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23 de novembro de 2022

A revolta da chibata

Em 22 de novembro de 1910, João Cândido Felisberto, membro da Marinha Nacional, liderou uma revolta de 2.300 marinheiros. O movimento assumiu o comando de quatro navios de guerra, apontando seus canhões para o Rio de Janeiro, capital federal na época. A principal exigência era o fim das chibatadas como punição. Por isso, o motim recebeu o nome de Revolta da Chibata. João Cândido ficou conhecido como o Almirante Negro. 

Abaixo, um trecho da carta dos revoltosos endereçada ao então presidente Hermes da Fonseca:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira (...). Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os oficiais, os quais, tem sido os causadores da Marinha Brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V. Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilitam, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira...

Caso não fossem atendidos, os marinheiros ameaçavam bombardear a capital. Temeroso, o governo prometeu atender todas as exigências. Mas com exceção do fim das chibatadas, nada mais foi cumprido. Dos 600 revoltosos presos, 18 foram jogados em um cárcere cheio de cal virgem. Somente dois sobreviveram. Um deles era Cândido.

“Vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos”, diz a carta dos marinheiros. Mais de 130 anos depois, nos fazem falta muitas outras revoltas da chibata.

Leia também: A chibata continua a castigar

27 de setembro de 2022

A abolição da escravidão foi obra dos escravizados

Em 1884, havia uma associação secreta, em Pernambuco, chamada Clube do Cupim. Seu objetivo era ajudar escravizados a fugir para o Ceará e outras regiões do Nordeste onde ficavam a salvo da perseguição dos capitães do mato. 

“Caifases” era o nome de uma célula revolucionária que funcionava em São Paulo nos anos que antecederam a Lei Áurea de 1888. Seus membros penetravam nas propriedades rurais disfarçados de mascates e vendedores ambulantes. Promoviam reuniões clandestinas com grupos de escravos, incentivando-os a se rebelarem. Perseguiam capitães-do-mato e denunciavam fazendeiros acusados de maltratar seus cativos. Organizavam e patrocinavam fugas em massa de escravos, que eram levados para abrigos situados em Cubatão, no litoral paulista. Ali obtinham dos abolicionistas certificados falsos de liberdade, que lhes possibilitava trabalhar como estivadores no porto ou em fazendas. Um desses refúgios, o Quilombo do Jabaquara, no caminho de Santos, chegou a reunir 20 mil pessoas.

Os exemplos acima estão relatados no terceiro volume da trilogia “Escravidão”, de Laurentino Gomes. São apenas dois casos, mas mostram que a Abolição nunca foi iniciativa de uma princesa branca condoída dos escravizados. Ao contrário, foi produto das muitas lutas protagonizadas, principalmente, por negros, indígenas e brancos pobres.

Todo esse processo de resistência passou por momentos importantes como Palmares, Conjuraçao Baiana e Revolta dos Malês, mas continuou após o fim da escravidão. Canudos, Contestado e Revolta da Chibata, por exemplo, são lutas que fazem parte dessa grande tradição de insurgência popular. E elas continuam necessárias porque os escravocratas e racistas em geral permanecem firmes e precisam ser combatidos sem trégua. Sempre a partir de baixo e avante!

Leia também: Trabalhadores ingleses contra a escravidão

22 de novembro de 2019

A chibata continua a castigar

São quase 110 anos desde a Revolta da Chibata. Mas como diz um texto aí abaixo, ela continua a castigar. Por isso, seguem algumas pílulas antigas com temas que, infelizmente, continuam muito atuais.

22 de novembro de 2013

A grande imprensa celebra a chibata

Em 20/11, O delegado de polícia Orlando Zaccone publicou no facebook duas imagens. A primeira é uma foto da grande imprensa mostrando policiais reprimindo com cassetetes supostos ladrões em uma praia do Rio de Janeiro. A outra, uma gravura de Jean-Baptiste Debret, em que um escravo é castigado com chibatadas.



Em ambas, tanto quem bate como quem apanha tem a pele escura. Daí o comentário de Zaccone sobre o Dia da Consciência Negra: “Museu de grandes novidades!” O fato de que negros ainda reprimam negros mostra que algumas coisas mudaram para tudo ficar do mesmo jeito.

Mas a referência a Debret chama a atenção para outra questão. O pintor integrava a Missão Artística Francesa que chegou ao Rio de Janeiro em 1816. Ele e outros artistas estrangeiros eram os únicos a retratar situações cotidianas. Seus colegas brasileiros só pintavam belas cenas e cenários.

Um exemplo famoso é o quadro “A Primeira Missa no Brasil”, de Victor Meirelles. Nele, os índios assistem à cerimônia encantados. Como se a religião do europeu finalmente lhes revelasse a verdade sagrada. Nenhuma referência à conversão forçada de que foram vítimas.

Enquanto isso, Debret e seus colegas mostravam indígenas e negros submetidos a trabalhos pesados e cansativos. Vitimados por castigos e maus tratos. O que os pintores brasileiros escondiam com suas belas paisagens e cenas da corte, os estrangeiros mostravam.

Os atuais jornais também gostam de mostrar o cotidiano. Mas quando se trata de retratar a gente pobre e preta, o objetivo é quase sempre justificar a violência com que deve ser tratada. Como nos tempos de Debret, ainda celebram a chibata.