Doses maiores

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24 de fevereiro de 2025

O genocídio por inteligência artificial já chegou

“‘Blade Runner’, ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, ‘O Exterminador do Futuro’, ‘Matrix’. Essas produções cinematográficas representaram um dos maiores temores da humanidade: o da sinistra criatura que se emancipa de seu criador, aniquilando-o”, escreve Pablo Elorduy, no artigo “A máquina dos assassinatos em massa: Vale do Silício abraça a guerra”, publicado recentemente.

Mas, adverte ele no mesmo texto, a questão:

...não é se as máquinas um dia se erguerão para colocar sua bota sobre o rosto da humanidade, mas sim como já estão sendo usadas para travar guerras, violar liberdades civis e silenciar populações dissidentes.

Hasbora, Replicator, Hivemind são programas de inteligência artificial capazes de matar dezenas de pessoas com uma simples operação. Mas eles não funcionariam, em toda sua capacidade, sem os dados fornecidos pelas gigantes da tecnologia Google, Amazon, Microsoft, Meta e OpenAI, cada vez mais “alinhadas ao projeto cultural, econômico e político encarnado pelo novo César americano, Donald Trump”, diz Elorduy.

Sem as informações fornecidas por meio de acordos como o Projeto Nimbus assinado em 2021 pela Google e Amazon com as autoridades israelenses, afirma ele, as forças israelenses não seriam capazes de cometer o massacre da população de Gaza.

Para completar, no início de fevereiro passado, a Google eliminou de suas diretrizes uma cláusula que proibia o desenvolvimento de IA destinada a fins militares.

Tudo isso mostra que a presença dos donos das big techs na posse de Trump não ocorreu a contragosto. Ao mesmo tempo, a utilização militar de inteligência artificial é bem anterior ao primeiro governo Trump.

As criaturas robóticas são sinistras, realmente. Mas muito menos que seus criadores.

Leia também: Big thecs: o autoritarismo neoliberal escancarado

10 de setembro de 2024

Inteligência artificial: um combo de problemas

Em 08/09/2024, o Globo publicou “Gargalos estruturais são barreiras para o avanço dos sistemas”, sobre o desenvolvimento da inteligência artificial (IA).

A matéria começa destacando a imensa quantidade de energia elétrica necessária para fazer funcionar os centros de dados que alimentam essa tecnologia. Segundo um relatório do banco Goldman Sachs, por exemplo, nos Estados Unidos, o uso de eletricidade para IA deve dobrar até 2030.

Outro problema refere-se aos assistentes virtuais, que ao utilizar os novos sistemas de IA, passaram a ser treinados com um percentual crescente de informações distorcidas e inverídicas.

Outra preocupação é “a velocidade com que a mão de obra absorverá novos processos produtivos gerados pela IA. Ou seja, como qualificar trabalhadores para lidarem com as interfaces criadas pela tecnologia”.

Por fim, há a questão dos altos custos de infraestrutura. O enorme investimento necessário restringirá muito o número de negócios que terão um retorno realmente lucrativo.

Ou seja, há um “combo” de problemas surgindo com essa novíssima tecnologia. Uma combinação cujas consequências negativas prometem superar em muito as positivas:

- Aumento dos impactos ambientais para atender a elevação da demanda por energia elétrica, além de apagões mais frequentes.

- Um caos ainda maior nas redes de comunicação, reforçando a disseminação de mentiras e falsidades.

- Elevação do desemprego, precarização trabalhista e rebaixamento salarial.

- Por fim, aumento da monopolização do mercado cibernético, com lugar apenar para jogadores grandes e ainda mais poderosos.

É isso que acontece quando uma força produtiva poderosa como a IA surge amarrada às relações destrutivas do capitalismo. Funciona para alguns poucos e causa prejuízos e destruição para muitos.

Leia também: Intelecto geral x trabalhador coletivo na obra de Marx

29 de junho de 2024

A República Popular do Walmart

“O Walmart poderia ser uma conspiração socialista secreta?” Esta intrigante questão foi feita pelo crítico literário estadunidense e marxista Fredric Jameson no livro “Arqueologias do futuro”. Ela aparece em uma nota de rodapé e não chega a ser desenvolvida pelo autor.

Mas os jornalistas e pesquisadores Leigh Phillips e Michael Rozworski usaram a provocação de Jameson como inspiração para escrever “The People's Republic of Walmart” (“A República Popular do Walmart”). Publicado em 2019, o livro ainda não tem edição em português.

