Doses maiores

Mostrando postagens com marcador coronavírus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador coronavírus. Mostrar todas as postagens

17 de março de 2021

A pandemia e o reset capitalista

Em setembro do ano passado, o Financial Times defendeu um “recomeço” para o capitalismo. Para o diário ultraliberal, o “capitalismo de livre iniciativa mostrou uma capacidade notável para se reinventar”. Mas às vezes, “é necessário reformar para preservar. Hoje, o mundo chegou a esse momento. É tempo para um reinício".

Reinício em inglês pode ser “reset”. E foi esse o termo utilizado por Klaus Schwab, fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial, em uma reunião realizada em junho de 2020. Entre os participantes, o Príncipe Charles, o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, e executivos da Mastercard e Microsoft.

Schwab defendeu o que chamou de “Great Reset” e apontou como seu gatilho a Covid-19, cujo impacto teria aberto uma “oportuna janela” para centrar as novas tecnologias “do mundo digital, biológico e físico no homem”.

Não demorou para que a extrema-direita surgisse com uma teoria da conspiração nas redes virtuais. Segundo ela, o tal reset nada mais seria que a implantação do comunismo global.

Delírios à parte, o fato é que o capitalismo já sofreu outros “reinícios” e o gatilho de um deles realmente tem a ver com o comunismo. Quando a Revolução Russa abalou o mundo, foi preciso preparar uma resposta rápida.

Há quem diga que essa resposta viria a ser a adoção da economia keynesiana. Mas a teoria de Keynes jamais sairia do papel sem a Segunda Guerra Mundial e esta foi produto da reação fascista ao avanço das lutas dos trabalhadores, evidenciado pelo surgimento da União Soviética.

O capitalismo não precisa de um reset. Precisa de um shutdown.

Leia também: Pandemia e oportunismo: veio a guerra, veio a peste

15 de julho de 2020

A pandemia do vírus e o pandemônio das informações

Dizem que a Gripe Espanhola surgiu nos Estados Unidos, em 1918. Mas como o país encontrava-se envolvido na Primeira Guerra, a divulgação de sua existência foi proibida.

Quando a doença chegou à Europa, provavelmente junto com as tropas estadunidenses, a censura continuava. Somente na Espanha, que não estava em guerra, os casos começaram a ser relatados e a gripe ganhou uma pretensa nacionalidade.

Esta situação mostra como a mais mortal pandemia que já existiu teve problemas com a circulação de informações. Mesmo que não houvesse censura, os meios de comunicação tinham um alcance muito menor e eram muito menos onipresentes.

Mas se há alguma coisa que não se pode dizer sobre a atual pandemia, é que faltam informações sobre ela. As revistas cientificas especializadas, por exemplo, sempre cobraram pelo acesso a seus artigos. Mas diante da gravidade da situação, a grande maioria delas abriu seus arquivos eletrônicos.

Essa medida, por um lado, facilita e acelera a realização de novos experimentos. Por outro, amplia o risco de conclusões precipitadas e a adoção de tratamentos duvidosos e temerários. Mas aqui ainda estamos em um nível mínimo de racionalidade.

A circulação de informações assume um caráter patológico mesmo é nas redes virtuais. Os mais variados e disparatados rumores, boatos, falsidades, circulam pelos meios digitais. Fortemente potencializados, claro, por poderosas forças políticas e econômicas cujos interesses se contrapõem à saúde pública e ao bem coletivo.

O coronavírus surgiu quando a chamada “esfera pública” já se encontrava tomada pela praga das mentiras, falsidades, fanatismos e discursos de ódio. O pandemônio das informações colabora para tornar a pandemia ainda mais grave.

Leia também: Infeccionistas, contagionistas e a doença do livre mercado

7 de julho de 2020

Infeccionistas, contagionistas e a doença do livre mercado

Publicado em 2017, o livro “Cidade Febril: Cortiços e epidemias na Corte imperial”, de Sidney Chalhoub, descreve a cidade do Rio de Janeiro às voltas com o combate à febre amarela, no começo do século passado.

A obra relata situações que se mostram tristemente atuais. Uma delas, por exemplo, opõe “contagionistas” a “infeccionistas”. Basicamente, os primeiros “recomendavam medidas como quarentenas para navios que chegavam ao porto e isolamento rigoroso do doente em hospitais estabelecidos em locais distantes do centro da cidade”.

Já os segundos, “consideravam tais providência ineficazes e advogavam medidas mais abrangentes”. Entre elas, as reforma urbanas realizadas em várias “cidades ocidentais na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX”.

Prevaleceram as posições dos “infeccionistas”, que levaram à derrubada violenta das habitações pobres da cidade e à consequente reação popular com a famosa Revolta da Vacina.

