Doses maiores

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10 de janeiro de 2023

Se Deus é brasileiro, o diabo é patriota

Está em fase de finalização o filme “Deus ainda é brasileiro”, continuação de “Deus é brasileiro”, de 2003. Ambos de Cacá Diegues. 

Com Antônio Fagundes no papel principal fazendo dupla com o então estreante Wagner Moura, o primeiro filme foi sucesso de público. Lançado logo depois da posse do primeiro governo Lula, era possível ver na produção uma espécie de símbolo da época que se iniciava. “Cheia de esperanças por concretizar e sem abrir mão de alguma astúcia para desviar-se dos percalços que estão por vir”, dizia um texto de minha autoria, publicado na mesma época. 

Trata-se de “Deus é brasileiro e quer férias”, que aproveitava a trama da produção para arriscar uma avaliação sobre a forma como a religiosidade judaico-cristã estaria se manifestando na vida social contemporânea. Segundo o texto, diante de um mundo cada vez mais desencantado, privado de forças mágicas, as pessoas poderiam se sentir convocadas a assumir o fardo de conduzir seu próprio destino.

O problema é que o esvaziamento do sentido religioso também vinha ocorrendo em outras esferas de organização da vida social, como as da política, do trabalho e dos laços comunitários. E o conservadorismo passou a utilizar o fanatismo religioso para preencher esses vazios existenciais. Fenômeno que viria a se manifestar como forte onda ultraconservadora, cerca de uma década depois. E se Deus parecia brasileiro no começo do século, passados 20 anos, seu diabólico adversário se revelou patologicamente patriota. 

De qualquer maneira, talvez o texto ainda mereça uma leitura: clique aqui para acessar.

Leia também: Sou o Deus que transtorna, diz o Capital

15 de dezembro de 2011

A nova classe média é a velha classe trabalhadora

Vira e mexe, a chamada nova classe média aparece em jornais, debates ou conversas informais. É a tal classe C em expansão. Não é para menos. A Fundação Getúlio Vargas diz que ela representa 55% da população brasileira. Ou pouco mais de 100 milhões de habitantes. É muita gente. Mas um pouco de rigor teórico é importante.

Foi o que procurou fazer a filósofa Marilena Chauí em palestra para o 1º Ciclo de Debates do Fórum Direitos e Cidadania, realizado em julho passado no Palácio do Planalto. Com o tema “Classe Média: como desatar o nó?” a professora falou a um público que, talvez, faça pouco ou nenhum uso de suas conclusões.

De acordo com Marilena Chauí, “a distribuição das classes pela sociologia e pelos institutos de pesquisa de mercado se faz com base na renda, na propriedade de bens imóveis e móveis, na escolaridade e na ocupação ou profissão”. Entretanto, diz ela, “há outra maneira de analisar a divisão social das classes. Aquela que se originou com o marxismo”.

Na opinião da filósofa, é costume identificar os segmentos da classe média como sendo aqueles ligados à ciência e à técnica. “Hoje, porém” diz ela:
...com a revolução eletrônica e a informática, as ciências e as técnicas tornaram-se parte essencial das forças produtivas e por isso cientistas, técnicos e intelectuais passaram da classe média à classe trabalhadora. Dessa maneira, renda, propriedades e escolaridade não são critérios para distinguir entre os membros da classe trabalhadora e os da classe média.
Ou seja, diminuição da pobreza e aumento do consumo podem levar ao conformismo e ao individualismo. Mas também significa mais gente em contato com as contradições do capitalismo. É o que mostram, por exemplo, as mobilizações em várias partes do mundo. Com grande participação de universitários, diplomados e profissionais especializados.

“Proletários, uni-vos!” continua valendo.

Leia também: Diplomados e conectados, uni-vos!

13 de abril de 2011

Nova classe média ou só mais consumidores?

A agência de Washington Olivetto acaba de concluir uma enorme pesquisa sobre o potencial de consumo da chamada nova classe média. O estudo incluiu 5 mil horas de convivência familiar, com direito a 4 mil horas de vídeos e 3.700 entrevistas. Foram envolvidos mais de 160 especialistas. Tudo para conhecer melhor a “classe C”.

A Associação Brasileira de Shopping Centers diz que 55% dos atuais shoppings brasileiros ficam no Sudeste. Cerca de 20% deles, no Rio e em São Paulo. Mas, dos 32 novos shoppings a serem inaugurados em 2012, somente três ficarão nesses dois estados. A entidade diz que trata-se de uma interiorização do setor. Resultado da ampliação do mercado para as classes C e D.

