Doses maiores

30 de junho de 2023

O labirinto da internete e seus minotauros

“O Infinito num Junco” é um ótimo livro de Irene Vallejo. Conta a história dos livros e os primeiros deles de que se tem registro eram feitos de papiro, um junco vegetal que nascia nas margens do Nilo, no Egito Antigo.

Em certo momento, Irene cita um conto de Jorge Luis Borges chamado “A Biblioteca de Babel”. Nele, diz a autora, existe uma biblioteca que conta com um catálogo verdadeiro, mas muitos milhares de catálogos falsos. Seus frequentadores dominam apenas um par de línguas e seu tempo de vida é breve. Portanto, as probabilidades de que alguém localize na imensidão do acervo o livro que procura, ou simplesmente um livro compreensível para si, são muito pequenas.

Desse modo, afirma ela, ninguém consegue ler realmente. Entre a esgotante abundância de páginas ao acaso, extingue-se o prazer da leitura. Todas as energias se consomem na procura e na decifração.

Aos leitores de hoje, afirma nossa autora, a biblioteca de Babel fascina como uma alegoria profética do mundo virtual, do excesso da internete. Dessa gigante rede de informações e textos, filtrada pelos algoritmos dos motores de pesquisa, onde nos perdemos como fantasmas num labirinto.

Timothy John Berners-Lee, cientista que idealizou a Web, inspirou-se no espaço ordenado e ágil das bibliotecas públicas, lembra Irene. Cada documento virtual tem um endereço único que pode ser alcançado de outro computador. A internete é uma emanação das bibliotecas, diz ela.

Berners-Lee viria a lamentar que sua inovação tivesse se transformado nesse emaranhado de caminhos sem saída. Mas é pior que isso. Tais labirintos passaram a abrigar criaturas mais terríveis que o mitológico Minotauro.

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28 de junho de 2023

Lula: três canoas e um iceberg

O saudoso Vito Giannotti costumava dizer, em suas aulas, que Getúlio Vargas caiu porque tinha uma pé em cada canoa. De um lado, a canoa da classe operária. Do outro, a dos patrões e latifundiários. Quando as duas tomaram rumos diferentes, “tchibum pra Getúlio”.

A política de Lula sempre sofreu de mal parecido. Mas, ultimamente, apareceu uma terceira embarcação. Além dos barcos dos trabalhadores e do grande capital, se destaca o do ambientalismo.

O problema é que essa terceira canoa também está sob comando do grande capital, o que acaba inviabilizando sua navegação. Afinal, é impossível preservar o equilíbrio ambiental sem superar a submissão total à busca de lucros que é a razão de ser do capitalismo.

A principal função do ambientalismo capitalista tem sido a de servir de pretexto para as políticas comerciais que protegem os interesses das economias centrais. Depois de impor seu modelo colonial destrutivo em todo o planeta, elas cobram responsabilidade ecológica fora de suas fronteiras. É mais ou menos disso que falava Lula em frente à torre Eiffel, dias atrás.

Mas retórica bonita nada pode contra uma poderosa broca perfurando todas as embarcações ao mesmo tempo. No comando da furadeira o grande capital nacional e transnacional. Sua ala agro-destruidora odeia Lula. Apesar dos enormes lucros obtidos nos mandatos petistas, causa-lhe pânico a possibilidade de perder uma pequena lasca de seus latifúndios para trabalhadores rurais, indígenas e quilombolas. Já as alas industrial-financeiras-parasitárias, observam satisfeitas o governo aceitar a carta de navegação imposto pelo Banco Central.

Lula segue em seu exercício de equilibrista. Mas há um iceberg de tragédias sociais no horizonte.

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27 de junho de 2023

Torcidas revoltadas, muitos séculos atrás

Havia quatro torcidas na cidade. De repente, explodiu uma divergência quanto ao vencedor da principal competição. Convocado para arbitrar, o governante decidiu apoiar o seu competidor. O resultado foi uma explosão social em que as forças de segurança foram massacradas, a cidade foi quase toda dominada e as massas queriam a cabeça das autoridades.  

Estamos falando da Revolta de Nice, ocorrida no ano de 532, em Constantinopla. O governante era o imperador Justiniano. A polêmica era sobre qual cavalo vencera uma corrida. Nice, o animal pelo qual a população torcia, chegara empatado com a montaria que pertencia ao imperador.

Claro que a revolta não aconteceu somente por causa do resultado da competição. Muitos problemas vinham se acumulando ao longo dos anos: fome, falta de moradia e impostos elevados estavam entre eles.

