Doses maiores

Mostrando postagens com marcador jornadas de junho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jornadas de junho. Mostrar todas as postagens

3 de julho de 2023

Sobre toupeiras, serpentes e águias

Em recente artigo sobre Junho de 2013, Vladimir Safatle discute a hipótese de que “a característica política mais relevante do século 21 foi uma impressionante sequência de insurreições populares de luta contra o capital e de recuperação paulatina da soberania das massas espoliadas”.

O autor cita eclosões populares como aquelas ocorridas desde 2010, com Occupy Wall Street, Primavera Árabe, manifestações em Madri e Istambul, o próprio Junho de 2013, os Coletes Amarelos na França, até chegar às grandes marchas de 2019, em Santiago do Chile.

Mas há até quem identifique o início desse processo nos protestos de Seattle, em 1999, e lembre também as manifestações contra a Guerra do Iraque, em 2003.

Neste exato momento, chama a atenção do mundo uma grande revolta que vem ocorrendo nos subúrbios de Paris.

Tudo isso faz pensar na metáfora da toupeira, muito utilizada por Marx. Tal como aquele animal, dizia ele, o processo revolucionário ocorreria nos subterrâneos da sociedade e irromperia do solo nos lugares e momentos mais inesperados.

Além disso, o bicho também representaria a militância cotidiana. Persistente, pouco gloriosa e voltada para a união das forças que lutam contra a exploração e a opressão a partir de baixo.

Ao mesmo tempo, a toupeira é nossa melhor aposta contra o fascismo. Enquanto ela abre seus caminhos sob a terra, aproveita para destruir os ninhos de ovos de serpente que encontra pela frente.

Águias, falcões e gaviões são bonitos e impressionantes. Mas costumam simbolizar a rapina das classes dominantes e voam distantes dos perigos que ameaçam a maioria cá embaixo. Sem falar que também botam uns ovos muitos suspeitos.

Leia também: Junho de 2013 como final de uma longa onda progressista

22 de junho de 2023

Junho de 2013 como final de uma longa onda progressista

Retomando as contribuições de Rudá Ricci para o debate sobre Junho de 2013, vale a pena ler um recente artigo de autoria dele. Principalmente, quando cita o que chamou de “ciclo virtuoso do final do século XX”, referindo-se à década de 80, quando surgiram PT, CUT e MST no Brasil. Três grandes forças forjadas nas grandes lutas contra a ditadura de 64.

O período é lembrado porque, para o sociólogo, 2013:

...pode ser compreendido como o estertor da onda progressista inaugurada na década de 1980. Não como o desaguadouro do movimento surgido com a Nova República, mas como sua negação, retomando parte da ousadia dos movimentos sociais daquela década. Lembremos que aqueles movimentos surgidos nas últimas duas décadas do século XX eram anti-institucionalistas, pregavam a radical autonomia frente aos governos e partidos e adotavam uma agenda de radicalização da democracia e controle social sobre as políticas públicas. Algo que ressurgiu nos discursos difusos de junho de 2013.

O que parecia uma mobilização potente, possivelmente foi um suspiro final da onda progressista iniciada na transição democrática. Suspiro sufocado em plena democracia, sob comando de um partido progressista que governava o país pela terceira vez consecutiva.

Ora, fenômenos sociais desse tipo jamais se acabam simplesmente. Sua superação acontece de forma dialética, na qual alguns de seus elementos se esgotam, outros mudam de forma e novos vêm à luz.

Nosso desafio maior é descobrir nesse processo os elementos capazes de apontar caminhos para a transformação social aqui e agora, ao invés de nos dedicar a acusações paranoicas e caças às bruxas entre as próprias fileiras da esquerda socialista.

Leia também: Junho de 2013: serpentes e possibilidades

19 de junho de 2023

Junho de 2013: serpentes e possibilidades

Junho de 2013 foi um acontecimento objetivo da luta de classes. Iniciado por movimentos como o da luta pelo Passe Livre, a dimensão gigantesca que suas manifestações assumiram não foi resultado da ação de nenhum ator político.

As forças que participavam dos acontecimentos não conseguiram ou não pretendiam imprimir-lhes uma direção centralizada ou pauta unificada. Mas seu perfil de esquerda era inegável.

Se a situação econômica era relativamente estável, não se podia dizer o mesmo das lutas sociais. Em 2013, o número de greves no país atingiu o maior índice em décadas. Mas nem a esquerda governista nem a oposicionista conseguiram transformar essa elevada temperatura sindical em apoio a seus respectivos projetos.