Rozworski e Phillips lembram que o varejista emprega mais trabalhadores que qualquer outra empresa privada. Se fosse um país, sua economia seria do tamanho de uma Suécia ou de uma Suíça. O que interessa a eles destacar, porém, é que o Walmart funciona como uma economia nacional planificada semelhante à adotada pela União Soviética no auge da Guerra Fria.

Além disso, arrematam os autores, a rede varejista é apenas um caso entre centenas de empresas multinacionais igualmente gigantes. Todas elas funcionando como economias planificadas, pelo menos internamente.

Ou seja, o objetivo do livro é mostrar que, ao contrário do que dizem os neoliberais, a economia planificada não é uma aposta equivocada dos socialistas. Uma proposta que o fracasso soviético teria provado ser inviável. A maior evidência  disso é que os maiores campeões do capitalismo a adotam em sua organização interna.

Portanto, a provocação de Jameson faz sentido. O Walmart seria uma demonstração de que a economia planificada é possível. Principalmente, com as recentes inovações em cibernética e inteligência artificial, que poderiam ser colocadas a serviço de uma sociedade verdadeiramente socialista.   

Voltaremos ao assunto.

Leia também: Intelecto geral x trabalhador coletivo na obra de Marx

27 de junho de 2024

Intelecto geral x trabalhador coletivo na obra de Marx

Os chamados “Grundrisse” são uma espécie de rascunho de “O Capital”, de Karl Marx. Um de seus trechos que vem sendo muito citado ultimamente se refere ao conceito de “intelecto geral”:

O desenvolvimento do capital fixo indica até que ponto o conhecimento social geral se tornou uma força direta de produção, e até que ponto, portanto, as condições do próprio processo da vida social ficaram sob o controle do intelecto geral e foram transformadas de acordo com isso.

Muitos enxergam nessa passagem uma antecipação de inovações tecnológicas atuais como a automação produtiva e a inteligência artificial.

O problema é que o conceito de “intelecto geral” remete a produção material a um plano abstrato que secundariza o papel fundamental do trabalho humano na estrutura produtiva.

Seria por isso que em “O Capital”, Marx tenha substituído a figura abstrata do “intelecto geral” pelo conceito mais concreto do “trabalhador geral”. Entendendo este último como sinônimo de cooperação ampliada do trabalho.

Com a nova formulação, o trabalhador coletivo possui todas as qualidades necessárias à produção em um grau de excelência uniforme e utiliza-as empregando todos os seus órgãos, individualizados em determinados trabalhadores ou grupos deles, no desempenho de suas funções.

O que a figura do trabalhador geral antecipa é o surgimento da era da cibernética e das suas experiências de auto-organização. Para além disso, mostra como esses desenvolvimentos tecnológicos podem contribuir para a construção de uma sociedade radicalmente justa, desde que em um contexto de total socialização dos meios de produção.

As considerações acima encerram os comentários sobre o excelente livro “O Olho do Mestre”, de Matteo Pasquinelli.

Leia também: A automação da vida automatizada

17 de junho de 2024

A automação da vida automatizada

A pílula anterior comentava o livro “O Olho do Mestre”, em que seu autor, Matteo Pasquinelli, diz que a cibernética nasceu da necessidade de controlar sistemas de alta complexidade surgidos tanto das reestruturações no processo produtivo, como das pressões da luta de classes.

Uma das abordagens que se impôs foi a “análise de pessoas” (também conhecida como “psicografia”), que nada mais é do que a aplicação de estatísticas, análise de dados e aprendizagem automática às questões relacionadas à força de trabalho no pós-guerra.

Foi a partir desse princípio que a Google criou o algoritmo do “ranking de páginas”, cujas técnicas para mapeamento das redes se tornaram onipresentes, hoje. A teoria da automação adotada por Pasquinelli, portanto, não aponta apenas para o surgimento de máquinas a partir da lógica da gestão do trabalho, mas também dos instrumentos e métricas para quantificar a vida humana em geral e torná-la produtiva.

Os mais recentes desenvolvimentos da inteligência artificial não são, de fato, radicalmente diferentes, mas equivalentes ao design das máquinas industriais: são constituídos pela mesma inteligência analítica de tarefas e comportamentos coletivos, embora com um maior grau de complexidade.

Um aspecto importante do aprendizado de máquina é que a automação de tarefas individuais, a codificação do patrimônio cultural e a análise de comportamentos sociais não têm distinção técnica: podem ser realizadas pelo mesmo processo de modelagem estatística.

O aprendizado de máquina não é capaz apenas de realizar tarefas computacionais, mas imitar os comportamentos dos locais de trabalho e coletivos, em geral. Não é somente uma automação de estatísticas, mas uma automação da vida já automatizada.

