Doses maiores

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1 de dezembro de 2016

Contra o reformismo, trabalho de base

Encerrando os comentários sobre “O mito da Aristocracia Operária”, de Charles Post, é importante destacar o que o autor considera ser o ponto de partida para a criação das condições materiais e ideológicas no enfrentamento do reformismo entre os explorados.

Trata-se da necessidade de promover a auto-organização dos trabalhadores e sua auto-atividade. Principalmente, nas lutas iniciadas nos locais de trabalho, mas não limitadas a eles. Uma atividade que deve incluir também o combate a valores conservadores como racismo, machismo, homofobia, xenofobia...

Além disso, é preciso superar os obstáculos criados pela burocracia sindicais, partidárias e de outras organizações populares. Ainda que utilizem um discurso combativo, a estes setores interessa a manutenção da ordem para a perpetuação de seus privilégios.

As maiores ameaças continuam a vir do institucionalismo paralisante. De um lado, pesadas estruturas que engessam a luta. De outro, a priorização da atuação eleitoral.

Estamos falando, claro, do bom e velho trabalho de base, de baixo para cima. Sempre acompanhado da disposição de estar presente em todas as frentes de luta contra a opressão e a exploração capitalistas. Não apenas nas lutas econômicas, mas em defesa dos direitos e da ampliação das liberdades para amplas maiorias.

Na verdade, foi essa combinação que permitiu que as grandes revoluções acontecessem, desde a Comuna de Paris até as jornadas revolucionárias mais recentes.

Tudo isso, porém, implica respeitar a capacidade crítica de que são capazes os setores explorados e oprimidos. Estes, quando se mobilizam, avançam para muito além do que podem nossas vãs teorias. Somente assim seremos capazes de tornar a luta por reformas um caminho sem volta pela revolução. 

30 de novembro de 2016

Senso comum, reformismo e revolução

Em “O mito da Aristocracia Operária”, Charles Post cita a definição do militante socialista estadunidense Kim Moody sobre o senso comum da classe trabalhadora. Para ele, não se trata de "uma ideologia capitalista consistente", mas:

Uma coleção contraditória de ideias antigas herdadas, outras aprendidas através da experiência diária, e ainda outros geradas pela mídia capitalista, pelo sistema de educação, pela religião, etc. Não é simplesmente uma visão que só vê uma nação tranquilizada pela TV e por fins de semana em shoppings. "O senso comum" é tão profundo e contraditório porque também incorpora experiências que vão na contramão da ideologia capitalista.

Antônio Gramsci também identificava no senso comum “uma concepção fragmentária, incoerente, inconsequente...”. E, tal como Moody, considerava possível surgir de toda essa confusão elementos capazes de desmascarar a dominação capitalista.

Por outro lado, essas contradições também são utilizadas para justificar o reformismo. Afinal, diante dos terríveis impactos sociais do capitalismo, o senso comum se apega à ideia que a sociedade humana sempre foi e sempre será assim. Somente seria possível reformá-la, portanto.

O problema é que não se dá combate a esse conformismo fazendo uso apenas de clareza teórica e habilidades retóricas. As contradições acontecem na vida concreta dos explorados e oprimidos. E é neste nível que elas podem dar origem ao que Gramsci chamou de “bom senso” popular. Uma outra organização de ideias, valores, experiências capazes de preparar a reação revolucionária.

Foi assim que se construíram a maiores revoluções populares. É preciso aprender com estas experiências para construir novas. Sempre coletivamente e a partir de baixo.

Na próxima pílula, o fechamento provisório desta discussão.   

Leia também: A aceitação do reformismo entre os explorados

29 de novembro de 2016

A aceitação do reformismo entre os explorados

Continuamos a comentar o artigo “O mito da Aristocracia Operária”, em que Charles Post recusa a tese de que o reformismo é produto da influência de uma pequena parcela, qualificada e bem paga, dos trabalhadores.

Trata-se, na verdade, diz o autor, de um fenômeno político que ganha as mentes do conjunto da classe trabalhadora. E isso acontece, afirma ele, porque “em tempos normais”, ou seja, sem crises, a grande maioria dos explorados aceita as regras da competição capitalista.

Marx já havia dito que um dos maiores obstáculos para a libertação do proletariado é a competição e hostilidade reinante em seu próprio interior. Desde o racismo e o preconceito contra imigrantes até a ação dos “fura-greves”, essas fissuras se multiplicam constantemente.