Cerca de 30% da população negra brasileira pertencem à classe C. Números do Instituto Datapopular revelam que a posse de TVs entre negros passou de 63%, em 2001, para 91%, em 2010. No mesmo período, a proporção desse setor da população que possui máquinas de lavar passou de 10% para 53%.

Durante sua campanha eleitoral à presidência, Plínio Sampaio (PSOL) costumava dizer que “entrar para a classe média virou sinônimo de comprar na Casas Bahia”. Nada contra, dizia ele, “mas ascensão social deveria implicar, principalmente, o acesso a serviços públicos de qualidade”. Deveria significar melhores condições para o exercício de direitos básicos.

O que estamos vendo não é bem ascensão social. É ampliação de mercado consumidor. É muito pouco e bastante duvidoso.

Leia também: Números de um país injusto

28 de março de 2011

Jirau e o direito de ser pelego

O conflito entre trabalhadores e as empreiteiras nas obras da Usina de Jirau ganharam as manchetes dos jornais. Os direitos mais básicos dos operários estão sendo desrespeitados pela poderosa empreiteira Camargo Corrêa.

Maus tratos, irregularidades no pagamento, péssimas condições de trabalho, higiene e alojamento. O episódio é triste não só pela humilhação sofrida pelos trabalhadores. O comportamento pelego da dos sindicalistas oficiais também é de chorar.

No dia 22 de março, Vagner Freitas, tesoureiro da CUT, esteve no local. Segundo reportagem de Leonencio Nossa para O Estado de S.Paulo, Freitas pediu aos operários que voltassem ao trabalho. O sindicalista teria dito que o "Brasil precisa de energia limpa. A obra da usina precisa voltar a funcionar, porque a sociedade está sendo prejudicada".

Em artigo publicado em 27 de março, no Globo, Elio Gaspari comentou a posição da central rival da CUT. O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, teria admitido dificuldades em dar resposta aos trabalhadores. Segundo ele, “nenhuma das duas grandes centrais está habituada a lidar com multidões”.

Segundo Gaspari, as obras de Jirau e Santo Antônio empregam 38 mil trabalhadores. A multidão que realmente vem interessando aos sindicalistas é outra, diz o jornalista. É aquela formada pelos associados que lhes garantem R$ 1 milhão anual em impostos sindicais.

Nem O Estado de São Paulo, nem Gaspari merecem grande confiança. Mas, alguém duvida de que representantes da CUT e da Força Sindical tenham se prestado a um papel feio como este? Não se trata apenas desse episódio específico. O lulismo tem feito muito sindicalista abusar do direito de ser pelego.

Leia também Jirau é senzala. Lula, capitão-do-mato

22 de março de 2011

Jirau é senzala. Lula, capitão-do-mato

Em agosto do ano passado, Lula esteve no canteiro de obras da usina hidrelétrica de Jirau. Elogiou o ar condicionado nos alojamentos construídos nas margens do Rio Madeira, em Rondônia:
Isso demonstra que os trabalhadores vão aprendendo a conquistar seus direitos, os empresários vão aprendendo que é importante que, quanto mais conforto, mais os trabalhadores produzem e assim a gente vai mudando a cara do nosso País.
Em 20 de março passado, no mesmo local, os trabalhadores da obra se revoltaram. Mais de 40 ônibus, carros, alojamentos e outras instalações foram queimados.

A Aliança dos Rios da Amazônia publicou uma nota sobre o episódio:
Jirau concentra todos os problemas possíveis: em ritmo descontrolado, trouxe à região o “desenvolvimento” da prostituição, do uso de drogas entre jovens pescadores e ribeirinhos, da especulação imobiliária, da elevação dos preços dos alimentos, das doenças sem atendimento, e de violências de todos os tipos.
Segundo o documento, em 2009, 38 pessoas foram libertadas de trabalho análogo à escravidão em uma empresa que prestava serviços à empreiteira. Em 2010, foram registradas 330 infrações trabalhistas. A construtora Camargo Correia é acusada por maus tratos, irregularidades no pagamento, não-pagamento de horas-extras, intimidação, etc.

No Ceará, na mesma época, 6 mil trabalhadores das obras da Termelétrica de Pecém iniciaram uma greve. A situação é parecida com a de Jirau. Um dos patrões envolvidos é Eike Batista, cujas empresas vêm sendo beneficiadas pelos petistas no poder.

