Doses maiores

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29 de outubro de 2010

Mortes desejáveis

Dia de Finados. Lembramos a triste partida de José Saramago. Uma boa homenagem é citar uma de suas obras. Em “Intermitências da Morte”, o autor imagina uma situação em que a morte cessa. Ninguém mais finda seus dias. São muitas as conseqüências. A vida social é atingida por todos os lados.

“As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte...”, diz. A filosofia também “precisa tanto da morte como as religiões, se filosofamos é por saber que morreremos”.

Mas “as primeiras e formais reclamações vieram das empresas do negócio funerário”. Ramo que ficou sem sua principal “matéria-prima”. Logo depois, vieram os alertas da federação das companhias seguradoras. Igualmente privadas do insumo fundamental para sua atividade econômica.

Mais uma vez genialidade de Saramago deixa nua toda a crueldade e o vazio de nossa sociedade. Momento e lugar em que a vida pode ser ameaçada pela ausência da morte.

A realidade mal consegue contradizer a bela ficção de Saramago. Mas, não se trata da morte ausente. É seu atraso que incomoda. Em vários países, mais gente está morrendo mais tarde. Os neoliberais gritam. Dizem que o falecimento tardio está comprometendo a Previdência Social. Viver tornou-se um problema para o orçamento!

Que fazer com esses velhos cuja vida sobra depois de acabada sua utilidade econômica? Isso é o que incomoda Sarkozy, na França. E tantos outros governos empenhados em reformas de aposentadorias e pensões. Certamente, cuidam para que nossa morte seja leve e rápida, tornando mais pesada e longa nossa vida de explorados.

21 de junho de 2010

Saramago e as vacas de presépio

Em geral, a cobertura da grande imprensa sobre a morte de José Saramago escondeu suas atitudes militantes. Citou sua condição de comunista como se fosse uma esquisitice de velho. Não citou, por exemplo, a forte ligação do escritor com o MST.

Em um trecho de “A viagem do Elefante”, Saramago parece fazer uma metáfora sobre o que acontece a muitos daqueles que se recusam a abandonar a luta.

Trata-se da “...história de uma vaca que se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, Ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais”.

Não mataram Saramago. Tentam matar suas idéias e convicções. São as vacas de presépio, que vivem a bater cabeça para os poderosos.

18 de junho de 2010

Saramago não vai a deus

José Saramago morreu. O escritor já não escreve. Era também um lutador. Lá com suas armas. Pena, caneta, máquina, computador. Usados em boa parte de seus 87 anos. Para nós, a melhor parte.

Nos deixam suas longas sentenças. Quase sem pontuação especialmente aqueles incômodos pontos de interrogação. Mesmo sem eles, fazia muitas perguntas incômodas. Sobre a injustiça social, a exploração, a opressão e a estupidez humana em sua forma mais acabada: o capitalismo. Sobre o qual não tinha interrogações. Só afirmações ácidas.

Nos anos 90 imperava o discurso único neoliberal. Saramago confessou-se um dinossauro, se dinossauros fossem os comunistas. Melhor seria dizer que velhas, pesadas e brutais eram as idéias dominantes. Aquelas que defendem um modo de vida que ameaça de extinção tudo o que se pode considerar humano.

O Nobel que ganhou em 98 pouco vale perto da censura que sofreu em Portugal. O evangelho segundo jesus cristo foi proibido. Abalou os católicos de sua terra natal. Medalha mais reluzente não lhe poderiam dar seus patrícios idiotas. Morreu em exílio voluntário, em Espanha.

Era rabugento com Deus. Como a erva que lhe emprestou o sobrenome, Saramago é um tanto rústico quando trata das coisas divinas. Deveria ser mais tolerante com uma das criações mais interessantes da humanidade, para o bem e para o mal. Já não falemos o mesmo da religião institucionalizada.

Mas não vamos ralhar muito com quem recém partiu. Se calhar, deus existindo, Saramago certamente não lhe fará reverências. Teimoso, vai preferir o inferno, com seu chefe malicioso e a companhia de outros subversivos.

Saramago não vai a deus. Nem mesmo vai. Fica conosco em suas obras e idéias. Mas lá se vão sua língua ferina e a escrita sábia. Então, vai Saramago adeus