Doses maiores

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17 de junho de 2021

Em Nomadland, a Amazon é um labirinto de perigos

Despejados de suas casas pela crise das hipotecas de 2008, muitos estadunidenses de classe média formaram comunidades nômades que circulam pelo país em trailers, buscando trabalho temporário.

Nos eventos que essas comunidades organizam, a Amazon monta quiosques de recrutamento. Vestindo camisetas da empresa, os recrutadores distribuem panfletos onde se lê "CONTRATANDO AGORA", junto com adesivos, calendários e outros brindes promocionais.

O relato acima é baseado no livro "Nomadland", de Jessica Bruder, assim como o testemunho abaixo, de um dos recrutados:

“Vocês vão fazer muito esforço físico aqui. Provavelmente, vão se agachar umas mil vezes por dia, sem exagero", avisou nosso instrutor. Alguns estagiários riram. Sentamos em longas mesas em ordem alfabética, como crianças em idade escolar. A maior parte da multidão estava acima dos 60 anos. Eu era o único com menos de 50, um dos três trabalhadores sem cabelos grisalhos. Disseram-nos que os gerentes do depósito solicitaram oitocentos trabalhadores e apareceram mais de novecentos.

O maior galpão equivale a 19 campos de futebol e tem 32 quilômetros de correias transportadoras. É um labirinto de perigos. Cabelos precisam ficar amarrados para não se prenderem nos rolamentos e os crachás têm cordões quebráveis para evitar estrangulamentos.

No verão, as temperaturas de um armazém na Pensilvânia ultrapassam os 45 graus. Os gerentes não abrem as portas por medo de roubo. Em vez disso, deixam ambulâncias prontas para retirar funcionários adoecidos pelo calor.

Nessas condições, os contratados cumprem jornadas superiores a 10 horas, com dois intervalos, de quinze e trinta minutos, para refeições. Tarefas rigidamente cronometradas por sensores completam o quadro.

Com isso, concluímos essa viagem exaustiva e revoltante.

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16 de junho de 2021

Nomadland: a vida humana como efeito colateral

Muitos dos trabalhadores que conheci nos galpões da Amazon faziam parte de um grupo demográfico que nos últimos anos cresceu com velocidade alarmante: americanos mais velhos, perdendo rapidamente qualidade de vida. Nos melhores dias do Império – com uma classe média forte, estabilidade no emprego e boas aposentadorias – essa situação era inimaginável.

O trecho acima é do livro "Nomadland", de Jessica Bruder, sobre trabalhadores despejados de suas casas pela crise das hipotecas de 2008. Nômades, eles passaram a circular pelo país a bordo de seus motor-home.

Formaram uma espécie de comunidade itinerante que costuma se encontrar nos locais que oferecem trabalho temporário. Muitos deles são os enormes centros de distribuição da Amazon.

A autora cita a experiência de uma dessas pessoas. Quando partiu em seu trailer sete meses antes:

...a sobrevivência financeira não era seu único objetivo. Ela também sonhava em se juntar a uma comunidade maior de pessoas. Pessoas que estavam dispostas a refazer radicalmente suas vidas em busca de realização e liberdade. Mas na Amazon, os turnos massacrantes eram exaustivos e solitários. Seus dias de folga serviam mais para recuperação do que socialização, não deixando muito tempo para se relacionar com outros nômades.

Mas a Amazon não criou tais centros especificamente para explorar esses deserdados do sonho americano. A empresa também surgiu na esteira da crise de 2008, mas como alternativa para o capital cortar radicalmente os custos com o trabalho humano utilizado no varejo comercial. A exploração desses sem-tetos motorizados foi apenas um lucrativo efeito colateral.

Na verdade, vidas humanas sempre foram tratadas como desagradáveis efeitos colaterais pelo capitalismo.

Mais na próxima parada.

Leia também: Nomadland: muitas horas e quilômetros trabalhando para a Amazon

15 de junho de 2021

Nomadland: muitas horas e quilômetros trabalhando para a Amazon

Em um capítulo de seu livro "Nomadland", Jessica Bruder revela como funciona o trabalho temporário na Amazon estadunidense. Um aspecto pouco desenvolvido no premiado filme inspirado pela obra.

Em 2011, a Amazon começou a criar grandes centros de distribuição chamados “CamperForce”, que empregam milhares de trabalhadores nas temporadas de vendas elevadas. Entre eles, muitos idosos.

Segundo o livro, esses galpões são tão grandes que os trabalhadores apelidaram seus setores com nomes de estados americanos. Os contratados trabalham dez horas ou mais caminhando cerca de 8 ou 9 quilômetros, por US$ 12 a hora. Enquanto examinam, classificam e embalam mercadorias, eles agacham-se, inclinam-se, empurram carrinhos, sobem e descem escadas.

Em um grupo fechado de funcionários da Amazon no Facebook, uma mulher disse que perdeu 12 kg durante seus três meses no emprego. Alguém respondeu: “É fácil perder peso caminhando meia maratona todos os dias. Você fica cansado demais para comer!” Outro participante se gabou de caminhar quase 900 km em dez semanas de trabalho.

Quando os períodos das grandes compras terminam, os “CamperForce” são desativados e os trabalhadores partem no que os gerentes chamam de "desfile de lanternas traseiras". Referem-se à fila de furgões e trailers que servem de moradia para esses condenados à vida nômade porque perderam suas casas na crise das hipotecas de 2008.

No total, esses períodos de contratação não passam de 90 dias por ano. Durante esse tempo, os idosos ou quase idosos ficam fora dos programas governamentais de assistência. E a Amazon consegue gordas isenções fiscais por empregar “pessoas em situação desvantajosa”.

Mas vantagem, mesmo, só para os capitalistas da Amazon.

Continua...

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14 de junho de 2021

Na terra dos nômades, a Amazon e os “amazumbis”

"Nomadland" recebeu o Oscar de melhor filme, atriz e direção em 2021. O longa foi inspirado no livro homônimo da jornalista Jessica Bruder, publicado em 2017.

Em formato de reportagem, o livro mostra o cotidiano de idosos que se deslocam pelo território estadunidense em furgões e trailers. São os nômades a que se refere o título.

A grande maioria deles não está na estrada a passeio. Moram sobre rodas porque suas casas lhes foram tiradas pelos bancos que as financiaram. É uma das consequências da crise das hipotecas de 2008.

A produção cinematográfica não é um documentário nem pretendia ser uma obra de denúncia. Talvez por isso tenha sacrificado alguns aspectos importantes dos relatos de Jessica. Principalmente, maiores informações sobre o trabalho executado por idosos nos galpões da Amazon.

A empresa começou a criar grandes centros de armazenamento e triagem em território americano, em 2011. Acabou atraindo essas pessoas em constante deslocamento para executar tarefas temporárias nos períodos de alta nas compras. Elas formam comunidades transitórias no entorno dos armazéns da empresa.

Segundo um dos entrevistados pela autora, a Amazon gosta de recrutar idosos porque executariam suas tarefas com maior responsabilidade. “Nós tiramos poucas folgas e não deixamos as coisas inacabadas”, diz ele, aparentemente orgulhoso.

O trabalho não é dos mais pesados, mas exige resistência física. Depois das longas jornadas noite adentro, os trabalhadores voltam para seus veículos extenuados. Transformados em “amazumbis”, costumam brincar, ainda que não pareça nada divertido.

Nas próximas pílulas, mais detalhes do capítulo do livro que descreve essa fábrica de zumbis que já instalou oito de seus depósitos no Brasil.
 
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