estufa que 205 milhões de automóveis. Se esses cargueiros fossem um país, seriam o sexto maior emissor, ficando logo abaixo do Japão e acima da África.

Mas esse não é todo o problema. Quem afirma que na crise ambiental estamos todos no mesmo barco, ou está enganado ou está enganando. Muitos cargueiros dos países ricos, por exemplo, despejam seu lixo em águas de países periféricos para cortar custos logísticos e ambientais.

A imensa maioria das vítimas de catástrofes ambientais estão nos países dependentes e 75% delas são mulheres. Os países mais pobres, principalmente os que ficam ao sul do Saara, na África, são os mais atingidos. Dentro de cada nação, os mais pobres, mulheres, crianças e idosos têm maior probabilidade de perder suas casas e meios de subsistência devido às alterações climáticas. Também têm mais chances de morrer.

Cada vez mais, a divisão não é apenas entre ricos e pobres, ou conforto e pobreza: é entre sobrevivência e morte.

Continuamos navegando em nosso Titanic enquanto ele se dirige lentamente rumo a um mar escuro e ameaçador. Os marinheiros entram em pânico e aqueles que pagaram passagens mais baratas já começam a cair na água.

Como diz a escritora Arundhati Roy:

Os ricos ficam despreocupados ao saber que os botes salva-vidas são reservados aos passageiros de sua classe. E a tragédia é que eles provavelmente estão certos.

Os dados e argumentações acima estão no livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus.

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8 de outubro de 2024

Capitalismo fóssil: só danos, sem redução

Desde o século 19, a relação entre o crescimento do capitalismo e o aumento das emissões de gases de efeito estufa tem sido muito estreita. Esses gases liberam muito carbono na atmosfera devido ao uso excessivo de combustíveis fósseis.

Combustíveis fósseis estão presentes na produção de alimentos, roupas, moradias, aquecimento, remédios, transporte, comunicações, entretenimento e muito mais. O capitalismo nasceu e sempre foi fóssil, afirma Ian Angus em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”.

Estudos realizados por diversos grupos ambientalistas demonstram que é perfeitamente plausível uma transição completa para combustíveis renováveis e sem carbono. Mas a um custo estimado em US$ 100 trilhões. Muito caro?

Durante a Segunda Guerra, foram produzidos cerca de 6 mil navios, 850 mil aviões, 5 milhões de tanques, 8 milhões de armas de grande porte e as bombas atómicas. Tudo em apenas seis anos e ao custo de muitos trilhões de dólares. O mesmo esforço poderia ser feito em relação à troca das matrizes energéticas? Sim, mas não sob o capitalismo.

O fato é que os combustíveis fósseis são a força motriz que garante ao capitalismo lucros nos níveis necessários para sua reprodução. O problema é que essa reprodução beneficia apenas uma pequena maioria e ainda causa os mais terríveis efeitos colaterais para o restante de nós. É só olhar em volta para constatar isso.

O capital é viciado em lucros e dependente de petróleo, gás e carvão. Mas quem sofre com essa relação patológica é a imensa maioria da humanidade. Ficamos com cada vez mais danos, sem qualquer redução. O capitalismo é uma droga de que precisamos nos livrar urgentemente.

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4 de outubro de 2024

O ambientalismo militar dos Estados Unidos

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus informa que o orçamento militar dos Estados Unidos em 2013 foi de 1,7 bilhões de dólares. Cerca de 130 vezes mais do que os gastos com programas humanitários ou com medidas de prevenção contra as alterações climáticas.

É impossível determinar o impacto dos gastos bélicos estadunidenses sobre as alterações climáticas, porque as emissões militares foram excluídas do Acordo de Quioto. Mas estima-se que um milhão de barris de petróleo por dia é “um número seguro e até conservador”. Isso seria suficiente para aumentar o total das emissões dos Estados Unidos em escandalosos 5%.

Basta dizer que 70% do peso de todos os soldados, veículos e armas norte-americanos compõe-se de derivados de combustível fóssil. Ou seja, o exército estadunidense é altamente inflamável. Principalmente quando suas bombas incendeiam cidades, aldeias e vilarejos pelas periferias do mundo.