Elas surgem a partir do nível mais estrutural do funcionamento capitalista. Mas são reforçadas e reproduzidas incessantemente pelos aparelhos hegemônicos da burguesia, como escolas, igrejas, grande mídia, mas também em sindicatos, associações e partidos.

Por isso, os marxistas sempre defenderam a necessidade da organização política dos trabalhadores. Para que condições econômicas e contingências sociais deixem de dividir os explorados. Para que sua unidade aconteça no nível ideológico, desmascarando as ideias dominantes e afirmando o socialismo como única saída.

O grande problema é que o terreno político também está cheio de armadilhas. Principalmente, quando se trata de intervir no campo institucional. É nele que ficamos mais perto do inimigo e a intervenção militante pode ser corrompida, não apenas por dinheiro, mas também pela acomodação aos favores do poder.

Para tentar evitar esses riscos, Post apresenta algumas propostas. É o que veremos nas próximas pílulas.

28 de novembro de 2016

Aristocracia operária e luta burocratizada

Em seu artigo “O mito da Aristocracia Operária”, Charles Post afirma que o reformismo não seduz apenas uma parcela pequena, qualificada e bem paga dos trabalhadores. Também atrai a simpatia de grande parte da classe.

Para começar a entender, citemos as seguintes palavras do autor:

...a maioria dos trabalhadores, na maior parte do tempo, está empenhada na luta para vender sua capacidade individual de trabalho e garantir sua reprodução e a de suas famílias - e não na luta coletiva contra os patrões e o Estado. Os trabalhadores "realmente existentes" só se envolvem em lutas de massas como classe em situações extraordinárias, revolucionárias ou pré-revolucionárias. Devido à posição estrutural do trabalho assalariado sob o capitalismo, seu envolvimento em lutas radicais de contestação acontece em momentos de curta duração. E, na maioria das vezes, diferentes segmentos da classe trabalhadora desempenham um papel ativo na luta contra o capital em momentos diferentes.

Mas, segundo Post, na esteira das lutas vitoriosas, uma minoria de trabalhadores continua ativa. Muitos assumem tarefas administrativas nas organizações que surgem das lutas: sindicatos, partidos, associações...

Esta parcela se afasta dos locais de trabalho e passa a viver de modo muito diferente do restante dos trabalhadores. Torna-se uma camada burocrática que só mantém suas vantagens se a dominação capitalista permanecer intacta. Sob sua liderança, as lutas só podem avançar até certos limites. Reformar o capitalismo? Talvez. Destruí-lo, jamais.

Mas se tudo isso ajuda a entender porque o reformismo persiste entre os setores da “vanguarda” dos trabalhadores, é insuficiente para explicar sua força no restante da classe.

É o que veremos na próxima pílula.

Leia também: Mais sobre reformismo e aristocracia operária

25 de novembro de 2016

Mais sobre reformismo e aristocracia operária

Voltando à ligação entre o surgimento da chamada “aristocracia operária” e o reformismo, mais um texto que nega esta relação é “O mito da Aristocracia Operária”, de Charles Post, publicado em 2003, ainda sem tradução do inglês

Utilizando dados estatísticos, o artigo mostra que é verdade que a exploração imperialista sobre os países periféricos pode resultar em mais empregos e melhores salários para a classe trabalhadora dos países centrais.

Mas o texto nega a ideia de que apenas um pequeno setor dos trabalhadores seria beneficiado. Mais precisamente, aqueles que se “venderiam” aos capitalistas e constituiriam uma “aristocracia” disposta a aceitar uma espécie de “cala-boca” dos patrões.

Outro mito recorrente atribui aos setores operários mais bem pagos uma certa indisposição para a luta. Post lembra nada mais, nada menos, que foi exatamente este tipo de trabalhador que formou a espinha dorsal da vanguarda russa de 1917.

Além disso, cita outros exemplos semelhantes em processos de resistência revolucionária em lugares e momentos tão diferentes como França, Itália, Inglaterra, Chile, Portugal nos anos 1960 e 1970. Ou Polônia, Brasil, Argentina, Venezuela, Bolívia nos anos 1980 e 1990. Em todos esses casos, foram trabalhadores dos ramos mais desenvolvidos que encabeçaram as lutas mais radicais.