Mas no centro da polêmica estava um elemento fundamental: as quarentenas. “A classe ascendente de comerciantes e industriais” viam nelas “uma fonte de prejuízo econômico e uma arma intolerável do controle burocrático”. Esta classe, continua ele:

...com seus políticos e representantes na imprensa, estaria naturalmente por trás daqueles que argumentavam que não havia fundamento científico para as quarentenas. Em suma, o contagionismo, estando associado à ampliação do poderes das burocracias governamentais, tornara-se suspeito aos apologistas da ideologia liberal - interessados estes na superação de entraves ao livre desenvolvimento das relações de mercado.

Ou seja, antes como agora, danem-se as vidas. O importante é a economia. Mas se já não se trata de combater vacinas, não faltam motivos para uma nova revolta.

Leia também: “Bacurau”: porque é preciso tirar nossas armas do museu

10 de junho de 2020

A esquerda em quarentena

Há um certo consenso de que, uma vez superada a pandemia, a vida jamais voltará ao normal. Também deveria ser consensual que, mesmo que Bolsonaro seja derrotado, não voltaremos à normalidade anterior.

O normal de antes da pandemia era o desmatamento que a provocou. Era o caos urbano que espalhou o vírus. Era a enorme desigualdade econômica e sanitária que tornou o covid muito mais mortal entre os pobres e não brancos.

E o normal antes de Bolsonaro, era o quê? A democracia? Qual democracia e para quem?

Lá onde a pandemia faz mais vítimas ficam os mesmos lugares onde a democracia sempre foi um conceito tão conhecido quanto abstrato. Em nenhum momento, por exemplo, essa ideia impediu que a polícia continuasse matando indiscriminadamente.

Nesses locais, do mesmo modo que a democracia não estava presente quando Bolsonaro chegou, não havia um mínimo de dignidade humana quando o coronavírus atacou.

Recentemente, foi divulgado o estudo “Bolsonarismo em crise?”, coordenado pelas pesquisadoras Camila Rocha e Esther Solano. Feito com eleitores de Bolsonaro das classes C e D, o levantamento apontou um certo arrependimento entre seus entrevistados.

Mas, mesmo entre esses “arrependidos”, a maioria repetiria o voto por “falta de alternativa” e graças a um persistente antipetismo.

Comentando os resultados de seu trabalho, Esther adverte que tal como acontece com a democracia, o significado de fascismo também permanece vago. E vai ser assim enquanto continuarmos a simplesmente definir fascismo como o oposto de democracia.

Bolsonaro ainda está lá, junto com o vírus. E nós? Nós já estávamos em quarentena muito antes dos dois chegarem.

Leia também: As ruas podem tornar o impossível inevitável

9 de junho de 2020

Vidas indígenas também importam

Elas morrem de pandemias há 500 anos. E morrem de balas também. E de etnocídio, que é o nome que se dá para a destruição da cultura de um grupo étnico por outro. São as populações indígenas.

Os indígenas morreram de gripe, sarampo, varíola. Pestes trazidas pelo colonizador. E morreram do chumbo disparado por armas brancas. Muitos morreram culturalmente. E continuam a morrer todas as vezes que sua identidade fica escondida por trás do termo “cor parda”.

Eles estão perdendo suas vidas em velocidade ainda maior, agora, durante a pandemia. Continuam a perdê-las pela força bruta, mas também sutilmente pelo vírus. 


A mando do agronegócio, garimpeiros e madeireiros avançam sobre seus territórios carregando o covid. E novamente vão deixando a morte nas florestas.

Eles ensinaram o colonizador a tomar banho, mas mal têm água limpa para lavar as mãos. Muitos dos rios que os alimentaram e banharam por séculos foram transformados em esgotos pelo homem branco.

Aqueles que vivem mais isolados, formam comunidades muito unidas, muito solidárias. Mas um único deles que traga a peste depois de voltar da cidade a espalha imediatamente. A ajuda médica mais próxima fica a dias de navegação fluvial.

Eles sabem lutar. Resistem bravamente. Mas continuam a ser mortos pelo chumbo, pela depressão, pelo gado, pela soja e, agora, pelo covid.

E nós facilitamos essas vitórias racistas cada vez que deixamos um “pardo” perdido entre uma identidade negra improvável e uma identificação branca alienada. Cada vez que os abandonamos à política de eugenia que mata seus povos e destrói sua cultura.

Sempre que aceitamos que vidas indígenas também não importam.

Leia também:
Contra a morte social, a comunhão das lutas
Abril de 1500: os Walking Dead desembarcam

3 de junho de 2020

Ora, (direis) explorar as estrelas!