Elemento fundamental era uma sociedade com uma enorme demanda represada por justiça social frente a uma estrutura de dominação totalmente avessa a tal pretensão. Mesmo a chamada “inclusão pelo consumo” promovida pelo projeto petista mostrou-se tão inaceitável pelos de cima como insuficiente diante dos anseios vindos de baixo.

Outro elemento objetivo era um partido de esquerda ocupando a presidência da república há uma década. Refém e cúmplice do pacto pela “governabilidade”, a reação do petismo oficial foi truculenta e intolerante.

Junho surpreendeu a esquerda moderada e a radical; a direita tradicional e sua ala selvagem. Mas somente esta última saberia explorar, nos anos seguintes, as contradições expostas pelos acontecimentos de 2013.

Tudo isso mostra que menos que ovos de serpente, havia muitas possibilidades promissoras que foram pisoteadas. Ignorar toda essa complexidade nos levará a cometer erros ainda mais graves na eventualidade nada desprezível de outro Junho acontecer.

Leia também: Junho de 2013: o ovo de quatro estrelas

16 de junho de 2023

Junho de 2013: o ovo de quatro estrelas

Momento definidor da intervenção política das Forças Armadas no caminho da ascensão de Bolsonaro ao poder foi a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti. Entre 2004 e 2017, o braço militar dessa missão foi comandado pelo Exército brasileiro, que enviou 37,5 mil soldados ao país caribenho.

Em 6 de julho de 2005, as tropas comandadas pelos brasileiros iniciaram o que chamaram de operação de pacificação na Cité Soleil, maior favela de capital haitiana. Cerca de 300 homens fortemente armados invadiram o bairro e assassinaram 63 pessoas, deixando outras 30 feridas. Na época, o comandante da operação era o general Augusto Heleno.

Pacificação. Esse nome também batizaria as intervenções em grandes favelas brasileiras. Consideradas bem-sucedidas durante um tempo, essas operações nunca superaram seu caráter estritamente repressivo, sem maiores preocupações relacionadas à melhora nas condições de saúde, educação, saneamento e empregos nos lugares em que foram implantadas.

Pacificação é o que os governos petistas propuseram, enquanto milhares de pobres e não brancos continuavam a morrer na guerra que o Estado trava contra eles. Este é outro elemento fundamental a permitir que a cobra fascista preparasse seu bote.

Anos depois, Bolsonaro, eleito presidente, nomeou para o Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno; para a Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz; e para Comandante do Exército, Edson Leal Pujol. Todos estiveram no Haiti entre 2007 e 2014.

As informações acima estão no livro “O Fascismo Brasileiro”, de Rudá Ricci. Mostram, novamente, que o ovo da serpente fascista estava sendo incubado nas barbas do governo. Não nas ruas, em junho de 2013.

Leia também: Junho de 2013: o ninho fisiológico

15 de junho de 2023

Junho de 2013: o ninho fisiológico

Em 6 de junho de 2005, o então deputado Roberto Jefferson declarou à Folha de S. Paulo que o PT pagava a parlamentares R$ 30 mil mensais para votar pela aprovação de projetos de interesse do governo petista na Câmara Federal.

O partido se defendeu dizendo que eram recursos financeiros oriundos de Caixa Dois, utilizados para acertar dívidas de campanhas eleitorais. A grande imprensa e o Judiciário encontraram no episódio a oportunidade de ouro para abreviar o primeiro mandato de Lula. Acabou não dando certo, mas o caso mostrou até que ponto o PT se deixou enredar nos esquemas corruptos presentes na administração pública nacional desde sempre.

Mas o pior é que não serviu de lição. O PT continuou se submetendo aos esquemas fisiológicos impostos pela política institucional. Esses métodos sempre contaram com a tolerância cúmplice e interesseira do judiciário e da grande imprensa. O problema é que o tratamento mudou radicalmente frente ao governo de um partido ligado aos movimentos sociais e por eles apoiado.

Assim, o que parecia superado pela reeleição de Lula em 2006, estava apenas incubado, esperando por novas oportunidades. E elas vieram com a confiança em nomeações pretensamente amigáveis no STF, a postura submissa frente às manipulações dos monopólios de comunicação e a escolha de um Michel Temer para vice de Dilma. Sem falar na inexplicável crença no compromisso das Forças Armadas com a democracia. Mas isso fica para depois.

Por ora, voltemos à inevitável e já repetitiva pergunta: diante de todo esse histórico, alguém ainda acha que o ovo da serpente fascista foi chocado em Junho de 2013?

