O hip-hop nasceu da resistência à discriminação social, racismo, violência policial, falta de direitos básicos. Seus criadores eram negros, porto-riquenhos, jamaicanos e outros setores marginalizados da população estadunidense.
Esse caráter combativo está explícito na letra dos melhores raps, mas não apenas neles.
Jovens pobres criaram o grafite para mostrar que tinham ocupado com sua arte os territórios em que foram abandonados para morrer.
Os movimentos quebrados do break recusam o corpo domesticado que a disciplina autoritária da fábrica, do quartel e das escolas tenta impor.
O DJ dá vida nova a sons que permaneceriam sepultados no vinil se dependesse da reprodução gangrenada da indústria fonográfica.
O hip-hop nasceu para alegrar, mas pegou raiva quando seus adeptos passaram a ter seus bailes interrompidos pela polícia e proibidos pelas autoridades.
Teve seu ódio despertado pela violência com que suas cores, gestos, roupas, jeitos de cantar e dançar foram tratados.
Mas o hip-hop olha para a luz cada vez que tira crianças e jovens da ignorância e da ira sem direção. Quando mostra quais são seus verdadeiros inimigos e os acolhe num abraço firme de combatente.
Tudo isso fez do hip-hop uma cultura de resistência e luta, que tem no Estado um de seus maiores inimigos e no mercado uma força que procura amansá-lo.
Por isso, o hip-hop não precisa que o Estado o reconheça como movimento cultural, como quer um projeto de lei. Também não pode ser reduzido a uma ocupação profissional, como pretende outra proposta legislativa. Ambas no Congresso Nacional. As duas exigem uma resposta firme do hip-hop coerente com suas origens.
Não à pacificação do hip-hop!
Leia também: Hip Hop contra ficha limpa pra torturadores
Blog de Sérgio Domingues, com comentários curtos sobre assuntos diversos, procurando sempre ajudar no combate à exploração e opressão.
30 de janeiro de 2014
Não à pacificação do hip-hop!
Ingredientes para um enorme molotov social
Mauro Zanatta publicou a reportagem
“Presidente teme efeito ‘devastador’ à imagem do País”, no Estadão de 27/01. Um
trecho diz:
Uma "aliança", ainda
que não combinada, entre índios, trabalhadores sem terra, movimentos de sem
teto e facções no controle de presídios às vésperas da Copa da Fifa de Futebol
tem mantido o governo sob permanente tensão e obrigado ministros a uma intensa
troca de informações de bastidores sobre esses "termômetros" sociais.
O texto também cita os
rolezinhos e a volta dos black-blocs. O jornalista tem razão. Não há nenhuma
conspiração golpista nisso tudo. Se alguém criou essa mistura explosiva foi o
próprio governo.
Os direitos dos indígenas
estão sendo atropelados por empreiteiros, mineradoras e agronegócio. Setores com
que o governo construiu sua base de apoio no Congresso e fora dele.
As obras para a Copa não
acarretaram apenas uma montanha de dinheiro desperdiçado e roubado. Também
produziram milhares de sem-tetos.
Por dez anos, o governo
federal assistiu imóvel ao encarceramento em massa que transformou os presídios
superlotados em matadouros explosivos.
O lulismo apostou no consumo
como ascensão social e ajudou a tornar os shoppings fortalezas a serem
conquistadas pela juventude pobre.
A estupidez violenta das PMs estaduais
não é apenas tolerada. O governo federal resolveu legalizá-la e reforçá-la com
suas próprias tropas.
O caos urbano é produto
direto da aposta no financiamento público da indústria automobilística e do
correspondente abandono dos transportes públicos.
A polícia procura molotovs nas
mochilas e bolsas dos manifestantes. Mas as verdadeiras bombas estão sendo
fabricadas nos palácios do poder. Os fósforos estão nas mãos dos governantes. Acesos.
Leia também: Veteranos
das “Diretas Já” que nos envergonham
29 de janeiro de 2014
Dilma foi a Davos entregar sua carta aos exploradores
“Grandes empresários preferem
Aécio, mas acham que Dilma leva”. Este era o título de reportagem publicada
pelo Valor, em 17/05/2013. Citava pesquisas feitas com presidentes de 97 das
200 maiores empresas privadas do país.
Segundo o levantamento, 66% dos
entrevistados preferiam o tucano. É verdade que Dilma tinha 65% na população em
geral, mas isso não basta para o projeto petista para o País. E Davos acaba de
mostrar isso.
O discurso de Dilma na Suíça pode
ser considerado uma nova "Carta aos Brasileiros". Em busca da reeleição,
ela reedita o documento divulgado por Lula nas eleições de 2002 para
acalmar o “mercado”. É uma nova “Carta aos Banqueiros”.
