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22 de março de 2024

No peito dos cristãos, pode bater um coração revolucionário

Christina Vital da Cunha, professora da UFF e autora do livro “Oração de traficante: uma etnografia” publicou um artigo no portal da Unisinos sobre a teologia do domínio, essa perigosa ameaça da extrema direita teocrática contra a democracia. Mas no final do texto, ela faz uma ressalva:

...vem crescendo no Brasil aqueles evangélicos críticos desta extrema direita, da politização das igrejas. Esses evangélicos críticos não defendem todas as bandeiras progressistas, mas são mais afinados com a defesa da justiça social, missão deixada por Jesus Cristo, do que com os interesses dos chamados “coronéis da fé”. Há ainda uma esquerda evangélica diversificada internamente e que se reúne em algumas denominações e comunidades, afastados da vida eclesiástica, mas com vigor na fé. Dado o crescimento evangélico na sociedade como um todo, em especial em suas bases, observaremos cada vez mais essa face evangélica na esquerda popular, engajada ou não em partidos, mas sempre em defesa da democracia e diversidade. As forças democráticas liberais ou de esquerda, acadêmicos em suas pesquisas, partidos em suas convenções, vão precisar considerar cada vez mais esses atores sociais em suas investigações e/ou ações políticas.

Lênin assinaria embaixo, uma vez que ele não cansava de alertar para a necessidade de prestar atenção às contradições presentes nos meios populares. Na época dele, o setor social mais conservador era o camponês. Mas isso não impediu que a Revolução de 1917 ocorresse graças à unidade operário-camponesa.

Lênin costumava dizer que no peito de um rude camponês pode bater um coração revolucionário. No íntimo de muitos cristãos também.

As doses diárias das pílulas ficarão suspensas até maio.

Leia também:
Fé e fuzil: espiritualidade, religião e emancipação humana
Aprendendo com Lênin a aprender com os camponeses

10 de março de 2022

A religião como ação transformadora sobre o mundo

Entre 1926 e 1937, surgiu a comunidade Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, no Crato, Ceará. Organizada por sertanejos em bases socialmente igualitárias e liderada pelo Beato José Lourenço, a iniciativa foi considerada um desafio à alta hierarquia católica e aos poderes políticos locais.   

Em seu livro “A terra da mãe de Deus”, Luitgarde Cavalcanti entende a religião como uma ideologia de classe. Mas quando “as baixas camadas, submetendo essa ideologia a sua práxis, constatam sua inadequação, vão-se afastando progressivamente do polo hegemônico”, diz nossa autora. Desse modo, continua ela, lideranças como José Lourenço e Antônio Conselheiro:

...enquanto produtores de ideologia, reeducam o povo para abandonar a ideologia do enriquecimento pessoal em troca do enriquecimento coletivo, o que eles vão conseguir através da colocação da mensagem cristã como mobilizadora e norteadora das formas de relação dos homens entre si e com a natureza. As relações religiosas passam a constituir relações de autoridade no grupo, ficando hierarquicamente privilegiados quanto ao poder de mando aqueles que reproduzem com maior fidelidade a doutrina igualitária cristã na vida prática. É assim que se dá uma ordenação da vida social capaz de promover o processo de produção e distribuição, o controle enfim da própria sociedade. A religião deixa de ser nessas condições específicas apenas uma forma de representação, transformando-se também numa "ação sobre o mundo", agindo eficazmente sobre uma realidade.

Os beatos, conclui Luit, assumem papel de produtores de ideologia, exercendo efetiva hegemonia em toda a comunidade. Não por acaso, tiveram o mesmo destino de Canudos, sofrendo um massacre em que morreram, pelo menos, 400 deles.

Concluiremos na próxima pílula.

Leia também: O povo beato e seus intelectuais orgânicos

9 de março de 2022

O povo beato e seus intelectuais orgânicos

Entendendo a religião como uma ideologia de classe, consideramos necessário, para estudá-la, conhecer a "repartição dos diferentes intelectuais, suas ligações mais ou menos orgânicas com as classes sociais, etc. É necessário também estudar os canais pelos quais se efetuam a produção e a difusão da ideologia". Nessa perspectiva resolvemos estudar o movimento social religioso de Juazeiro, a partir não apenas dos trabalhos existentes sobre o tema, isto é, da forma como ele é visto por aqueles que não integram o "mundo do Padre Cicero", mas também considerando os discursos de integrantes desse universo.


As palavras acima são de Luitgarde Cavalcanti, no livro “A terra da mãe de Deus”, sobre o mundo beato do Juazeiro de Padre Cícero. Nela estão implícitos os conceitos gramscianos de intelectuais orgânicos e intelectuais tradicionais. Estes últimos, trabalhando pela conservação da ordem dominante, enquanto os primeiros se formariam na luta contra ela.