Leia também: Reestruturação produtiva, algoritmos e cibernética

14 de junho de 2024

Reestruturação produtiva, algoritmos e cibernética

Em “O Capital”, Marx afirma que “as relíquias de instrumentos de trabalho do passado possuem a mesma importância para a investigação das formações econômicas extintas da sociedade que os fósseis para a determinação de espécies extintas de animais”. Ou seja, “os instrumentos de trabalho não apenas fornecem um padrão do grau de desenvolvimento que o trabalho humano atingiu, mas indicam as relações sociais dentro das quais os homens trabalham”, diz ele.

Essa passagem da obra de Marx foi citada por Matteo Pasquinelli, no livro “O Olho do Mestre”, para mostrar que são as relações entre capital e trabalho que explicam a Revolução Industrial e não a inovação tecnológica. É a necessidade de aumentar a exploração do tecelão que inventou o tear mecânico, não os engenheiros de produção.

Antes de a automação assumir o protagonismo, a divisão industrial do trabalho com suas linhas de montagem retilíneas era organizada por procedimentos comparáveis a algoritmos simples. Mas no final do século passado, ocorrem as reestruturações produtivas em resposta aos efeitos das crises capitalistas e à pressão da luta de classes. Estas novas condições passaram a exigir uma nova forma de controle.

É assim que os algoritmos passam a ser orientados pela cibernética de modo a controlar sistemas de alta complexidade que já não se organizavam de acordo com os antigos métodos hierárquicos e centralizados. Começavam a se estabelecer as condições iniciais para o aprendizado de máquina e aquilo que viria a ser chamado de inteligência artificial. Em essência, mais uma inovação tecnológica a serviço da exploração capitalista. E, como tal, mais um estágio no aprofundamento da barbárie social.

Leia também: As bases sociais e históricas dos algoritmos

6 de junho de 2024

As bases sociais e históricas dos algoritmos

A etnomatemática é um ramo científico que mostra como a matemática não é somente aquela que conhecemos na atualidade e no Ocidente. Fórmulas que hoje consideraríamos como algébricas ou analíticas já eram descritas pelos babilônios através de procedimentos passo a passo, expressos em palavras comuns e não na metalinguagem simbólica atual.

Problemas econômicos e administrativos parecem estar na origem das antigas técnicas de cálculo. A palavra “número” vem do latim “numerus”, ou “porção de comida”. Servia para registrar os estoques de alimentos.

Segundo o filósofo Ernst Cassirer, a simbologia numérica surgiu das canções usadas para marcar o ritmo do trabalho na lavoura. Algarismo vem do nome do persa Muhammad al-Khwarizmi, bibliotecário-chefe da Casa da Sabedoria de Bagdá, que escreveu um livro fundamental de cálculos no século 9.

Algarismo deu origem ao conceito de algoritmo, que nada mais representava que os procedimentos incorporados em rituais e práticas, muitas vezes transmitidos oralmente, sem serem formalizados em linguagem numérica.

A grande diferença para os atuais algoritmos de inteligência artificial é que os dados já não são informações passivas. Pelo contrário, as próprias regras iniciais que os geram são alteradas automaticamente, à medida que novos dados se incorporam.

É uma inovação poderosa que, mais do que nunca, oculta tanto suas origens sociais como suas ligações com um sistema que aperfeiçoa e aprofunda a exploração do trabalho humano.

As informações acima estão no livro “O Olho do Mestre”, de Matteo Pasquinelli. Mostram que a matemática e demais ciências exatas são produto humano e, como tal, precisam ser apropriadas e orientadas para fins que contemplem o conjunto da humanidade.

Leia também: Inteligência artificial e trabalho não pago

28 de maio de 2024

Inteligência artificial e trabalho não pago

Está na imprensa mais uma polêmica envolvendo criação artística e inteligência artificial. A atriz Scarlett Johansson alega que a OpenIA utilizou sua voz sem autorização em uma de suas ferramentas. A empresa afirma, porém, que usou o timbre vocal da atriz apenas como inspiração.

Talvez uma olhada no livro “O Olho do Mestre” ajude a esclarecer. Segundo o que diz seu autor, Matteo Pasquinelli, o fundador da economia moderna, Adam Smith, foi o primeiro a esboçar uma teoria do trabalho das máquinas em “A Riqueza das Nações”. Nesta obra, Smith reconhece que novas máquinas surgem a partir da organização das tarefas no locais de trabalho.