As grandes obras em andamento pelo País não causam danos apenas à fauna e à flora locais. Reproduzem a secular lógica da Casa Grande e da Senzala. Os senhores oferecem ração magra e nojenta, chicote e brutalidade. Cobram daqueles que consideram seus escravos agradecimento e respeito.

Lula disse que os empresários estão aprendendo. Na verdade, já são doutores nesse tipo de lição. O ex-metalúrgico é só mais um capitão-do-mato a lhes facilitar o serviço.

Leia também Contra o desmatamento, comunismo indígena

18 de fevereiro de 2011

A vitória neoliberal de Dilma

Os deputados federais aprovaram o novo salário mínimo do jeito que o governo queria. Mas, os R$ 545,00 foram uma vitória de direita. É verdade que o DEM queria um reajuste maior. Mas, por oportunismo rasteiro. As centrais sindicais e outros setores populares e de esquerda também defendiam um valor maior.

Em seu primeiro grande teste no Congresso, Dilma se saiu bem. Trata-se da segunda vitória mais expressiva do PT neste tipo de votação desde que assumiu o governo federal. É o que diz reportagem de Ranier Bragon e Maria Clara Cabral para a Folha de S. Paulo, de hoje.

Foram 361 votos contra 120. Entre os votos contrários, dois vieram de deputados petistas: Eudes Xavier (CE) e Francisco Praciano (AM). Já, o fisiológico PMDB votou 100% com o governo. Por que será?

O fato é que a vitória do governo é neoliberal. Salário mínimo com “reajuste responsável” não passa de rendição à idéia de que o problema dos gastos públicos são os assalariados, aposentados e pensionistas. Ninguém falou da enorme dívida pública, que paga os maiores juros do mundo e beneficia somente os ricos.

O sucesso de Dilma lembra outras grandes vitórias no Congresso em início de governo. Fernando Collor aprovou o confisco dos saldos bancários. Fernando Henrique iniciou a privatizações em massa. Lula aprovou uma reforma da Previdência que completou aquela que os tucanos começaram.

A votação do Mínimo é só uma amostra do que vem por aí. A base do governo montada por Lula tem uma grande e quase única vocação: aprovar propostas de direita e conservadoras.

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O mínimo dos pelegos

A cama de Dilma

17 de fevereiro de 2011

O mínimo dos pelegos

Os deputados federais aprovaram o novo salário mínimo. Ficou em R$ 545,00, como queria o governo. Menos de 7% de reajuste. A proposta ainda precisa passar pelo Senado.

Dois dias antes, houve uma sessão da comissão mista sobre a questão no plenário da Câmara. Os presidentes das principais centrais sindicais estavam presentes. Para demonstrar como era pequeno o reajuste proposto, Artur Henrique, da CUT, citou alguns números:
O Bradesco teve lucro de 10 bilhões de reais em 2010. O Santander, de 7 bilhões. A Caixa Econômica Federal, de 3,8 bilhões. As 327 empresas brasileiras com ações na bolsa de valores tiveram aumento de seus lucros na casa de 48, 5% em relação ao ano retrasado. Enquanto isso, a participação dos salários na renda nacional saiu de 40,5% no ano 2000 para 41,9%. Absolutamente um pequenino aumento. Só para comparar: em países como os Estados Unidos, a Suécia, a Itália e Portugal, a participação do trabalho varia de 67% a 72% da renda nacional.
Paulinho, presidente da Força Sindical, lembrou que a diferença entre o que defendiam os sindicalistas e a proposta do governo era de R$ 15. Mensalmente, representaria somente “R$ 0,50 por dia no bolso do trabalhador”, disse. Wagner Gomes, presidente da CTB, foi mais claro: “O que estamos pedindo aqui é um pouco do tratamento que vem sendo dado aos banqueiros”.

A argumentação dos sindicalistas parece coerente. Mas, não é. Eles apoiaram a eleição de Dilma. E os números mostrados pelo presidente da CUT são claros. Não se trata de uma opção do governo atual. Desde seu início, o governo Lula escolheu fortalecer o grande capital. Garantir uma enxurrada de lucro para banqueiros e empresários, esperando que parte dela pingasse sobre os trabalhadores.

Fossem coerentes com sua condição de sindicalistas, estariam colocando em pauta o salário mínimo do Dieese: R$ 2.200. Nada menos que isso. Mas, pelegos costumam ser assim mesmo. Negociam os farelos e migalhas que caem das mesas fartas de seus patrões. Se ela ficam raras, esperneiam para não perder a moral com seus representados. Nada mais que isso. Não fazem nem o mínimo.