No caso em questão, Padre Cícero desempenharia o papel de intelectual tradicional da Igreja Católica, ainda que a forma se sua atuação fosse repudiada pela alta hierarquia católica, colocando-o em uma situação ambígua. Enquanto isso, diz a autora, os beatos seriam os “intelectuais orgânicos, produtores de ideologia das baixas camadas”. Sua atuação manifestando-se sob a “forma limite da consciência historicamente possível da ideologia dominada, na formação social do Nordeste sertanejo”.

É fundamental notar, porém, que essa “forma limite” afeta os dominados em geral. Pelo menos, até que superem sua condição subalterna. Ou seja, ainda que pouco letrados, ainda que brutalizados pela ordem dominante, os beatos sempre foram perfeitamente capazes de assumir o papel de intelectuais responsáveis por sua própria emancipação.

Leia também: Os beatos do Juazeiro e o comunismo dos apóstolos

8 de março de 2022

Os beatos do Juazeiro e o comunismo dos apóstolos

Em seu livro “A terra da mãe de Deus”, Luitgarde Cavalcanti analisa o mundo beato ligado ao Juazeiro do Padre Cícero. Em sua vivência sob condições sociais e naturais hostis, os beatos se guiavam pelos valores originais do comunitarismo cristão.

A autora cita uma homilia do século V de São João Crisóstomo, segundo Rosa Luxemburgo, "aquele que pregou mais ardentemente aos cristãos para regressarem ao primeiro comunismo dos Apóstolos":

E havia uma grande caridade entre eles, ninguém era pobre entre eles, ninguém considerava como seu o que lhe pertencia, todas as suas riquezas estavam em comum... uma caridade existia entre eles. Esta caridade consistia em que não havia pobres entre eles, de tal modo que os que tinham bens apressavam-se a desprender-se deles. Não dividiam as suas fortunas em duas partes, dando uma e guardando a outra; davam o que tinham. Assim não havia desigualdade entre eles. Todos viviam em grande abundância. Tudo se fazia com o maior respeito. O que davam não passava da mão do doador para a mão do que recebia; as suas dádivas eram sem ostentação; traziam os bens aos pés dos apóstolos que se tornavam os controladores e donos deles que os usavam, daí para o futuro, como bens da comunidade e já não como propriedade de indivíduos.

“A ideologia dominada só existe pela oposição à ideologia dominante da qual se origina, e pela qual estará contaminada”, escreve Luit. É a “descontaminação” das concepções de mundo dos dominados em relação aos valores dominantes que os torna perigosos para os de cima. No caso, para a cúpula católica.

Mais na próxima pílula.

Leia também: Os marxistas práticos do mundo beato no sertão nordestino

7 de março de 2022

Os marxistas práticos do mundo beato no sertão nordestino

“Marxistas práticos”. Foi assim que José Góes de Campos Barros chamou os beatos do povoado de Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, que existiu no Crato, Ceará, entre 1926 e 1937. Para Campos Barros, “o beato, sem o saber, era marxista - marxista prático”.

O autor dessas palavras não tinha a menor simpatia pela comunidade que descrevia. Ao contrário, como oficial do Exército, integrou o comando da operação que promoveu o massacre dos moradores de Caldeirão. O crime de que eram acusados? Comunismo.

Sob liderança do Beato José Lourenço, afirma Campos Barros, aqueles “homens rudes, de rostos severos e mãos calosas como carapaças de tartarugas” faziam uma terra “estéril” produzir. “Para os seus celeiros convergiam todos os produtos da comuna”. Ainda segundo o relato do militar, seus moradores declaravam orgulhosos: “aqui nada me pertence, é patrimônio de todos os que vivem nesta irmandade e recorrem à nossa proteção”.

O relato aparece em “A terra da mãe de Deus”, importante livro de Luitgarde Cavalcanti, publicado em 1988. Nascida em Santana de Ipanema, no sertão de Alagoas, a autora é antropóloga, com quase 60 anos de trabalho acadêmico envolvendo a cultura e o modo de vida sertanejos. Entre seus muitos livros, estão obras fundamentais sobre Padre Cícero e Lampião.

Nas próximas pílulas, mais comentários sobre “A terra da mãe de Deus”, estudo no qual Luitgarde utiliza a elaboração de Antonio Gramsci para abordar a religiosidade popular como foco de resistência às injustiças sociais. Fenômeno importante para entender rebeliões como a do próprio Caldeirão, do arraial de Canudos e dos povoados do Contestado.