Leia também: Junho de 2013: o ninho empresarial

14 de junho de 2023

Junho de 2013: o ninho empresarial

Em seu livro “Fascismo Brasileiro”, Rudá Ricci destaca o modo como empresariado nacional reagiu aos direitos sociais reconhecidos pela Constituição de 1988. Para eles, tratava-se de uma ameaça ao livre-mercado e uma “retomada da pauta comunista”.

Surgem, então, organizações como a União Democrática Ruralista, União Brasileira de Empresários, Câmara de Estudos e Debates Econômicos e Sociais e Grupo de Líderes Empresariais.

A partir de 1990, a militância política do alto empresariado nacional se intensificou e passou a disseminar seus valores, recrutando militantes jovens e organizando mobilizações de massa. Nesse período surgiu o Instituto Millenium, fundado por acadêmicos, executivos e profissionais liberais, como Denis Rosenfield, Paulo Guedes, Rodrigo Constantino e Hélio Beltrão. Os três últimos envolvidos diretamente com o golpe contra Dilma e o apoio a Bolsonaro.

Começava a ser montado o cenário que levaria aos ataques abertamente golpistas até desembocarem no impeachment, em 2016.

Presente em todas essas iniciativas estava Jorge Gerdau. Presidente da maior empresa brasileira produtora de aço, ele teve grande influência na gestão de estatais brasileiras nos governos petistas. Em especial, sob Dilma Rousseff, quando presidiu o Conselho de Administração da Petrobrás e o Conselho de Desenvolvimento.

Mas nada disso impediu, por exemplo, que num jantar promovido pela Fiesp, em 27/08/2015, Gerdau afirmasse que a indústria estava “morrendo”. Sobre o governo Dilma, já sob forte ataque golpista e que o acolheu tão bem, nenhuma palavra de defesa.

Tem gente da esquerda que enxerga em Junho de 2013 o ovo da serpente fascista. Mas na época, um desses ninhos amaldiçoados já estava instalado nas dependências do Palácio da Alvorada há muito tempo.
 
Leia também: Junho de 2013: vai prevalecendo a versão conservadora

13 de junho de 2023

Junho de 2013: vai prevalecendo a versão conservadora

“A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que oprime o cérebro dos vivos”. Esta passagem do “18 Brumário”, de Karl Marx, foi citada na apresentação feita por Luís Carlos Petry para o livro “Fascismo Brasileiro: e o Brasil gerou o seu ovo da serpente”, de Rudá Ricci.

Petry utiliza a citação para abordar as idas e vindas do fenômeno fascista em nossa história. Mas, talvez, ela sirva para mostrar como uma imagem distorcida de Junho de 2013 também vem oprimindo cérebros no interior da própria esquerda.

A esse propósito, vale destacar uma pesquisa feita recentemente pelo Ipec/O GLOBO sobre os eventos de 2013. Ela revela, por exemplo, que para 38% dos eleitores lulistas, “os protestos trouxeram consequências negativas ou mais negativas do que positivas”. Já entre os eleitores bolsonaristas, esse número cai para 30%. Além disso, entre os bolsonaristas, 21% se dizem orgulhosos de terem apoiado os atos, contra apenas 13% dos lulistas.

A pesquisa ajuda a mostrar como a representação social das Jornadas de Junho foi sendo apropriada pelo campo conservador, de modo a parecer um momento de despertar de sua militância. Na verdade, a tomada das ruas pela extrema-direita viria a ocorrer somente em 2014.

Essa confusão é conveniente para que os ultraconservadores tentem se legitimar como força antissistêmica. Por outro lado, essa “narrativa” também foi endossada por setores da esquerda.

Nesse caso, tais segmentos tratam Junho de 2013 como o momento em que foi chocado o “ovo da serpente” fascista. Mas veremos, em breve, que os ninhos malditos estavam localizados bem menos nas ruas e muito mais nos palácios.

Leia também: Junho de 2013: em busca do ninho da serpente

12 de junho de 2023

Junho de 2013: em busca do ninho da serpente

“Junho talvez seja a primeira grande revolta popular na história brasileira a ter sido demonizada pela esquerda – por parte dela, pelo menos – e não pelo conservadorismo de direita de sempre”. Esta frase está num artigo publicado pelo cientista político Marcos Nobre, em 03/06/2023, na Folha de S. Paulo.

O enunciado captura uma parte importante das contradições que envolvem as enormes manifestações populares que abalaram as grandes cidades, há uma década. Diz respeito à ideia de que a origem da onda ultraconservadora que tomou conta do País, anos depois, tem naqueles acontecimentos sua origem.

