Klingon: Star Trek. Dothraki: Game of Thrones. Nadsat: Laranja mecânica. Kryptoniano: Super-Homem. Na'vi: Avatar... Esta lista refere-se às línguas criadas para séries, filmes e livros de fantasia e ficção científica. Com menção especial para os idiomas Quenya, Sindarin e Élfico, inventados por J.R.R. Tolkien para a saga “Senhor dos Anéis”.
Fenômenos de massa, alguns desses idiomas artificiais estão disponíveis até em aplicativos de aprendizado de línguas estrangeiras. Ou seria melhor dizer alienígenas?
Mas o caso de Tolkien é específico. Ele criou os idiomas antes de inventar os povos que os utilizam. Faz todo sentido. Afinal, as formas simbólicas de comunicação de um povo dizem quase tudo sobre o que ele é, sua história, crenças, cultura, moral, religião. É por isso que entre as formas de dominação e extermínio cultural mais eficazes de um povo está a supressão de seu idioma. Um exemplo claro disso é a situação dos indígenas.
Calcula-se que quando os europeus invadiram as terras que atualmente chamamos Brasil, havia mais de 5 milhões de indígenas, falando cerca de 1.200 línguas. Hoje, esses idiomas foram reduzidos a um número entre 160 e 180. Uma das consequências disso é o baixo índice de pessoas que se identificam como indígenas na população brasileira. Ao massacre físico desses povos juntou-se seu extermínio simbólico. Um etnocídio.
Na esfera do entretenimento comercial, o capitalismo se apropria dos mundos criados pela fantasia humana para gerar cada vez mais lucros, beneficiando cada vez menos gente. Ao mesmo tempo, utiliza o extermínio cultural para eliminar mundos incompatíveis com sua lógica destruidora da vida e produtora de injustiça social.
Leia também: No pós-apocalipse, sob orientação indígena
Blog de Sérgio Domingues, com comentários curtos sobre assuntos diversos, procurando sempre ajudar no combate à exploração e opressão.
29 de fevereiro de 2024
Os idiomas artificiais e o extermínio das línguas indígenas
28 de fevereiro de 2024
Os professores Nádia e Lênin
Quando Nádia Krupskaya conheceu Lênin, seu futuro companheiro, não gostou muito do comportamento implacável que ele adotava nas polêmicas partidárias. Por outro lado, a capacidade pedagógica de Lênin a impressionou muito positivamente. Nos grupos de estudos com trabalhadores, por exemplo, a primeira metade da aula era dedicada a uma apresentação de algum aspecto do “Capital”, de Marx. Na outra metade, Lênin estimulava os alunos a falarem sobre detalhes de suas vidas profissionais, relacionando os relatos ao que já haviam discutido.
Lênin também esteve na vanguarda daqueles que defendiam um método de agitação centrado nas necessidades cotidianas dos trabalhadores, apoiando ativamente suas lutas por melhorias no local de trabalho e combinando as lutas econômicas e políticas. Em suma, escreveria Nádia sobre Lênin mais tarde, ele fornecia “um exemplo brilhante de como abordar o trabalhador médio da época”.
Mas a própria Nádia era uma professora popular e respeitada entre os trabalhadores. Também era considerada uma organizadora extraordinariamente esforçada e eficaz, seja na sala de aula ou na clandestinidade. Por toda a sua vida, continuaria demonstrando talento em atrair mulheres trabalhadoras e jovens para a luta. Profundamente consciente das injustiças que permeavam a sociedade, ela comentava várias vezes, quase compulsivamente: “o trabalhador russo vive mal”, “nossos camponeses não têm direitos” e “a autocracia é inimiga do povo”, sempre procurando fazer avançar a si mesma e aos outros na luta por uma vida mais justa.
As informações acima estão no livro “Lenin: Responding to Catastrophe, Forging Revolution“, do marxista estadunidense Paul Le Blanc. Voltaremos a comentar essa obra durante este ano, que marca o centenário da morte do líder bolchevique.
Leia também: O Pravda enganando a perseguição czarista
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27 de fevereiro de 2024
Fé e Fuzil: o crime como modo capitalista de funcionamento
Já comentamos o estatuto que rege o funcionamento do PCC, a partir de informações do livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Segundo este autor, trata-se da “governança do PCC”, com a qual “procurava-se garantir a justiça e a concorrência entre os irmãos, cabendo à mão invisível do mercado ilegal empurrar seus membros para uma ação mais racional e lucrativa”.
O bandido impulsivo, com sangue nos olhos, disposto a matar ou morrer, diz Manso, tinha dado lugar a uma gama de profissionais, como doleiros e advogados capazes de comprar fazendas, postos de gasolina, bares e emissoras de rádio que podiam esquentar o capital fazendo apostas em sites esportivos, criando contas-laranja, investindo em criptomoeda, paraísos fiscais, empresas e imóveis.