Charles Babbage, pioneiro da computação, formulou ideia parecida em seu livro “Sobre a economia de máquinas e manufaturas”: “Quando cada processo é reduzido ao uso de algumas ferramentas, a união de todas elas, acionadas por uma força móvel, constitui uma máquina”.

Se juntarmos Smith, Babbage e Marx, podemos concluir que as máquinas são produto da divisão coletiva do trabalho e uma questão política se coloca imediatamente: quem pode reivindicar o crédito pela invenção das máquinas? Trabalhadores, chefes de produção, engenheiros ou a combinação de todos eles? Quem detém os direitos sobre esta divisão coletiva do trabalho?

Ou seja, a famosa atriz sofre de um mal conhecido por milhões de pessoas, há muitas décadas. A voz dela foi apropriada tal como vem acontecendo com tantos outros recursos, competências e habilidades dos trabalhadores. A única certeza, mesmo, é o objetivo de todo esse processo: manter e ampliar a extração de trabalho não pago dos trabalhadores. Incluindo Scarlett e vários de seus colegas.

Leia também: Uma história social da inteligência artificial

20 de maio de 2024

Uma história social da inteligência artificial

Era o ano de 1767, o capitalismo industrial começava a surgir na Europa, quando o filósofo escocês Adam Ferguson disse o seguinte:

As manufaturas prosperam mais onde a mente é menos consultada, e onde a oficina pode ser considerada como um motor, cujas partes são os homens.

Em 1827, foi a vez de Thomas Hodgskin, socialista inglês, afirmar em sua obra “Economia Política Popular”:

A menos que haja trabalho mental, não pode haver destreza manual; e nenhuma capacidade de inventar máquinas. Portanto, o trabalho mental é essencial para a produção.

Muitos anos depois, Marx citaria esses dois autores em “O Capital”, para sublinhar que as habilidades laborativas são um recurso comum partilhado entre os trabalhadores e passado de geração em geração. É um poder produzido e partilhado coletivamente. E é a apropriação deste poder pelos donos dos meios de produção que está por trás do desenvolvimento das forças produtivas sob o domínio do capital. Desde os primeiros teares mecânicos até os mais recentes desenvolvimentos da chamada inteligência artificial.

Para Marx, o trabalho é sempre coletivo: não existe trabalho individual mais prestigiado que outro e, portanto, o trabalho mental é sempre geral. A mente é por definição social.

Desse modo, é um equívoco dizer que a inteligência artificial imita o cérebro humano. Ela é produto das relações de trabalho injustas que o capitalismo impõe à grande maioria.

É essa principal tese de “O olho do mestre: uma história social da inteligência artificial”, livro do filósofo italiano Matteo Pasquinelli, que já apareceu por aqui e continuará sendo comentado nas próximas pílulas.

Leia também: Ada Lovelace, criadora do algoritmo cibernético

21 de março de 2024

Ada Lovelace, criadora do algoritmo cibernético

Ela é considerada a criadora do primeiro algoritmo cibernético da história. Filha do poeta Lorde Byron e da frequentemente esquecida matemática Anne Isabella Milbanke, Ada Lovelace foi assistente do pioneiro da computação Charles Babbage. Ambos trabalhavam na engenharia de produção da indústria de tecelagem da Londres do século 19.

Ada elaborou um conjunto de instruções a serem executadas por teares mecânicos que teve papel fundamental para a ciência da computação. Ela, porém, dava a essas instruções o nome de “diagrama” no lugar de “algoritmo”.

As operações que Ada criou incluíam a manipulação abstrata de qualquer entidade, não apenas de números. Desse modo, atribuiu um significado mais amplo para a definição de automação. Esta concepção de uma máquina que manipula símbolos de acordo com regras levou a uma transição fundamental das operações de cálculo para a computação de uso geral.

Infelizmente, tanto as contribuições de Babbage como as de Ada pertencem a uma época em que as hierarquias sociais e as apropriação dos saberes dos trabalhadores foram mistificadas e ocultadas pelo culto à genialidade de cientistas a serviço da burguesia. Como disse o historiador da computação Simon Schaffer, “Lovelace nunca viu maiores problemas na substituição da inteligência dos tecelões por uma série de cartões de programa, nem no desemprego a que foram condenados muitos trabalhadores qualificados de Londres.”

As informações são do livro “The Eye of the Master: A Social History of Artificial Intelligence” ou “O Olho do Mestre: Uma História Social da Inteligência Artificial”. Ainda sem tradução para o português, a obra é do filósofo italiano Matteo Pasquinelli e será tema de novas pílulas em breve.