Teria sido o momento em que se pôs a chocar o "ovo da serpente" do fascismo. “Ovo da serpente, diz Nobre, tornou-se a senha para quase todas as desgraças dos últimos dez anos”. Principalmente, o golpe do impeachment e a eleição de Bolsonaro.

Segundo os defensores dessa tese, os responsáveis seriam setores da própria esquerda e dos movimentos sociais, mesmo que involuntariamente. Como diz Nobre, pouco importa que todas as evidências mostrem que as forças da direita eram absolutamente minoritárias nas ruas naquele momento.

Muito se debateu e escreveu sobre Junho, mas qualquer consenso mais amplo está distante. Até porque estamos falando de eventos historicamente recentes e ainda sob o forte efeito de uma ofensiva fascista que está longe de ser derrotada.

Um dos livros que tratou do tema de maneira ágil, bem documentada e precisa é “Fascismo Brasileiro: e o Brasil gerou o seu ovo da serpente”, de Rudá Ricci. Passaremos a comentá-lo nas próximas pílulas para tentar deixar mais claro onde, afinal, estavam depositados os ovos amaldiçoados.

Leia também: Junho de 2013: oportunidade pedagógica desperdiçada

10 de julho de 2019

Pequena divagação florestal

“É preciso enxergar a floresta e não apenas suas árvores”, dizem.

Sem dúvida. Mas, que floresta cerca, por exemplo, a árvore representada pela eleição de Bolsonaro em 2018? Ela compreende somente as fake news, o apoio das igrejas neopentecostais, o papel da grande mídia, a famigerada “facada”, a Operação Lava-Jato?

Certamente. Mas essa cartografia florestal pode deixar de fora as Jornadas de 2013? Momento que sinalizou o fracasso de um projeto político que equivocadamente contava com a concordância das classes dominantes para promover alguma justiça social no País?

Por outro lado, seria o malogro da aposta petista suficiente para definir os limites florestais que nos interessam? Ou grande parte de suas raízes não estariam na crise de 2008, quando começou a grande depressão em que caiu a economia mundial desde então?

Além disso, por toda a extensão dessa paisagem arbórea ouve-se um persistente ruído ao fundo. Ele é causado pela permanente demolição neoliberal do direito ao trabalho digno, desde os anos 1980, pelo mundo todo.

O fato é que floresta e árvores formam um todo contraditório que só pode ser compreendido de forma coerente em sua unidade dialética. Olhar apenas a floresta sem atentar para os elementos que a compõem também pode ser muito limitador.

Aparentemente, foi isso o que aconteceu no último período. O que julgávamos ser a floresta era apenas um de seus bosques. E o que pensávamos serem pequenas clareiras, já eram terra arrasada. Além disso, não percebemos que uma floresta é formada por muito mais que apenas suas árvores.

De qualquer maneira, precisamos reagir logo. As motosserras se aproximam rapidamente.

Leia também: Há séculos, um açougueiro no poder

5 de dezembro de 2018

Coletes amarelos: sem essa de check-list ideológico

Os coletes amarelos estão nas ruas francesas quebrando e queimando tudo. Protestam contra o aumento do preço do diesel, muito utilizado em veículos leves na França. O governo Macron alega que a medida visa desestimular o uso de combustíveis sujos.

Não é bem assim. Nuno Ramos de Almeida em artigo publicado no portal Outras Palavras explica que o presidente francês cortou 4 bilhões de euros de impostos aos mais ricos e 41 bilhões em taxações para grandes empresas e multinacionais. Também diminuiu em 10 bilhões os tributos sobre capitais. Enquanto isso, o diesel ficou mais caro para trabalhadores que dependem dele para se deslocar ou trabalhar.

Tudo indica que o movimento é semelhante às manifestações de 2013 no Brasil. Motins cuja orientação ideológica precisa ser disputada.

Artigo de Rosana Pinheiro-Machado, disponível no The Intercept, discute a dificuldade das esquerdas em lidar com movimentos desse tipo:

...a esquerda precisa disputar, primeiro o que é possível: indivíduos, redes e inserções. Quando os motoristas de aplicativos pararem – porque isso um dia deve acontecer –, e o Brasil entrar num novo surto de “o que está acontecendo?”, seria mais inteligente não exigir carteirinha de “bom trabalhador” nem check-list de entrada no clube ideológico. Os trabalhadores precarizados tendem à direita pela própria natureza injusta e individualista de seu trabalho, mas isso não elimina a injustiça que está lá de forma latente. O populismo de direita, esse sapo medonho, se veste de príncipe, não escolhe militante, estende a mão e acolhe. Uma grande parte de nós tem feito o oposto: rechaçado, ridicularizado e tachado tudo aquilo que não compreende.