Leia também:
“Bacurau”: porque é preciso tirar nossas armas do museu
Vandalismo e chifres

4 de novembro de 2016

A universalidade muito particular da Universal

Esclarecedora a entrevista com Ricardo Mariano, publicada hoje no Globo. Autor do livro “Neopentecostais”, ele analisa a recente eleição de Marcello Crivella no Rio.

Para começar, Mariano afirma algo que deveria ser óbvio sobre os eleitores do novo prefeito:

Não dá pra pressupor que se trata de 40 milhões de evangélicos que seguem seus pastores como se fossem gado, como se fossem um rebanho acrítico. Esse pessoal filtra, reinterpreta e seleciona certas coisas, como em toda religião.

Menos óbvio é o que ele afirma sobre a igreja de Crivella: “A Universal tem um projeto flexível de poder”. Segundo ele, a organização de Edir Macedo:

...é muito diferente das demais pentecostais, ela não é sectária. É uma igreja que abraça os bens materiais, a prosperidade, e que prega que as coisas boas deste mundo devem ser aproveitadas pelos fiéis. Se dar bem neste mundo é algo altamente positivo na teologia.

Além disso, Macedo teria dado declarações a favor do aborto, devido a “um excesso de pobres”. E teria dito que “há espaço” para os gays em sua igreja, ainda que continuem a ser pecaminosos.

Ou seja, fica claro que há um projeto conservador em andamento. Mas voltado à defesa específica dos interesses das forças envolvidas que a eleição de Crivella representa.

O que mais importa nessa entrevista é entender que todo esse processo diz respeito à boa e velha “disputa de hegemonia”. Mais precisamente, trata-se de tornar universal o que não passa da defesa mesquinha de interesses particulares. Algo a que se dedicam todas as facções da classe dominante.

A propósito, a palavra grega para “universal” é “katholikos”...

11 de julho de 2016

Galileu e o pacto entre ciência e religião

Há quatro séculos, em 1616, a Igreja Católica proibia a divulgação da teoria heliocêntrica, de Copérnico. Um dos principais atingidos pela medida foi Galileu Galilei, que a vinha aperfeiçoando.

Chamado a Roma para se explicar, Galileu apresentou argumentos bastante sólidos. Em “Para uma ontologia do ser social”, o marxista George Lukács explica como a Igreja, diante da situação embaraçosa, recorreu “à teoria da dupla verdade”, elaborada pelo cardeal Belarmino:

Quando novas cartas astronômicas, baseadas em novas hipóteses, facilitarem a navegação de nossos marinheiros, eles devem usá-las. A nós desagradam apenas as teorias que falsificam a Escritura.

Ou seja, os cientistas deveriam deixar as questões religiosas para as autoridades eclesiásticas. Seu trabalho envolve a razão, o do clero, a fé.

De certa maneira, essa “divisão de trabalho” persiste até hoje. Há poucos cientistas que se dedicam a questionar a existência de forças divinas e transcendentes. Já a Igreja Católica, por exemplo, reconheceu as teorias de Galileu e Darwin.

Mas há um problema mal resolvido nesse arranjo. É novamente Lukács que o expõe:

...se a ciência não se orienta para o conhecimento mais adequado possível da realidade existente em si, (...) então sua atividade se reduz, em última análise, a sustentar a práxis no sentido imediato. (...) uma manipulação dos fatos que interessam aos homens na prática.

E de que homens falava Lukács? Daqueles que controlam as instituições. Neste caso, as religiosas e científicas. E a que prática se dedicam? Àquela que justifica a exploração e a opressão por meio de dogmas fantasiados de verdades.

Há quatro séculos, ciência e religião mantêm um pacto muito conveniente aos poderosos.


14 de abril de 2016

O amor e seu oposto, o Vaticano

Em meio a uma crise tão dura, que tal falar de amor?

Melhor, não. O documento recentemente lançado pelo Papa Francisco sobre o tema também tem causado muita confusão.

Segundo muita gente “Amoris laetitia” (“A alegria do amor”) estaria abrindo a Igreja aos divorciados, pregando tolerância cristã aos homossexuais etc. Não é bem assim.

O “New Ways Ministry”, grupo de defesa voltado à comunidade católica LGBT, por exemplo, afirma que ninguém esperava “uma bênção para o casamento entre pessoas do mesmo sexo”, mas uma “mensagem afirmativa a eles”. No lugar disso, “os mesmos comentários mal informados”.

Já Marco Politi, em reportagem publicada no jornal “Il Fatto Quotidiano”, em 12/04, esclarece que o documento papal é baseado no relatório final de uma reunião geral dos bispos católicos realizada em 2015. Mas resultou muito mais moderado que as posições aprovadas na conferência.

