Liderança nacional dos quilombolas, Antônio Bispo dos Santos se considera um tradutor. Um tradutor da esfera da escrita colonialista para o mundo da oralidade dos povos tradicionais.
Para ele, não se trata de “decolonizar” a sociedade, mas de “contracolonizar”:
Nós estabelecemos uma fronteira entre o nosso mundo e o mundo colonizador. Até aqui os colonizadores chegaram, daqui não passarão. Podemos até negociar, mas não vamos ceder mais território do que já nos tiraram. E seria bem melhor para vocês, do mundo colonialista, aprenderem com a gente. Aprenderem a se integrar com a natureza, ao invés de querer conquistá-la e esgotar suas forças e energia. Porque isso está se voltando contra vocês.
Bispo foi buscar na Bíblia o entendimento do que é o mundo “eurocristão”. Quando Deus expulsa a humanidade do Éden, diz ele, cometeu o primeiro ato terrorista. Trata-se de uma “cosmofobia” baseada no pânico e na violência. Difícil discordar dele diante do recente assassinato de Mãe Bernadete.
No Paraíso ficaram as outras criaturas. Para Bispo, esse rompimento de nosso relacionamento com os outros animais é um pilar do colonialismo e explica a perseguição aos povos tradicionais, que se veem como parte da natureza.
Ele faz afirmações provocativas. Entende que Estado, partidos e sindicatos carregam o colonialismo em suas estruturas. Por isso, os governos reproduzem essa lógica, sejam de direita, sejam de esquerda.
Admite que Bolsonaro e Lula são muito diferentes. Mas representariam graus distintos da mesma dominação colonialista.
Essas e outras declarações estão em entrevista concedida por ele ao podcast da Ilustríssima. Vale a pena submeter nossas certezas a essa outra tradução do mundo.
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