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, / Perdeste o senso!", diz um famoso poema de Olavo Bilac.

Realmente, quem daria ouvidos às estrelas quando no rés-do-chão do planeta tanta gente morre e muitas ameaças assombram? Não só a pandemia, mas os problemas ambientais, a enorme desigualdade social e vários loucos à frente de governos pelo mundo.

Bom, o noticiário arranjou espaço para falar do lançamento da Demo-2, que decolou em 30/05/2020 rumo à Estação Espacial Internacional. A novidade é que a nave espacial é da SpaceX, primeira empresa privada a colocar pessoas em órbita.

A companhia foi contratada pela NASA para realizar a missão. Seu chefão é Elon Musk, também dono da Tesla e eleito pela ideologia neoliberal como um dos símbolos do empreendedorismo visionário e destemido.

Para entender melhor toda essa história não deixe de ler o artigo “O capitalismo ensaia sua distopia espacial”, de Alex Moraes, publicado no portal Outras Palavras. Nele você vai ficar sabendo que desde os anos 1960 houve algumas tentativas de estabelecer tratados internacionais que livrassem a exploração espacial da sanha do capitalismo por lucros.

Você também descobrirá que os projetos de Musk sempre contaram com muito dinheiro público. E que por trás da SpaceX está um modelo de exploração espacial tão selvagem como aquele que já vem destruindo a Terra há dois séculos.

Essa nova elite ultramoderna pretende habitar as galáxias, mas só consegue rastejar em meio aos animais mais peçonhentos já surgidos na natureza. Musk, por exemplo, apoia Donald Trump na sabotagem ao isolamento social contra a pandemia.

Diante de criaturas como essas, as estrelas só podem permanecer surdas.

Leia também: Bilionários do mundo preparam sua Arca de Noé

21 de maio de 2020

A pandemia e a dose necessária de pessimismo inteligente

A frequente comparação das consequências do coronavírus com aquelas da Segunda Guerra Mundial são simplesmente descabidas. Pois se acerta na constatação de que o Estado é tragado pelo espaço vago deixado pelo mercado, ignora um fator crucial para os efeitos distributivos de uma maior participação estatal na economia. A saber, a correlação de forças entre os grupos sociais em conflito. Em 1945, a União Soviética despontava como potência global, os operários fabris constituíam parcela importante dos trabalhadores europeus, se organizavam em grandes sindicatos e faziam greves regulares, e os partidos comunistas e social-democratas estavam entre as principais forças políticas do mundo ocidental. A formação dos Estados de bem-estar não era resultado exclusivo de programas de investimento público coordenados pela burguesia.

O coronavírus, por sua vez, não parece capaz de alterar a correlação de forças por trás da nossa ortodoxia econômica. Ao contrário, o que temos visto é a ampliação de índices já elevados de desemprego, o aprofundamento da flexibilização das legislações trabalhistas e o rebaixamento das expectativas dos trabalhadores quanto ao escopo dos direitos que podem reivindicar e ao futuro com que podem sonhar. A pandemia tem provocado mortes, doenças, confinamentos. Pouco mais que isso.

O trecho acima é apenas uma amostra do artigo “O vírus e a ilusória redenção automática”, de Philippe Scerb, publicado aqui. A leitura integral é altamente recomendável.

Basicamente, o autor está tentando desenganar aqueles que contam com a pandemia para desmascarar as políticas neoliberais, desmoralizar as classes dominantes e despertar a resistência dos explorados.

Falta ao texto apontar propostas mais concretas, mas oferece a dose necessária do imprescindível pessimismo da inteligência.

Leia também: Na guerra contra o vírus, não estamos todos do mesmo lado

20 de maio de 2020

Na guerra contra o vírus, não estamos todos do mesmo lado

O neurocientista Miguel Nicolelis está à frente do projeto Monitora Covid-19, que começou a ser implantado no Nordeste do País. Em recente entrevista ao jornal Zero Hora ele usou metáforas bélicas para explicar como tudo começou:
Conseguimos ver claramente a migração dos casos: a covid-19 chegou por voos internacionais e adentrou nossas fronteiras, instalando-se nas grandes cidades, primeiro nos bairros de classe média-alta, e dali se espalhou por meio dos entroncamentos rodoviários. A imagem, no mapa do Brasil, é a de uma guerra: há invasão pela costa rumo aos centros maiores para, a partir deles, ocupar de todo o território. É como se estivéssemos sendo invadidos.

(...)

Nos mapas que temos feito, há as regiões que concentram mais casos e a partir das quais o vírus se espalhou. E há aquelas onde ainda há muito pouca incidência da doença. É nessas que as Brigadas Emergenciais têm de ir. É uma estratégia de guerra, mesmo: você domina um território, finca sua bandeira nele e dali tenta se espalhar, tomando os territórios vizinhos.