Fica a dica.

Leia também:
Junho de 2013: tentando controlar o que não pode ser controlado
A pedagogia da resistência está nas ruas

20 de junho de 2018

Junho de 2013: tentando controlar o que não pode ser controlado

Há cinco anos, enormes manifestações tomaram as ruas. Setores petistas costumam acusar seus organizadores de perder o controle do movimento para a direita.

Reportagem de Felipe Betim, publicada por El País em 13/06/2018, dá outra visão. Cita estudo da “Artigo 19”, ONG internacional de direitos humanos:

No total, 849 pessoas foram detidas arbitrariamente em São Paulo e no Rio de Janeiro entre janeiro de 2014 e junho 2015 durante 740 protestos. Sete pessoas morreram. Já entre agosto de 2015 e dezembro de 2016, foram 1.244 detenções arbitrárias em todo o país.

Para coroar esse processo, o governo Dilma sancionou a lei “antiterrorismo” às vésperas das Olimpíadas de 2016. A proposta veio de um Congresso conservador, é verdade. Mas seu texto original foi assinado pelo então ministro petista Eduardo Cardozo e seu colega de governo, o tucano Joaquim Levy.

Portanto, se alguém facilitou o trabalho da direita nas ruas foi a violenta repressão a manifestações populares. Não a todos elas, porém. Como afirma a reportagem:

A ONG lembra que, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, as maiores manifestações foram realizadas pelos partidários do afastamento e não houve qualquer incidente, o que indica uma repressão e criminalização seletiva por parte das autoridades.
                 
Ou seja, os governantes petistas ajudaram a reforçar o aparato militar contra manifestações que julgavam ser organizadas por seus inimigos. Mas esse mesmo aparato escolheu nada fazer quando o alvo dos protestos eram somente os governantes petistas.

Agora, esses mesmos setores querem vencer as eleições para retomar o controle de um aparato sobre o qual somente poderão ter algum controle rendendo-se a ele.

Leia também:

28 de maio de 2018

Liberar a luta dos caminhoneiros do bloqueio patronal

Talvez, o atual momento seja o que mais se assemelhe a Junho de 2013. O País quase paralisado e muita confusão política quanto ao que fazer. Em especial, à esquerda.

De fato, o movimento dos caminhoneiros começou com uma pauta conservadora. À exceção de uma redução nos impostos sobre o consumo dos mais pobres, praticamente qualquer outra redução tributária acaba beneficiando empresários e tirando ainda mais potenciais recursos dos serviços públicos.

Mas um movimento que envolve 2 milhões de trabalhadores e muitos bilhões de reais não pode simplesmente ser considerado produto de uma conspiração de direita. E foi isso que fizeram vários setores, principalmente petistas, antes de descobrirem que era exatamente esta postura que estava entregando de vez o movimento aos conservadores.

Como em Junho de 2013, a esquerda está confusa e luta para sair da paralisia ou do denuncismo mais alucinado. A vantagem é que já não há a defesa incondicional de um governo petista a cegar as análises.

Agora, porém, existe o risco de a contaminação eleitoral transformar o apoio aos caminhoneiros em oportunismo. Aquele que apoia tanto o movimento que tomou as estradas como alianças eleitorais com MDB e outras organizações políticas mafiosas.

Em Junho de 2013, como agora, é preciso disputar as pautas que mobilizam milhões. Não apenas entre nós, da esquerda, mas com uma direita que, cada vez mais, sabe usar as ruas.

A greve anunciada pelos petroleiros contra a política de preços da Petrobrás e pela recuperação de sua produção surge como uma bússola. Iniciativas como esta podem começar a liberar o movimento dos caminhoneiros do bloqueio patronal.

Leia também:
As ruas e o tamanho de nossa ignorância

15 de junho de 2017

O básico sobre Junho de 2013, de novo

No Brasil, no governo do PT adotou-se a emulação do crescimento (PAC – Política de Aceleração do Crescimento), visando a, em primeiro lugar, anabolizar o PIB. E a dependência da exportação de matérias-primas, hoje elegantemente denominadas commodities, agravou o processo de desindustrialização.
     
A corrupção se entranhou nas estruturas governamentais, cooptou líderes políticos como agentes de interesses privados de grandes corporações e corroeu a credibilidade ética da esquerda. Abandonou-se o horizonte socialista e acreditou-se na política de inclusão assistencialista dos mais pobres, sem alterar minimamente as estruturas sociais e os direitos de propriedade.
     