Alguns trechos do que Dilma disse:
"Buscamos com determinação a
convergência para o centro da meta inflacionária". "A
responsabilidade fiscal é um princípio basilar da nossa visão do
desenvolvimento econômico e social". "Em breve, meu governo definirá
a meta de superávit primário para o ano consistente com a redução do
endividamento público."
Davos reúne os representantes
dos maiores exploradores do mundo. São banqueiros e empresários a quem o
governo petista quer agradar a qualquer custo. Não somos nós que dizemos. As
palavras são do petista André Singer, ex-porta-voz do governo Lula:
A ida de Dilma Rousseff ao
Fórum Econômico Mundial faz parte de um árduo roteiro, uma espécie de caminho
de Compostela, que a mandatária se vê condenada a cumprir para obter a
absolvição dos endinheirados. Há um ano o governo busca, sem sucesso, mostrar
ao mercado financeiro que desistiu da "aventura" desenvolvimentista e
deseja restabelecer o "status quo ante" (Folha de S. Paulo,
25/01/2014).
Leia também: Dilma reafirma pacto
conservador
27 de janeiro de 2014
As origens igualitárias da fé muçulmana
Quando Maomé começou a
defender uma nova fé incomodou os poderosos da época. Não porque ele afirmasse que
há somente um deus. Judeus e cristãos já defendiam o monoteísmo muito tempo antes.
Segundo o livro “No god but God”, de Reza Aslan, a hostilidade a Maomé surgiu de sua defesa da antiga
ética tribal, que era igualitarista e recomendava cuidados especiais em relação
aos mais fracos e incapazes.
Estes princípios teriam sido
abandonados durante o domínio dos coraixitas. Esta tribo dominava Meca, que já era
um centro religioso do mundo árabe muito antes do islamismo. Seus membros se
enriqueceram e acumularam poder explorando a fé popular.
Perseguidos pelos coraixitas,
Maomé e seus seguidores abandonaram Meca. Criaram a cidade de Medina, onde
organizaram uma federação de aldeias. O evento foi tão marcante que é
considerado o Ano 1 do calendário islâmico.
Um dos princípios da nova
comunidade era a igualdade de todos, independentemente de suas posses
materiais. Um imposto foi criado e sua arrecadação destinada aos mais pobres.
O
Corão justifica esse tributo dizendo que verdadeiramente virtuoso é aquele que “distribuiu
seus bens em caridade por amor a Deus, entre parentes, órfãos, necessitados,
viajantes, mendigos e para a libertação dos escravos”.
Com a crescente
institucionalização da fé muçulmana tais princípios foram abandonados. Surgiram
interpretações autoritárias do Corão para justificar a existência e aceitação
de uma elite sacerdotal.
Mas as origens igualitárias
do islamismo continuam presentes na militância de seus adeptos de esquerda no
mundo todo. Desmentem os que tentam mostrar a fé de 1,5 bilhão de pessoas como um
único credo fanático, intolerante, autoritário e injusto.
Leia também: Um
livro muçulmano contra a intolerância
26 de janeiro de 2014
Veteranos das “Diretas Já” que nos envergonham
Os órgãos da imprensa
comemoram os 30 anos do primeiro grande comício das Diretas Já. Muitos deles
fingem celebrar algo que temiam na época e continuam a temer hoje: as
manifestações populares. Mas ganharam a vergonhosa companhia de muitos dos que
foram às ruas em 1984.
O movimento pelas eleições
diretas para presidente iniciou o que o historiador Lincoln Secco chamou de
“Revolução Democrática”. Um período que foi até 1989, marcado por milhares de
lutas e duas grandes greves gerais. Pelo surgimento e fortalecimento de um polo
de oposição socialista formado por CUT, MST e PT. A classe dominante colocada
na defensiva.
Tudo isso foi canalizado para
a uma Constituinte controlada pelo poder econômico e para eleições fortemente
influenciadas pela Rede Globo. A partir daí, o processo eleitoral passou cada
vez mais a transformar rebeldes em despachantes do Poder. Os sindicatos se
especializaram em fazer de piqueteiros burocratas do Capital.
Trinta anos depois, temos
governos cheios de veteranos das Diretas que se aposentaram das lutas para
trabalhar para os poderosos. Sua última proeza foi aprovar uma lei contra manifestações
e greves no período da Copa do Mundo. Ou seja, trocaram suas bandeiras de luta
por canetas que autorizam a repressão às manifestações populares.
O povo nas ruas pode
representar um novo esgotamento popular diante dos acertos feitos pelo alto
para manter uma ordem injusta. As Diretas foram uma luta por representação
democrática. As atuais manifestações mostram que essa representação jamais se
concretizou. Não sabemos se estamos à beira de outra revolução democrática. Mas
já sabemos com quem não podemos contar se ela vier.
Leia o texto de Lincoln Secco
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