Dessa maneira, Post confirma algumas conclusões do artigo de Tony Cliff, já comentado aqui.

O fato é que o reformismo costuma contar com a simpatia de grande parte dos explorados e oprimidos. Portanto, é ilusório pensar que a denúncia e o combate a uma camada de trabalhadores cooptados bastariam para abrir caminho a propostas revolucionárias.

Na próxima pílula, continuaremos tentando entender por que isso acontece.

Leia também: O reformismo conquista multidões

26 de outubro de 2016

O reformismo conquista multidões

No artigo “As raízes econômicas do reformismo”, Tony Cliff considera equivocado explicar a origem do reformismo pelo conceito de “aristocracia operária”.

Este conceito foi utilizado por Lênin para descrever uma pequena parcela dos trabalhadores, principalmente os de maior qualificação. Ao desfrutar de melhores condições salariais, essa parcela acabaria defendendo os interesses da burguesia no interior da classe operária.

Essa hipótese pressupõe que na fase imperialista do capitalismo seria possível promover uma melhora substancial nas condições salariais de alguns poucos setores de trabalhadores.

Para testar essa hipótese, Cliff compara os salários dos trabalhadores qualificados e não qualificados entre as duas guerras mundiais na Grã-Bretanha, com sua economia “avançada”, e na Romênia, “país economicamente atrasado”. Descobre que há pouca diferenciação salarial entre os dois grupos nos dois países.

Cliff também compara as condições de vida dos trabalhadores na Grã-Bretanha (de 1957) com o cenário descrito em 1845 por Engels em “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”. As condições melhoraram muito, mas, de novo, de modo generalizado.

Para o autor, a expansão imperialista do capital tornou possível aos sindicatos e partidos operários arrancarem concessões para os trabalhadores sem maiores ameaças ao sistema. Daí o surgimento de “uma grande burocracia reformista” capaz de bloquear o “desenvolvimento revolucionário da classe trabalhadora”. Sua principal função é a de servir como intermediária entre trabalhadores e patrões, negociando acordos entre eles e mantendo “a paz entre as classes”.

Ou seja, o reformismo ganha largas parcelas dos trabalhadores, não apenas alguns de seus setores. Para derrotá-lo não basta combater as burocracias, mas disputar a hegemonia junto à classe como um todo. Voltaremos ao tema.

Leia o artigo original, aqui (em inglês)

Leia também: Aristocracia operária e reformismo

25 de outubro de 2016

Aristocracia operária e reformismo

A profunda crise por que passa o PT pode dar esperanças à esquerda revolucionária de que as políticas reformistas finalmente sejam abandonadas. Mas mesmo uma derrota esmagadora do projeto petista não significaria necessariamente o fim do reformismo.

Para começar, o reformismo não resulta apenas de uma escolha feita por direções políticas “traidoras”, “vacilantes”, “moderadas”, “vendidas”. Esta visão decorre da concepção que Lênin popularizou sobre esse fenômeno político cujos limites se mostram cada vez mais evidentes.

Para ajudar a entender melhor essa questão, um bom texto é “As raízes econômicas do reformismo” publicado pelo marxista Tony Cliff, em 1957. O artigo lembra que Lênin define o reformismo como "a adesão de uma seção da classe trabalhadora à burguesia contra a massa do proletariado".

A esta camada de “operários burgueses” Lênin chamou de "aristocracia operária". Uma pequena parcela dos trabalhadores cujos ganhos seriam superiores aos da maioria da classe graças aos superlucros proporcionados pela fase imperialista do capitalismo.

Os principais alvos desse “suborno” de classe seriam os trabalhadores mais especializados, presentes em setores estratégicos da economia.

Seguindo esta formulação muitas correntes socialistas revolucionárias acreditam que seria suficiente romper essa “crosta” oportunista para que a lava vulcânica da revolução viesse à superfície, mandando pelos ares a dominação burguesa.  

O problema, diz Cliff, é que a história do reformismo na Grã-Bretanha, Estados Unidos e em outros lugares “ao longo do último meio século” demonstraria que a tese de Lênin sobre a aristocracia operária como base de apoio ao reformismo não se sustenta.

Na próxima pílula, mostraremos algumas evidências que Tony Cliff utiliza para provar essa sua ousada afirmação.  

Leia o artigo original, aqui (em inglês)

Leia também: O reformismo a caminho da barbárie