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25 de julho de 2024

Lênin e a dialética das revoluções

Em dezembro de 1917, Gramsci publicou um artigo chamado “A revolução contra o Capital”. O “Capital” de que fala o título era a famosa obra de Marx. O revolucionário italiano considerava a façanha bolchevique uma negação das conclusões simplistas deduzidas das elaborações de Marx.

Segundo tais conclusões, revoluções socialistas somente seriam possíveis em nações altamente industrializadas, como Inglaterra, França, Alemanha. Países “atrasados”, como a Rússia, teriam que superar algumas etapas. Primeiro, industrialização e democracia, a cargo da burguesia. Depois, socialismo e liberdade, conquistados pelos trabalhadores.

Marx nunca disse que a revolução só seria possível em países em que o capitalismo alcançasse seu auge. O mais importante não é o nível de desenvolvimento do capitalismo, mas seu caráter contraditório. Tanto é assim que Marx achava mais provável acontecer uma revolução na Alemanha, cujo desenvolvimento industrial era bem menor que o da Inglaterra, mas que apresentava contradições mais radicais entre o que o capitalismo prometia e aquilo que entregava.

A partir desse entendimento, Lênin criou a “teoria do elo mais fraco da cadeia imperialista”, segundo a qual o capitalismo é uma totalidade mundial cuja integridade pode ser abalada pelo rompimento de seus elementos mais frágeis. Na época, a Rússia seria um desses elos fracos.

Essa dinâmica do funcionamento capitalista escapava a muitos marxistas dos países da Europa ocidental. Por eles, não apenas a revolução russa não teria ocorrido, como qualquer outra seria adiada indefinidamente. Aliás, foi o que aconteceu.

A mesma dialética explica tanto a ousadia da vanguarda de um país “atrasado” como a tacanhez de sua equivalente nos países “avançados”. É a dialética das revoluções.

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1 de março de 2024

O jornal revolucionário é como um andaime, dizia Lênin

“O jornal não é apenas um propagandista coletivo e um agitador coletivo; é também um organizador coletivo. A esse respeito, pode-se compará-lo aos andaimes que se levantam ao redor de um edifício em construção”.

O trecho acima está no livro “O que fazer”, de Lênin. Essa metáfora diz muito sobre as concepções organizativas defendidas por Lênin. O “andaime” de uma organização revolucionária não eram cargos em parlamentos, governos e direções sindicais, nem doações eleitorais ou contribuições dos filiados. É verdade que alguns desses recursos nem estavam ao alcance da esquerda socialista que atuava na Rússia czarista, dominada por um regime extremamente autoritário e com uma vida parlamentar e sindical muito frágil. Mas a questão central não era esta.

O fato é que a única força material com que podem contar os socialistas revolucionários é a capacidade organizativa dos explorados construída a partir das muitas formas de sua luta contra o capital. Depender de estruturas do Estado, aparatos burocráticos ou do mercado é caminho certo para a cooptação, destruição ou ambas.

Um jornal ou um instrumento equivalente de comunicação é fundamental para disputar a hegemonia com as classes dominantes, ao mesmo tempo em que organiza as forças dos explorados e oprimidos.

Mas nada disso deve ser encarado como uma receita. O próprio Lênin considerava datadas várias propostas apresentadas em “O que fazer”. Para ele, elemento fundamental e permanente era é o que já afirmava Marx: “A emancipação dos trabalhadores só pode ser obra dos próprios trabalhadores”. Por isso, o mais importante, dizia Lênin, é que o jornal revolucionário precisa ser feito para e pelos trabalhadores.

Leia também: Os professores Nádia e Lênin

10 de novembro de 2015

Por uma arqueologia da Revolução Russa

Daqui a dois anos, completam-se os 100 anos da Revolução Russa. Passado quase um século, a história da primeira revolução assumidamente socialista está soterrada por mitos, distorções, mentiras, incompreensões.

Estas camadas confusas foram se acumulando não apenas por obra da burguesia. Setores da esquerda socialista adotam e até criam muitos dessas imprecisões. Muitas vezes, alimentam uma visão autoritária, truculenta e grosseira da revolução liderada pelos bolcheviques, que acaba sendo muito conveniente para os defensores da ordem.

É por isso que precisamos cada vez mais de uma arqueologia da Revolução Russa. Um esforço para redescobrir suas grandes conquistas, posteriormente sepultadas pela contrarrevolução stalinista. É o que as pílulas diárias vêm tentando fazer. Abaixo, algumas delas:

Os bolcheviques queriam o fim da família para libertar as mulheres mostra um pouco do peso do feminismo nos primeiros anos da revolução. Algo que 1917: operárias russas atropelam bolcheviques também evidencia.

Socialistas e muçulmanos: unidade necessária destaca o importante papel dos seguidores do Islã no processo revolucionário. Uma aliança tornada possível pelo respeito dos bolcheviques à religiosidade popular, como descrito em Lênin em defesa da liberdade religiosa.

O indispensável combate ao racismo é destaque de Bolcheviques contra o racismo. Um avanço que, infelizmente, foi destruído pelo antissemitismo stalinista.

Nada disso quer dizer que a Revolução Russa tenha dado conta de todos os aspectos da luta contra a exploração e a opressão. Longe disso. Mas foi um processo rico em experiências libertárias e combativas. Muito diferente da caricatura a que foi reduzido por décadas de calúnias e distorções cometidas pelo conservadorismo, tanto de direita, como de esquerda.