No caso do casamento gay, havia um “reconhecimento também do caráter positivo da vida de casal homossexual”. Mas na redação de Francisco, a condição homoerótica foi tratada de forma puramente negativa na seção “Iluminar crises, angústias e dificuldades”.

Além disso, todos os trechos da “Amoris laetitia” sobre homossexualidade já faziam parte de documentos do papa arquiconservador Bento 16.

Quanto aos divorciados, o relatório dos bispos admitia que eles “poderiam ter acesso à comunhão, satisfeitas certas condições”. Pelo documento papal, cada caso será analisado pelo sacerdote de plantão. Procedimento que já é prática comum.

As mansas palavras de Francisco não mudarão uma instituição ultraconservadora como o Vaticano. No lugar do respeito a toda forma de amor, permanece a vocação para ceder apenas a paixões alimentadas pela intolerância.

13 de julho de 2015

O Vaticano, entre a cruz e o Kremlin

Em 08/07, Evo Morales deu ao Papa Francisco um crucifixo formado com a foice e o martelo, causando enorme polêmica.

A cruz foi idealizada pelo padre Espinal, mártir da luta dos trabalhadores bolivianos, torturado e morto por paramilitares em 1980.

Mas o padre Xavier Albó, que o conhecia bem, afirma que Espinal nunca foi comunista. A cruz simbolizava a necessidade de diálogo entre a igreja engajada socialmente e o movimento operário.

Nesse sentido, Morales foi coerente. Francisco tampouco é comunista. Talvez, não seja nem de esquerda. Pelo menos é o que afirma o historiador Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em Minnesota, Estados Unidos.

Em artigo publicado pela IHU-Online, em 10/07, ele diz que Francisco é um “centrista” que inovou pouco em relação aos princípios da doutrina social da Igreja, estabelecidos pela encíclica “Rerum novarum”, de Leão XIII, editada em 1891.

Faggioli também cita o caso da bula “Populorum progressio”, de Paulo VI (1967), que teria um “tom mais ‘marxista’ do que a recente ‘Laudato si”’. Nela, aparece, por exemplo, o papel histórico dos pobres.

Ainda segundo o autor, “não foi a Igreja que se radicalizou, mas foi o mundo que se alinhou com um neoliberalismo que é o antagonista por excelência da moral social católica...”

Ao mesmo tempo, Faggioli considera catolicismo e comunismo duas das “formas mais duradouras de universalismo”.

De fato, “katolikos”, em grego, significa "universal". Comunismo remete à necessidade de construir a grande comunidade humana, sem exploração e opressão.

Mas aceita a comparação, o Vaticano seria, no máximo, uma ditadura stalinista, jamais uma Comuna de Paris.

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Francisco e a teologia ecossocial neoliberal

6 de julho de 2015

Francisco e a teologia ecossocial neoliberal

Segue o debate sobre a “bula ecológica” papal, a louvada “Laudato si”. Desta vez, com um artigo extremamente crítico de José Francisco Puello-Socarrás, professor de Ciência Política da Universidade Nacional da Colômbia, publicado no portal “Rebelión”, em 27/06.

O autor considera que o decreto de Francisco se inspira em uma versão alemã do neoliberalismo, contrária à ideia de que “a sociedade funcionaria harmônica e perfeitamente graças aos automatismos do mercado”. Rejeição que o Vaticano teria endossado há décadas.

Desse modo, o tom crítico da bula seria apenas produto de uma visão que considera necessária alguma regulação sobre a economia, mas jamais abrindo mão da primazia do mercado. Não à toa, nota Puello-Socarrás, “na análise ecossocial de Francisco, a palavra ‘capitalismo’ brilha por sua ausência”.

O texto apresenta vários elementos polêmicos para justificar suas afirmações. Mas, concorde-se ou não com eles, um aspecto levantado pelo autor faz muito sentido. Por que Francisco resolveu visitar Equador, Bolívia e Paraguai, ignorando Argentina e Brasil? Em especial, este último, considerado referência na questão ambiental?

Segundo o autor, aqueles três países:

... figuram hoje como fontes paradigmáticas de complexos processos populares onde o Suma Qamaña (aimara), o Sumak Kawsay (quéchua) e o Ñandareco (guarani) –, ou seja, horizontes para o Bem Viver/Viver Bem dos povos – emergiram como matrizes civilizatórias, alternas e nativas: alternativas! Não somente contra o neoliberalismo em qualquer uma das suas versões, mas, para além, como propostas potencialmente anticapitalistas. 