Mas o governo estadunidense está preparado para os problemas ambientais desde 2003. Durante a administração Bush, o Pentágono fez um estudo intitulado “Um cenário abrupto de mudanças climáticas e suas implicações para a segurança nacional”. Segundo o documento, os Estados Unidos provavelmente poderiam sobreviver a ciclos de cultivo menores e condições climáticas adversas sem perdas catastróficas. Desde que as fronteiras sejam reforçadas em todo o país para conter imigrantes famintos indesejados vindos do Caribe, México e América do Sul. E o fornecimento de energia seja reforçado através de alternativas como energia nuclear, energias renováveis, hidrogénio e contratos exclusivos com o Oriente Médio.

Claro que tudo isso vai depender de muita força bélica. Ou seja, o militarismo estadunidense tanto causa como reforça o apocalipse ambiental.

Leia também: Antropoceno e luta de classes

27 de setembro de 2024

Antropoceno e luta de classes

Segundo Ian Angus em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, desde o início da Revolução Industrial, o Antropoceno já era uma possibilidade. Mas só se tornou realidade na segunda metade do século 20, quando a utilização do carbono expandiu-se repentinamente além do ponto de retorno.

A adoção geral de carvão, porém, não foi um processo somente tecnológico. No início dos anos 1800, o sistema fabril resumia-se, basicamente, à fiação e tecelagem, cuja força motriz eram moinhos d'água. Desse modo, era preciso instalar as fábricas perto de corredeiras ou cachoeiras, geralmente em áreas rurais, onde o número de trabalhadores disponíveis era pequeno.

Os moinhos a vapor, por outro lado, podiam ser instalados em cidades, perto de um grande número de trabalhadores e onde a presença de um exército de desempregados ajudava a enfraquecer a resistência operária.

Além disso, os navios e trens movidos a carvão permitiram que a Grã-Bretanha e seus rivais continentais tomassem o controle de territórios na Ásia, África e Oriente Médio que há muito resistiam à conquista.

Em 1910, Winston Churchill usou o exército para acabar com greves nas minas galesas, que eram a única fonte de carvão com a qualidade necessária para os navios de guerra. Mas quando assumiu o comando da marinha no ano seguinte, imediatamente Churchill iniciou um programa para converter os navios de guerra para petróleo. A nova fonte de energia permitiu ao governo se libertar das reivindicações dos mineiros de carvão.

Como se vê, as mudanças tecnológicas têm fortes componentes ligados a luta de classes, colonialismo e imperialismo. No Antropoceno, mais do que nunca, tecnologia rima com ideologia.

Leia também: A fenda irreparável do Antropoceno capitalista

25 de setembro de 2024

A fenda irreparável do Antropoceno capitalista

Em “O Capital”, Marx procurou mostrar como os imperativos do crescimento capitalista inevitavelmente entram em conflito com as leis da natureza. A economia capitalista, escreveu, não pode "fazer nada melhor com os excrementos produzidos por 4,5 milhões de londrinos do que poluir o Tâmisa a um custo monstruoso".

Marx considerou tais fenômenos como "uma fenda irreparável no processo interdependente do metabolismo social e natural". Abaixo, alguns exemplos dessa “fenda irreparável”:

- Em 1925, eram necessárias dezesseis semanas para criar uma galinha de 2,5 kg. Hoje, são apenas seis semanas para criar uma com o dobro do peso. Criação seletiva, hormônios e ração química permitiram que as fazendas industriais produzissem não apenas mais carne, mais rápido. O sofrimento dos animais e a qualidade da comida são preocupações secundárias ou simplesmente inexistem.

- Terras férteis são destruídas, florestas são desmatadas e populações de peixes entram em colapso, tudo porque o capitalismo precisa operar em velocidades muito mais rápidas do que os ciclos naturais de reprodução e crescimento.

- O carbono que levou centenas de milhões de anos para se formar vem sendo consumido pelo capitalismo há menos de dois séculos. Milhões de toneladas de CO2 são liberados muito mais rapidamente do que os oceanos e outros elementos naturais conseguem removê-los da atmosfera.

A crise climática está levando o caos a centenas de milhões não porque os mercados não estejam funcionando bem o suficiente, mas porque funcionam bem demais na aceleração dos ciclos globais de energia e materiais.

As informações acima estão no livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus. Explicam porque o Antropoceno é tragicamente capitalista.

Leia também: O Antropoceno e o fio vermelho da resistência

19 de setembro de 2024

O Antropoceno e o fio vermelho da resistência

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus lembra que, certa vez, Marx comparou o progresso capitalista àquele "ídolo pagão hediondo, que não beberia o néctar senão dos crânios dos mortos".

