Doses maiores

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29 de julho de 2016

Cuba a um passo de um grave retrocesso

O escritor cubano Leonardo Padura publicou em 16/07, na Folha, o artigo “Período Especial outra vez?”. Ele refere-se a um momento terrível na história de Cuba, durante a década de 1990, por ele assim descrito:

Cortes de eletricidade prolongados, escassez de alimentos, paralisação praticamente total do transporte público, inflação incontrolável –essas foram algumas das realidades do país durante anos em que Cuba ficou economicamente só, antes e depois do desaparecimento da URSS e sob a pressão então aumentada do embargo norte-americano...

A ameaça de retorno de dificuldades tão grandes se deveriam à crise por que passa a Venezuela, principal parceira econômica da ilha e sua maior fornecedora de petróleo. O país de Chávez seria uma espécie de sucessora da União Soviética na relação de dependência externa de que a economia cubana nunca conseguiu se livrar.

O mais triste disso tudo é que o maior candidato a herdar a economia da ilha como sua dependente é exatamente o imperialismo estadunidense. O mesmo que 70 anos atrás usava Cuba como seu prostíbulo particular até que a Revolução acabou com a humilhação.

O governo americano parece estar trocando sua política criminosa de bloqueio a Cuba pelo abraço mortal de um urso. É muito provável que o preço a ser pago por alguns poucos investimentos na ilha seja uma invasão pacífica, mas fatal para sua autonomia econômica e conquistas sociais.

Infelizmente, um desfecho tão triste deverá ser obra do próprio regime, com os Castros à frente. Uma tragédia de que os socialistas precisam tirar as mais duras lições.

Leia também: Cuba: de volta aos bordéis?

18 de dezembro de 2014

Asterix e Cuba

Por volta do ano 50 antes de Cristo, o Império Romano dominava quase toda a Gália, atual França. Só uma pequena aldeia resistia. Liderados por Asterix e fortalecidos por sua poção mágica, os destemidos aldeões davam verdadeiras surras nos legionários romanos.

Estamos falando dos famosos quadrinhos de Albert Uderzo e René Goscinny, claro. Mas uma de suas aventuras ganhou um interesse especial nos últimos dias. Em “Obelix e Companhia”, César envia um personagem chamado Velhacus para a aldeia rebelde com a missão de derrotá-la por meios não militares.

Com bolsas cheias de dinheiro, Velhacus chega à aldeia e começa a comprar aos montes os menires que Obelix produz. Quando este já não dá conta da produção, contrata outras pessoas para ajudá-lo. O resultado é a concentração das atividades dos aldeões em torno da fabricação de menires.

A economia local se desorganiza totalmente. O peixeiro já não pesca para ajudar na produção de menires. O mesmo acontece com o ferreiro, o caçador, o agricultor, etc. Até as mulheres abandonam seus afazeres domésticos, causando crises familiares.

Quem quiser saber o final da aventura, deve ler o excelente álbum de Uderzo e Goscinny. O propósito desse relato aqui é lembrar que há muito tempo, nos Estados Unidos, há quem defenda um modo mais eficiente de acabar com o regime cubano do que o embargo econômico.

Bastaria estabelecer as mais amplas relações comerciais com a ilha. A presença abundante de produtos e serviços colocaria rapidamente por terra um sistema que há 50 anos resiste ao império mais poderoso da história. Contra tal ameaça, não haveria poção mágica que resolvesse.

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25 de fevereiro de 2013

Um barulho que convém à blogueira cubana

Muito boa a coluna “Uma blogueira do barulho” de Luciano Martins Costa para o Observatório da Imprensa, edição de 21/02. O texto diz que a grande imprensa brasileira tenta transformar a cubana Yoani Sanchez “na única voz livre” em seu país.

Segundo Martins, em Cuba, há pelo menos “uma centena de jornalistas, escritores e intelectuais que discutem abertamente a situação criada pelo isolamento do país”. Ele destaca a revista Voces. Disponível na internete (http://vocescuba.com), a publicação traz textos com fortes críticas ao governo cubano sem fazer o jogo do imperialismo.

Ou seja, diz Luciano, a “blogueira pop” não é a principal representante da dissidência intelectual cubana. E conclui brilhantemente: “Yoani é o barulho que a imprensa brasileira faz, para que outras vozes cubanas não sejam ouvidas”.

Mas também seria importante destacar um ponto em que imprensa burguesa e grande parte da esquerda coincidem. Ao insistir no caráter socialista de Cuba, ambos transformam a heroica resistência de seu povo num espantalho usado pela direita.

Devemos condenar e denunciar o criminoso bloqueio estadunidense à Ilha. A luta de seu povo merece todo o nosso apoio. Mas o regime estagnou em posições autoritárias desde que Cuba se tornou dependente da União Soviética nos anos 60.

O colapso do império soviético quebrou de vez o cambaleante capitalismo estatal cubano. O acúmulo de precariedades e desigualdades vai aniquilando qualquer possibilidade de construir uma sociedade justa e próspera.

A resposta do regime a tudo isso tem sido a rendição aos mecanismos de mercado. Ou encaramos isso ou corremos o risco de também fazer um barulho que convém a Yoani e ao imperialismo.