Leia também: Alguns pelegos com Serra. Muitos com Dilma

9 de fevereiro de 2011

Lula, savana, cerrado e moto-serra

Lula, às vezes, abusa do direito de dizer besteiras. Desta vez, foi em palestra aos participantes do Fórum Social Mundial, no Senegal. Segundo o ex-presidente, o continente africano deveria dar a suas savanas o mesmo tratamento dispensado pelo Brasil ao seu cerrado.

Lula explicou que até os anos 70 “o cerrado brasileiro era considerado um deserto verde, sem condições de sustentar uma agricultura produtiva". Mas, o crescente investimento em pesquisa teria tornado esse tipo de vegetação grande fornecedora “de alimentos para o mundo” e possibilitado “a política de erradicação da fome em nosso país".

A proposta é criminosa. O cerrado é o segundo maior bioma do país. Até 2002, a destruição nessa região tinha chegado a 890 mil km2. Entre 2002 e 2008, o Ibama descobriu mais 85 mil km2 de desmatamento. Quase 15 áreas equivalentes ao tamanho do Distrito Federal. As perdas verificadas em terras indígenas, assentamentos rurais e unidades de conservação chegam a quase 8 mil km2 de matas nativas. Cerca de 36 mil estádios do tamanho do Pacaembu. Uma tragédia ambiental e social que só traz benefícios aos latifundiários do agronegócio, que lucram bilhões com plantio de soja e criação de gado.

Que os representantes africanos nos perdoem. Não pela escravidão de seus antepassados. Disso, não temos culpa. Foi obra de nossos colonizadores. Pedimos perdão pelas declarações de alguém que tem a cabeça colonizada por um desenvolvimentismo destruidor. Deveria se juntar à turma da moto-serra, com Aldo Rebelo e seus patrocinadores.

Leia também: Belo Monstro a serviço de gigantes

5 de janeiro de 2011

A cama de Dilma

Na mitologia grega, há um sujeito mau chamado Procusto. Tinha a péssima mania de deitar suas vítimas numa cama. Se o coitado fosse maior que o leito, decepava-se o que ficava sobrando. Se fosse menor, seus membros eram esticados até que arrebentasse.

A cama que Lula preparou para Dilma parece estar bem arrumadinha. A falta de carisma e malícia política da presidenta seria compensada pelo enorme apoio parlamentar. São 366 deputados e 52 senadores. O problema não é o tamanho dessa base.

É verdade que o PT fez a maior bancada na Câmara. E no Senado, só perde para o PMDB. Mas, o restante da base vai cobrar caro por fidelidade. Afinal, o que esperar de partidos do calibre de PMDB, PP, PR, PTB e PSC? Uma bancada dessa qualidade não permite nem mesmo propor medidas ousadas. Aquelas que Lula jamais apresentou.

Reforma agrária pra valer. Reforma tributária que atinja o patrimônio dos ricos. Reforma do Estado que inaugure a prestação de verdadeiros serviços públicos. Auditoria e fim do pagamento da imensa dívida pública. Nada disso combina com a grande maioria dos parlamentares governistas. Inclusive, os petistas. O deputado Cândido Vacarezza, por exemplo, acaba de apresentar projeto que beneficia a multinacional Monsanto.

Ou seja, a cama de Dilma só está preparada para receber um tipo de ocupante. Aqueles que representam as dimensões nanicas da elite exploradora. Tão pequena quanto é gigantesca sua riqueza. Em relação aos interesses dos pobres e explorados, continuarão a receber o tratamento adotado pelo cruel Procusto.

Leia também: A vitória do lulismo está garantida

8 de dezembro de 2010

Industrialização sem empregos

O Brasil produz a todo vapor? Sim, claro. Significa mais empregos? Nem sempre. Em Manaus, a produção de TVs LCD cresceu mais de 150% de janeiro a outubro de 2010. Já, a Gatsby do Brasil deverá fechar o ano sem dois terços de seus funcionários. A empresa fabrica cabos para televisores na capital amazonense. Terá um faturamento 40% menor porque os aparelhos LCD não utilizam o sistema de cabos que a empresa produz.

Outro exemplo? A forte expansão da produção agrícola fez disparar a venda de tratores e máquinas agrícolas. Crescimento de 28% até outubro, em relação a 2008. A Engrecon fabrica engrenagens para tratores. Deve terminar o ano com produção 30% menor. E um terço a menos de trabalhadores.