O projeto merece todo o apoio. Mas ele é iniciativa de governos. E governos costumam fracassar vergonhosamente quando se trata do bem-estar e da vida da maioria.

Sim, o coronavírus-19 entrou pelas portas de luxo do País. Mas são principalmente os mais pobres que estão morrendo. E não, não estamos todos do mesmo lado.

A esquerda e os movimentos sociais precisam entrar nessa guerra contra o covid, mas também contra seus maiores aliados. Aqueles que estão em palácios e mansões. As “brigadas emergenciais” precisam do apoio de brigadas de solidariedade de classe.

Leia também: Bolsonaro, governadores, prefeitos: uma aglomeração genocida

19 de maio de 2020

Pandemia: a Inteligência Artificial e a estupidez do capital

Nos últimos anos, uma das ameaças que vinham sendo apontadas como provável elemento para desemborcarmos em um cenário apocalíptico era a Inteligência Artificial.

Alguns especialistas previam a escravização da raça humana por robôs. Outros imaginavam nossa vida social reduzida a algoritmos que ditariam nossas escolhas.

Chegou a pandemia e essas possíveis ameaças passaram a ser saudadas como ferramentas valiosas.

Agora, elas nos permitem trabalhar de maneira remota. De repente, algoritmos, big data e rastreamento digital passaram a ser fundamentais para o combate ao coronavírus.

Certo, mas onde estava toda essa tecnologia antes desse e outros vírus surgirem?

A capacidade de processamento e simulação de cenários utilizando as massas de dados que começaram ficar disponíveis nas últimas décadas é enorme. Poderia ter antecipado e impedido muitas das consequências desastrosas por que passa grande parte da população mundial.

Mas todo esse poder tecnológico estava a serviço de outros objetivos: aumentar o consumo, acelerar a circulação das mercadorias, manter a acumulação capitalista e favorecer movimentos especulativos. Tudo isso para concentrar imensa riqueza nas mãos de minorias cada vez mais minúsculas.

Além disso, com tanta desigualdade social, os avanços digitais também estão voltados para aperfeiçoar os sistemas de vigilância e repressão necessários para impedir ou esmagar qualquer tentativa de mudar essa situação profundamente injusta.
   
Tecnologia é técnica mais ideologia. Esta definição é perfeita para entendermos muito do que está acontecendo. E não vale apenas para dispositivos digitais.

Grande parte do veloz desenvolvimento técnico atual está a serviço única e exclusivamente dos lucros. A verdadeira ameaça apocalíptica que ronda a humanidade não é a Inteligência Artificial, mas a estupidez do capital.

Leia também:
Bolsonaro, governadores, prefeitos: uma aglomeração genocida
Nas origens da Inteligência Artificial, uma bomba de hidrogênio

18 de maio de 2020

Bolsonaro, governadores, prefeitos: uma aglomeração genocida

Quarentena, isolamento social e lockdown somente serão o que essas palavras pretendem denominar se atenderem a alguns requisitos:
- Renda mínima digna para todos os que não têm como se sustentar sem sair às ruas. Impostos e Estado existem para isso. Para colocar os recursos públicos a serviço da coletividade e da grande maioria.

- Rigorosa fiscalização do cumprimento das restrições impostas e punição aos que insistem em ignorá-las apenas para manter seus lucros. Sabotadores que atacam fiscais e agentes de saúde devem ser imediatamente detidos e processados.

- Realização em massa de testes confiáveis e seguros.

- Prioridade máxima aos serviços de saúde e seus trabalhadores, garantindo sua segurança. Integração imediata da rede hospitalar privada à rede pública sob gestão do SUS, com fila única de atendimento.
Sem as medidas acima, isolamento, quarentena ou lockdown continuarão a ser palavras ocas utilizadas por muitos governadores e prefeitos para efeitos meramente publicitários.

Restringir a circulação de automóveis sem assegurar capacidade máxima no transporte público, por exemplo, só mantém a superlotação de passageiros. É o tipo de medida que permite a Bolsonaro dizer que o isolamento social não funciona.

Com isolamento, quarentena ou lockdown falsos, o coronavírus continuará a se espalhar e Bolsonaro e sua tropa de coveiros doentes manterão o discurso de que a diminuição da circulação de pessoas e mercadorias não detém a doença e ainda mata de fome.

A atual situação de restrição frouxa mostra que autoridades locais irresponsáveis e um homicida que ocupa o governo central estão juntos e aglomerados. São igualmente cúmplices de uma política genocida voltada contra grande maioria do povo.