Leia também: Racismo e machismo na conquista espacial

22 de fevereiro de 2024

A aposta de 1 bilhão de dólares na barbárie

Em 16/02/2024, Pedro Doria publicou o artigo “Como lidar com riqueza digital?”. Segundo o texto, recentemente Sam Altman, alto executivo da empresa de Inteligência Artificial OpenAI, deu uma entrevista em que declarou:

No meu grupo de chat com outros executivos de tecnologia temos um bolão para ver quem acerta o ano em que teremos a primeira empresa que vale US$ 1 bilhão com uma só pessoa.

Em seguida, o colunista explica que até 20 anos atrás, companhias avaliadas em US$ 1 bilhão tinham “parques fabris espalhados pelo planeta e centenas de milhares de funcionários”.

Já as atuais corporações tecnológicas que chegaram ao US$ 1 bilhão empregam somente algumas dezenas de milhares de trabalhadores. Agora, a utilização da inteligência artificial possibilitaria criar firmas com valor de mercado bilionário, empregando uma única pessoa, seu proprietário.

O articulista afirma que tais companhias poderiam ser pesadamente taxadas. Desse modo, financiariam um programa de renda mínima universal para socorrer os que tiverem seus empregos eliminados. Só que essa conta não fecha. O mesmo neoliberalismo que incentivou a criação dessas enormes corporações eliminadoras de empregos é especialista em transferir a carga fiscal do grande capital para os trabalhadores.

Claro que ainda há diversas atividades que exigem muita força de trabalho humana. Mas que a atual vanguarda tecnológica da economia capitalista trabalhe para aumentar ainda mais a concentração de patrimônio e riqueza mostra o tipo de sociedade que pretende construir.

E confirma que o propósito maior da inteligência artificial é descartar trabalho humano, contribuindo para condenar grandes parcelas da população ao subemprego, superexploração e desemprego.

A verdadeira aposta é na barbárie.

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20 de dezembro de 2023

Botando pra quebrar no trabalho!

O ludismo, como resistência dos trabalhadores nos locais de produção, caracteriza-se pela autonomia, capacidade de escolher seus próprios métodos e melhoria das condições de trabalho. Não enxerga a tecnologia como neutra, mas como um espaço de luta.

Não se trata de uma postura moral individual, mas de uma série de práticas que podem proliferar e crescer através da ação coletiva. O ludismo opõe-se às relações sociais capitalistas, que só podem ser eliminadas através da luta, e não por fatores como reformas do Estado, abundância de bens supérfluos ou uma economia melhor planejada.

Atualmente a população é praticamente unânime: quer desacelerar. Vivemos em tempos pessimistas quanto aos avanços tecnológicos. Há uma espécie de sensibilidade difusa que é antagônica à forma como o capitalismo funciona. Por isso, o ludismo pode se manifestar de formas diferentes, de acordo com o contexto.  

Como disse Marx em uma carta ao socialista holandês Ferdinand Domela Nieuwenhuis: “As antecipações doutrinárias e necessariamente fantasiosas sobre o programa de ação para uma futura revolução só conseguem nos desviar das lutas do presente”.  Em vez disso, o primeiro passo para organizar o descontentamento generalizado em uma política coletiva requer reconhecer e recuperar nossa autoatividade radical. Inclusive, e talvez especialmente, quando se trata de quebrar coisas no trabalho.

Os trechos acima são do livro “Breaking Things at Work”, de Gavin Mueler. Servem como encerramento da série de pílulas sobre esse interessante estudo que tem por objetivo mostrar o potencial revolucionário do ludismo. Em uma futura e necessária tradução para português, fica a sugestão de que seu título seja “Botar pra quebrar no trabalho!”

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19 de dezembro de 2023

Inteligência artificial e trabalho mal pago

Em seu livro “Breaking Things at Work”, Gavin Mueler cita o crítico de tecnologia Jathan Sadowski para falar sobre inteligência artificial (IA). Segundo ele, muito do que é alardeado como um sistema de máquinas autônomas é na verdade “IA Potemkin”, referindo-se às brutais condições de trabalho dos marinheiros do famoso encouraçado russo.

Afinal, diz Mueller, “serviços que pretendem ser alimentados por software sofisticado, na verdade dependem de pessoas agindo como robôs”. Desde programas de transcrição de áudio que disfarçam os trabalhadores humanos como “software de reconhecimento de fala” até carros “autônomos” controlados remotamente, as façanhas da “inteligência artificial avançada” não apenas mascaram relações trabalhistas como reforçam a percepção de que um dia não seremos mais necessários.