Aparentemente, o Papa Pop sabe onde é preciso disputar a hegemonia religiosa. Lá onde há influência de cosmologias muito menos amigáveis ao capitalismo, sistema que a doutrina vaticana sempre abençoou.

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O ambientalismo poluído do Vaticano

29 de junho de 2015

Se a luta de classes não vai a Maomé...

Em resposta a ações atribuídas a terroristas muçulmanos na Tunísia, Kuwait e França, Estados Unidos, Inglaterra e França elevam alerta contra o terrorismo, dizem os jornais.

Prepara-se nova onda de medidas para endurecer a repressão e aumentar a vigilância estatais. Seus alvos são tanto as populações muçulmanas, como os movimentos anticapitalistas. Ambos cada vez mais tratados como terroristas. 

O pretexto que tenta legitimar tais ações é “o combate ao terrorismo”. A verdade por trás da intenção é mais terror por parte de países imperialistas, como Estados Unidos e Inglaterra, e seus satélites, como Israel e Arábia Saudita.

A resposta das forças populares anti-imperialistas e da esquerda em geral deve partir do princípio que Reza Aslan defendeu em seu
livro “No god but God”. Nesta obra, o autor diz que não há um choque entre Ocidente e Islamismo. Ao contrário, é dentro do Islã que a batalha decisiva vem sendo travada.

De um lado, aqueles que distorcem a fé islâmica para manter no poder minorias tirânicas e aliadas do imperialismo. De outro, forças que lutam para derrotar a minoria fanática do islamismo que fornece os pretextos que a ordem capitalista utiliza para espalhar seu terror.

As armas desta batalha podem ser os fuzis, como na resistência curda ao Estado Islâmico. Mas, na maioria dos casos, é a luta política e social que pode ser decisiva. E as forças islâmicas anticapitalistas são as únicas capazes de derrotar o fanatismo muçulmano, jamais o fundamentalismo imperialista.

Ou seja, se a luta de classes não vai a Maomé, Maomé precisa ir à luta de classes.

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23 de junho de 2015

O ambientalismo poluído do Vaticano

     Mick  Stevens
“Laudato Si”, a mais recente bula papal, vem causando sensação. A começar pelos contratos que a Editora Vaticana assinou com 11 editoras. O documento em defesa do meio ambiente pode ser lido na internet, mas muitos preferem a cópia papel, apesar de seu impacto ecológico.

Ironias à parte, o decreto tem sido tratado como uma revolução na tradição católica. Artigo de John L. Allen Jr., publicado pela IHU-Online em 19/06, mostra que não é bem assim.

Segundo o texto, documentos semelhantes já vêm sendo publicados pelo Vaticano há décadas. Em 1971, Paulo 6º editou a “Octogesima Adveniens”, primeiro texto a conter um parágrafo inteiro dedicado ao meio ambiente.

Em 1988, João Paulo 2º defendeu “um meio ambiente natural seguro e saudável” como um direito no mesmo nível do direito a saúde, educação e dignidade. Convocava, ainda, a humanidade a arrepender-se pelos pecados cometidos contra a natureza.

Em 2007, Bento 16 anunciou a “Floresta Ambiental Vaticana”, criada na Hungria para compensar as emissões anuais de CO2 do Vaticano. Era a colaboração papal para a farsa do mercado de carbono.

Mas Allen Jr alerta para aquilo que realmente importa na iniciativa de Francisco. A bula transforma a Igreja Católica no principal representante moral no combate ao aquecimento global e suas consequências.

De fato, os discursos oficiais sobre destruição ambiental costumam citar apenas seus custos econômicos. A iniciativa papal diferencia-se por discutir valores éticos. O problema é que em questões morais a cúpula católica é de um conservadorismo extremo.

Muito mais provável é o Vaticano poluir suas recentes posturas ambientalmente limpas com a sujeira de suas doutrinas fundamentalistas.

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O Papa Maquiavel

22 de junho de 2015

O Papa Maquiavel

Seria interessante explorar as possibilidades dramatúrgicas do processo de condução do cardeal Bergoglio à condição de Papa. Poderia resultar em filme, peça, livro...

É só imaginar o futuro Francisco 1o circulando entre os cardeais no conclave decisivo. Um pequeno grupo o acompanha argumentando mais ou menos assim:

Vocês querem tirar esta enorme e antiguíssima instituição do ostracismo? Deter a onda de desprezo que ela provoca no mundo todo, mesmo entre seus fiéis?

Pretendem impedir que a maior igreja do Ocidente seja arrastada pela crise civilizatória que começou com a grande depressão econômica de 2008?