Leia também: A pandemia e os gatilhos do caos

9 de maio de 2020

A pandemia e os gatilhos do caos

Desde 2016, pelo menos, vários especialistas preveem a ocorrência de um novo surto da crise de 2008. Não se trata apenas de analistas marxistas ou de esquerda. Muita gente do mercado financeiro e do próprio FMI vinha alertando para uma nova e poderosa recessão mundial.

Afinal, todas as causas que levaram ao colapso de 2008 seguem em plena operação. E os empregos continuaram sendo poucos ou muito mal pagos ou ambos. A desigualdade social mantém firme trajetória ascendente.

A dúvida era sobre qual seria o gatilho que detonaria essa nova etapa da crise: dívidas empresariais, guerra comercial entre Estados Unidos e China, estagnação chinesa, novas bolhas especulativas, ausência de demanda por petróleo?

Só não se considerava a possibilidade de um colapso ambiental. Pelo menos, não em prazo tão curto.

E eis que chegou o coronavírus-19.

Trata-se de um fenômeno causado pela destruição ambiental promovida pelo capitalismo e potencializado por suas características perversas. Entre elas, a enorme desigualdade social e o lucro acima de tudo retardando ou bloqueando a adoção imediata das medidas sanitárias necessárias.

A questão é que a pandemia não substituiu ou cancelou os outros problemas. Ao contrário, há muitos outros gatilhos prontos para disparar.

Por exemplo, essa crise pandêmica pode levar ao deslocamento definitivo do eixo geopolítico mundial para a China graças a sua aparente recuperação econômica rápida. Um personagem como Trump estaria disposto a aceitar tal mudança?

Tudo isso lembra bastante a situação causada pela crise de 1929, à qual o capitalismo respondeu da única maneira que sabe: a sangrenta barbárie da Segunda Guerra Mundial. Não nos faltam nem os fascistas no poder.

Leia também:
Nas trevas do culto à morte e à estupidez

O coronavírus e o fetichismo do aplicativo

7 de maio de 2020

O coronavírus e o fetichismo do aplicativo

Há alguns anos, vários cientistas passaram a entender que vivemos uma nova era geológica: o Antropoceno. Esse período se caracterizaria pelo forte aumento da influência de nossa espécie sobre o planeta.

Uma vez aceita essa caracterização, começam as polêmicas. Em seu livro “Homo Deus”, Yuval Harari considera que o Antropoceno corresponde aos últimos 70 mil anos, quando o Homo sapiens começou a extinguir inúmeras outras espécies animais.

Já outros autores consideram que esse período começou 12 mil anos atrás e corresponderia ao surgimento da agricultura, que teria possibilitado domesticar a natureza para melhor destruí-la.

Mas há ainda aqueles que consideram que o Antropoceno começou mesmo com a Revolução Industrial. Teria sido nesse momento que a humanidade iniciou um processo de destruição em escala semelhante à dos terremotos e erupções vulcânicas.

Por Revolução Industrial entenda-se nascimento do capitalismo. Um sistema que para produzir lucros destrói o que vê pela frente, incluindo vidas consideradas descartáveis e que são contadas cada vez mais aos bilhões.

Ora, no capitalismo, impera o fetichismo da mercadoria. Essa metáfora criada por Marx descreve uma sociedade onde são as coisas, transformadas em mercadoria, que estabelecem relações sociais, não as pessoas.

Pois bem, cá estamos em plena crise causada por um vírus surgido da selvageria capitalista em seu processo de destruição ambiental. Produto acabado do Antropoceno.

Foi assim que atingimos um estágio da humanidade em que nos isolarmos fisicamente uns dos outros tornou-se medida obrigatória para tentar garantir nossa sobrevivência biológica.

E é assim que chegamos a um momento em que literalmente passamos a nos relacionar quase exclusivamente por meio de coisas. Coisas digitais, mas coisas.

Leia também: Pandemia: o Brazil acima de todos

6 de maio de 2020

Pandemia: o Brazil acima de todos

“O Brazil tá matando o Brasil”, dizia o verso de Aldir Blanc, escrito em 1978.
Como um preso vai ficar a dois metros de distância do outro em uma cela onde não há espaço nem para deitar e dormir? Como os presos vão se higienizar se há um racionamento de água constante em muitas unidades? Como eles vão ter imunidade, se a comida que recebem é azeda?
Estas palavras são de Petra Silvia Pfaller, coordenadora nacional da Pastoral Carcerária.
...três quartos da população têm acesso a só metade dos leitos de UTI no Brasil. A outra metade está reservada ao quarto da população que tem planos de saúde.
O trecho acima faz parte de matéria da BBC Brasil, de 23/04/2020.