Afinal, informa o autor, já que crimes e dinheiro ilegal são inevitáveis, o jeito era enquadrar os criminosos dentro de certos limites para diminuir os danos. Se o dinheiro viesse do crime, mas o ladrão seguisse uma ética mínima, evitando a violência quando possível, emprestando dinheiro e empreendendo em negócios legais, as portas do sistema se abririam para ele. Foi o que aconteceu.
Foram encontrados fortes indícios de participação do PCC em empresas de transporte alternativo em São Paulo. O mesmo acontecendo no Rio, mas, neste caso, sob controle das milícias. O objetivo principal? Criar firmas legais para lavar dinheiro e desviar recursos públicos.
Tudo isso sem preferências partidárias. A criminalidade empreendedora interage com representantes da esquerda e da direita. Afinal, ambas precisam de dinheiro para vencer eleições, conclui Manso.
Tá errado? Sim, muito. Mas o crime sempre fez parte do modo capitalista de funcionamento.
Leia também: Fé e Fuzil: PCC, religião e racionalidade
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26 de fevereiro de 2024
Fé e Fuzil: a revolta aliada da barbárie
Abaixo, outro relato do livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso.
Ney Santos nasceu em um bairro pobre de Embu das Artes, na Grande São Paulo. Não veio de movimentos sociais ou das comunidades católicas. Em 1999, foi condenado por receptação. Quatro anos depois, foi preso em flagrante, dentro de um automóvel utilizado em um assalto, passando dois anos na cadeia. De volta à liberdade, montou uma ONG que distribuía brinquedos no Dia das Crianças e passou a produzir shows na cidade.
Em 2010, se candidatou a deputado estadual. Durante a campanha, foi acusado de lavar dinheiro para o PCC em seus quinze postos de gasolina. Não foi eleito. Em 2012, elegeu-se vereador, mas foi condenado por compra de votos. Conseguiu manter o mandato graças a uma decisão judicial.
Teve a candidatura à prefeitura de Embu barrada pela Lei da Ficha Limpa, em 2016. Com uma liminar, venceu a disputa e assumiu o cargo. Criou uma guarda municipal ao estilo da Rota. Simpático e comunicativo, administrava em contato direto com a população nas redes sociais. Promoveu shows populares com celebridades do sertanejo e atuou com agilidade durante a Pandemia. Enfrentou novos processos, mas foi reeleito em 2020.
Durante a campanha, pesquisas mostraram que seu suposto envolvimento com o PCC era considerado positivo pela maioria. Facilitaria o controle dos roubos na cidade.
Apoiou Bolsonaro em 2018 e 2022.
Esse caso é apenas mais um exemplo dos caminhos que tomou a frustração popular frente à “democracia racionada” da qual também nos tornamos reféns. No lugar da revolução, a revolta que se alia à barbárie.
Leia também: Fé e Fuzil: PCC, religião e racionalidade
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23 de fevereiro de 2024
Fé e Fuzil: PCC, religião e racionalidade
O primeiro estatuto do PCC tinha como uma de suas referências os Dez Mandamentos. “Não usarás o nome do Senhor em vão”, por exemplo, inspirava um item que proibia o uso do PCC para objetivos pessoais. Quem flertava com as mulheres de outros presos infringia proibição semelhante ao mandamento “Não cobiçarás a mulher do próximo”. E havia o batismo, em que o novo integrante assumia a defesa da organização e das leis do crime.
O PCC também criou um sistema de comunicação eficiente para disseminar suas leis. Os “torres” usavam telefones para ditar as regras aos “sintonias”. Estes, espalhados pelos presídios e quebradas, rapidamente repassavam as mensagens.
Os “disciplinas” faziam funcionar um sistema informal de justiça com espaço para acusação, defesa, análise das provas e prolação de sentenças.
Os sintonias e os disciplinas formavam as células do PCC espalhadas pelas novas unidades penitenciárias construídas depois de 1995, durante a gestão do governador Mário Covas. Entre 1990 e 2020, mais de 1 milhão de pessoas passaram por uma de suas unidades.
Quanto maior a quantidade de presos, mais crescia o tamanho do contingente à disposição da facção e o volume de conexões entre as prisões e as ruas. Era uma estrutura inteligente e durável que não estava ligada a nomes ou pessoas, mas a funções. O isolamento ou morte de um “sintonia” ou “disciplina” não afetava o funcionamento do sistema.
As informações acima estão no livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso. Mostram como doutrina religiosa e racionalidade capitalista se combinaram para criar uma nova forma de organização do crime.
Leia também: Fé e Fuzil: a gênese da teologia do domínio
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