Ambicionam que o Vaticano volte a ser ouvido com respeito, não pela hipocrisia dos governos, mas pela esperança de vastas parcelas da população do planeta?

Vocês realmente acham que vamos nos desfazer da pecha de abusadores de crianças e príncipes religiosos corruptos nos apoiando na infabilidade divina? Nos escondendo das grandes questões dos dias atuais por trás de velhas bulas do passado?

Desculpem, mas achamos que vocês estão sem saída. Temos certeza de que esse argentino ousado aqui pode dar um jeito nisso tudo uma vez consagrado.

Poderíamos dizer que ele será nosso Obama, Lula, Kirchner... Mas, calma, respirem aliviados porque ele será nosso Maquiavel.

De qualquer maneira, ou aceitam isso, ou podem ir se acostumando a longos anos de insignificância política, fiéis cada vez mais raros e diligências judiciais batendo em nossas portas.

Dois anos depois, alguns daqueles cardeais podem ter se arrependido de seu voto. Mas a maioria, com certeza, respira aliviada do alto de seu poder intacto. Por enquanto, o final do drama seria feliz. Só para eles.

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16 de abril de 2015

O Cristo laico de um Estado catequizado


  Pedro Américo
Em tempos em que a bancada da Bíblia tenta catequizar o Estado e a vida pública, vem aí o feriado não religioso de Tiradentes.

Ou não?
        
O Estado laico nasceu entre nós por meio dos positivistas, que proclamaram a República de cima para baixo. A Constituição que aprovaram assegurou que o Estado deveria ser indiferente à fé escolhida pelas pessoas. Um avanço, sem dúvida. Mas como muitos outros, destinado a ficar no papel.

Não demorou muito para que o novo regime inaugurasse um culto laico. Tiradentes foi enforcado careca e sem barba, como era costume na época. Mas muitas das pinturas do período republicano que retratam sua execução deram-lhe longa cabeleira e barba. Era o Cristo laico dos positivistas.

Em “O Precursor”, de Pedro Bruno, Tiradentes lembra Cristo diante de um frade que porta um crucifixo. O carrasco curva-se como a pedir sua bênção. Décio Villares retrata um Tiradentes muito semelhante às imagens de Cristo. “Leitura da Sentença”, de Eduardo de Sá, mostra um altar com velas e o crucifixo com Jesus Cristo.

Em “Tiradentes Esquartejado”, de Pedro Américo, a cabeça decepada parece estar cercada por uma aureola. Um crucifixo repousa a seu lado e a posição do torso mutilado lembra a “Pietà”, de Michelangelo.

A vedação de relações entre Estado e cultos religiosos ou igrejas foi confirmada pela atual Constituição. Mas seu preâmbulo diz que foi promulgada “sob a proteção de Deus”.

Eis porque jamais faltaram crucifixos e imagens católicas em tribunais, parlamentos e repartições. Aos cultos afro-brasileiros nunca foi permitida liberdade semelhante. Ao contrário, são alvo da mais dura discriminação e repressão oficiais.

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A onda conservadora não é evangélica

16 de outubro de 2014

A onda conservadora não é evangélica

Silas Malafaia afirmou em 2013: “Se o Feliciano tiver menos de 400 mil votos na próxima eleição, eu mudo de nome”. O pastor homofóbico se reelegeu com apenas 398 mil votos. E o temido “tsunami evangélico” virou marola.

É verdade que os evangélicos Clarissa Garotinho, Eduardo Cunha, Christiane Yared e Pastor Eurico foram campeões de voto.  E que Marcelo Crivella, da Igreja Universal, foi para o 2º turno no Rio. Mas a chamada "bancada evangélica” cresceu 3%, contra os 20% ou 30% previstos inicialmente. O “pastor” Everaldo teve metade da votação de Luciana Genro.

O mito da “ditadura evangélica” é muito conveniente. O maior problema de Eduardo Cunha, por exemplo, não é sua opção religiosa. É sua atuação como representante das operadoras de telefonia. Nessa condição, ele liderou a oposição à aprovação do Marco Civil da Internete na Câmara.

Enquanto isso, Cabo Dacioclo, eleito deputado federal pelo PSOL-RJ, recebe mais atenção por ser evangélico que por ter liderado a greve dos bombeiros fluminenses.  

Muitos progressistas usam o terror antirreligioso para se omitir na luta por direitos humanos e liberdades individuais. Mas a ONG “Católicas pelo direito de decidir” apoia o direito ao aborto. Muitas comunidades evangélicas acolhem fiéis gays. Há várias forças religiosas dispostas a marchar junto com a esquerda.