Em recente reportagem da Folha, ficamos sabendo que cerca de R$ 15 bilhões que as empresas privadas de saúde são obrigadas a manter em caixa foram flexibilizados pela agência reguladora do setor. Com isso, elas poderiam permitir que clientes inadimplentes pudessem continuar sendo atendidos por mais algum tempo. Mas os administradores dos planos não pretendem fazer isso. Um deles disse que esses recursos “aliviam o caixa” em apenas 15 dias.

O recente lockdown declarado em Belém do Pará deixa de fora as trabalhadoras domésticas, consideradas como prestadoras de serviços essenciais.

“Pico de Covid-19 nas classes altas já passou; o desafio é que o Brasil tem muita favela”, diz o presidente da XP, uma assessoria de investimentos financeiros.

Estes são só alguns exemplos a demonstrar que hoje, como quarenta anos atrás, o Brazil continua matando o Brasil. Agora, com a ajuda de uma pandemia.

Leia também: Nas trevas da pandemia, velas, lanternas e um lança-chamas

5 de maio de 2020

Nas trevas da pandemia, velas, lanternas e um lança-chamas

Em 05/05/2020, foram registrados 7.921 óbitos e 114.715 casos confirmados de coronavírus-19 no País. Nas 24 horas anteriores, o número de mortes chegou a 600.

Três capitais já haviam adotado “lockdown”: Belém, Fortaleza e São Luiz. Nestes lugares o sistema de saúde está em colapso ou muito próximo dele. Mas não são os únicos.

Lockdown é o fechamento completo dos estabelecimentos comerciais e de serviços, exceto aqueles considerados essenciais. Mas mesmo estes terão seu acesso controlado para impedir aglomerações.

A adoção desse tipo isolamento começa a ser recomendado por muitos especialistas sérios. Entre eles, Átila Iamarino, o biólogo especializado em microbiologia e virologia, cujo canal no youtube vem batendo recordes de acessos.

Em seu mais recente vídeo, Iamarino afirma que o Brasil iniciou no momento certo a adoção do isolamento social. Mas acabou permitindo o seu afrouxamento.

Assim, persistindo a atual situação, devemos ultrapassar 1 milhão e 100 mil mortes, nos restando apenas a esperança de atrasar ao máximo a chegada a este número.

Quando as autoridades sanitárias brasileiras começaram a adotar as primeiras medidas, diz Iamarino, a pretensão era substituir a vela, que ilumina apenas suas proximidades, pela lanterna, capaz de clarear mais longe e em várias direções. Mas concretizar essa troca dependia da realização em massa de testes e do reforço do isolamento.

Como nada disso ocorreu, diz ele, “não só voltamos a ficar no escuro, como estamos começando a tropeçar em corpos”.

Diante dessa situação, resta pouco a dizer. A não ser que precisamos urgentemente arrancar de Bolsonaro o lança-chamas com que ele vem transformando grande parte do País em um campo calcinado.

Leia também: Nas trevas do culto à morte e à estupidez

4 de maio de 2020

Nas trevas do culto à morte e à estupidez

José Millán Astray foi um general franquista que lutou na guerra civil espanhola. Em 12 de outubro de 1936, ele participava da cerimônia de abertura do ano letivo da Universidade de Salamanca. Após um discurso de Miguel de Unamuno, respeitado intelectual, ele gritou: “Abaixo a inteligência, viva a morte!”

Desse modo, ele procurava comemorar a vitória das tropas fascistas de Franco na conflito que havia dividido a Espanha.

Em recente entrevista, o filósofo Vladimir Safatle denunciou o caráter “suicidário” dos seguidores de Bolsonaro. Segundo ele, o Brasil:

... sempre teve o Estado como operador da morte e do desaparecimento das classes vulneráveis, sempre foi gestor de uma guerra civil não declarada. Só que agora você tem um dado completamente diferente, novo: não é só uma máquina necropolítica, é uma máquina suicidária. Quando você faz manifestação com caixão e buzinaço na frente de hospital, não é só desprezar a morte do outro ou zombar da morte do outro. Essa pessoas aceitaram se colocar em risco.
Por fim, em artigo publicado na Folha, o artista e escritor Nuno Ramos afirmou:
...o patrimônio político de Bolsonaro não é propriamente político, é a violência estrita. Sua entronização, no limite, vem do crescimento progressivo, até 63 mil por ano, dos mortos por assassinatos que assombraram, por mais de duas décadas, os governos democráticos, sem que nada fosse feito. São esses mortos que se cansaram de nós, ligaram o foda-se e entronizaram seu próprio carrasco.
No Brasil de Bolsonaro surge o mesmo culto à morte e à estupidez da Espanha franquista. Mas, aqui, a guerra civil nunca foi oficializada nem jamais interrompida.