Novembro de 2015

3 de março de 2015

Não há revolução sem a rebeldia feminina

A presença feminina nas revoluções é muito maior do que parece. É o que mostra, por exemplo, Tania Machado Morin em artigo publicado na edição “Revista de História” de dezembro de 2010.

Segundo o texto, pelo menos, 80 mulheres pegaram em armas na Revolução Francesa. Quase todas filhas de pequenos camponeses e artesãos. Mas a participação feminina não se limitou ao papel de bucha de canhão. Foram elas que detonaram muitos processos revolucionários.

Em 18 de março de 1871, o governo francês tentou retirar alguns canhões de Paris. Como na cidade só restou o povo pobre, o objetivo era abandoná-la ao massacre pelos inimigos prussianos. Algumas mulheres viram a manobra traiçoeira e deram o alarme. Começava a Comuna de Paris.


Nesta que foi a primeira revolução operária da história, cerca de três mil mulheres trabalharam nas fábricas de armas e munições. Um batalhão feminino da Guarda Nacional foi formado por 120 combatentes que lutaram nas barricadas de Paris.

Em fevereiro 1917, na Rússia, operárias têxteis iniciaram uma greve contra as orientações do partido bolchevique. A paralisação mostrou-se acertada. Detonou o primeiro estágio da revolução socialista que triunfaria em outubro daquele ano.


No calendário ocidental, a data do início da greve desautorizada e vitoriosa correspondia a 8 de março. Fato convenientemente esquecido até por muitos historiadores de esquerda, muitos deles igualmente marcados pelos machismo.

As revoluções sociais são momentos em que se estouram todos os limites do conservadorismo. O mais ancestral deles é o machismo. Não há revolução possível sem a rebeldia feminina. Inclusive contra os preconceitos dos que lutam ao lado delas.

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1917: operárias russas atropelam bolcheviques

Os bolcheviques contra a família e por liberdade sexual

17 de outubro de 2013

Na pedagogia da revolução, revolucionário é aprendiz

A educação política dos trabalhadores sempre esteve entre as grandes preocupações dos revolucionários. Desde comunistas como Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa e Gramsci aos anarquistas Goodwin, Proudhon e Bakunin.

Entre nossos militantes da educação para a liberdade, destacam-se Dermeval Saviani e Paulo Freire. Saviani, por exemplo, definia a pedagogia contra-hegemônica como um processo que procura:

... desarticular dos interesses dominantes aqueles elementos que estão articulados em torno deles, mas não são inerentes à ideologia dominante e rearticulá-los em torno dos interesses populares, dando-lhes a consistência, a coesão e a coerência de uma concepção de mundo elaborada, vale dizer, de uma filosofia.

Ou seja, valores como solidariedade, justiça, igualdade não são propriedade da classe que mais os proclama e jamais os coloca em prática. Foram sequestrados por quem quer dourar sua dominação. A atividade educativa de contestação deve resgatá-los desse cárcere a serviço de interesses privados. Colocá-los à disposição dos únicos interessados na derrubada da ordem social atual: os que são explorados e oprimidos por ela.

Para Paulo Freire, somente na medida em que se descubram “hospedeiros do opressor”, os oprimidos poderão contribuir para o “partejamento de sua pedagogia libertadora”. Mas ele também adverte:

O caminho, por isto mesmo, para um trabalho de libertação a ser realizado pela liderança revolucionária não é a “propaganda libertadora”. Não está no mero ato de “depositar” a crença da liberdade nos oprimidos, pensando conquistar a sua confiança, mas no dialogar com eles.

Com tal afirmação, Freire dizia pretender apenas “defender o caráter eminentemente pedagógico da revolução”. Postura que permite deduzir a permanente condição de aprendiz que todo revolucionário deve assumir.

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5 de março de 2013

Frustração, indignação, quase revolução

Em 03/03, o blog da Boitempo publicou um bom texto de Slavoj Žižek. Trata-se de “Por que os fundamentalistas do livre mercado acreditam que 2013 será o melhor ano de todos”. O melhor trecho diz:

As pessoas se rebelam não quando as coisas estão realmente ruins, mas quando suas expectativas são frustradas. A Revolução Francesa ocorreu apenas quando o rei e os nobres começaram a perder o poder; a revolta anticomunista de 1956 na Hungria eclodiu depois que Imre Nagy já era primeiro-ministro há dois anos, depois de debates (relativamente) livres entre os intelectuais; as pessoas se rebelaram no Egito em 2011 porque houve certo progresso econômico sob o governo de Mubarak, dando origem a uma classe de jovens instruídos que participavam da cultura digital universal. E é por isso que o pânico dos comunistas chineses faz sentido: porque, no geral, as pessoas hoje estão vivendo melhor do que há quarenta anos – os antagonismos sociais (entre os novos ricos e o resto) explodem e as expectativas são muito mais elevadas.

Eis o problema com o desenvolvimento e o progresso: são sempre desiguais, dão origem a novas instabilidades e antagonismos, geram novas expectativas que não podem ser correspondidas. No Egito, pouco antes da Primavera Árabe, a maioria vivia um pouco melhor do que antes, mas os padrões pelos quais mediam sua (in)satisfação eram muito mais altos.

Trotsky e Lênin concordariam. Crises sociais agudas, por si só, não levam a situações revolucionárias. É preciso que as maiorias exploradas e oprimidas resolvam tomar aquilo que lhes está sendo roubado. Frustração torna-se indignação. Ainda não é revolução. É quase...