Cedeu-se à falácia de que o capitalismo é passível de humanização. Priorizou-se o acesso da população a bens pessoais (celular, computador, eletrodomésticos etc.) e não a bens sociais (alimentação, saúde, educação etc.).

Não houve empenho em preparar as bases de uma democracia participativa. Movimentos populares foram alijados como interlocutores preferenciais ou cooptados para atuarem como correia de transmissão entre governo e bases sociais.
     
É hora de fazer autocrítica e corrigir rotas, antes que seja demasiadamente tarde. Pena que, em seu congresso nacional, na primeira semana de junho, o PT tenha declinado desse dever político sob o pretexto de não dar munição aos adversários. Quem se cala, consente.

As palavras acima estão no artigo “Autocrítica da esquerda”, publicado no “Correio da Cidadania” em 13/06. São de Frei Betto, amigo pessoal de Lula.

É perfeitamente possível concordar com quase tudo o que diz o texto. Mas não é verdade que chegou a “hora de fazer autocrítica e corrigir rotas”. Este momento já ficou para trás. Mais precisamente, há exatos quatro anos.

Leia também: O básico sobre Junho de 2013

14 de junho de 2017

O básico sobre Junho de 2013

“Me desculpe, Haddad, mas o senhor não entendeu nada de Junho de 2013”. Este é o título do artigo de Guilherme Kranz, do coletivo “Às Ruas”, publicado pelo Esquerda Diário, em 09/06. É uma resposta a um texto do ex-prefeito publicado na última edição da revista Piauí.

Em relação às afirmações de Haddad sobre o caráter conservador das manifestações ocorridas naquele mês explosivo, Kranz pergunta:

O fortalecimento da direita se deveu a Junho ou a anos e anos governando com Renan Calheiros, Fernando Collor, Sarney, Eike Batista, Maluf, Katia Abreu, Henrique Meirelles, Marco Feliciano, Levy, Eduardo Cunha, Marcelo Odebrecht, Sergio Cabral, Silas Malafaia, Michel Temer? O fortalecimento das mídias golpistas, como a Globo, se deu por conta de Junho ou ao financiamento bilionário que os governos petistas fizeram ao longo de anos? Será que hoje o judiciário vem se tornando todo-poderoso por conta de Junho ou pelo fortalecimento e autonomia dados a esse poder durante os governos do PT?

Não é difícil encontrar as respostas corretas para essas perguntas. Mas apenas para quem esteve nas ruas naquele período e permanece nelas. Não estão ao alcance de quem continua a circular pelos gabinetes do poder.

Conclusões muito parecidas também apareceram em várias pílulas publicadas sobre aquele momento explosivo há exatos quatro anos. Abaixo, algumas delas:

O povo não é bobo, já o governo Dilma...

5 de fevereiro de 2015

DOI-Codi: uma vovó rejuvenescida

Os carrascos do DOI-Codi gostavam tanto do que faziam que batizaram seu local de “trabalho” de “Casa da Vovó”. Este também é o título do livro recém-lançado pelo jornalista Marcelo Godoy sobre um dos maiores centros de repressão da ditadura militar.

Outro apelido para o lugar era “açougue”. Bastante adequado, pois em suas dependências, pelo menos 66 pessoas morreram e 39 foram torturadas. Número admitido pelos 25 agentes da repressão entrevistados pelo autor.

Godoy também cita a influência da doutrina de segurança francesa sobre o aparato repressivo nacional. Segundo essa concepção surgida no combate aos revolucionários argelinos, a guerra contra a subversão deve começar não a partir do primeiro tiro disparado, mas do primeiro panfleto distribuído.

Baseada nesse princípio, a repressão da ditadura castigou não apenas a oposição armada, mas qualquer um que divulgasse ideias ou intenções não aceitas pelo regime. Uma evidência clara do caráter fascista e covarde das ações cometidas pelos carrascos militares.

Godoy também cita algumas práticas aperfeiçoadas pelo DOI-Codi que continuam até hoje. Agora, castigam principalmente pobres e pretos, maiores vítimas das execuções e torturas cometidas pela polícia.

Mas, há pouco tempo, reapareceu outro mecanismo fascista daquela época que estava esquecido. Foi colocado em uso durante a prisão ilegal de dezenas de manifestantes, processados por participar dos protestos iniciados em junho de 2013.

Entre as “evidências” apresentadas contra os acusados, estão escutas telefônicas, camisetas, revistas, livros, panfletos... Enfim, intenções e ideias.