Estes números estão na reportagem de Marta Watanabe, publicada hoje pelo Valor. Mostram que desindustrialização não que dizer necessariamente queda na produção industrial. Pode ser “a perda relativa de dinamismo da indústria na geração de renda e emprego". É o que admite um estudo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, também publicado pelo Valor, em 17/10.

Para o ministério, esta ameaça vem cercando a economia do país desde 2007. Momento em que a participação dos produtos manufaturados começou a cair. Estamos falando de máquinas, veículos, eletrodomésticos. Já, a exportação de commodities sobe. Principalmente, ferro, soja, alumínio. Para ter uma idéia, uma tonelada de minério de ferro custa cerca de 160 dólares. Este valor mal dá para comprar um par de tênis importado. Pergunta-se, quantos empregos giram em torno da produção e circulação de um e de outro?

1 de outubro de 2010

A vitória do lulismo está garantida

Se as eleições presidenciais forem definidas este final de semana, ganha o lulismo e ganha Lula. Mesmo se houver segundo turno, qualquer resultado garante a vitória do lulismo. O lulismo vence com Lula ou contra ele.

O lulismo é um mecanismo que foi colocado em movimento com muito sucesso. É produto do carisma e do gênio político de seu criador. Vem do PT, mas ultrapassa o petismo. Tem muitos seguidores entre os trabalhadores em geral, mas sua força está na miséria dos mais pobres. Conquistou os setores populares organizados. Garantiu essa conquista através dos burocratas que dominam a maioria deles. Chegou aos cantos mais abandonados fazendo alianças com caciques regionais de sua principal máquina: o PMDB. O lulismo é o uso da estrutura governamental para manter a paz social que interessa aos de cima.

O lulismo são programas sociais limitados aplicados com eficiência. É a recuperação do salário mínimo, muito abaixo do necessário, ainda que acima do esperado. É a vitória da conciliação de interesses que só podem ser conciliados com a condição de que um lado seja derrotado.

O lulismo é a derrota da reforma agrária e de medidas democráticas radicais. É a manutenção de uma estrutura social injusta. É o convívio pacífico com velhas e novas lideranças da classe dominante. São os lucros inéditos de banqueiros e empresários. É o respeito ao sagrado direito capitalista de explorar gente e destruir a natureza.

O lulismo tornou-se necessário aos ricos e poderosos contra sua vontade. Por isso, querem se livrar dele o quanto antes. Derrotar o lulismo só interessa, mesmo, aos lutadores populares.

27 de setembro de 2010

A Petrobras e a socialização dos prejuízos

Em 24 de setembro, Lula comemorou o lançamento de uma oferta pública de ações da Petrobras na Bolsa de Valores de São Paulo. O próprio presidente admite que aquele que já foi o bicho-papão dos capitalistas agora patrocina a maior operação de capitalização já feita. Também festejou o aumento da participação do governo na empresa.

O fato é que a venda de ações é uma invenção capitalista para socializar prejuízos. Através dela, as empresas arrecadam imensos recursos para seus investimentos. Se a empresa der lucros, os acionistas recebem parte deles. No caso de prejuízo, raramente os controladores das empresas são afetados. Em geral, sobra para os pequenos investidores.

Além disso, há empresas que costumam usar ações para pagar parte dos salários de seus trabalhadores. E em muitos países, o mercado de ações funciona como poupança e fundo de aposentadoria para milhões de pessoas.

Em 2002, a quebra das empresas Enron e World.com foi um exemplo dramático. Seus trabalhadores não ficaram apenas sem emprego. Suas economias e fundos de aposentadoria viraram pó junto com os papéis das empresas que eram seu lastro. Casos parecidos ocorreram na crise de 2008.

Por fim, as grandes corporações podem colocar à venda valores muitas vezes maiores que sua capacidade de remunerar os investidores. Se algo dá errado, as toneladas de prejuízo caem na cabeça de quem está embaixo.

A Petrobras é uma empresa sólida. Mas os enormes recursos que está buscando são para explorar a camada pré-sal. Um investimento bastante arriscado e de resultados incertos. Em outras palavras, o que o governo Lula está comemorando é a exposição dos cofres públicos a enormes riscos.

23 de setembro de 2010

Contra as serpentes golpistas que Lula ajudou a criar

Ontem, várias personalidades lançaram o “Manifesto em Defesa da Democracia” em ato público, em São Paulo. O alvo é o governo Lula e seus ataques à atuação da imprensa nas eleições. Alguns dos presentes chegaram a comparar o presidente ao ditador italiano Mussolini. Alegam que Lula tenta impedir a livre expressão.