A Samasource, especializada em treinamento de IA, utiliza o trabalho de moradores de favelas do mundo todo como solução barata para as tarefas chatas, repetitivas e intermináveis de alimentar sistemas de aprendizado de máquina. O trabalho mal pago, costuma ser justificado pelo humanitarismo típico do Vale do Silício. Remunerações maiores poderiam inflacionar os custos de habitação e alimentação nas comunidades envolvidas.

Embora a inteligência artificial seja frequentemente comparada à magia, falha regularmente em tarefas simples para pessoas, como reconhecer sinais de trânsito, fundamental para automóveis autônomos. Mas mesmo casos bem-sucedidos de IA exigem enormes quantidades de trabalho humano. Incluindo o dos usuários.

Sempre que você resolve um daqueles quebra-cabeças de identificação por imagem para provar que não é um robô, está ajudando a treinar IA. Seus idealizadores dizem que apenas aproveitam nossos momentos improdutivos. Improdutivos para quem?

Eles acham que somos burros. Temos que parar de dar-lhes razão.

Leia também: A economia política da internete

10 de novembro de 2023

Elis, Lennon e a inteligência espírita

No início de novembro, foi lançada a mais recente música dos Beatles. Com ajuda da inteligência artificial, John Lennon participou da gravação, 43 anos após sua morte. Pouco tempo atrás, Elis Regina estrelou um anúncio publicitário. A greve dos atores de Hollywood terminou recentemente com um acordo que inclui proteção contra manipulações tecnológicas das imagens dos artistas após sua morte.

Nas décadas finais do século passado, uma família de espíritas fazia sucesso na TV. Um de seus membros recebia espíritos de artistas como Monet, Rembrandt e Picasso, pintando quadros fiéis ao estilo de cada um deles.

Esses pintores passaram por várias fases de criação, durante suas vidas. Mas suas manifestações pós-morte permaneciam presas ao modo de pintar que haviam desenvolvido até o momento em que morreram. Afinal, ainda que fossem indivíduos geniais, sua arte era resultado do contexto social e histórico em que viviam. Das interações com fatos e pessoas que eram seus contemporâneos. Experiências que já não estavam a seu alcance no além-vida.

Pois bem, muito pouco da genial criatividade de Lennon e Elis ou do talento dos trabalhadores da indústria audiovisual permanece viva em suas respectivas ressurreições tecnológicas. A inteligência artificial não passa da mais nova encarnação da velha apropriação capitalista do trabalho vivo para transformá-lo em trabalho morto. Trata-se de sepultar a criatividade que resulta das relações humanas em ataúdes tecnológicos feitos para proporcionar mais lucros a poucos, em prejuízo do bem-estar e da dignidade da grande maioria.

A inteligência artificial só é capaz das façanhas que testemunhamos hoje porque desde seu nascimento o capitalismo vem sequestrando e matando a criatividade humana.

Leia também: Inteligência artificial e perfídia capitalista

30 de outubro de 2023

Inteligência artificial e perfídia capitalista

Em 26/10/2023, Ronaldo Lemos publicou um artigo na Folha lembrando o “aniversário de seis meses” da carta do Instituto Futuro da Vida. Um documento que causou polêmica ao acusar a inteligência artificial (IA) de representar “riscos profundos para a sociedade e a humanidade" e defender a interrupção das pesquisas relacionadas a essa tecnologia e a criação de regulamentações sobre seu desenvolvimento e aplicação.

Segundo Lemos, nesse período, só houve avanços na regulamentação da IA em três campos: direitos autorais, proteção dos dados pessoais e relações trabalhistas. Os dois primeiros envolvem os direitos de propriedade. Normal que sejam alvo de preocupação da ordem dominante. Já os avanços de caráter trabalhista citados no texto restringem-se ao acordo que encerrou a greve dos roteiristas de Hollywood. Algo muito pontual, apesar de envolver a poderosa indústria do entretimento.

Mas o que chama a atenção no texto é o cinismo dos gigantes que controlam as redes virtuais. Entre os mais de 30 mil signatários da tal carta aniversariante, estavam Elon Musk e executivos da Google. O primeiro criou sua própria empresa de inteligência artificial, meses após o lançamento da carta. A Google também não demorou a lançar seu smartphone baseado na nova tecnologia.

Em suma, conclui o articulista, a carta acabou se tornando uma grande jogada de marketing capaz de acelerar, em vez de reduzir, a expansão das empresas de IA.