Meio século depois, a vovó não só continua firme, como rejuvenesceu ao rever sua antiga amiga, a doutrina francesa. Um reencontro gentilmente promovido por seus novos netos e afilhados.

Leia também:
A surdez de quem esqueceu os próprios gritos


29 de outubro de 2014

Gramsci e as Jornadas de Junho

Alguém cujo apelido é Hokus Pokus postou no Facebook um link para o texto “Espontaneidade e direção consciente”, de Antonio Gramsci. É um escrito de 1931, em plena noite fascista italiana. Eis uma passagem interessante:

Ocorre quase sempre que um movimento espontâneo das classes subalternas coincide com um movimento reacionário da direita da classe dominante, e ambos por motivos concomitantes: por exemplo, uma crise econômica determina descontentamento nas classes subalternas e movimentos espontâneos de massas, por uma parte, e, por outra, determina complôs dos grupos reacionários, que se aproveitam da debilitação objetiva do governo, para intentar golpes de estado. Entre as causas eficientes destes golpes de estado há que se incluir a renúncia dos grupos responsáveis em dar uma direção consciente aos movimentos espontâneos para convertê-los assim num fator político positivo.

Talvez seja leviandade atribuir a este trecho ares proféticos em relação às Jornadas de Junho de 2013. Mas imprudências à parte, dos atuais grupos capazes de “dar uma direção consciente” a movimentos como este, nada mais podemos esperar do PT. Sua direção está ocupada demais liderando governos de coalizão com setores que não gostam de povo. Além disso, se dedica cada vez mais a aperfeiçoar o aparelho estatal de repressão a manifestações populares.

Mas a oposição de esquerda tampouco parece disposta ou preparada para encarar a tarefa. Suas prioridades estão voltadas para luta institucional, seja em parlamentos e governos, seja em sindicatos.

Nossa sorte é que a direita ainda tem muita dificuldade para lidar com o povo na rua. Mas se há uma coisa com que não podemos contar é a sorte.

Leia a íntegra do texto de Gramsci

24 de outubro de 2014

O divórcio entre junho e outubro

As atuais eleições ocorrem após um acontecimento histórico fundamental. As grandes manifestações de junho de 2013 foram as primeiras desde o Fora Collor, mais de 20 anos atrás.

Mas se essas revoltas aconteceram sob um governo de esquerda, ninguém tomou as ruas para protestar contra a adoção de medidas esquerdistas clássicas. Coisas como Bolsa-Família, Prouni, aumento do salário mínimo e aeroportos superlotados nada têm de socialistas.

Os manifestantes, por sua vez, não apresentaram quaisquer exigências radicais. É o caso da redução da tarifa de ônibus, mais verbas para saúde e educação, combate à corrupção, reforma política e fim da brutalidade policial.

Aparentemente, Junho foi resultado de uma explosão de mal-estar. Um incômodo radical sobre o qual não identificamos mais que alguns sintomas. O maior deles, uma rejeição generalizada à política institucional. Em especial, contra os partidos de todas as cores.

Vieram as eleições e elas só comprovaram o que as multidões tentaram expressar nas ruas. A política oficial já não teme mostrar sua enorme distância da vontade popular. O divórcio entre a farsa do voto bienal e a injustiça social, a repressão e a desigualdade econômica.

A campanha eleitoral simplesmente fez de conta que Junho não existiu. O que interessa é saber qual projeto irá gerenciar uma das sociedades mais violentas e injustas do mundo pelos próximos quatro anos.

Enquanto isso, a seca deixa de castigar apenas o Nordeste e começa a se alastrar pelas regiões mais ricas do País. A crise mundial promete chegar de vez e causar grandes estragos.

O calendário eleitoral termina domingo. Aquele que se iniciou em junho pode estar apenas começando.

Leia também: O PT também é conservador, afirma um petista

17 de setembro de 2014

Contra o peemedebismo votos que valem a pena

A sequência de governos petistas no Executivo federal provocou um bom debate entre algumas poucas e brilhantes figuras da universidade. São jovens estudiosos que procuram decifrar o que representa essa experiência na história nacional.

É o caso de Marcos Nobre, que usa o conceito de “peemedebismo”. Para o filósofo, o peemedebismo caracteriza governantes que privilegiam supermaiorias parlamentares. Com isso, ignoram as reformas necessárias e “blindam” o sistema político em relação às pressões da sociedade. Principalmente, de seus setores populares.