Alguns dos que assinaram o manifesto são figuras respeitáveis da luta por democracia. Mas estão completamente enganados.

Lula tem toda razão em suas declarações sobre a grande mídia. Os empresários da comunicação vêm atuando como partido político. Usam seus poderes de monopólio para tentar impedir a vitória da candidatura petista. Tentam acionar todo tipo de preconceito contra os movimentos sociais, as lutas de resistência, os pobres em geral.

No entanto, o próprio Lula vem mantendo e fortalecendo as condições para que manobras golpistas como estas aconteçam. Em momento algum assumiu a luta pela democratização das comunicações. Ao contrário, abrigou em seu governo porta-vozes assumidos das corporações da mídia.

Lula acha que pode manter um pé em cada canoa. Apoiar-se tanto nos movimentos sociais, como nos empresários. Mesmo que Lula sobreviva a essa acrobacia toda, o risco maior é para os lutadores em geral.

Parece que a lição mais importante dos golpes de 64 foi esquecida. Os movimentos sociais e organizações populares devem dar combate decidido ao golpismo da direita. Mas manter distância de um governo que vem criando serpentes dentro de casa.

2 de setembro de 2010

Era Lula: pobre é baratinho

Lula é um grande comunicador. Pode-se discordar do que ele fala. Difícil não entender o que diz. Um exemplo:
Tem rico que vem aqui, te pede um bilhão de reais e sai falando mal de você. O pobre te pede dez reais e fica agradecido pelo resto da vida.
A frase foi publicada na revista Isto É de agosto passado. Não deixa de ser coerente.

O Bolsa-Família é considerado o maior programa social do mundo. Entre 2003 e 2009 o programa ficou com 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Parece muito, mas não é. É só comparar com outros gastos públicos. O superávit primário, por exemplo, mordeu mais de 3% do PIB em média, no mesmo período.

O superávit primário é uma invenção maldita dos tucanos. Trata-se da diferença entre o que os governos gastam e arrecadam. O que sobra não pode ser usado em obras necessárias para a população. Tem que ir para o pagamento dos juros da dívida pública. Aquela que já está em mais de R$ 2 trilhões. A mesma que virou o cassino em que os muito ricos apostam, negociando papéis que pagam os maiores juros do planeta. Por isso, o superávit primário também é chamado de renda mínima dos capitalistas.

Ganhando Dilma ou Serra, o pessoal do andar de cima não precisa se preocupar. O orçamento de 2011 já garantiu R$ 125 bilhões para o superávit primário. Aprovado em lei com a ajuda de tucanos e petistas.

Eles confiam na avaliação de Lula de que pobre é baratinho. Uma crença que pode lhes custar caro, se os bons ventos da economia mundial mudarem de rumo.

Leia também: Era Lula: banquete e migalhas

27 de agosto de 2010

Belo Monte: Lula pariu o monstro

Lula assinou o decreto que autoriza a concessão para exploração da usina de Belo Monte, em Vitória do Xingu, no Pará. Trata-se da terceira maior hidrelétrica do mundo. Atrás apenas das usinas de Três Gargantas, na China, e de Itaipu. O início das operações está previsto para 2015.

Os movimentos sociais chamam o projeto de Belo Monstro. Nada mais justo. Afinal, a usina atingirá 11 municípios e 9 territórios indígenas. Quase 10 mil famílias ficaram sem suas terras, entre indígenas e ribeirinhos. Haverá desmatamento de grandes áreas de floresta e parte do rio Xingu secará.

Tudo isso para beneficiar principalmente a fabricação de alumínio. Uma indústria suja, que consome grande volume de água e é monopolizada por gigantes como Alcoa, Votorantim, Vale, Gerdau e CSN.

Em seu discurso, Lula falou em “compartilhamento de responsabilidade” entre Estado e empresas privadas. Mas o BNDES está financiando 80% dos R$ 19 bilhões que a obra deve custar. Dinheiro que irá para Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. As três maiores empreiteiras do País ficaram responsáveis por sua construção.

É a cara do projeto desenvolvimentista do governo petista. Em 2006, Lula havia dito que indígenas, quilombolas e a legislação ambiental são "entraves para o desenvolvimento". Um raciocínio bem típico da ditadura militar. Não por acaso, Belo Monte começou a ser concebido durante o governo Geisel.