Essa incapacidade do capitalismo de criar sem destruir, afirma o autor, corre como um fio vermelho pela obra do grande revolucionário alemão. Mas nem ele poderia imaginar o quão extrema essa contradição se tornaria.

O Antropoceno é algo nunca visto na história do planeta, diz Angus. As mudanças que ocorreram antes, não importa quão extensas ou destrutivas, não causaram “mudanças significativas na estrutura ou funcionamento do Sistema Terrestre como um todo.”

Não é que haja vários focos de destruição ecológica espalhados pelo mundo. A catástrofe ambiental é sistêmica, planetária. São tempestades, furacões, incêndios, ondas de calor e de frio nos vários continentes. Além das cada vez mais frequentes epidemias ameaçando se transformar em nova pandemia. Até o equilíbrio das camadas geológicas mais profundas está ameaçado pela exploração de petróleo e gás usando a técnica do “fracking”.

Nenhum desses fenômenos respeita fronteiras ou trará consequências mais amenas para países ou regiões menos poluentes. Ao contrário, muitos deles afetarão principalmente as nações menos industrializadas e ambientalmente sujas.

Segundo o autor, o Antropoceno também é um território desconhecido. Ninguém pode assegurar qual será a dimensão dos efeitos das pesadas intervenções promovidas pela humanidade sob o domínio do capital. Um sistema cuja sanha por lucros para poucos está colocando em risco a vida da grande maioria explorada e oprimida.

Eis porque é preciso seguir aquele “fio vermelho” da obra marxista para rompermos definitiva e radicalmente com o capitalismo.

Leia também: A assinatura do Antropoceno com firma reconhecida

17 de setembro de 2024

A assinatura do Antropoceno com firma reconhecida

Especialistas a serviço do capitalismo fóssil têm uma concepção muito particular e distorcida sobre o Antropoceno. Segundo eles, as atuais crises ambientais devem-se a fatores que remontam a centenas e até milhares de anos atrás

Desse modo, as crises ambientais não seriam resultado de ações humanas recentes, como a queima de combustíveis fósseis, mas um fenômeno causado pela disseminação gradual da influência da humanidade sobre a paisagem. O Antropoceno teria a mesma idade do Homo Sapiens.
 

Mas a atividade humana deixou várias assinaturas em sedimentos geológicos que desmentem essa hipótese. São minerais e tipos de rochas que refletem a rápida disseminação global de novos materiais como alumínio, concreto e plástico. Os registros desses elementos, conhecidos como “tecnofósseis”, somente são encontrados em camadas sedimentares surgidas em meados do século 20.

Além disso, perfurações profundas em geleiras permanentes obtiveram amostras de 100 mil anos atrás ou mais. Foram encontradas elevadas concentrações de chumbo de gasolina, nitrogênio e fósforo de fertilizantes, além de dióxido de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis. Elementos inexistentes antes do século passado e cuja presença na natureza aumentou muito desde os anos 1950.

Os especialistas antiambientalistas omitem que os resíduos que envenenam enormes extensões do planeta não poderiam resultar de seu lento acúmulo por milhares de anos. São resultado do ritmo acelerado e destrutivo de uma industrialização à base, principalmente, de combustíveis fósseis.

As informações acima estão no livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus, e mostram que o Antropoceno com sua catastrófica crise ambiental tem a assinatura do capitalismo. Com firma reconhecida e tudo.

Leia também: A primeira quase catástrofe do Antropoceno

14 de setembro de 2024

A primeira quase catástrofe do Antropoceno

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus lembra a crise do buraco da camada de ozônio, fenômeno causado pela utilização do clorofluorcarbono (CFC) em produtos como inseticidas, desodorantes, lubrificantes, perfumes e tintas.

O rompimento na camada de ozônio causa desequilíbrios no regime climático e torna a atmosfera terrestre vulnerável aos raios ultravioletas, acarretando diversos problemas de saúde.

Estima-se que cerca de 750 mil toneladas de CFC já haviam sido liberadas na atmosfera em 1970. Mas apenas no final dos anos 1980, após muita pressão da opinião pública mundial, as grandes empresas que utilizavam o CFC deixaram de usá-lo.

Mas o buraco continuou a aumentar até alcançar uma área sete vezes a do território brasileiro, em setembro de 2000. Desde então, diminuiu ligeiramente e permanece precariamente estável.

