Doses maiores

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4 de novembro de 2022

Eu sou o Deus da tormenta e do sofrimento

“Eu sou o rei do mundo”, diz o livro “A Religião do Capital”, de Paul Lafargue, no capítulo em que o Capital se apresenta conforme segue abaixo.

Ando escoltado por mentiras, inveja, ganância, chicana e assassinato. Trago divisão na família e guerra na cidade. Semeio, onde quer que eu vá, ódio, desespero, miséria e doença.

O trabalhador não pode fugir de mim: se fugir de mim, ele atravessa as montanhas, encontra-me além das montanhas; se cruzar os mares, eu o espero na praia onde ele desembarca. O trabalhador é meu prisioneiro, a terra é sua prisão.

Encho os capitalistas com um bem-estar pesado, estúpido e rico em doenças. Eu emasculo física e intelectualmente meus escolhidos: sua raça está morrendo na imbecilidade e na impotência.

Encho os capitalistas com tudo o que é desejável e os castro com todo desejo. Encho suas mesas com pratos apetitosos e suprimo o apetite. Encho suas camas com moças e entorpeço seus sentidos. Todo o universo é sem graça, tedioso e cansativo para eles: eles bocejam suas vidas; eles invocam o nada e a ideia da morte os transita com medo.

Quando é do meu agrado e sem a razão capaz de ser sondada pelos homens, golpeio meus eleitos, precipito-os na miséria, no inferno dos assalariados.

Os capitalistas são meus instrumentos. Eu os uso como um chicote com mil tiras para açoitar seu estúpido rebanho. Elevo meus trabalhadores eleitos para a vanguarda da sociedade e os desprezo.

Eu sou o Deus implacável. Deleito-me no meio da discórdia e do sofrimento. 

Sou o Deus que conduz os homens e confunde sua razão.

Leia também: A teologia do Capital. Resistente, coerente, diabólica

13 de outubro de 2022

A teologia do Capital. Resistente, coerente, diabólica

“Quem são os eleitos do Capital” é o nome de um dos capítulos da versão do “Eclesiastes” bíblico, criada por Paul Lafargue em seu livro “A Religião do Capital”. Nele se destacam os “versículos” abaixo:

– O mineiro vive entre o gás venenoso e os deslizamentos de terra; o operário se move entre as rodas e correias da máquina de ferro; a mutilação e a morte estão diante do trabalhador; o capitalista que não trabalha está protegido de todo perigo.

– Não se tira vinho de pedra, nada se aproveita de um cadáver: exploram-se apenas os vivos. O carrasco que guilhotina um criminoso priva o capital de um animal a ser explorado.

– O patrão que faz os empregados trabalharem 14 das 24 horas não desperdiça o seu dia.

– Não poupe nem o bom nem o mau trabalhador, porque tanto o cavalo bom como o mau precisam da espora.

– A árvore que não dá fruto deve ser arrancada e queimada; o trabalhador que não traz mais lucros deve ser condenado à fome.

– O trabalhador que se revolta, alimenta-o com chumbo.

– Roubar grande e devolver pequeno é filantropia.

– O capitalista, libertário fanático, não dá esmola; pois isso priva os desempregados da liberdade de morrer de fome.

– Digo em verdade, há mais glória em uma carteira recheada de notas, do que no homem carregado de talentos e virtudes ou no burro carregando legumes no mercado.

Há muito mais verdades como estas na obra de Lafargue. Mas a amostra evidencia que o Capital inspira uma das religiões mais resistentes e coerentes. Como se ele fosse, assim, uma espécie de deus. Ou diabo.

Com essas doses profanas, as pílulas entram em breve recesso.

Leia também: Eclesiastes ou a Natureza do Deus-Capital

29 de setembro de 2022

Eclesiastes ou a Natureza do Deus-Capital

Em seu livro “A Religião do Capital”, Paul Lafargue cria seu próprio “Eclesiastes”. Na Bíblia, trata-se de uma série de pregações sobre as melhores condutas para a vida. 

Na versão do marxista franco-cubano e genro de Marx, tornou-se o “Livro do Capitalista”. Entre os seus muitos “ensinamentos”, seguem alguns do capítulo “Natureza do Deus-Capital”:

– Eu sou o Deus devorador de homens. Sento-me nas fábricas e consumo os trabalhadores. Eu transubstancio a vida insignificante do proletário em capital divino. Sou o mistério infinito: minha substância eterna é apenas carne perecível. Minha onipotência enfraquece a força humana. A força inerte do Capital vem da força do assalariado.

– Princípio dos princípios: toda produção começa comigo, toda troca termina comigo.