Esse modo de governo teria começado já no governo Itamar. Poderia ter sido desafiado pelo governo Lula, mas acuados pelas denúncias do “mensalão”, em 2005, os petistas teriam optado por aderir ao peemedebismo.

Em depoimento à revista Carta Capital, em setembro de 2013, Nobre disse que as jornadas de junho daquele ano eram uma resposta a esse sistema político. Uma revolta contra a democracia reduzida à votação em urna a cada dois anos. Naquela altura, ele esperava que as reações populares provocassem algum tipo de mudança radical, mas não sabia quando, nem como.

No entanto, matéria publicada pelo jornal El País em 11/09 mostra que o peemedebismo continua forte. Na reportagem, Marina Rossi e Afonso Benites dizem que, confirmadas nas urnas as pesquisas, o PMDB “governará, direta ou indiretamente, quase 77 milhões de brasileiros”.

Adequado ou não o conceito utilizado por Nobre, o fato é que a política institucional renova os sinais de que continuará velha. Resta saber se este modo de gerenciar o poder não despertará novas insurreições. Que elas ressurjam em breve e mais radicais são os únicos votos que realmente andam valendo a pena.

2 de julho de 2014

Entre as poucas certezas, o aumento da polarização social

“No Brasil, queda na desigualdade não tira renda do 1% mais rico”, afirma Denise Neumann em reportagem publicada no Valor em 26/06. Citando dados dos censos de 2000 e 2010, ela diz que o 1% mais rico do país continua a deter os mesmos 17% da renda nacional do início desse período.

No mesmo jornal, Marcelo Neri publicou o artigo o “Brasil continua com o crescimento inclusivo”, em 26/05. Com base em números da Pesquisa Mensal de Emprego, garante que “há surpreendente sustentabilidade” nesse processo. Ele é ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Em “Desigualdade e 'enrolation'”, publicado na Folha de 29/06, Clóvis Rossi afirma que Neri não apresenta dados sobre os ganhos dos mais ricos. Limita-se aos rendimentos do trabalho. Lembra que os 40 milhões de beneficiários do Bolsa Família ficam com 0,5% do PIB anual. Os poucos milhões que ganham com os altos juros financeiros ficam com, no mínimo, quatro vezes mais.

O petista André Singer deu sua opinião na Folha, em 28/06. Para ele, enquanto cresceu o número de bilionários, “a renda dos 10% mais pobres aumentou 106% entre 2003 e 2012". O prejuízo teria sobrado para a classe média tradicional, único setor a perder renda.

O também petista Márcio Pochmann acaba de lançar “O mito da grande classe média”. O livro combate a tese de que surgiu uma nova classe média no País. Admite a redução do número de miseráveis, mas indica aumento na disparidade entre uns poucos muito ricos e a grande maioria pobre.

A polarização social parece inegável. Os conflitos decorrentes dela, também. Desde junho de 2013, sabemos disso.

Obs.: esta é a milésima pílula.


29 de abril de 2014

As jornadas de junho e os movimentos de massa

A esquerda ainda está tentando compreender o que aconteceu em junho do ano passado, quando centenas de milhares de pessoas revoltadas tomaram as ruas. Um texto chamado “A Dinâmica dos Movimentos de Massa”, do marxista inglês Colin Barker, pode ajudar.

Muitos lamentaram o caráter espontâneo das manifestações de 2013, quanto a isso Barker afirma:

O historiador Lawrence Goodwyn, escrevendo sobre o movimento operário polonês, observa que, quando os historiadores usam o termo “espontâneo”, o que eles realmente querem dizer é que na realidade não sabem o que aconteceu.

Se trocarmos “historiadores” por “militantes de esquerda” na citação, podemos ampliar seu alcance e precisão.

À crítica ao espontaneísmo geralmente seguem-se cobranças pela elevação da “consciência de classe”. Em relação a isto, Barker lembra que a “consciência de classe” não é um “sistema plenamente formado de ideias que pode (...) ser adquirido em livros”. Não adianta alguém saber o que é a teoria da mais-valia, por exemplo, mas dizer que “não há nada a ser feito em seus locais de trabalho ou suas comunidades porque todos são ‘atrasados’ demais”.

Finalmente, há os que só dão importância às grandes lutas e acontecimentos. A estes, o recado do texto é o seguinte:

Pequenas lutas preparam o caminho para movimentos maiores. Nelas os trabalhadores começam a medir a si próprios contra seus patrões e governantes com um pouco mais de confiança, em um processo molecular de mudança de consciência (...). Essa é a razão para que os socialistas prestem tanta atenção a pequenas greves e campanhas locais.