Agora, a criatura que vai servir ao grande capital deve sua paternidade a Lula. Suas vítimas serão as populações locais e o meio ambiente. A vergonha fica por conta dos apoiadores do governo nos movimentos sociais.

24 de agosto de 2010

Era Lula: Vargas e a burguesia esperta

Hoje completam-se 56 anos da morte de Getúlio Vargas. Comparações de seu governo com o de Lula são muito comuns. Como ele, Lula seria um “pai dos pobres” atualizado. Mas, tal qual Lula, Vargas não descuidava dos interesses dos ricos. Daí, ser chamado de “mãe dos ricos”.

Outro traço comum a ambos foram as dificuldades nas relações com a burguesia. Sobre isso Getúlio Vargas diria, em 1935: “Estou tentando salvar esses burgueses burros e eles não entenderam”.

O desabafo foi dito após uma reunião em que empresários recusaram apoio à aprovação de leis trabalhistas para evitar o aumento da influência do PCB entre os operários.

Em fevereiro de 2010, Lula disse:
Um país governado a vida inteira por capitalistas precisou eleger um metalúrgico que se dizia socialista para compreender que não era possível um país capitalista sem capital. E muito menos um país capitalista sem crédito e sem financiamento. Essa era uma lógica primária que qualquer imbecil deveria saber, mas a verdade é que não era assim.
Lula referia-se aos fartos e facilitados empréstimos oficiais concedidos às grandes empresas.

O fato é que os patrões brasileiros são como os patrões do mundo inteiro. Competem entre si selvagemente para ficar com o pedaço maior dos favores governamentais. Quem fica com fatias menores esperneia. Por outro lado, morrem de nojo e de medo dos pobres. Daí toda a desconfiança em relação à enorme popularidade de Vargas e Lula.

A burguesia brasileira não é burra nem imbecil. É muito esperta. O suicídio de Vargas atrasou o golpe militar em 10 anos. Mas, ele finalmente veio para esmagar os interesses populares. A burguesia se assustou com Lula. Mas já passou. Afinal, o próximo governo deverá ser do PSDB de Serra ou do PMDB de Dilma.

Leia também: Era Lula: primeiro ataque aos trabalhadores

20 de agosto de 2010

Era Lula: primeiro ataque aos trabalhadores

A primeira grande medida do governo Lula foi a Reforma da Previdência. Tirou da gaveta uma emenda constitucional que o governo FCH tentou aprovar e não conseguiu.

A proposta retirava direitos do funcionalismo. Aumentava o tempo de serviço e dificultava sua aposentadoria. Criava fundos de pensão para serem explorados pelo mercado financeiro. Tudo como queria o FMI. Puro neoliberalismo.

Por que Lula fez isso? Ele mesmo responde. Na posse do presidente da Associação Comercial Paulista, em março de 2003, ele disse:
Por que eu dizia na campanha que somente eu poderia fazer a reforma? Não porque eu fosse melhor do que os outros. Era porque eu sabia que a reforma terá de enfrentar uma base muito organizada, e uma grande parte dela votou em mim, votou no Ciro, não votou no governo FHC.
Mais claro impossível. Lula aprovou a reforma e começou a ganhar a confiança de seus inimigos. Provocou chiadeira entre seus aliados, é óbvio. Mas não muito mais do que isso. Honrosa exceção para os setores que fundariam o PSOL.

O fato é que as medidas afetavam somente o funcionalismo. Um setor que sempre serviu de saco de pancada. E não faltavam cargos públicos para calar os oportunistas.

O episódio sinalizou o que viria a ser o governo Lula. Os trabalhadores com vínculo empregatício foram deixados de lado. Para os mais pobres, muita ajuda assistencial. Aos patrões, abundante ajuda oficial. O BNDES abriu os cofres para os grandes grupos econômicos. Os juros altos mantiveram os bancos felizes. Paz no andar de cima. Conformismo embaixo.

Lula foi modesto. Para esse tipo de serviço ele é, sem dúvida, melhor do que os outros.

Leia também: Era Lula: banquete e migalhas

18 de agosto de 2010

Era Lula: banquete e migalhas

Afinal, qual é o caráter do governo Lula? Algumas pistas sobre esta questão são dadas pelo próprio Lula. Na edição de O Estado de S. Paulo de 10/12/2009, por exemplo, ele disse:

“Dar um pouquinho de dinheiro para os excluídos não desmonta a economia, como alguns disseram”.