Além disso, as “torcidas” haviam-se transformado em "partidos políticos". Mas, até então, os imperadores vinham jogando uns contra os outros. Quando Justiniano decidiu em benefício próprio provocou a união de forças que levou à rebelião.

Justiniano ameaçou abandonar o trono, mas, convencido por Teodora, sua mulher, decidiu reagir. Encarregou o general Belisário de atacar o hipódromo, que servia de quartel-general para os revoltosos. Cerca de trinta mil foram degolados.

O episódio lembra as constantes revoltas de torcidas de futebol no Brasil. Tal como em Constantinopla, os motivos ultrapassam o âmbito esportivo. São resultado de contradições e problemas acumulados durante muito tempo.

A diferença é que, atualmente, acreditamos estar em um patamar civilizatório superior. Olhamos para o passado como se estivéssemos deixando as trevas para trás sem perceber que elas estão bem diante de nós.

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26 de junho de 2023

Wagner, Hitler, Prigojin, Putin, Otan: uma ópera infernal!

Richard Wagner não foi nazista porque não deu tempo. Mas o nazismo certamente contaria com o apoio do grande compositor alemão, se ambos fossem contemporâneos.

Poucos meses antes de morrer, Wagner fez o seguinte comentário ao célebre livro de Arthur de Gobineau “Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas”, de 1853:

A mais nobre das raças brancas, a raça ariana, degenera unicamente, mas infalivelmente, porque, sendo menos numerosa do que os representantes das raças inferiores, está obrigada a cruzar-se com eles. Ora, o que ela perde ao adulterar-se não é compensado pelo que estes ganham ao enobrecer-se.

Hitler se inspirou na estética wagneriana para construir sua imagem política. O criador de “Tannhäuser” considerava a ópera a obra de arte total, juntando música, teatro, artes visuais, arquitetura, dança.
Já Hitler, como observa João Bernardo em seu livro “Labirintos do Fascismo”, fazia:

...da assembleia política uma representação, da propaganda um teatro filmado, da arquitetura um cenário, finalmente da guerra uma coreografia. Arte do totalitarismo, a encenação converteu-se na arte absoluta e nela se operou a síntese de todas as outras.

Foi em homenagem a esse gênio musical e patife racista que o neonazista russo Yevgeny Prigojin batizou o bando de soldados mercenários que criou. Em 2022, o grupo Wagner vendeu seus serviços para Putin na guerra da Ucrânia. Mais recentemente, foi parar nas manchetes porque ameaçou se voltar contra o Kremlin.

Wagner escapou por pouco de ser nazista. Mas ele e Hitler se mereciam, assim como se merecem Prigojin, Putin e a Otan. A grande maioria da humanidade é que não merece essa ópera dos infernos.

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24 de junho de 2023

Quando o boss de Hugo era Hitler

Mais contribuição para a série “adivinha quem era nazista e você não sabia?”

Hoje, a Hugo Boss fabrica desde canetas a perfumes, passando por roupas e calçados. Os preços ficam longe do acesso da grande maioria. Mas não era assim quando a empresa foi fundada e batizada com o nome de seu criador.

Quando abriu as portas em 1924, na cidade alemã de Metzingen, era uma confecção que empregava entre 20 e 30 costureiras. Permaneceu modesta até 1931. Neste ano, Boss estava à beira da falência e filiou-se ao partido nazista. Não à toa, as coisas melhoraram. O partido passou a encomendar-lhe uniformes. Logo depois, vieram pedidos para as tropas SA e SS, além da Juventude Hitlerista.

Mas o pior veio durante a Segunda Guerra. Sob a alegação de escassez de mão de obra, a empresa explorou o trabalho de 140 trabalhadores em condições de escravidão. A maioria, mulheres.

Apesar disso tudo, durante os julgamentos de desnazificação na Alemanha, Boss foi considerado apenas um seguidor. Alguém que obedecia ao regime sem estar ativamente engajado em sua política. Ficou barato pra ele.

Após a guerra, a empresa começou a fabricar uniformes para as forças de ocupação francesas e a Cruz Vermelha. Na década de 1950, passou a vender ternos. Em 1969, os irmãos Jochen e Uwe Holy assumiram a empresa  e a transformaram no grupo de moda internacional que é hoje.

As informações acima são do livro "Hugo Boss, 1924-1945. A história de uma fábrica de roupas durante o República de Weimar e o Terceiro Reich", sem tradução para o português.

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