O Congresso eleito é, realmente, o mais conservador em 50 anos. De fato, a maioria das lideranças evangélicas é de direita. Mas nosso maior problema não é a religiosidade popular. É o uso que o poder econômico faz dela. A mais fanática e perigosa força política de nossa sociedade é a do grande capital.

4 de agosto de 2014

O novo templo e seus vendilhões

Para alguns, a famosa passagem bíblica em que Jesus expulsa os “vendilhões” do templo é a mais radical dos evangelhos. A atitude atingiu a nobreza clerical que se beneficiava do aluguel daquele espaço sagrado. Neste momento o líder dos judeus pobres teria atraído contra si o ódio da classe dominante judia e pavimentado seu caminho para a crucificação.

Mais de dois mil anos depois, a grande maioria dos templos são palácios luxuosos disfarçados como igrejas e catedrais. Seus pregadores, príncipes que envergam as roupas mais luxuosas. Devassos de fala mansa, convivem com o poder temporal da forma mais promíscua. O Vaticano tem até um banco, tão rico quanto corrupto.

Mas os cristãos protestantes não ficam atrás. Principalmente as ramificações neopentecostais que adoram a ostentação e abençoam o acúmulo de bens materiais. A evidência mais recente disso é o Templo de Salomão, inaugurado pela Igreja Universal do Reino de Deus, em São Paulo.

Três vezes maior que a Basílica de Aparecida do Norte, a construção simboliza todo o poderio a que chegou a organização de Edir Macedo. À inauguração compareceram a presidenta do País, o governador paulista e o prefeito paulistano. Todos de olho no voto dos quase 2 milhões de fiéis da igreja. Mas não só.

Adentrar o novo santuário custa 45 reais e os dízimos serão recolhidos por uma moderna esteira rolante. Tamanho potencial econômico não pode ser desprezado. Afinal, levantamento recente da Justiça Eleitoral mostrou que entre 1994 e 2010, só o custo das eleições presidenciais cresceu 85%, de R$ 190 milhões para R$ 352 milhões.

Um novo templo para vendilhões antigos e recentes.

Leia também: O Corão e o pluralismo religioso

12 de fevereiro de 2014

O Corão e o pluralismo religioso

Em 11/02, completaram-se os 35 anos da revolução iraniana. A imagem construída pela grande mídia é a de um país em que apenas os muçulmanos teriam liberdade religiosa. Independente do quanto isso é verdade, o islamismo não autoriza essa interpretação.

É o que diz Reza Aslan em seu livro “No god but God”. Segundo ele, secularismo não é o mesmo que secularização. Citando o teólogo protestante Harvey Cox, o autor diz que secularização é o processo pelo qual “certas responsabilidades passam das autoridades religiosas às autoridades políticas”. Seria uma evolução histórica em que a sociedade se liberta gradualmente do “controle religioso e de visões de mundo fechadas em sua metafísica”.

Já o secularismo, é uma ideologia baseada na erradicação da religião da vida pública. Um exemplo de país secular seria a Turquia, onde sinais exteriores de religiosidade, como o véu islâmico, são proibidos. Por outro lado, os Estados Unidos são um país secularizado, afirma Aslan. Há quase duzentos anos Alexis de Tocqueville já havia dito que a religião é a base do sistema político americano. Ela não só reflete os valores sociais americanos, mas muitas vezes os impõe, diz o autor.

Para Aslan, o que define a democracia é o pluralismo, e não o secularismo. E, segundo ele, o islamismo sempre teve compromisso com a diversidade religiosa. Entre as escrituras das grandes religiões, poucas podem superar o respeito com que o Corão fala de outras tradições religiosas. Para demonstrar, o autor cita um verso “indiscutível”: “Não pode haver compulsão na religião”.

Deus pode ser único, diz Aslan, mas o islamismo jamais pretendeu ser a única religião.

Leia também: As origens igualitárias da fé muçulmana

4 de fevereiro de 2014

Rosa Luxemburgo, os primeiros cristãos e o último Papa

Em janeiro, completaram-se os 95 anos da morte de Rosa Luxemburgo. A obra da grande revolucionária polonesa ainda é pouco conhecida. Uma lacuna que a esquerda terá que preencher se quiser realmente transformar o mundo.

Uma de suas obras mais interessantes é  “O Socialismo e as Igrejas”, publicada em 1905. Lembrando o ódio da alta hierarquia católica aos revolucionários, Rosa lembra:

...é chocante notar que os padres de hoje, que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros apóstolos cristãos. Estes não passaram, de fato, de ardentes comunistas.