Difícil ser mais claro quanto ao caráter do tão falado aumento da distribuição de renda verificado sob o governo petista. As migalhas para o povo só ficaram mais graúdas. Faz diferença? Faz, e muita. O problema é que não faz diferença alguma para os ricos.

É esta a economia que Lula não quer desmontar. Trata-se de um modelo baseado em enorme concentração não apenas de renda, mas dos meios que a geram. Apenas um em cada 20 brasileiros é dono de alguma propriedade geradora de riqueza: empresa, imóvel, fazenda, banco. Tudo nas mãos de apenas 6% da população.

Assim, a pequena distribuição de renda que vem acontecendo nos últimos anos é produto de uma repartição entre os que vivem de salários, principalmente. Já aqueles que vivem da exploração do trabalho alheio continuam em paz.

Esta é a engenharia política do governo Lula. Uma forma de governar genial, mas a serviço da manutenção da desigualdade e da injustiça social.

O banquete dos ricos continuará farto quanto mais migalhas caírem de sua mesa. Esta é a competência que Lula vem mostrando a uma burguesia cada vez mais satisfeita com ele. Esta é a realidade que muitos setores do movimento social não querem enxergar.

Os dados acima são recentes e de órgãos do próprio governo. Sobre concentração de riqueza, clique. Sobre distribuição de renda, aqui.

Leia também Era Lula: voto útil ou rendição?

17 de agosto de 2010

Era Lula: voto útil ou rendição?

Muita gente boa de luta apóia o governo Lula. Dizem que o governo petista está longe de ser perfeito, mas é o mal menor. Por isso, estão apoiando Dilma Roussef. É o chamado voto útil.

Mas, não basta dizer que o atual governo melhorou a situação dos pobres. Nem que há mais diálogo com os movimentos. Ou que foram criados mais empregos. Tais elementos podem ser positivos, mas não fazem a diferença necessária na dura luta de classes que travamos.

A verdadeira questão é: o governo atual colaborou para fortalecer a luta dos trabalhadores e do povo em geral? A resposta é negativa.

As ações do PT à frente do Executivo enfraqueceram e confundiram as organizações populares e dos trabalhadores. Muitas delas tornaram-se dependentes de verbas oficiais. Algumas entraram no caminho da burocratização. Outras já eram dependentes e burocráticas. Estão adorando. O resultado é o enfraquecimento das lutas populares.

Do lado dos patrões, a tranqüilidade é quase geral. Alguns desconfiam da intimidade entre PT, CUT, MST, movimentos de negros, indígenas, mulheres, gays etc. Mas, poucos realmente sentem alguma ameaça real. A maioria confia na capacidade lulista de controlar esses "baderneiros".

E estão certos. Sob o governo Lula, a radicalização das lutas foi mínima. Imperaram os pedidos educados e chorosos. Sempre recusados pelo governo, sem choro nem vela.

Um governo Dilma seria dominado pelo PMDB. Um partido de confiança da classe dominante. A própria candidata já avisou, por exemplo, que não vai tolerar “invasões do MST".

É hora de os movimentos sociais fazerem um balanço radical do papel do governo Lula. Do contrário, vamos confundir voto útil com rendição.

16 de junho de 2010

Era Lula: confusões nada confusas

Lula aprovou o reajuste de 7,7% para os aposentados que ganham mais de um salário mínimo. A grande imprensa grita. Considera a decisão política, eleitoreira, populista. É como costuma chamar toda medida que alivia a situação dos trabalhadores. Mas não fala quase nada sobre a outra decisão do presidente petista que prejudica milhões de trabalhadores.

É o veto à proposta que acaba com o fator previdenciário. Para quem não sabe ou não se lembra, o fator previdenciário é um golpe aplicado pelo governo FHC, em 1999. Como não havia conseguido impor idade mínima para a aposentadoria, o governo tucano inventou um cálculo que torna desvantajoso solicitar o benefício para quem já tem o tempo necessário de contribuição.

Na época, a medida foi apoiada por PSDB, PMDB, PFL (atual DEM) e outros setores desprezíveis da política oficial. O PT e alguns outros partidos de esquerda votaram contra. Hoje, uns e outros se igualam numa troca de posições vergonhosa. PSDB e DEM (ex-PFL) são pelo fim do fator só para desgastar o governo. Petistas e apoiadores do governo são contra porque se transformaram em paladinos das reformas neoliberais.

Parece confuso, mas não é. Eles ficam trocando tapas e beijos às custas do justo direito à aposentadoria de milhões de trabalhadores.