Há quem diga que a recuperação da camada de ozônio prova que o capitalismo pode resolver problemas ambientais globais: “Se as negociações internacionais puderam aliviar a crise de ozônio, por que não a do clima?”. Esse raciocínio ignora o fato de que o ozônio era utilizado apenas por um punhado de empresas. Em contraste, eliminar combustíveis fósseis e emissões de gases de efeito estufa exigirá uma transformação de décadas da economia global.

Os donos do capital têm grande dificuldade em olhar mais do que dez anos à frente. Os prejuízos que seus altos lucros custam ao resto do planeta não estão em seus balanços financeiros.

A crise do CFC foi a primeira “quase catástrofe” do Antropoceno, mas a menos que nos livremos da máquina suja do capitalismo, haverá muitas mais. Já não temos espaço para novos “quases”.

Leia também: Antropoceno: a era da sujeira capitalista

9 de setembro de 2024

Antropoceno: a era da sujeira capitalista

Em 1922, o geólogo soviético Aleksei Petrovich Pavlov propôs o conceito Antropoceno para caracterizar o período geológico marcado pela presença dos seres humanos, sucedendo a época do Holoceno. Mas a proposta não foi bem recebida.

Após reaparecer em algumas ocasiões sem sucesso, o conceito voltou a ser utilizado pelo químico Paul Crutzen, em fevereiro de 2000, em uma reunião do Programa Internacional Geosfera-Biosfera, no México. Desde então, vem ganhando unanimidade.

A questão que ainda divide os especialistas é sobre quando o Antropoceno teria começado. Mas um passo importante para tentar resolver a polêmica foi dado com a apresentação do documento “Mudança Global e o Sistema Terra”, no encontro internacional “Desafios de uma Terra em Mudança”, realizado em Amsterdã, em julho de 2001.

A publicação apresentava 24 gráficos: doze mostrando tendências históricas da atividade humana (crescimento do PIB, população, consumo de energia, uso de água, etc.) e doze abrangendo aspectos físicos como dióxido de carbono, redução da camada de ozônio, extinção de espécies, perda de florestas, etc.

Os gráficos mostraram um crescimento constante dos 24 índices, a partir do ano de 1750. Mas acusaram uma drástica elevação dos números de 1950 em diante. Ou seja, no momento em que se generalizava a utilização dos combustíveis fósseis pelo planeta.

As informações acima são do livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus. Não à toa, o autor chama a atual fase produtiva em que vivemos de capitalismo fóssil. Nele, as imundas máquinas a carvão da industrialização surgida na Inglaterra foram substituídas por motores ainda mais sujos, movidos pelo petróleo do capitalismo sob o domínio estadunidense.

Leia também: Enfrentando o Antropoceno com o ecossocialismo

4 de setembro de 2024

Enfrentando o Antropoceno com o ecossocialismo

“Enfrentando o Antropoceno” é o título de um recente livro de Ian Angus, militante ecossocialista canadense. Segundo ele:

É um desafio para todos que se importam com o futuro da humanidade encarar o fato de que a sobrevivência no Antropoceno requer uma mudança social radical, substituindo o capitalismo fóssil por uma civilização ecológica. Ou melhor, ecossocialista. Construir o socialismo nas condições do Antropoceno, por sua vez, envolverá desafios que nenhum socialista do século 20 jamais imaginou. Entender e se preparar para esses desafios deve estar agora no topo do programa socialista.

Mas apesar de Angus avaliar que os desafios são inéditos, ele resgata elementos das obras de Marx e Engels que já no século 19 começavam a mostrar o tamanho da encrenca. Em abril de 1856, em uma reunião de trabalhadores em Londres, Marx descreveu uma profunda contradição no desenvolvimento capitalista:

Por um lado, começaram a surgir forças industriais e científicas, das quais nenhuma época da história humana anterior jamais suspeitou. Por outro lado, existem sintomas de decadência, superando em muito os horrores registrados nos últimos tempos do Império Romano. Este antagonismo entre a indústria moderna e a ciência, por um lado, a miséria e a dissolução modernas, por outro. Este antagonismo entre os poderes produtivos e as relações sociais de nossa época é um fato, palpável, avassalador e incontestável.

Assim, para o autor, os socialistas precisam abordar o Antropoceno como uma oportunidade de unir a análise marxista ecológica com as últimas pesquisas científicas em uma nova síntese: “Um relato socioecológico das origens, natureza e direção da crise atual”.

Voltaremos a comentar a obra.

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