6 de janeiro de 2013

“Nosso imperialismo” chega a Cuba

“Odebrecht chega a Cuba”, diz Fernando Caulyt em reportagem publicada no Deutsche Welle, em 03/01. A empreiteira brasileira recebeu a concessão de uma empresa açucareira por 13 anos. Trata-se do primeiro investimento estrangeiro no setor agrícola desde a Revolução de 1959. Seria a “abertura do agronegócio no país”, segundo o artigo.

Especialistas divergem sobre o real significado da medida. Mas o professor da Universidade de Brasília, Carlos Eduardo Vidigal, é otimista. Ele acredita numa abertura progressiva e calculada ao mercado internacional. E cita como exemplo a China, que teria desenvolvido “seu projeto de potência econômica sem abandonar o comunismo".

O fato é que os cubanos precisam encontrar uma saída para uma crise que já dura décadas. Não apenas devido ao criminoso boicote estadunidense. A ilha está pagando um preço muito elevado pela equivocada dependência em relação à falecida União Soviética.

Mas apostar no caminho chinês não é a saída. A China tornou-se uma potência econômica às custas de trabalho superexplorado, direitos mínimos e pouca liberdade. Quase tudo para benefício das poderosas multinacionais lá instaladas. De comunismo, só o nome fantasia.

A matéria diz que a empreiteira brasileira já executa obras no valor de mais de 900 milhões de dólares no porto de Mariel. E 85% do projeto são financiados pelo BNDES. Parcerias como esta já fazem estragos aqui, no restante da América Latina, além de Oriente Médio e África. É uma das alavancas do terrível “imperialismo jr.” brasileiro.

O governo dos Estados Unidos pode ficar tranquilo. Parece que seu parceiro na invasão do Haiti também começa a ajudá-lo em Cuba.

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26 de janeiro de 2012

Cuba: de volta aos bordéis?

O Globo de hoje traz a matéria “Turismo em capacidade máxima na ilha”, referindo-se a Cuba:
O país vem vivendo a melhor temporada turística registrada nas últimas décadas: no ano passado, o número de visitantes estrangeiros chegou a um recorde de 2,7 milhões.
Nos anos 1950, as principais cidades cubanas funcionavam como bordéis em que americanos e europeus se lambuzavam. A população urbana vivia das migalhas que sobravam desses bacanais. Na chefia da zona estavam Fulgencio Batista e seu governo cheio de gângsteres.

A revolução liderada por Fidel e Che acabou com isso. Possibilitou ao povo cubano um mínimo de dignidade. A prostituição não acabou. O próprio Fidel admitiu isso, fazendo uma ressalva: “todas as prostitutas cubanas têm nível superior”. Uma referência meio exagerada às conquistas sociais da revolução.

A Revolução Cubana começou a ser derrotada quando a ilha tornou-se satélite da União Soviética. Cercado pelo criminoso bloqueio econômico americano, o país tornou-se mais um peão no tabuleiro da Guerra Fria. Pagou um preço alto: continuou a ser uma economia dependente.

A União Soviética acabou e Cuba mergulhou numa crise que dura até hoje. Um dos caminhos para sair dela tem sido a exploração de suas belezas pela indústria do turismo. Uma atividade que costuma aumentar a desigualdade social.

O setor turístico cubano trabalha com o peso conversível. Ele vale um dólar. E este equivale a cerca de 25 pesos cubanos. Ou seja, há um setor econômico que negocia valores muitas vezes superiores em relação ao restante da economia. Receita certa para uma rápida concentração de renda.

Tudo indica que os grandes bordéis estão voltando rapidamente a Cuba. É uma pena constatar tão duramente a impossibilidade de construir o socialismo nos limites de um país.

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10 de setembro de 2010

Um assentamento chamado Cuba

Fidel Castro teria negado o socialismo, dizem alguns jornais. Na verdade, ele se referiu ao atual modelo econômico de Cuba. Não ao que ele chama de socialismo.

Mas o fato é que a esquerda brasileira precisa discutir melhor a experiência cubana. Não apenas defendê-la e fazer lhe elogios irrestritos.

Talvez, pudéssemos comparar Cuba a um assentamento de trabalhadores rurais. Uma trincheira formada por homens e mulheres organizados solidariamente. Dispostos a lutar por seus direitos e pela liberdade. Tudo muito parecido com Cuba.

Um assentamento sofre ataques pesados e covardes do latifúndio e do Estado. O povo cubano é vítima do imperialismo. Numa ocupação, a ameaça dos inimigos obriga à adoção de forte disciplina e respeito às lideranças. É o que ocorre com o povo cubano, sua disciplina quase militar e obediência míope a Fidel Castro.

A direção do MST se declara socialista. Mas, os assentados lutam pelo direito de produzir e vender para o mercado. O governo cubano afirma que a ilha já vive no socialismo. Mas abriu-se para o turismo e luta para se integrar à economia mundial.

O capitalismo é um sistema global. Invade, corrói, massacra cada pedaço do planeta. Seus valores e lógica se impõem tanto num assentamento como em Cuba. Num caso e no outro, não se trata de socialismo. Nem de transição a ele. É resistência.

Por isso, não pode haver dúvidas. Todos os verdadeiros revolucionários devem defender Cuba, tanto quanto defendem o MST.

Mas é preciso superar os limites ideológicos que os inimigos impõem. O socialismo só pode ser construído de baixo pra cima. Fruto da luta internacional dos trabalhadores. Com formas coletivas e solidárias de produção. Sob o governo de organizações populares. Caminho seguro para uma comunidade mundial formada por pessoas livres das amarras econômicas, hierarquias e opressões.