Ou seja, na ausência de um grande movimento anticapitalista a partir de baixo, os de cima encenam suas farsas e seguem agindo contra os interesses da grande maioria da humanidade. Isso, sim, é muito inteligente.  E pérfido.

Leia também: Inteligência artificial e planejamento socialista

11 de setembro de 2023

Inteligência artificial e planejamento socialista

Reportagem do Globo publicada em 10/09/2023 anuncia que “Empresas já usam inteligência artificial para prever descontos e efeitos climáticos”.

Segundo a matéria, empresas dos mais variados setores vêm empregando algoritmos e aprendizado de máquina para tentar prever desde fenômenos climáticos ao comportamento dos preços de matérias-primas.

A C&A, por exemplo, com um portfólio de 90 mil itens, usa Inteligência Artificial para definir “o melhor mix de produtos para cada uma de suas 330 lojas”.

A Nestlé captura informações para prever os movimentos futuros da cadeia do leite e sua rede de abastecimento em “uma arquitetura de dados com mais de seis milhões de combinações diárias”.

As ferramentas da Gerdau conseguem “avisar” com antecedência o melhor dia para a empresa fazer compras e aproveitar as melhores oportunidades.

Já a Vale desenvolveu modelos computacionais capazes de prever níveis perigosos de precipitação, e, em caso de tempestade, “retirar os empregados do local de trabalho antecipadamente”. Quanto às populações do entorno, nenhuma palavra.

A reportagem não esclarece que tais ferramentas ultrassofisticadas devem eliminar empregos. Muito menos, mostram que elas só existem por causa da enorme base de dados fornecidos gratuitamente por milhões de consumidores e do sequestro dos saberes e habilidades dos trabalhadores das áreas envolvidas.

São dados públicos apropriados por uma dúzia de monopólios. Deveriam estar alimentando um amplo e ágil sistema de planejamento estatal. Um sistema capaz de equilibrar a economia, distribuir recursos de modo socialmente mais justo e evitar impactos ambientais e humanos desastrosos.

É uma força produtiva que poderia fazer maravilhas em uma sociedade socialista, mas está submetida às destrutivas e injustas relações de produção capitalistas.

Leia também: Inteligência artificial contra bactérias e sindicatos

7 de setembro de 2023

Seremos capazes de ouvir as baleias?

A inspiração é a chave. Se pudéssemos comunicar com os animais, fazer-lhes perguntas e receber respostas – por mais simples que essas perguntas e respostas possam revelar-se – o mundo poderá em breve ser motivado o suficiente a, pelo menos, iniciar um processo capaz de deter a destruição descontrolada da vida.

As palavras acima são do biólogo estadunidense Roger Payne e aparecem na reportagem “Can We Talk to Whales?” (“Seremos capazes de conversar com baleias?”), recentemente publicada na revista New Yorker. Payne trabalha na Iniciativa de Tradução de Cetáceos, criado em 2017. A sigla do projeto em inglês é “Ceti”, lembrando propositalmente “Seti” (Search for Extraterrestrial Intelligence), cuja tradução é “Busca por Inteligência Extraterrestre” e está em operação desde os anos 1980.

Mas enquanto o Seti procura inteligência nas estrelas, o Ceti volta seus esforços para gravar a linguagem usada pelas baleias cachalotes. As gravações estão sendo feitas na ilha caribenha da Dominfica. Com caráter interdisciplinar, a iniciativa inclui biólogos e linguistas, mas também pesquisadores de inteligência artificial (IA), robótica e computação.

Pois é, não se trata de entrar em contato com possíveis civilizações alienígenas como nas obras de ficção científica, mas robôs e cérebros eletrônicos também estão envolvidos.

Os robôs são, principalmente, para capturar os sons nas enormes profundidades a que chegam as baleias. A inteligência artificial, para dar conta das milhares de combinações possíveis na enorme massa de áudios já captados.

Agora, é torcer para que das profundezas oceânicas nos cheguem bons conselhos sobre como poderemos escapar das catastróficas confusões ambientais que estamos provocando. Isso se não fizermos ouvidos moucos, claro.

Leia também: Como é ser um morcego?

11 de agosto de 2023

Inteligência artificial: o mundo ao deus-dará

"Oppenheimer virou símbolo contra inteligência artificial". Com este título Martim Vasques da Cunha publicou interessante artigo na Folha, em 22/07/2023. Ele mostra como o paralelo entre aquele que é considerado o pai da bomba atômica e os criadores da inteligência artificial foi traçado por estes últimos com intenções escusas.