Leia também: O fascismo revelado pelo vírus

1 de maio de 2020

O primeiro 1º de Maio do século 21: janelas e windows

Nos Primeiros de Maio durante a ditadura Vargas, anunciavam-se os benefícios concedidos aos trabalhadores pelo regime. Na ditadura empresarial-militar, a data era comemoração cívica que celebrava o “milagre econômico”.

Num e noutro período, militantes de esquerda, lideranças populares e sindicais eram torturados nos cárceres.

Grandes manifestações do Primeiro de Maio marcaram a ofensiva dos trabalhadores contra a ditadura dos generais na virada dos anos 70 para 80. Negociada pelo alto, a Nova República conviveu com Primeiros de Maio em que os explorados ainda assustavam os exploradores com sua disposição de luta.

Num e noutro período, o Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores era a culminância de um processo de mobilização em fábricas, escritórios, bairros, escolas e universidades. A partir desses lugares, foram construídas as maiores greves gerais da história nacional.

Veio o neoliberalismo. Veio a ofensiva ideológica. As lutas e grandes mobilizações tornaram-se rarefeitas. E o dia de luta foi transformando-se em feriado de show. Os setores da resistência sindical e popular ainda eram significativos, mas crescentemente marginalizados.

Vieram os governos de esquerda. O show atraiu celebridades, mais verbas oficiais e muitos discursos chapa-branca. Os poucos e minoritários setores de esquerda não alinhados, cada vez mais acanhados em suas manifestações paralelas.

Tanto uns como outros, oficiais ou alternativos, já não eram eventos organizados. Eram apenas convocados. Não eram mobilizações. Eram... aglomerações.

Já havia algo no ar.

A pandemia nos trouxe finalmente o Primeiro de Maio que inaugura o século 21. Informalidade e precarização generalizadas, servidão de aplicativo, desemprego eternizado. Tudo isso bate às nossas portas.

E nós? Nós, aqui, presos a performances em janelas e “windows”.

Leia também:
A pior das pragas e suas inúmeras mutações
O 1º de Maio e as multidões

29 de abril de 2020

A pior das pragas e suas inúmeras mutações

“O coronavírus já sofreu 33 mutações desde que apareceu na China em dezembro de 2019”, diz matéria divulgada pelo IHU-Online. Segundo a reportagem:

O coronavírus não é um só. Como outros vírus, continua sofrendo mutações, produzindo resultados diferentes como, por exemplo, a distinta gravidade da infecção entre os países afetados. Este é o resultado de uma pesquisa publicada recentemente por Li Lanjuan, um dos mais respeitados pesquisadores chineses.

Saber que já há tantas versões de um vírus que provoca tanto sofrimento pode ser desesperador. Mas o texto esclarece que a "palavra mutação geralmente assusta. Na realidade, esses tipos de mudanças são parte do ciclo natural de vida de qualquer organismo...”. Muitas dessas alterações, afirma, podem tornar o vírus menos letal.

Passando da biologia à história, a dominação de classe também sofreu muitas alterações durante a existência humana. A mais recente, e esperemos que a última, foi a que nos submeteu ao modo capitalista de exploração.

No Brasil, é a pior cepa desse vírus que está no poder. Mas caso ela pereça envenenada por sua própria virulência, há muitas outras capazes de cumprir papel semelhante à dela. Na ausência do vírus, permanece o câncer da desigualdade alimentado por uma dominação impiedosa e sangrenta.

Entre nós, essa praga já passou por muito mais que três dezenas de metamorfoses. Há, pelo menos, 520 anos, é assim. Mas o que vale para a virologia, vale para a luta de classes. Em muitos momentos no passado, os ferrados e humilhados souberam criar anticorpos transformando desespero em solidariedade combativa.

E, agora, mais do que nunca, ou é a peste ou somos nós.

Leia também: Mortes encomendadas há muito tempo

23 de abril de 2020

O fascismo revelado pelo vírus

Antonio Scurati lançou "M, o filho do século" antes da atual crise pandêmica. Mas neste primeiro volume da biografia política de Mussolini, ele relaciona o fenômeno fascista a um vírus.

Referindo-se às classes médias que aderiram à liderança de Mussolini nos anos 1920, ele diz que grande parte dessas camadas era formada por pessoas que “viviam com medo, comiam medo, bebiam medo, iam para a cama com medo”.

Um medo que, por sua vez, alimentava um ódio tremendo às aspirações das camadas mais populares. Teria sido essa mistura de temor e ira que levou milhões de pessoas a integrar as fileiras fascistas.

Seriam pessoas infectadas por um vírus que despertaria nelas “um desejo incontrolável de submissão a um homem forte e, ao mesmo tempo, de domínio violento sobre os indefesos”.