– Sou o Deus vivo, presente em todos os lugares: ferrovias, altos-fornos, grãos de trigo, navios, vinhedos, moedas de ouro e prata são os membros dispersos do Capital universal.

– Sou a alma incomensurável do mundo civilizado, com um corpo infinitamente variado e múltiplo. Vivo no que se compra e se vende. Ajo em todas as mercadorias e nenhuma existe fora da minha unidade de vida.

– Brilho ouro e cheiro estrume. Me alegro no vinho e corro no ácido.

– Vocês tocam, cheiram e saboreiam meu corpo, mas meu espírito mais sutil que o éter é evasivo aos sentidos. Minha mente é crédito. Para se manifestar, não precisa de um corpo.

– Entrego-me e retiro-me a meu bel-prazer e não presto contas. Sou o Onipotente que comanda as coisas que vivem e as coisas que estão mortas.

É isso. Quem quiser, siga-O como seu servo. Mas quem ainda tiver dignidade, que O enfrente.

Leia também: O catecismo do superávit público

21 de setembro de 2022

O catecismo do superávit público

Voltamos ao livro “A Religião do Capital”, de Paul Lafargue. Publicada em 1886, a obra nada sagrada e muito satírica mantém muito de sua atualidade.

Por exemplo, quando o catecismo dessa nova e poderosa religião laica ordena aos trabalhadores proceder da seguinte maneira em relação a suas economias: Levá-las às caixas econômicas do Estado para que possam ser utilizadas para cobrir os déficits do orçamento público. As quantias depositadas nas caixas de poupança são utilizadas para liquidar a dívida flutuante, que chega a muitos bilhões. Todos os anos, os superávits das contas públicas são usados para compensar os déficits do orçamento. Afinal, o Sr. Ministro das Finanças destacou o perigo que esta situação representa. O Estado pode falir caso os depositantes venham a reivindicar seu dinheiro.

Devemos sempre colocar nossas economias à disposição de nossos senhores, recomenda a doutrina. E nos resignarmos quando os filantropos das finanças, antecipando nossas demandas, nos anunciam que nossas economias se dissiparam em fumaça.

Enquanto isso, diz o texto sagrado, o capital nos concede a inocente distração de eleger legisladores que fazem leis para nos punir. Mas nos proíbe de nos ocupar com política e de dar ouvidos aos socialistas.

Nossos padres mais cultos, os economistas oficiais, dizem que a religião do capital existe desde o início do mundo. Mas como ela era ainda muito pequena, Júpiter, Jeová, Jesus e outros falsos deuses reinaram em seu lugar e em seu nome. Mas desde cerca do ano de 1.500, cresceu e continua a crescer em massa e poder. Hoje domina o mundo, arremata Lafargue.

Assim foi. Assim é...

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14 de setembro de 2022

O único deus que ainda não conheceu um ateu

Paul Lafargue era casado com Laura Marx, filha de Karl e Jenny. Sua obra mais conhecida é “O Direito à Preguiça”. 

Mas está sendo lançado no Brasil o livro “A Religião do Capital”. Publicada em 1886, a obra faz uma paródia satírica do sistema capitalista. Principalmente, de sua dominação impiedosa sobre os explorados e oprimidos.

Lafargue imagina a realização de um Congresso em Londres, no final do século 19, reunindo os mais poderosos homens do mundo a serviço do capital. O objetivo do encontro seria buscar os meios mais eficazes para deter a perigosa invasão das ideias socialistas.

Estão presentes governantes como Salisbury, Chamberlain e Randolph Churchill. Bismarck teria faltado por causa de uma crise alcoólica.

Também compareceram grandes industriais e banqueiros como Vanderbilt, Rothschild, Gould, Soubeyran, Krupp, Dietz-Monin, Schneider...

Em certo momento, um dos participantes declara com ênfase:

A única religião que pode atender às necessidades do momento é a religião do Capital. O Capital é o verdadeiro Deus, presente em todos os lugares, manifesta-se em todas as formas – é ouro deslumbrante e migalha fedorenta, rebanho de ovelhas e carregamento de café, estoque de Bíblias sagradas e fardos de gravuras pornográficas, gigantescas máquinas com grandes chassis ingleses. O capital é o Deus que todos conhecem, veem, tocam, cheiram, provam. Ele existe para todos os nossos sentidos. Ele é o único Deus que ainda não conheceu um ateu.

Cristãos, judeus e adeptos de outras religiões bateram palmas e gritaram: "Tem razão. O capital é Deus, o único Deus vivo!"

Há uma versão integral, em francês, aqui. Em breve, mais trechos desse texto instigante.

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