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11 de março de 2022

Os beatos que lutam pelo bem comum no “agora"

Em seu livro “A terra da mãe de Deus”, Luitgarde Cavalcanti estuda o mundo beato do Juazeiro de Padre Cícero. Para abordar a forte presença da religiosidade católica na região, sua principal referência teórica é Antônio Gramsci. Por exemplo, neste trecho:

Depois de definir o folclore como "um conjunto indigesto de fragmentos de todas as concepções de mundo e da vida sucedidas na história", Gramsci distingue nele uma religião popular "muito diferente da dos intelectuais e da hierarquia eclesiástica, uma moral popular formada por um conjunto de máximas para a conduta prática e de costumes". Esse catolicismo popular, próprio das camadas subalternas, é divergente da Teologia – concepção da hierarquia religiosa dos intelectuais católicos.

Referindo-se às promessas de redenção eterna, Luit mostra como as classes dominadas, diante das injustiças que sofrem, tentam “realizar no ‘agora’ as promessas do bem comum”. Enquanto esperam o "fim do mundo":

...não se quedam num imobilismo transcendental, mas, muito pelo contrário, partem para uma ação de "plantar" o novo mundo, de "construir" a utopia do mundo do espírito santo. Como se tivessem consciência teórica do papel histórico do homem na construção material e espiritual de seu próprio mundo, não esperam a chegada de Deus construtor dessa "existência inefável", mas fazem eles mesmos as suas "cidades santas", as cidades longe do pecado. Nesse movimento de precipitação dos fatos prometidos, o encurtamento do tempo, com a ameaça do julgamento final, obriga os homens a superar a contradição máxima entre dominadores e dominados.

Foi o que fizeram em Canudos, Caldeirão, Contestado e vão continuar a fazer até que já não haja dominadores ou dominados.

10 de março de 2022

A religião como ação transformadora sobre o mundo

Entre 1926 e 1937, surgiu a comunidade Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, no Crato, Ceará. Organizada por sertanejos em bases socialmente igualitárias e liderada pelo Beato José Lourenço, a iniciativa foi considerada um desafio à alta hierarquia católica e aos poderes políticos locais.   

Em seu livro “A terra da mãe de Deus”, Luitgarde Cavalcanti entende a religião como uma ideologia de classe. Mas quando “as baixas camadas, submetendo essa ideologia a sua práxis, constatam sua inadequação, vão-se afastando progressivamente do polo hegemônico”, diz nossa autora. Desse modo, continua ela, lideranças como José Lourenço e Antônio Conselheiro:

...enquanto produtores de ideologia, reeducam o povo para abandonar a ideologia do enriquecimento pessoal em troca do enriquecimento coletivo, o que eles vão conseguir através da colocação da mensagem cristã como mobilizadora e norteadora das formas de relação dos homens entre si e com a natureza. As relações religiosas passam a constituir relações de autoridade no grupo, ficando hierarquicamente privilegiados quanto ao poder de mando aqueles que reproduzem com maior fidelidade a doutrina igualitária cristã na vida prática. É assim que se dá uma ordenação da vida social capaz de promover o processo de produção e distribuição, o controle enfim da própria sociedade. A religião deixa de ser nessas condições específicas apenas uma forma de representação, transformando-se também numa "ação sobre o mundo", agindo eficazmente sobre uma realidade.

Os beatos, conclui Luit, assumem papel de produtores de ideologia, exercendo efetiva hegemonia em toda a comunidade. Não por acaso, tiveram o mesmo destino de Canudos, sofrendo um massacre em que morreram, pelo menos, 400 deles.

Concluiremos na próxima pílula.

Leia também: O povo beato e seus intelectuais orgânicos