Doses maiores

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10 de janeiro de 2024

A cabeça ferve diante da insensatez dominante

Está disponível na Netflix “Cabeça Quente”. Produzida na Turquia, a minissérie retrata um mundo em que uma doença altamente contagiosa transforma-se em uma pandemia que leva a sociedade ao caos.

Diante disso, é criado um órgão de controle sanitário que estabelece zonas de quarentena, além de impor uma lei marcial para diminuir os contágios. Mas as preocupações com a saúde pública logo se tornam pretexto para instalar uma ditadura. Desse modo, neutralizar ou erradicar a doença deixa de interessar aos ocupantes do poder.

O personagem Murat Siyavus, interpretado por Osman Sonant, é a única pessoa imune ao distúrbio. Portanto, interessa ao regime ditatorial impedir que o estudo de seu organismo possibilite encontrar a cura para a doença. Enquanto isso, uma organização de resistência à ditadura quer convencer Siyavus a colaborar na fabricação de uma vacina.

Mas o mais interessante na trama é a forma como a doença se manifesta. As pessoas infectadas passam a repetir coisas sem sentido, ficando incapacitadas de se comunicar.  O contágio ocorre pela fala. Desse modo, o uso de tampões de ouvidos torna-se medida fundamental para evitar mais contágios.

Siyavus é um linguista e não deixa de ser irônico que um estudioso da comunicação humana seja exposto ao besteirol dominante, sem sofrer maiores consequências do que um forte aumento na temperatura de sua caixa craniana. É dele a cabeça quente que dá título à série.

Trata-se de uma distopia da indústria de entretenimento. Mas parece a vida real, em que uma praga de opiniões e informações delirantes nos faz ferver a cabeça há algum tempo. E não há tampão que dê jeito!

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7 de novembro de 2023

Micro-lição de cinismo capitalista

A série é “A queda da Casa de Usher”, exibida pela Netflix. As palavras abaixo estão no terceiro episódio, ditas por Roderick Usher, personagem principal, ao se deparar com um famoso ditado:

Quando a vida te der limões, faça uma limonada? Não. Primeiro você torna escassa a oferta de limões, o que só acontece se você os estocar, controlar seu fornecimento e fazer uma campanha de mídia dizendo: limão é a única maneira de dizer “eu te amo”. É o acessório indispensável para noivados ou aniversários. Rosas estão por fora, limões estão na moda. Ela não fará sexo com você a menos que você tenha limões. Lance pulseiras de limões de ouro com edição limitada e diamantes chamados gotas de limão. Faça com que a Apple chame seu novo sistema operacional de OS-Lemon. Encha o Capitólio com lobistas de limão e faça com que uma Kardashian chupe uma rodela de limão em um vídeo de sexo que vazou. Um astro de cinema usando sapatos cor de limão em Cannes. Legal, irado, demais? Não. Limão. “Você viu aquele filme? Você viu aquele show? Foi muito limão!”. Aí, você obtém uma patente genética para a sequência de DNA do limão. Faz polinização cruzada. Faz com que essas sementes circulem na natureza, e então, processa o agricultor por violação de direitos de propriedade quando esse código genético aparecer nas terras dele. Sente-se, arrecade milhões e, quando terminar, e tiver vendido seu império cítrico por alguns bilhões de dólares, então, e só então, você fará a porra da limonada.

Verdade ácida proporcionada pelo entretenimento capitalista, cada vez mais cínico.

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21 de outubro de 2021

Round 6: assista, mas não se divirta

"Round 6" ou "Squid Game" é o nome da mais nova sensação entre as séries televisivas exibida pela Netflix.

A atração sul-coreana é sobre um grupo de pessoas que disputam um jogo para tentar ganhar um grande prêmio em dinheiro.

A punição pelo mal desempenho em cada fase é a eliminação. Literalmente. Os perdedores são executados a tiros.

É diversão de primeira. Mas também pretende ser uma crítica às contradições da sociedade contemporânea.

A começar pelo fato de que os participantes aceitam permanecer nesse jogo mortal devido a problemas com dívidas impagáveis.

Seria uma referência ao capitalismo como escravidão pelo endividamento. Não apenas de pessoas, mas de países inteiros, reféns das exigências sádicas feitas por instituições como o FMI. No jogo, como na vida real, mortes são apenas danos colaterais.

A facilidade com que uma selvagem competição se instala seria outro sintoma do atual estágio de patologia social, acentuado pela lógica neoliberal.

Um dos jogadores perdeu o emprego durante uma greve ferozmente reprimida nos anos 90. Desde então, viu-se condenado a buscar uma vida melhor de forma individualista e apostando em jogos de azar. 

Outros participantes, vítimas da pressão pelo sucesso a qualquer custo, transformaram alguns erros em fracassos paralisantes.

A própria transformação de jogos infantis em episódios sangrentos mostram a derrota da dimensão lúdica mais essencial para a crueldade imposta pela concorrência capitalista.

Alguns jogadores até tentam criar formas de resistência coletiva e solidária, mas a regra é cada um por si ou a formação de grupos nos moldes das gangues criminosas.

Enfim, vale assistir. Só fica estranho se você se divertir.