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9 de janeiro de 2024

Distopia capitalista: do gemido ao estrondo

Distopia vem do grego e pode ser traduzida como um lugar ruim, mas imaginário. Há décadas, tornou-se tema favorito de filmes, peças, séries, livros e quadrinhos. Geralmente, ambientados em um cenário pré ou pós-apocalíptico.

Elementos clássicos dessas tramas ficcionais são enorme repressão estatal, robôs e dispositivos eletrônicos descontrolados, vigilância e controle cibernéticos da vida social, multidões de miseráveis, hordas de criminosos, a sociedade dominada pela lei do mais forte, pandemias, hecatombes naturais, crises climáticas, extinções em massa, insanidade mental generalizada, minúsculas elites ricas, poderosas e fortemente protegidas.

A questão é que esse lugar ruim já deixou de ser imaginário há muito tempo. É só olhar em volta: caos violento nas cidades, desemprego e precarização, ilhas de prosperidade em oceanos de miséria, truculência policial contra pobres, facções e milícias criminosas presentes tanto no contexto urbano, como rural. Tudo isso promovido por uma elite cada vez menor e mais poderosa.

São famosos os versos de T.S. Eliot, que afirmam: “É assim que o mundo acaba.\ Sem estrondo, num gemido.” Ou seja, diferente do que vemos nos filmes ou lemos nos livros, não há uma grande e definitiva hecatombe. Só o ruído de fundo do capitalismo funcionando, enquanto destrói grande parte da humanidade.

Mas o poeta estadunidense era branco e viveu no século 20. Bem antes disso, a distopia já era o cotidiano de grande parte da população não europeia ou anglo-saxã. Para muitos dos povos não brancos, o apocalipse das crenças religiosas da colonização branca chegou para ficar. E é com eles que temos que aprender a resistir e lutar. Respondendo com estrondo, não com gemidos.

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14 de novembro de 2023

O movimento negro na resistência à automação produtiva

Em um discurso feito em 1961 à maior central sindical estadunidense, Martin Luther King declarou: “O trabalho enfrenta hoje uma grave crise. Nos próximos dez a vinte anos, a automação transformará empregos em pó, à medida que reduz volumes inacreditáveis de produção”. King considerava que a automação era uma arma a ser usada contra o trabalho organizado: Inovações feitas “sob encomenda para aqueles que procuram levar o trabalho à impotência, atacando violentamente todos os seus pontos frágeis”.

Malcolm X, pelo contrário, argumentava que a ameaça da automatação justificava uma estratégia separatista. “Na melhor das hipóteses, os negros podem esperar das propostas de integração um ingresso nos níveis mais baixos de uma classe trabalhadora já privada de seus direitos pela automação”.

Enquanto isso, no Partido dos Panteras Negras, Eldridge Cleaver considerava que grande parte dos trabalhadores negros havia sido empurrada para a condição de lumpemproletariado “pelas máquinas, pela automação e pela cibernética”, representando “uma verdadeira contradição no interior do proletariado”.

Em 1972, os Panteras Negras atualizaram o último ponto de seu Programa de Dez Pontos, acrescentando o “controle comunitário das modernas tecnologias” às exigências de “terra, pão, habitação, educação, vestuário, justiça e paz”.

As informações acima estão no livro “Breaking Things at Work: The Luddites Are Right About: Why You Hate Your Job”, de Gavin Mueller. Em português, o título seria “Quebrando as coisas no trabalho: os luditas estão certos sobre por que você odeia seu trabalho”. Trata-se de um exaustivo estudo sobre a resistência dos trabalhadores às inovações tecnológicas que lhes são prejudiciais, incluindo sabotagem e destruição de maquinários.

Voltaremos a ele, em breve.

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