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22 de fevereiro de 2024

A aposta de 1 bilhão de dólares na barbárie

Em 16/02/2024, Pedro Doria publicou o artigo “Como lidar com riqueza digital?”. Segundo o texto, recentemente Sam Altman, alto executivo da empresa de Inteligência Artificial OpenAI, deu uma entrevista em que declarou:

No meu grupo de chat com outros executivos de tecnologia temos um bolão para ver quem acerta o ano em que teremos a primeira empresa que vale US$ 1 bilhão com uma só pessoa.

Em seguida, o colunista explica que até 20 anos atrás, companhias avaliadas em US$ 1 bilhão tinham “parques fabris espalhados pelo planeta e centenas de milhares de funcionários”.

Já as atuais corporações tecnológicas que chegaram ao US$ 1 bilhão empregam somente algumas dezenas de milhares de trabalhadores. Agora, a utilização da inteligência artificial possibilitaria criar firmas com valor de mercado bilionário, empregando uma única pessoa, seu proprietário.

O articulista afirma que tais companhias poderiam ser pesadamente taxadas. Desse modo, financiariam um programa de renda mínima universal para socorrer os que tiverem seus empregos eliminados. Só que essa conta não fecha. O mesmo neoliberalismo que incentivou a criação dessas enormes corporações eliminadoras de empregos é especialista em transferir a carga fiscal do grande capital para os trabalhadores.

Claro que ainda há diversas atividades que exigem muita força de trabalho humana. Mas que a atual vanguarda tecnológica da economia capitalista trabalhe para aumentar ainda mais a concentração de patrimônio e riqueza mostra o tipo de sociedade que pretende construir.

E confirma que o propósito maior da inteligência artificial é descartar trabalho humano, contribuindo para condenar grandes parcelas da população ao subemprego, superexploração e desemprego.

A verdadeira aposta é na barbárie.

Leia também: Inteligência artificial e trabalho mal pago

17 de março de 2023

Demissões, barbárie e fascismo

Em 09/03/2023, a Meta, controladora de WhatsApp, Facebook e Instagram, anunciou uma “reestruturação global”. Nome pomposo para medidas que pretendem demitir 11 mil funcionários, ou 13% de sua força de trabalho.

Após o anúncio das demissões, as ações da Meta, que acumulavam queda de 70% na bolsa Nasdaq, de Nova York, começaram a subir e fecharam em alta de 5%.

A mera perspectiva de demissões em massa bastou para que o “mercado” recuperasse a confiança na corporação responsável pelas dispensas. Segundo os critérios empresariais, colocar gente no olho da rua é demonstração de eficiência e deixa os acionistas muito felizes.

E isso não vale apenas para o monopólio das redes virtuais. Há muitos anos, os neoliberais dizem que um elevado nível de desemprego é saudável para a economia. Ajuda a manter os salários baixos e o mercado estável.

As consequências desse lógica, como precariedade, desigualdade, injustiça, sofrimento e miséria, não interessam. Elas não aparecem nos balanços empresariais.

Nesse momento, é importante lembrar que, no “Mein Kampf”, Hitler afirmou que a luta de classes não é inerente ao capitalismo. Segundo o genocida alemão, os conflitos classistas só começaram quando surgiu o capital por ações. Essa inovação financeira teria destruído a ligação pessoal que até então unia patrões e trabalhadores.

Tudo isso não passa de um delírio. Nunca houve uma ligação pessoal entre patrões e trabalhadores que não passasse pela exploração. Mas é um delírio que o capitalismo reforça, criando um estado de barbárie social. Essa lógica desumana e irracional do ponto de vista dos interesses da grande maioria abre avenidas para o avanço do fascismo.

Leia também: Capitalismo: merda em todo lugar ao mesmo tempo

6 de agosto de 2019

O banqueiro cínico. Ou descarado, mesmo

Há quem entenda o conceito de cinismo com o significado de dissimulação maldosa. Uma espécie de hipocrisia. Mas a origem do termo que remonta à Grécia Antiga é praticamente o oposto disso.

Cinismo tem raiz na palavra grega para cão. Segundo os adeptos dessa concepção de mundo, deveríamos viver como nossos amigos caninos, sem ligar para convenções sociais.

Deveríamos ser autênticos, manifestando livremente nossas ideias e desejos. Desprezando comodidades, riqueza, prestígio. Vivendo, enfim, uma vida sem falsidades.

Vamos a um exemplo prático. O presidente do Itaú, Candido Bracher, concedeu entrevista a Josette Goulart, que a publicou na Folha em 30/07/2019.

O título do depoimento destacou o fato de que Bracher não vê como prejudiciais para a aprovação das “reformas” as “declarações polêmicas” de Bolsonaro. Mas é o trecho abaixo que deveria inspirar uma manchete em letras garrafais:

Destacou ainda que o nível elevado de desemprego, hoje na casa de 12%, permite crescimento sem impacto sobre a inflação. “Quando tem fator de produção sobrando tanto, significa que podemos crescer sem pressões inflacionários”, afirmou.

“Isso deixa a situação macroeconômica do Brasil tão boa quanto nunca vi na minha carreira”, disse. Bracher tem experiência no setor financeiro, onde atua há quase 40 anos. “Tudo isso que me faz ser otimista no curto e médio prazo”.

Seria este um bom exemplo de cinismo? Sem dúvida. Principalmente, se o entendermos em seu sentido mais ordinário, como sinônimo de descaramento, desfaçatez, desprezo pelas normas da vida em sociedade.

No caso em questão, mais do que descaramento, talvez se trate de mau-caratismo, mesmo. Aliás, bastante condizente com os terríveis tempos em que vivemos.