É o caso de Sam Altman, um dos responsáveis pela OpenAI. Segundo ele, a criação da bomba atômica mostrou que o avanço da tecnologia é inevitável.

O que Altman e outros da área não dizem é que Oppenheimer defendeu a transparência e o compartilhamento do conhecimento sobre a fissão nuclear. O objetivo era impedir que uma nação ou um bloco delas ficassem tão à frente no domínio da nova tecnologia que se sentiriam seguros para atacar sem temer retaliações.

Ora, diz Cunha, “isso é o exato oposto do que nossos cientistas e intelectuais querem fazer com a inteligência artificial”. Lembrando a proposta de moratória do desenvolvimento da IA que partiu dos próprios especialistas, o autor afirma que a ideia é “suspender tudo, somente para manter o avanço tecnológico em segredo e deixar a sociedade civil no escuro”.

Oppenheimer temia que o “controle do apocalipse” ficasse nas mãos dos políticos e militares. Já a meia dúzia de desenvolvedores da inteligência artificial não presta contas a ninguém. Tornaram-se imensos monopólios graças a dinheiro público e à destruição de empregos, ocupações e negócios em vários setores da economia. De jornalistas e publicitários aos pequenos varejistas e prestadores de serviços. Mas, como diz Cunha, “querem desviar este novo tipo de conhecimento apenas para si mesmos e abandonar o mundo ao deus-dará”.    

Leia também: Barbenheimer ou Missão Oppenheimer?

4 de agosto de 2023

A escrita, os livros e outros apêndices humanos

Na obra “Fedro”, Platão cita Sócrates:

A palavra escrita parece falar contigo como se fosse inteligente, mas se lhe perguntas alguma coisa, porque desejas saber mais, continua a repetir-te o mesmo sem parar. Os livros não são capazes de se defender.

Para ele, já não se tratava de sabedoria própria, mas de um apêndice alheio. Um estímulo a um relaxamento da memória. A grande ironia é que Platão expôs essa aversão à escrita por escrito, conservando, assim, as críticas de seu mestre para nós, seus futuros leitores.

Os cientistas chamam de “efeito Google” à incitação à amnésia que Sócrates temia. Mas o alfabeto foi uma tecnologia ainda mais revolucionária do que a internete. Construiu pela primeira vez essa memória comum, expandida e ao alcance de toda a gente.

Tempos depois, Jorge Luis Borges diria que o livro é o mais “surpreendente dos instrumentos humanos”, uma vez que os restantes “são apenas extensões do seu corpo”. O microscópio e o telescópio, extensões da visão; o telefone, da voz; o arado e a espada, do braço. “Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”, conclui ele.

As informações acima estão no livro “O infinito num junco” de Irene Vallejo.  A autora não abordou a inteligência artificial, mas o que diriam Sócrates e Platão sobre ela? Seria outro artefato condenado a repetir “o mesmo sem parar” e ser um “apêndice alheio”?

Difícil saber. O que podemos dizer é que se trata de mais um produto da invenção humana, cheio de contradições e potenciais. Para o bem e para mal.

Leia também: Palavras ouvidas apenas pelos anjos

2 de agosto de 2023

A diferença entre figurantes e homens ocos

É a primeira vez em 63 anos que os sindicatos de atores e de roteiristas se juntam para paralisar suas atividades. A greve começou em maio e esvaziou os estúdios de produção audiovisual por tempo indeterminado.

Entre as principais questões está o uso de inteligência artificial (IA) para a elaboração de roteiros. Mas, como explica James Poniewozik, em artigo publicado no New York Times, existe uma “maioria silenciosa” que também está preocupada com a IA. Trata-se dos figurantes.

Acontece que os estúdios pretendem obter os direitos de digitalizar e usar a imagem desses profissionais por tempo indefinido em troca de apenas alguns dias de pagamento. E como eles não têm a visibilidade e influência de uma Meryl Streep ou um Brad Pitt, um abuso desse tipo poderia passar despercebido tranquilamente.

Poniewozik adverte:

Talvez você nunca repare nos figurantes se estiverem trabalhando bem. No entanto, eles são a diferença entre uma cena estéril ou viva. Criam a impressão de que, além do foco nos belos protagonistas, existe um universo completo, seja a galáxia de “Star wars”, seja a realidade mundana em que você e eu vivemos.

Mas o fato é que a computação gráfica não está muito longe de impedir que a maioria de nós diferencie os figurantes vivos de suas cópias digitais. A questão é a necessidade de resistir o quanto pudermos contra a força do capital, que nos transforma cada vez mais nos “homens ocos” de que fala o poema de T. S. Eliot:

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!

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