A confirmar essa avaliação, Rosa cita os versículos 32 a 45 do capítulo 4 dos Atos dos Apóstolos. É uma descrição da primeira comunidade cristã de Jerusalém:

Todos os que abraçaram a fé estavam unidos e tudo partilhavam. Vendiam as suas propriedades e os seus bens para repartir o dinheiro apurado entre todos, segundo as necessidades de cada um.

A multidão dos fiéis tinha uma só alma e um só coração. Não chamavam de própria nenhuma de suas posses: ao contrário, tinham tudo em comum. Não havia indigentes entre eles... A cada um era repartido segundo a sua necessidade.

Felizmente, desde então, surgiram tendências e correntes internas aos cristãos que procuram honrar seus primeiros antepassados. Por isso mesmo, vêm sofrendo enorme perseguição há décadas. Principalmente, a partir do papado de João Paulo 2º.

O último papa procura demonstrar maior sensibilidade social. Mas seria necessário muito mais que isso. A começar pela venda do gigantesco patrimônio da Igreja Católica e sua partilha entre os pobres. Milagre que jamais chegaremos a presenciar.

27 de janeiro de 2014

As origens igualitárias da fé muçulmana

Quando Maomé começou a defender uma nova fé incomodou os poderosos da época. Não porque ele afirmasse que há somente um deus. Judeus e cristãos já defendiam o monoteísmo muito tempo antes.

Segundo o livro “No god but God”, de Reza Aslan, a hostilidade a Maomé surgiu de sua defesa da antiga ética tribal, que era igualitarista e recomendava cuidados especiais em relação aos mais fracos e incapazes.

Estes princípios teriam sido abandonados durante o domínio dos coraixitas. Esta tribo dominava Meca, que já era um centro religioso do mundo árabe muito antes do islamismo. Seus membros se enriqueceram e acumularam poder explorando a fé popular.

Perseguidos pelos coraixitas, Maomé e seus seguidores abandonaram Meca. Criaram a cidade de Medina, onde organizaram uma federação de aldeias. O evento foi tão marcante que é considerado o Ano 1 do calendário islâmico.

Um dos princípios da nova comunidade era a igualdade de todos, independentemente de suas posses materiais. Um imposto foi criado e sua arrecadação destinada aos mais pobres. 

O Corão justifica esse tributo dizendo que verdadeiramente virtuoso é aquele que “distribuiu seus bens em caridade por amor a Deus, entre parentes, órfãos, necessitados, viajantes, mendigos e para a libertação dos escravos”.

Com a crescente institucionalização da fé muçulmana tais princípios foram abandonados. Surgiram interpretações autoritárias do Corão para justificar a existência e aceitação de uma elite sacerdotal.

Mas as origens igualitárias do islamismo continuam presentes na militância de seus adeptos de esquerda no mundo todo. Desmentem os que tentam mostrar a fé de 1,5 bilhão de pessoas como um único credo fanático, intolerante, autoritário e injusto.

17 de janeiro de 2014

Um livro muçulmano contra a intolerância

Reza Aslan é o autor do best-seller “Zelota, a vida e a época de Jesus de Nazaré”. Iraniano radicado nos Estados Unidos, seu livro foi atacado por conservadores cristãos que não admitiam que um muçulmano escrevesse uma biografia de seu messias.

Mas antes de “Zelota”, Aslan escreveu “No god but God”, ainda sem tradução para o português. Neste caso, não houve escândalos, pois o autor escreveu uma história de sua própria fé. Mas o livro pode surpreender quem está acostumado aos preconceitos com que o islamismo é tratado pela grande imprensa ocidental.

O termo “fundamentalismo”, por exemplo, surgiu para descrever comunidades cristãs fanáticas dos Estados Unidos no início do século 20. Gente que considerava a modernização e a secularização da sociedade ameaças a seus princípios religiosos. Entre os muçulmanos eles também existem e também são minoria. Mas os jornais insistem em tratá-los como representantes da maioria.

“Guerra Santa” era como os cavaleiros cruzados cristãos chamavam suas expedições militares, sangrentas contra os povos árabes. Por trás da pretensa defesa de sua fé, estava a disputa por rotas comerciais e territórios. Hoje, a imprensa mundial atribui esse significado à palavra árabe “Jihad”. Na verdade, Jihad quer dizer “luta” ou “perseverança”, podendo assumir caráter militar, mas não necessariamente.

Não é preciso concordar com todas as conclusões a que o autor chega para descobrir na obra uma valiosa fonte de informações. Uma contribuição importante para desmontar o clima de intolerância criado em relação a uma fé que reúne um quarto da população mundial.

Voltaremos a comentar outros trechos desse livro sobre a tolerância islâmica.