Por isso, diz ele, “o fascismo, talvez, não seja o hospedeiro desse vírus que se espalha, mas o seu hóspede”. Ou seja, o fascismo não cria a barbárie social, somente nutre-se dela e a reproduz em escala exponencial.

O fascismo não seria a doença, mas o vetor melhor adaptado a uma estrutura social patológica que cria imensos e numerosos viveiros de criaturas cuja dieta é formada por ressentimento, desespero e raiva.

Da mesma forma, podemos dizer que o coronavírus não é nosso maior problema hoje. Ele é apenas um gatilho dentre tantos outros que ainda podem ser acionados a qualquer momento.

A pandemia jogou luz sobre os muitos cantos escuros de nossa sociedade, onde se emboscavam monstros à espera de uma oportunidade para agir em pleno dia. Que, ao menos, nos sirva para exterminá-los.

Leia também: Pandemia e oportunismo: parasitismo

22 de abril de 2020

Muitos minutos de silêncio pela esquerda parlamentar

Quem tem alguma familiaridade com os debates dentro da esquerda sabe que uma de nossas grandes divergências envolve a utilização ou não do caminho institucional para a conquista de uma sociedade socialista.

De um lado, os que acreditam que o caminho passa por dentro das instituições, ainda que apoiada em mobilizações externas a elas. No outro extremo, aqueles que acham que é preciso recusar qualquer via institucional.

Entre uma ponta e outra, muitas nuances.

Mas, hoje, estamos em uma situação que ofuscou completamente esse debate. Mobilizações em maior escala, greves, manifestações e outras atividades que exigem grandes esforços coletivos estão inviabilizadas. A pandemia estreitou muito nossas possibilidades ofensivas, mesmo que as ações defensivas continuem a ser imprescindíveis.

Neste momento, portanto, somos todos obrigados a aceitar que as únicas arenas de luta que nos restaram são os parlamentos. Seria a hora de nossos representantes mostrarem do que são capazes contra um alvo muito claro: um governo genocida, que desperta a hostilidade até de setores da própria direita e de grande parte da população.

A esquerda brasileira, sempre que foi minoritária nos parlamentos, se destacou por ter uma presença muito maior que seu número de cadeiras. E, no entanto, limita-se a protocolar discretos pedidos de impeachment.

De fato, os únicos a colocarem dificuldades para Bolsonaro têm sido setores da própria direita. E, não raras vezes, o próprio governo se encarrega disso, como mostraram os recentes episódios envolvendo o ex-Ministro da Saúde ou as desastradas declarações do “gabinete do ódio”. 

Detalhe: o partido de Lula tem hoje a maior bancada da Câmara Federal.

Durma-se com um silêncio desses!

Leia também: Pela taxação das grandes fortunas, já!

20 de abril de 2020

Mortes encomendadas há muito tempo

O título da matéria publicada no jornal Brasil de Fato diz muito: “O trágico mapa das cidades mais vulneráveis à covid-19”. Ela fala sobre:
Um estudo conduzido pelo geógrafo e cientista de dados Ronnie Aldrin Silva, divulgado pela Fundação Perseu Abramo, aponta que, entre os 30 municípios mais vulneráveis à covid-19, apenas quatro tem mais que 500 mil habitantes. A maioria tem alto índice de pobreza e favelização de moradores. Entre as capitais, só Fortaleza aparece na lista dos primeiros.

Para chegar ao resultado, o pesquisador analisou 18 indicadores e os agregou em cinco dimensões principais: densidade demográfica, faixa etária, infraestrutura sanitária e elétrica, mercado de trabalho e estrutura de saúde.

Todos são índices relevantes, ressalta o autor, mas uma combinação, em especial, é desastrosa para uma pandemia viral: populações densas e mercado de trabalho inconsistente.
“Morumbi tem mais casos de coronavírus e Brasilândia mais mortes; óbitos crescem 60% em uma semana em SP”. O título da reportagem do G1 diz tudo. Segundo a matéria, o bairro pobre da zona norte paulistana teve 54 mortes confirmadas ou suspeitas de coronavírus até 17/04/2020.

Enquanto isso, o Morumbi tem o maior número de casos confirmados, com 297, mas sete mortes até a mesma data. O contágio pode ser democrático, mas a morte não.

Infelizmente, este deve ser o padrão predominante. Com o agravante de que os trabalhadores da saúde estão sendo cada vez mais atingidos. Em 16/04, eram 29 profissionais de enfermagem mortos e 3.661 afastados com covid-19, segundo o conselho federal da categoria.

A extrema desigualdade do País já encomendou essas mortes há muito tempo.

Leia também: Pandemia e oportunismo: parasitismo